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A parábola tripla de Lucas 15 Fevereiro 23, 2011

Posted by David Costa in Estudos.
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“Interpreta primeiro; depois aplica.” Esta é uma regra básica do estudo da Bíblia. A falha no cumprimento desta regra conduzirá inevitavelmente à confusão e ao erro.

Esta parábola tripla[1] de Lucas 15 é um bom exemplo disso mesmo. Estas palavras, tal como todas as Escrituras, foram escritas “para nosso ensino” (Romanos 15:14) e “para aviso nosso” (I Coríntios 10:11), mas elas não foram originalmente dirigidas a nós. Elas foram dirigidas a uma audiência de judeus numa altura em que Israel ainda era a nação favorecida por Deus. Assim, se pretendemos ser “ensinados” e “avisados” por estas palavras, devemo-nos primeiramente colocar no lugar do destinatário original e determinar o que o nosso Senhor pretendia que eles entendessem das Suas palavras. Só depois poderemos ver de que forma essas lições se aplicam a nós.

Esta é a única forma para verdadeiramente compreender e tirar proveito de passagens não dirigidas a nós. Se em vez disso começarmos a aplicar estas parábolas directamente a nós, como se tivessem sido dirigidas a nós e se referissem a nós, certamente falharemos na sua compreensão, interpretação e aplicação.

Quantas vezes a história da ovelha perdida tem sido usada em mensagens evangelísticas como uma ilustração da salvação nos dias de hoje! Supostamente as noventa e nove ovelhas representam os salvos, “seguros no curral”, e a ovelha perdida os perdidos. Mas o que dizer sobre as palavras do Senhor, sobre o serem muitos os que entram pela “porta larga” e poucos os que entram pela “porta estreita” (Mateus 7:13-14)? E porque deixa o pastor as noventa e nove? E porque o Senhor compara estas ovelhas a “justos que não necessitam de arrependimento”?

O mesmo se passa com a história do filho pródigo. Supostamente esta parábola é uma ilustração da necessidade e do caminho da salvação nesta presente dispensação da Graça de Deus. Sendo assim, porque são ambos os homens referidos como sendo filhos e ambos feitos participantes das riquezas do pai ainda antes de um deles ser salvo? E porque diz o pai ao filho que se considerava justo: “Todas as minhas coisas são tuas”? Tudo isto é deixado por explicar.

E todas estas questões ficarão sem resposta se não nos ocuparmos primeiramente com a verdadeira interpretação das palavras do nosso Senhor, e só depois da aplicação, ou se não tivermos em conta que os destinatários destas palavras eram judeus, sob a Lei, que eles não tinham as epístolas Romanos, Gálatas ou Efésios, que Cristo ainda não tinha morrido e que muitos deles nem o reconheciam como Messias.

Quando o fizermos ficará claro, em primeiro lugar, que esta é uma parábola gradual relativa a Israel. Quase conseguimos imaginar vozes de protesto: “Será que nos vão tirar também esta passagem?!”, ao que respondemos “Não!” Esta passagem, tal como o resto das Escrituras, é para nós, mas tiraremos mais dela se reconhecermos primeiramente a quem estas palavras foram originalmente dirigidas. Fazendo isto, cremos que o leitor verá por si mesmo que não perdeu nada e ganhou muitíssimo.

A ocasião da parábola

“E chegavam-se a Ele todos os publicanos e pecadores para O ouvir. E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: ‘Este recebe pecadores e come com eles’.” (Lucas 15:1-2)

Foi a ideia de justiça própria dos fariseus e escribas que provocou esta parábola tripla. João Baptista tinha exortado estes líderes a produzir frutos dignos de arrependimento (Mateus 3:8), mas eles não viram necessidade de mudar os seus caminhos. Sobre eles lemos: “Mas os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido baptizados por ele (João Baptista)” (Lucas 7:30).

A sua presunção era quase inacreditável. Numa ocasião, o homem a quem o Senhor tinha curado da sua cegueira de nascença ousou dizer-lhes: “Se Este não fosse de Deus, nada poderia fazer”, ao que eles responderam muito irritados: “Tu és nascido todo em pecados e nos ensinas a nós?” (João 9:33-34). Como se eles não tivessem nascido em pecados!

E agora eles murmuram contra o Senhor por receber pecadores e comer com eles. Claro que eles não eram pecadores! E eles tinham um surpreendente número de seguidores em Israel: justos aos seus próprios olhos, satisfeitos consigo mesmos, não sentindo necessidade de arrependimento.

Foi esta a situação que originou a parábola tripla da ovelha perdida, da dracma perdida e do filho pródigo.

A ovelha perdida

O Senhor começa por responder aos seus críticos perguntando-lhes: “Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e não vai após a perdida até que venha a achá-la?” (Lucas 15.4).

Ele afirma que mesmo eles não seriam capazes de ignorar o balido de uma ovelha perdida. Eles não seriam capazes de deixar passar despercebida aquele apelo ou deixar a criatura indefesa a morrer sozinha.

E então ele continua a descrever a satisfação quando a ovelha perdida é encontrada. Colocando a criatura nos seus ombros, o pastor trá-la para casa e chama os seus amigos e vizinhos para se alegrarem com ele.

Quem é o pastor?

Na interpretação da parábola da ovelha perdida, devemos primeiro perguntar o que representa o pastor. Só pode haver uma resposta a esta questão. Representa o Próprio Senhor. Os Salmos e os profetas retratavam há muito o Messias vindouro como um Pastor, e mesmo na Terra Ele mesmo disse: “Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (João 10.11).

Quem são as ovelhas?

Devemos dizer que elas representam a humanidade? Certamente que não, porque em lado nenhum nas Escrituras vemos Cristo como Pastor da humanidade. Nem foram alguma vez os gentios classificados como ovelhas. Eles eram chamados cães e estranhos, mas nunca ovelhas.[2] É verdade que os membros do Corpo de Cristo são vistos como ovelhas por ilação[3], mas isso não se pode aplicar aqui, porque não há ovelhas perdidas entre os membros do Corpo de Cristo. Além disso, o que poderiam os Seus ouvintes saber sobre o Corpo de Cristo? Nesse tempo a formação deste conjunto de crentes ainda era um mistério “oculto em Deus” (Efésios 3:9).

As ovelhas nesta parábola representam o povo de Israel. Qualquer judeu instruído teria reconhecido isto imediatamente. Muitos dos Salmos apresentavam Israel como ovelhas do pasto de Deus (Salmos 78:52, 79:13, 95:7 e 100:3, entre outros) e os profetas há muito descreviam o Messias como o futuro Pastor de Israel (Isaías 40:11 e Jeremias 31:10, entre outras).
Isto explica a razão pela qual todas as cem ovelhas na parábola, independentemente do seu estado, são vistas como Suas ovelhas. Hoje, os perdidos não são de maneira alguma Suas ovelhas, mas o povo de Israel, quer salvos quer perdidos, tinham uma relação de concerto com Deus.

O facto de que as ovelhas perdidas são ovelhas perdidas de Israel, e não gentias, é provado pelas palavras do próprio Senhor. Quando Lhe foi pedido auxílio pela mulher siro-fenícia, Ele disse: “Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel… Não é bom pegar o pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos” (Mateus 15:24,26).

O nosso Senhor ordenou de forma clara aos seus discípulos: “Não ireis pelo caminho das gentes, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mateus 10:5-6)

Quantas ovelhas perdidas?

É um facto interessante que todo o povo de Israel era visto pelos profetas como ovelhas perdidas que precisavam de ser encontradas e resgatadas. Falando do povo de Israel, Isaías disse: “Todos nós andamos desgarrados como ovelhas; cada um se desvia pelo seu caminho…” (Isaías 53:6). E Jeremias: “Ovelhas perdidas foram o meu povo” (Jeremias 50:6).

Mas o problema era que muito poucos em Israel reconheceram a sua condição de perdidos. Havia apenas um em cem; os restantes sentiam-se bastante bem com eles mesmos.

Muita atenção! As noventa e nove ovelhas da parábola não estavam “seguras no curral”, como alguns dos nossos hinos poderão indicar. Elas estavam no deserto, se bem que todas juntas. Mas o Senhor diz que o pastor “deixa no deserto as noventa e nove, e vai após a perdida ate que venha a achá-la. A ideia aqui é a de que o Senhor veio não para “chamar os (que pensam ser) justos, mas sim os pecadores” (Marcos 2:17). Ele veio para “buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19:10; comparar com Lucas 15:7).

Contexto histórico

Antes de começar com a segunda fase da parábola tripla, devemos saber onde se encaixa cronologicamente a história da ovelha perdida. O nosso Senhor referia-se ao passado, presente ou futuro de Israel? Não é difícil determinar, pois houve um único período na História durante o qual o Próprio Pastor veio buscar os perdidos em Israel, o que aconteceu durante o Seu ministério terreno. Isto concorda com as Suas próprias afirmações de que Ele foi “enviado… às ovelhas perdidas da casa de Israel” e que “veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Mateus 15:24; Lucas 19:10).

A dracma perdida
Quem é a mulher?

Comecemos a interpretação da parábola da dracma perdida por perguntar primeiro quem é a mulher. Será que ela representa a Igreja de hoje, como tem sido dado a entender tantas vezes? Dificilmente, pois a Igreja de hoje era nesse tempo ainda um mistério escondido em Deus, pelo que o nosso Senhor não se poderia ter referido a ela, nem poderiam os Seus seguidores mais espirituais perceber qualquer alusão àquilo que nunca havia sequer sido mencionado.

Deve ser notado que, qualquer que seja a dispensação, o povo de Deus é sempre visto como a mulher, o vaso mais fraco, amado e cuidado por Ele e chamada para ser sujeita a Ele.

É o que acontece com a Igreja de hoje: “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da Igreja, sendo Ele próprio o Salvador do Corpo… vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e a Si mesmo se entregou por ela” (Efésios 5:23, 25).
Mas também acontece com Israel, porque Deus disse, sob a Lei: “… eles invalidaram o meu concerto, apesar de eu os haver desposado” (Jeremias 31:32).

A Israel foi dado um “libelo (carta) de divórcio” (Isaías 50:1), mas um dia ela será restaurada a Jeová, como está escrito: “… como o noivo se alegra com a noiva, assim se alegrará contigo o teu Deus” (Isaías 62:5) e “… ó filha da Sião… o Senhor, o Rei de Israel, está no meio de ti… poderoso para te salvar; Ele se deleitará em ti com alegria; calar-se-à por seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sofonias 3:14-17).

Em João 3:29, Cristo é apresentado como “Aquele que tem a esposa”, enquanto que em Apocalipse 21:2 vemos a Nova Jerusalém, de Deus descendo do Céu, “como uma esposa ataviada para o seu marido”.

Assim, o povo de Deus é visto de forma consistente como a mulher na sua relação com Ele. Então, a quem se refere a mulher na parábola do Senhor? Aos remidos em Israel, visto que os seus ouvintes eram israelitas. Dizemos aos remidos em Israel e não a todo o Israel, visto que aqui a mulher é apresentada a procurar o que se havia perdido.

A dracma

A dracma perdida, tal como a ovelha perdida, representa os perdidos em Israel, ou aqueles que se sentem perdidos, mas qual a razão da mudança no simbolismo? O dinheiro é, claro está, um meio de troca. Representa valor. Assim, as dez dracmas representam o valor de Israel para as nações.

Na parábola anterior foi a compaixão por uma ovelha perdida que impeliu o pastor a ir e encontrá-la. O seu primeiro pensamento não foi o de que ele havia investido dinheiro nela, mas que a criatura indefesa precisava de ser resgatada do perigo e da morte. Mas nesta parábola a motivação é apenas a preocupação pelo valor perdido.

Quando a mulher descobre que perdeu uma moeda, ela “acende uma candeia, e varre a casa, e busca diligentemente até a achar”. Então ela chama as suas amigas e vizinhas para se alegrarem com ela por ter encontrado o seu dinheiro. Isto leva-nos ao valor de Israel para as nações, visto que a benção das nações aguarda pela salvação de Israel.

Deus havia prometido a Abraão, em relação à sua semente multiplicada: “E em tua semente serão benditas todas as nações da terra…” (Génesis 22:18)
Mas Israel no seu estado não regenerado não poderia ser uma benção para o mundo. Por isso o profeta Zacarias disse: “E há de acontecer, ó casa de Judá e ó casa de Israel, que, assim como fostes uma maldição entre as nações, assim vos salvarei, e sereis uma benção…” (Zacarias 8:13).

Portanto, o povo de Israel era de grande valor potencial para o mundo. Notemos, no entanto, que toda a atenção é focada na dracma perdida e todo o regozijo acontece quando é encontrada. As outras nove dracmas, tal como na parábola anterior, representam aqueles que não se consideravam perdidos e não sentiam qualquer necessidade de arrependimento.

Contexto histórico

Mas também aqui devemos perguntar onde se encaixa cronologicamente a história. Alguns detalhes na parábola ajudarão a responder a esta questão.
Em primeiro lugar, o facto de que a mulher, e não o Próprio Senhor, é enviada a procurar a dracma, indica que esta parábola fala de um tempo em que o Seu povo, e não Ele, procurava os perdidos em Israel. Isto aconteceu em Pentecostes e depois, quando os doze apóstolos e o “pequeno rebanho” dos seguidores de Cristo chamaram o povo de Israel a arrepender-se e salvar-se daquela “geração perversa” (Actos 2:40).

É de notar que nesse tempo o valor de Israel para o resto do mundo era fortemente enfatizado como, por exemplo, no apelo de Pedro no alpendre de Salomão: “Vós sois os filhos dos profetas e do concerto que Deus fez com nossos pais, dizendo a Abraão: na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra. Ressuscitando Deus a Seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse, e vos desviasse, a cada um, das vossas maldades” (Actos 3:25-26).

Esta visão do contexto histórico da parábola da dracma perdida é ainda mais confirmada pela sua posição entre a parábola da ovelha perdida e a do filho pródigo, que inquestionavelmente aponta para o futuro.

O filho pródigo
Israel, filho de Deus

Certamente ninguém duvidará que o pai nesta Terceira parábola representa Deus, mas quem são os filhos? Novamente eles representam dois tipos de pessoas em Israel: os que se consideram a si mesmos justos e aqueles que reconhecem a sua condição de perdidos.

Claro que nem os pecadores que se consideram justos, nem os pecadores pródigos são chamados filhos de Deus, mas é aqui que entra novamente a relação de concerto com Deus. Aquilo que um pai é para um filho, Deus era para a Israel por causa dos concertos que Ele tinha feito com eles. Com o assunto da salvação completamente à parte, as pessoas do povo de Israel eram os Seus filhos do concerto[4] (Ver Mateus 15:26 e Actos 3:25). Assim, Moisés foi instruído para dizer a Faraó: “Assim diz o Senhor: ‘Israel é meu filho, meu primogénito’ “ (Êxodo 4:22).

Assim nesta parábola o simbolismo mostra-se superior ao da ovelha e da dracma. É mais do que compaixão por uma criatura perdida ou preocupação por causa do valor perdido que é contemplado aqui. É a filiação de Israel que está em consideração, bem como toda a comunhão, privilégio e glória que acompanham essa posição.

O filho mais novo

Nesta parábola é o filho mais novo que é “perdido” e depois “achado”. É para ele que o banquete é feito, o banquete no qual o irmão mais velho recusa participar. E isto é importante. Foi principalmente a geração mais nova que seguiu o nosso Senhor. Em geral, a geração mais velha não sentiu necessidade de arrependimento. Os fariseus e os saduceus, os escribas e os doutores da Lei, os principais dos sacerdotes e os principais do povo, todos eles se sentiam “suficientemente bons”. Numa ocasião eles exclamaram a alguns que ficaram impressionados com as palavras de Cristo: “Creu nEle porventura algum dos principais ou dos fariseus?” (João 7:48). E quando alguns dos líderes “cria” nEle, era apenas com o intelecto, e não com o coração, pelo que Jesus não confiava neles (João 2:23-3:3, 12:42-48).

Contexto histórico

É significativo que nesta última parte da parábola tripla não temos nada sobre procurar o perdido. Em vez disso temos o pai esperando em casa até que o filho errante torna em si e volta para casa. Assim, esta parábola olha para o futuro, quando Jeová dará as boas vindas a casa ao Seu filho Israel.
Claro que a presente dispensação da graça não é contemplada nesta parábola. Vemos o filho mais novo, quando torna em si, no mesmo ponto onde uma futura geração de Israel se encontrará nos últimos dias: numa “terra longínqua”, “padecendo necessidades” e chegando-se a “um dos cidadãos daquela terra”.

O regresso do filho pródigo

Finalmente o filho pródigo torna em si. Reflectindo no facto de que os servos do seu pai têm abundância de pão, enquanto ele, o filho, perece de fome, ele diz:

“Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: ‘Pai, pequei contra o céu e perante ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros” (Lucas 15:18-19).

Que mudança foi operada neste jovem! Antes ele dizia “dá-me” (Lucas 15:12); agora pede “faze-me” (Lucas 15:19). Antes ele exigia tudo a que tinha direito; agora reconhece que não merece nada. Esta é uma notável figura do arrependimento de Israel quando tornar em si, como é referido por Jeremias: “Naqueles dias e naquele tempo, diz o Senhor, os Filhos de Israel virão, eles e os Filhos de Judá juntamente; andando e chorando, virão e buscarão ao Senhor, seu Deus.” (Jeremias 50:4).

O resto da história é uma comovente descrição do amor do Pai pelo seu filho renegado.

O que o filho esperava, na melhor das hipóteses, era que o pai lhe abrisse a porta.

“… E, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão, e correndo, lançou-se-lhe ao pescoço, e o beijou” (Lucas 15:20).

Ah, o pai estava todo este tempo ansiosamente à espera que ele voltasse! E agora o errante, humildemente reconhecendo a sua indignidade de ser chamado filho do seu pai, estava prestes a pedir um lugar de servo.

“Mas o pai disse aos seus servos: trazei depressa a melhor roupa, e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão e sandálias nos pés, e trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos e alegremo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu; tinha-se perdido e foi achado…” (Lucas 15:22-24).

Da mesma forma Deus receberá um dia Israel com alegria e banquete, como está escrito:

“Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai benignamente a Jerusalém e bradai-lhe que já a sua servidão é acabada, que a sua iniquidade está expiada e que já recebeu em dobro da mão do Senhor, por todos os seus pecados” (Isaías 40:1-2).

“O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para te salvar; Ele se deleitará em ti com alegria; calar-se-á por seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sofonias 3:17).

“E folgarei em Jerusalém e exultarei no meu povo; e nunca mais se ouvirá nela voz de choro nem voz de clamor.” (Isaías 65:19).

“E alegrar-me-ei por causa deles, fazendo-lhes bem; e os plantarei nesta terra certamente, com todo o meu coração e com toda a minha alma” (Jeremias 32:41).

Mas a geração mais velha, que “não necessita de arrependimento” ficará, tal como o filho mais velho, de fora do banquete por sua própria escolha.

A parábola tripla e nós

Agora que procurámos interpretar correctamente as palavras do nosso Senhor, que lições podemos nós tirar delas e como pode esta parábola tripla aplicar-se a nós? A resposta é: deixando as coisas no lugar a que elas pertencem.

As parábolas do nosso Senhor descrevem as suas relações com Israel. As epístolas de Paulo descrevem o propósito de Deus relativamente ao Corpo de Cristo. Comparemos as duas e vejamos se perdemos ou ganhamos quando fazemos a distinção.

Tal como observámos, Deus nunca olhou para os gentios como ovelhas, nem está de forma alguma obrigado a vigiá-los como Pastor, porque “como eles se não importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso…” (Romanos 1:28). Os gentios são antes vistos como cachorrinhos (Mateus 15:26) e estranhos (Efésios 2:12). Na verdade, também o judeu está agora de parte (Romanos 11:15; Efésios 2:16-17).

Agora Deus tomou-nos, crentes judeus e gentios desta dispensação, e deu-nos um lugar muito mais elevado do que aquele que será ocupado por Israel no futuro. Israel é, afinal, o povo terreno de Deus. A sua vocação e a sua expectativa são terrenas. Quando convertidos eles habitarão na sua terra com Cristo como Rei em Jerusalém. Mas nós que temos confiado em Cristo nesta era da Sua rejeição somos feitos um com Ele através de um baptismo sobrenatural e é-nos dado um lugar à mão direita de Deus, abençoados com todas as bênçãos nos lugares celestiais em Cristo (Gálatas 3:26-27; Efésios 1:3). Que graça!

E de que valor eram os gentios no plano profético de Deus? Nenhum![5] Deus não traria bênção a este mundo através de qualquer gentio. A adopção, a glória, os concertos, a lei, a adoração no templo, as promessas, todas pertenciam a Israel (Romanos 9:4). Nós gentios estávamos “sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo” (Efésios 2:12). Mas mesmo Israel, na sua presente condição, não tem valor para o mundo. Ainda assim Deus tomou-nos, judeus e gentios, e fez-nos um com o Seu Filho, do qual depende a esperança deste mundo. Ele fez de nós as obras-primas da sua graça:

“Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da Sua graça, pela Sua benignidade para connosco em Cristo Jesus” (Efésios 2:7).

Novamente, os gentios não são chamados filhos de Deus nas Escrituras. Somos antes vistos como estranhos e inimigos (Colossenses 1:21). Na verdade, Israel é agora Lo-ami: “Não sois Meu povo” (Oséias 1:9). No entanto Deus deu aos crentes judeus e gentios o lugar de filhos muito mais elevado do que o da nação de Israel. Israel era filho de Deus por uma relação de concerto. Nós somos filhos de Deus em Cristo, o Seu Filho unigénito.

“E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais servo, mas filho; E se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo” (Gálatas 4:6-7).
E uma vez mais dizemos: que graça infinita, maravilhosa e sem par!
Que seja o leitor a decidir: Temos a perder no reconhecimento de que nesta parábola o nosso Senhor não se referia aos gentios ou à salvação nesta presente dispensação? Não temos a ganhar incomensuravelmente com a compreensão e satisfação da Palavra quando deixamos a parábola no sítio à qual ela pertence e depois a examinamos à luz da revelação dada a Paulo?

Cristo é a chave

Cristo é a chave desta parábola tripla, tal como é de todas as Escrituras. É Ele que cumpriu a redenção daqueles que confiaram nEle durante o Seu ministério terreno bem como dos que confiam nEle agora. Como ovelhas, o povo de Israel falhou e dispersou-se. Para salvar as “ovelhas perdidas da casa de Israel”, o próprio Cristo teve de tomar o seu lugar com eles e tornar-se uma ovelha (ou cordeiro).

“… Como um cordeiro, foi levado ao matadouro e, como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, Ele não abriu a boca” (Isaías 53:7).

E o Seu sacrifício também tira o nosso pecado.

“Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29)

É interessante que foi uma dracma de prata que a mulher perdeu. Isto era o preço de redenção em Israel e lembra-nos da lei do parente redentor (Levítico 25:47-49). Israel era o parente rico dos gentios através do qual os gentios deveriam ser redimidos. Mas Israel, longe de redimir os gentios, estava falido e precisava ele mesmo de redenção. Assim Cristo nasceu, a semente de Abraão, para que Ele pudesse tornar-se no parente redentor de Israel (e nosso).

“Porque assim diz o Senhor: Por nada fostes vendidos; também sem dinheiro sereis resgatados” (Isaías 52:3).

“… Eu sou o Senhor, o teu Salvador, e o teu Redentor, e o possante de Jacó” (Isaías 60:16).

“Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro… mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, em outro tempo, foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado, nestes últimos tempos, por amor de vós” (I Pedro 1:18-20).

“Em quem temos a redenção pelo Seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da Sua graça.” (Efésios 1:7)

Outra vez, Israel era o filho de Deus (Êxodo 4:22), mas nunca alcançou o lugar de adopção, ou de filiação (de filhos adultos). Era necessário mantê-lo, tal como a uma criança, sob a Lei. Então Cristo, o filho perfeito de Deus, veio e tomou o lugar de servo, sob a Lei, por amor deles (e nosso). Por duas vezes o Pai rompeu os céus para exclamar: “Este é o Meu Filho amado, em Quem Me comprazo”, mas ainda assim morreu como um transgressor, por Israel (e por nós). Mas Ele ressuscitou dos mortos no terceiro dia e “declarado Filho [adulto] de Deus em poder… pela ressurreição dos mortos” (Romanos 1:4) Agora todos os crentes são aceites como filhos adultos de Deus no Amado (Efésios 1:5-6). Assim sendo, “vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para remir os que estavam debaixo da Lei, a fim de recebermos (nós, quer judeus, quer gentios) a adopção de filhos [6]. Assim que já não és mais servo, mas filho; e se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo (Gálatas 4:4-5, 7).

(por Cornelius R. Stam) 

Notas:
[1] Na verdade, as três parábolas de Lucas 15 formam um todo gradual. O Senhor contou “esta parábola” (versículo 3); as três parábolas referem-se a coisas perdidas; nos versículos 8 e 11, em vez de começar com outra parábola, continua com a sua ilustração.
[2] No julgamento das nações o Senhor “apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas” (Mateus 25:32), mas isto será no futuro. Mesmo que nesta passagem alguns gentios sejam vistos como ovelhas, os gentios não eram vistos como ovelhas no tempos do Velho Testamento ou do nosso Senhor.
[3] Actos 20:28: “rebanho”; Efésios 4:11: “pastores”.
[4] Embora houvesse o facto de que os crentes podem desfrutar desta relação.
[5] Se bem que cada indivíduo é de grande valor para Deus.
[6] No grego, huiothesia, que significa ser colocado como filho adulto.

O Ensino da Cruz Fevereiro 23, 2011

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No artigo do boletim anterior (”Cristo e Este Crucificado”) iniciámos uma viagem tendo como primeira paragem a predição da Cruz. O rei David proporcionou-nos uma descrição clara acerca da crucificação de Cristo mil anos antes da sua ocorrência. O livro Salmo 22 é um testemunho notável da presciência de Deus.

Retomando esta nossa viagem, vamos passar agora a considerar o ensino da Cruz. À medida que a nossa viagem prossegue, e esta nos leva a ter uma visão da crucificação, queremos agora estudar os eventos que precederam e se seguiram a este grandioso acontecimento histórico. Agora o apóstolo Pedro é o nosso guia, enquanto o drama da redenção se desenrola. À medida que o nosso conhecimento da Palavra de Deus aumenta, podemos colocar a seguinte questão: Exactamente o quê Pedro e os outros apóstolos do reino compreendiam e ensinavam acerca Cruz?

Palavras mal acolhidas

“Desde então, começou Jesus a mostrar aos Seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muito dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia” (Mateus 16:21).

Aproximadamente um ano antes do ministério do nosso Senhor ter terminado, Ele começou a ensinar aos seus discípulos acerca da Sua morte iminente. Esta é mais uma notável referência sobre a divindade de Cristo. Nenhum de nós pode prever o lugar, tempo ou forma de como irá morrer, mas Cristo fê-lo! Mais uma vez, o Espírito de Deus demonstra-nos que tanto a soberania de Deus como a responsabilidade de homem são os principais elementos da crucificação. O termo “convinha” indica claramente que a morte de Cristo em Jerusalém estava de acordo com os planos e propósitos de Deus, os quais não podiam de forma alguma ser alterados. Isto está de acordo com a presciência de Deus, a qual permitiu que os líderes de Israel levassem a cabo o seu plano diabólico para executar o nosso Senhor.

Após o Senhor prever a Sua morte, as Suas palavras desagradaram profundamente a Pedro, o qual chamou o nosso Senhor à parte e começou a repreendê-lO: “Senhor, tem compaixão de Ti; de modo nenhum Te acontecerá isso” (Mateus 16:22). Se Pedro estivesse ainda entre nós, de certeza iria ser o último a ser escolhido para dirigir um elevado ministério a nível nacional. Aos olhos de muitos, ele era impetuoso, ignorante e inculto: um simples e pobre pescador. Mas o Senhor viu algo em Pedro e continua a agir da mesma forma para com todos os crêem. No caso do apóstolo Pedro, a sua maior qualidade era um coração disposto. O “barro” era bastante maleável! Assim o Oleiro pôde moldá-lo até se tornar um vaso de honra, apto para ser usado pelo Mestre. À medida que Pedro amadureceu na fé, em mais do que em uma ocasião deitou por terra os seus críticos deixando-os sem palavras (Actos 4:13).

À medida que voltamos aos anos iniciais da sua “formação”, Pedro não podia acreditar no que estava ouvindo a respeito do que iria em breve suceder em Jerusalém, o que originou esta resposta: “Senhor, tem compaixão de Ti; de modo nenhum Te acontecerá isso”.  No fundo, ele queria dizer: “Senhor, Tu és o Filho de Deus, o Messias de Israel. Nós iremos defender-Te até ao nosso último fôlego, se isso for necessário.” As acções de Pedro provaram a sinceridade do seu amor quando ele tirou a sua espada, na noite em que o Senhor foi traído, e tentou separar a cabeça do servo do Sumo Sacerdote dos seus ombros. Aparentemente, Malco utilizou aqui uma acção evasiva, ou então uma mão invisível o protegeu, pois apenas resultou numa orelha cortada. Não há registo de alguém morrer na presença do nosso Senhor (João 18:10-11).

Por alguma razão Pedro não compreendeu na totalidade que, de acordo com a profecia, os sofrimentos de Cristo deviam anteceder a glória do reino. Esta primeira parte foi parcialmente oculta, portanto ele apenas podia ver por enquanto o brilho da coroa à sua frente. De alguma forma podemos afirmar que o apóstolo Pedro possuía ainda uma visão em túnel! Ele estava ansioso pela vinda dos tempos dourados, de paz e justiça, quando os inimigos de Israel serão derrubados, e os fiéis reinarão com o Messias na terra.

“Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de Mim, Satanás, que Me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens” (Mateus 16:23).

Momentos antes, Pedro tinha sido o porta-voz do Pai, quando anunciou que o Mestre era o Messias, o Filho de Deus. Mas rapidamente as coisas se alteraram, porque agora ele tornou-se o porta-voz de Satanás ao declarar: “De modo nenhum Te acontecerá isso” o que demonstra o seu desconhecimento da vontade de Deus. Pelo simples facto de sermos crentes, não estamos livres de podermos ser instrumentos nas mãos de Satanás. Não existe coisa mais triste do que um filho de Deus preso nos laços do diabo. Infelizmente, aqueles que se deixam enredar na sua teia de mentiras são geralmente os últimos a ter consciência disso.

Pedro caiu na armadilha de Satanás tendo sido impedido de desfrutar das coisas de Deus. Neste contexto, as “coisas de Deus” falam da rejeição e dos sofrimentos do Seu amado Filho para efectuar o plano da redenção, apesar de nesta altura ainda não ser compreendido na sua totalidade. Em vez de aceitar a palavra de Deus pela fé, Pedro preferiu seguir os passos de Satanás, sentindo prazer nas “coisas do homem”, isto é, glória, honra e reconhecimento. O reino estava agora tão perto que não havia tempo para ter em mente o pensamento de que alguma coisa acontecesse ao Mestre. Seguindo esta linha de pensamento, podemos compreender melhor a próxima frase proferida pelo Senhor Jesus.

“Então, disse Jesus aos Seus discípulos: Se alguém quiser vir após Mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-Me” (Mateus 16:24).

Esta passagem bíblica tem sofrido bastante nas mãos daqueles que tentam aplicar a sua mensagem aos crentes dos nossos dias. Por exemplo, alguns dizem que “a sua cruz”  pode tomar a forma de problemas financeiros, doenças físicas, ou outros fardos que tenhamos de carregar. Mas, dispensacionalmente, o Senhor está a dizer que os santos do reino podem ser chamados a suportar determinadas aflições pela causa de Cristo. Aqueles que se negarem a si mesmos e seguirem a Jesus serão rejeitados pelo mundo e provavelmente pagarão o derradeiro sacrifício pela sua fé. De acordo com a história da Igreja, todos os apóstolos do reino padeceram ou morreram como mártires. No caso do apóstolo Pedro, a tradição conta que ele requereu que fosse crucificado de cabeça para baixo por respeito ao sacrifício que o Seu Mestre padeceu por amor de cada um de nós.

Um pedido ambicioso

“E, subindo Jesus a Jerusalém, chamou de parte os Seus doze discípulos, e no caminho disse-lhes: Eis que vamos para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, e condená-lO-ão à morte. E O entregarão aos gentios para que dEle escarneçam, e O açoitem e crucifiquem, e ao terceiro dia ressuscitará” (Mateus 20:17-19).

Agora, na sombra da Cruz, o Senhor dirige-Se juntamente com os Seus discípulos para um lugar à parte, para lhes contar com maior detalhe os eventos que iriam de seguida acontecer em Jerusalém. Ele confirma as palavras do profeta, segundo as quais Ele iria ser traído e entregue nas mãos dos homens ímpios, os quais O condenariam à morte. Notemos também que os Gentios iriam sofrer a responsabilidade de colocar em prática a vontade dos líderes de Israel, crucificando Cristo. Esta é a primeira vez que o Senhor afirma especificamente a forma da Sua morte. Ele iria sofrer morte por crucificação, tal como profetizado no Salmo 22!

Naquele tempo, exactamente o que é que os discípulos e os santos do reino compreendiam acerca da morte, sepultura e ressurreição de Cristo? Nada! Claramente os discípulos não compreendiam o significado destes acontecimentos, nem tão pouco colocaram a sua fé na vinda de Cristo para morrer no Calvário como forma de serem salvos, apesar de ser esse o meio pelo qual eles iriam ser redimidos. De acordo com relatos bíblicos, estas coisas lhes eram encobertas (Ver Lucas 18:31-34).

Ao lermos estes versículos, percebemos melhor a razão pela qual os discípulos pareciam tão alheios às palavras do nosso Senhor. Eles estavam mais interessados nas glórias do reino e as posições que eles teriam quando reinassem com Ele. Este pensamento pode ser comprovado nos versículos que se seguem: 

“Então se aproximou dEle a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, adorando-O, e fazendo-Lhe um pedido. E Ele diz-lhe: Que queres? Ela respondeu: Dize que estes meus dois filhos se assentem, um à Tua direita e outro à Tua esquerda, no Teu reino” (Mateus 20:20-21).

Certamente todas a mães desejam o melhor para seus filhos, mas por vezes a sua ambição pode ser um produto da carne. Concluindo de que o reino seria brevemente estabelecido, a mãe de Tiago e João queriam que seus filhos tivessem honra distinta de todos os outros, sentados à mão direita e à mão esquerda do Mestre. Claro que Tiago e João pensavam ter legitimidade para fazer este pedido. Afinal, eles estavam entre os primeiros que tinham deixado as suas redes de pesca para trás e seguiam agora o Senhor Jesus. A verdadeira intenção deste seu pedido era apenas garantir posições de autoridade para poderem governar sobre outros, tal como desejam os gentios. Mas o desejo dos gentios por tal poder é apenas por mero egoísmo.

Infelizmente eles não compreenderam que o reino nunca poderia ser estabelecido antes que o Mestre sofresse e morresse pelos pecados da nação. O Senhor também revela nesta porção bíblica que eles, da mesma forma, iriam beber deste mesmo cálix. Ele então acrescenta: “Mas o assentar-se à Minha direita ou à Minha esquerda não Me pertence dá-lo, mas é para aqueles para quem Meu Pai o tem preparado.” Muito provavelmente esta honra será dada a Moisés e Elias, os quais representam a lei e os profetas (Mateus 16:28; 17:1-3).

Podemos constatar que a chave para a glória no reino não estava baseada em posição ou poder, coisas que os gentios cobiçam, mas sim no carácter. Ele deveriam seguir o espírito de nosso Senhor, que não veio a este mundo para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos. Cristo é o Criador de todas as coisas, mas mesmo assim Ele humilhou-Se a Si mesmo e tomou a forma de um humilde servo. Assim, o Mestre admoesta os Seus discípulos: “Bem sabeis que pelos príncipes dos gentios são estes dominados, e que os grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal” (Mateus 20:23-28). Acreditamos que este mesmo princípio pode ser aplicado ao Corpo de Cristo, quando nos lugares celestiais reinarmos com Cristo.

A remoção do véu

“E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de Mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos. Então abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras. E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dentre os mortos” (Lucas 24:44-46).

Após a morte, sepultamento e a ressurreição de Jesus Cristo, os olhos dos discípulos foram como que abertos, pois o Senhor permitiu que eles compreendessem que era acerca dEle que a lei de Moisés (Deuteronómio 18), os profetas (Isaías 53) e os Salmos (Salmo 22) falavam. O véu que outrora envolvia os seus olhos sobre este assunto foi removido. Agora pela primeira vez ficou claro para eles que Cristo era o Redentor Prometido que as Escrituras tinham profetizado. Mas, atenção! Não devemos partir do princípio de que os discípulos entenderam este facto na totalidade. Eles apenas compreenderam o facto da morte, sepultamento e ressurreição de Cristo. Nada mais do que isso!

Agora, fortalecidos com esta nova luz, os discípulos continuaram a proclamar Cristo de acordo com as profecias, que O retratavam como uma vítima. Isto é-nos confirmado pelo discurso de Pedro aos seus compatriotas no dia de Pentecostes:

“E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar” (Actos 2:1).

No início do Livro de Actos, ainda estamos a navegar em águas proféticas. Pedro guia-nos cuidadosamente através das perigosas tradições e mandamentos criados pelos homens. É importante relembrar que os primeiros capítulos de Actos são um simples registo da continuação do ministério terreno de Cristo.

Lucas deixa isto muito claro quando escreve: “Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo, acerca de tudo que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar, até ao dia em que foi recebido em cima, depois de ter dado mandamentos, pelo Espírito Santo, aos apóstolos que escolhera.” O “primeiro tratado” a que Lucas aqui refere-se é o evangelho segundo Lucas onde ele dá a conhecer ao seu amigo Teófilo “tudo o que Jesus começou, não só a fazer mas a ensinar.” Mas agora prossegue com a história: “Aos quais também, depois de ter padecido, Se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias, e falando do que respeita ao reino de Deus. (Actos 1:1-3).

No dia de Pentecostes, quando Pedro se dirigiu aos seus compatriotas de Israel, pregou-lhes a mesma mensagem que Cristo tinha pregado no seu ministério terreno. Mas agora com um “aditamento”: ele acusa o povo de Israel de ter assassinado o seu Messias!

“Varões israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, varão aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por Ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis; a Este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, tomando-O vós, O crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” (Actos 2:22-23).

Tal como vimos, a morte de Cristo estava em total acordo com o plano soberano de Deus, sendo aqui referida como “determinado conselho”. Pedro afirma sem qualquer tipo de dúvida que Cristo não foi entregue nas mãos dos homens maus devido à Sua “fraqueza” ou que Ele não tinha controlo das circunstâncias que O rodeavam. As Escrituras são claras e inequívocas de que Cristo deu a Sua vida voluntariamente (João 10:17-18). 

Curiosamente, Pedro acrescenta: “e presciência de Deus.” Deus escolheu o momento mais adequado, lugar e forma da Sua vontade ser realizada. O simples facto de Deus ter previsto as acções daqueles que iriam rejeitar e condenar o Seu Filho não diminui de nenhuma forma a culpa deles. Alguns que estavam naquele momento perante Pedro no Pentecostes eram conspiradores que ajudaram a criar falsas testemunhas contra o Senhor Jesus. Estavam presentes certamente também alguns que tinham afirmado: “Fora daqui com este, e solta-nos Barrabás” e “Tira, tira, crucifica-o”.
Pedro não era de “falinhas mansas”. Na verdade, Ele expôs a culpa dos responsáveis pela morte de Cristo, quando afirmou: “Tomando-O vós, O crucificastes e matastes pelas mãos dos injustos”. Era como se as suas mãos ainda estivessem manchadas com o sangue de Cristo. Já agora, leste algumas boas novas até agora? À falta de melhor termo, Pedro estava a pregar as “más novas” da Cruz. Como se isto não bastasse, Pedro fez-lhes saber que a situação era ainda mais grave: Vós O crucificastes, mas Deus O ressuscitou dos mortos e colocou-O à Sua mão direita até que os seus inimigos sejam postos por escabelo dos Seus pés. E saiba todo o Israel que quem cometeu este crime é inimigo de Deus (Actos 2:24-36). 

Suponhamos que com um amigo levamos a cabo um perfeito assassínio. Inesperadamente, uns meses depois o nosso amigo encontra-nos e diz: “Olha, ainda te recordas do homem que assassinámos? Ele voltou dos mortos e anda à nossa procura.” Com toda a certeza teria toda a nossa atenção! Da mesma forma, Pedro teve a atenção dos seus ouvintes quando os declarou culpados da morte de Cristo. “E, ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração, e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, varões irmãos?”.  Ou seja, o que devemos nós agora fazer para sermos salvos do terrível pecado que cometemos?

“E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos.” Finalmente, aqui estão as boas noticias: “Arrependei-vos”. Mas, arrependei-vos de quê? Arrependei-vos de terdes crucificado o Vosso Messias. Isto iria incluir que tinham de crer no Seu nome e em tudo o que tinha proclamado ser, o verdadeiro Filho de Deus, o Messias (João 20:31). “E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja baptizado (na água) em nome de Jesus Cristo, para perdão (ao expressarem a sua fé através deste acto, eles seriam salvos, segundo Marcos 16:16) dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo” (Actos 2:38).

No evangelho do reino estes eram os termos de salvação “revistos” após o dia de Pentecostes. Estamos muito gratos a Pedro, que nos trouxe ao destino desta viagem em segurança, onde agora vai apresentar a primeira oferta legítima do reino a Israel (Actos 3:17-21). No entanto, a rejeição de Israel à oferta graciosa de Deus marcará um grande ponto de viragem no relacionamento de Deus para com o homens.

Uma das coisas de que nos devemos recordar desta mensagem de Pedro é que somos sempre responsáveis pelos nosso actos. Quanto maior for a nossa posição, maior será a nossa responsabilidade. No próximo boletim vamos velejar com o apóstolo Paulo!

(por Paul M. Sadler) 

Cristo e Este Crucificado Agosto 29, 2010

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O nosso Senhor Jesus Cristo é o nosso Redentor que foi “obediente até à morte, e morte de Cruz.” Ele não morreu uma morte qualquer; Ele morreu a morte de Cruz. Morte por crucificação nos tempos da Bíblia era uma das mais cruéis e vergonhosas formas de tortura possíveis. O historiador judeu Flávio Josefo, presenciou durante a sua vida incontáveis crucificações, pelo que as chamou das mais miseráveis mortes possíveis de se padecer. Cícero, referindo-se à morte por crucificação, afirmou que esta era uma morte “cruel e uma tortura horrorosamente feia”. Will Durant escreveu que “até os Romanos tinham alguma pena das vítimas.”

Ao começarmos um estudo sobre a Cruz de Cristo, estamos prestes a embarcar numa extraordinária e maravilhosa viagem pelo “mar” das Escrituras. A nossa jornada começa em águas proféticas com a “A Profecia da Cruz”. David será o nosso capitão, o qual nos guiará através dos sofrimentos que Cristo padeceu na Cruz do Calvário.

Um Salmo de David

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? por que Te alongas das palavras do meu bramido, e não me auxilias? Deus meu, eu clamo de dia, e Tu não me ouves; de noite, e não tenho sossego.” (Salmos 22:1-2)

Quando meditamos neste Salmo 22, encontramos o que será talvez o relato mais pormenorizado acerca dos sofrimentos de Cristo em toda a Palavra de Deus. Nas Escrituras Hebraicas, o cabeçalho “Aijeleth-hash-Shaar” surge no topo deste Salmo, que é traduzido por: “O Messias sofre, mas triunfa”.

Os Salmos 22, 23, e 24 formam uma trilogia. Sobre o Senhor Jesus Cristo, no evangelho de João, é dito que Ele é o Bom Pastor que dá a Sua Vida pelas Suas ovelhas, tal como descrito no Salmo 22. De acordo com Hebreus 13, Cristo é chamado de Supremo Pastor, que foi trazido de novo dos mortos para guiar o Seu povo através do vale do pecado e morte. Este é o tema central do livro de Salmo 23. Finalmente, o Sumo Pastor de I Pedro 5 encontramos as suas raízes no Salmo 24 onde Cristo retorna com poder e grande glória para estabelecer o Seu Reino aqui na terra.

Umas das coisas mais marcantes acerca do capítulo 22 do livro de Salmos é que David descreve com vivacidade a crucificação de Cristo, aproximadamente 1000 anos antes de esta suceder. Outro facto extraordinário é o facto da morte por crucificação não tinha sido ainda introduzida na humanidade no tempo em que David escreveu este salmo. Crê-se que os Assírios foram os primeiros homens a usar esta forma de execução, pois eles eram bem conhecidos pelas suas torturas desumanas. Mas o que os Assírios criaram, podemos ter a certeza que os Romanos aperfeiçoaram. No tempo do Senhor Jesus Cristo, a morte por crucificação era a forma principal que era usada para executar criminosos contra o Império Romano.

O Salmo 22 é dividido em duas partes: os sofrimentos espirituais de Cristo e os Seus sofrimentos físicos. O Salmo começa com a expressão “Meu Deus, meu Deus, porque me desamparaste?” e termina com “Porquanto Ele o fez” (versículo 31), ou em Hebraico, “Está terminado!” A frase “Meu Deus, meu Deus, porque me desamparaste?” foi uma das últimas proferidas por Cristo enquanto pregado na Cruz. A palavra “desamparado” é uma das palavras na linguagem humana que mais fortemente transmite um sentido de abandono e tragédia. É difícil para nós compreender como, por exemplo, uma mãe pode abandonar o seu recém-nascido, mas infelizmente tal acto é comum nos nossos dias. Ficamos estupefactos quando ouvimos acerca de um homem que abandona a sua mulher depois de tantos anos juntos. Perguntamos “Porquê?”. Nós temos dificuldade em acreditar, mas muito menos conseguimos aceitá-las.

Mas quando o Filho de Deus afirmou na Cruz que tinha sido desamparado pelo Pai, de certeza isso nos deixa admirados. Uma das coisas que caracterizava sem qualquer dúvida a vida de Cristo aqui na terra era a inquebrável comunhão que Cristo gozava com o Pai. O silêncio do Céu foi quebrado mais do que uma vez, quando por exemplo o Pai disse: “Este é o Meu amado Filho, em quem Me comprazo; escutai-O.” (Mateus 17:5). Mas agora, no momento e na hora mais negra pela qual o Senhor Jesus Cristo passou, o Pai desamparou o seu Filho. Porquê? Esta, com certeza, foi uma das perguntas que pesava no coração do Senhor Jesus Cristo, enquanto procurava entender o porquê de ter sido humanamente falando, abandonado.

Enquanto descia a escuridão desde a hora sexta até à hora nona no dia em que Cristo morreu, Ele afirmou, ” Deus meu, eu clamo de dia, e Tu não me ouves; de noite, e não tenho sossego… Em Ti confiaram nossos pais; confiaram, e Tu os livraste.” (Salmos. 22:2,4). Aqui temos os pensamentos íntimos de Cristo, enquanto estava pregado naquela Cruz.

Este é o único lugar na Palavra de Deus onde nos é dito o que o nosso Salvador estava realmente pensando enquanto as trevas caíam sobre a Palestina. Apenas o Espírito de Deus podia dar-nos esta preciosa revelação por intermédio do profeta. O Senhor Jesus Cristo argumentou com o Pai, “Em Ti confiaram nossos pais; confiaram, e Tu os livraste.” Enquanto o Filho considerava a história de Seu povo, Ele recordou de como Sansão os libertou das mãos dos Filisteus; Daniel da boca de leões famintos; e Sadrach, Mesach, and Abed-nego do fogo da fornalha ardente. Mas para o Filho de Deus não haveria qualquer tipo de libertação, que foi predestinado a sofrer pelos pecados do Seu Povo; na realidade, pelos pecados do mundo!

O Filho respondeu à Sua própria questão do porquê do abandono por parte do Pai no versículo 3: “Porém Tu és Santo, o que habitas entre os louvores de Israel.” O Pai é Santo, o que nos indica a sua perfeita moral. O pecado, sem qualquer tipo de excepção, é uma violação à Sua santidade. Os nossos pensamentos finitos nunca poderão alcançar a majestade e a perfeição da santidade de Deus. Ele é infinitamente puro. Isto ajuda-nos a compreender o propósito do véu no tabernáculo: separava um Deus Santo de Seu povo pecador. Isaías e o Rei Uzias ambos tiveram um encontro com a santidade de Deus, mas como vamos ver com resultados totalmente opostos.

“No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi ao Senhor, assentado sobre um alto e sublime trono; e o seu séquito enchia o templo. Os serafins estavam acima dele, cada um tinha seis asas: com duas cobriam os seus rostos, e com duas cobriam os seus pés, e com duas voavam. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos: toda a terra está cheia de sua glória. E os umbrais das portas se moveram com a voz do que clamava, e casa se encheu de fumo” (Isaías 6:1-4).

Durante os anos em que Uzias reinou, ele conduziu Judá num programa de paz e prosperidade. Mas enquanto a nação prosperava materialmente, estava totalmente corrompida espiritualmente. Notemos que no ano em que Uzias morreu, Isaías viu o Senhor sentado no seu trono. Uzias também esteve exposto à santidade de Deus, mas com consequências catastróficas. Apesar de este rei ter feito o que era correcto aos olhos do Senhor, transgrediu contra o Senhor, seu Deus, porque entrou no templo do Senhor para queimar incenso no altar do incenso. Uzias naquele preciso instante foi atingido com lepra e morreu seguidamente, devido à sua intrusão nas santas coisas de Deus (II Crónicas 26:16-23).

Um único pecado originou morte e baniu tanto Adão como Eva do jardim do Éden. Apenas um pecado impediu a entrada de Moisés na Terra Prometida. Um pecado terminou com as vidas de Ananias e Safira. Notemos que uma correcta compreensão da santidade de Deus conduz a um entendimento correcto do pecado. Quando Isaías estava na presença de Deus e ouviu os serafins clamando uns para os outros: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos: toda a terra está cheia da Sua glória. E os umbrais das portas se moveram com a voz do que clamava, e casa se encheu de fumo. A reacção de Isaías foi: “Ai de mim, que vou perecendo! porque eu sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios.” Porque Isaías tinha a correcta compreensão da Santidade de Deus, ele viveu, e as suas iniquidades foram retiradas, e o seu pecado perdoado (no Hebreu kaòphar ou expiado—Isa. 6:5-7). 

Pelo facto de o pecado ser uma transgressão à santidade de Deus, o Pai não podia olhar para o Seu Filho pois estava a ser feito pecado por nós, e por esse acto singular somos justificados perante Deus. Absolutamente só, Jesus Cristo carregou o fardo dos nossos pecados. À medida que o desespero crescia, o Salvador afirmava: ” Mas eu sou verme, e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo”. Normalmente no Hebraico o termo “verme” refere-se no grego à palavra tola. A tola (coccus ilicis) é uma pequena larva, que pode ser encontrada em várias espécies de carvalhos perto do Mediterrâneo. Nos tempos antigos estas larvas eram esmagadas de forma a produzirem uma tinta escarlate. Tal como sabemos, Salomão vestiu a filhas de Israel em escarlate. O que estamos a tentar sugerir com esta analogia às tolas é que o peso dos nossos pecados (igualmente os de Israel) quebrantaram a vida do nosso Senhor Jesus Cristo, o qual derramou o Seu precioso sangue para que agora possamos vestir as vestes da salvação.

O Sofrimento Físico de Cristo

“Muitos touros me cercaram; fortes touros de Bazan me rodearam. Abriram contra mim suas bocas, como um leão que despedaça e que ruge. Como água me derramei, e todos os meus ossos se desconjuntaram; o meu coração é como cera, derreteu-se no meio das minhas entranhas. A minha força se secou como um caco, e a língua se me pega ao paladar; e me puseste no pó da morte. Pois me rodearam cães; o ajuntamento de malfeitores me cercou, traspassaram-me as mãos e os pés. Poderia contar todos os meus ossos; eles vêem e me contemplam.” (Salmos 22:12-17).

É interessante contar o número de referências a animais encontrado no Salmo 22: o touro, leão, cão, unicórnio, etc. Aqueles que foram os responsáveis pela crucificação eram como as bestas dos campos. Eles eram astutos, perversos, e intimidavam as suas presas. Os fortes touros de Bazan, sem qualquer tipo de dúvida referem-se aos lideres de Israel, os quais buscavam ferir o Senhor Jesus com os cornos do ódio (Lucas 23:8-21). Tal como as bestas do campo que perseguem as suas presas antes de as matar, estes lideres ímpios zombaram: ”Salvou os outros, e a si mesmo não pode salvar-se. Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz, e creremos nele; confiou em Deus; livre-o agora, se o ama; porque disse: Sou Filho de Deus.” (Mateus 27:42-43). Bem aventurados somos, pois o nosso Salvador permaneceu naquela Cruz, pois se tivesse descido de forma a satisfazer a santidade e a justiça de Deus, o mundo iria ser “varrido” para dentro do lago de fogo por toda a eternidade. A determinação de Cristo para completar a obra da nossa redenção nunca vacilou. O que foi dito anteriormente prova que os lideres religiosos eram ignorantes não apenas na predição da Cruz, mas igualmente desconhecedores do verdadeiro significado do Calvário.

A morte por crucificação era a morte das mortes. Os braços das vítimas eram estendidos e os pregos eram pregados nas palmas das mãos. De seguida, prendiam os pulsos de forma a que os pregos não rompessem as mãos da vítima. Depois disto, um pé era colocado sobre o outro em cima de uma cunha de madeira. Daí, “trespassaram-me as mãos e os pés.” Este foi apenas o começo das dores, porque a morte numa Cruz era lenta, dolorosa, que poderia durar dois a três dias. Três pregos enferrujados garantiram a nossa redenção: um pregou a lei à Cruz, outro os pecados do mundo e o terceiro pregou Jesus Cristo à Cruz. (Colossenses. 2:14; II Coríntios 5:14-19; Gálatas 2:20). 

Apesar de nenhum dos ossos do corpo de nosso Senhor ter sido quebrado, cremos que quando a Cruz foi colocada em terra os braços do Senhor Jesus Cristo foram deslocados dos seus ombros, baseados na frase “todos os meus ossos se desconjuntaram”. Estar suspenso pelos braços gerava uma tremenda pressão sobre os pulmões e gradualmente tornava-se mais complicado poder respirar. Para o poder fazer, a vítima era obrigada a impulsionar-se com ajuda dos seus pés para facilitar a inspiração. À medida que os níveis de dióxido de carbono aumentavam no interior do corpo, a vítima começava a padecer de edema pulmonar, e acabaria por morrer de paragem cardíaca ou de asfixia.

É interessante o facto de o nosso Senhor Jesus morrer passadas poucas horas de ter sido pregado na Cruz. Nas Suas próprias palavras: “o meu coração é como cera, derreteu-se no meio das minhas entranhas” (vs. 14). Poderá ser que o nosso Salvador morreu de coração partido devido aos pecados do mundo? À medida que o momento da Sua morte se aproximava, o Filho orava da seguinte forma ao Pai:
“Mas tu, Senhor, não te alongues de mim. Força minha, apressa-Te em socorrer-me.  Livra a minha alma da espada, e a minha predilecta da força do cão (gentios). (Salmos 22:19-20).

O Senhor Jesus Cristo desejou voluntariamente dar a Sua vida pelo pecados do mundo e esta não ser terminada pelos Gentios ao fio da espada. O Pai garantiu graciosamente o pedido de Seu Filho, pois lemos no evangelho de João que o Salvador já tinha rendido o Seu Espirito ao Pai antes de ter sido trespassado pela lança:

“Foram, pois, os soldados, e, na verdade, quebraram as pernas ao primeiro, e ao outro que como ele fora crucificado; Mas, vindo a Jesus, e vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas. Contudo um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água.” (S. João 19:32-34) 

Lições práticas para cada um de nós

Enquanto a palavra do homem é instável como a água, a Palavra de Deus é sempre precisa e verdadeira, tal como vimos na predição da Cruz aproximadamente 1000 anos antes e no total cumprimento dos acontecimentos. A palavra de Deus é verdadeira. Então quando estamos a ler um passagem semelhante a esta: “Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes. Vigiai justamente e não pequeis; porque alguns ainda não têm o conhecimento de Deus; digo-o para vergonha vossa.” (I Cor. 15:33,34), podemos ter a certeza que é totalmente verdadeira.

O contexto desta passagem é um aviso para não adoptarmos as formas de vida deste mundo. Devido a o mundo ter rejeitado a ressurreição, a sua filosofia de vida é comer, beber, e ser feliz, pois amanhã morrerás. Aqueles que pertencem à família da fé ficam pasmados e horrorizados com este tipo de raciocínio. Mas Deus diz: “não vos enganeis, as más associações neste mundo destroem gradualmente a boa moral”. Por outras palavras, se pouco a pouco nos deixamos associar com este mundo, podemos ter a certeza de que em pouco tempo a sua influência irá criar em nós dúvidas, e começaremos a negar a Palavra de Deus. O pecado e consentimento de comportamentos pecaminosos são ambos desagradáveis a Deus. Os Coríntios são um dos principais exemplos de falha em ter atenção a este tipo de aviso; não sejamos nós também culpados do mesmo acto. (I Coríntios 5:1-13; 6:1-8,13-18; 11:20-22).

O Salmo 22 ensina-nos que há no mundo um conflito entre o bem e o mal existente no mundo. Cristo é a personificação de tudo o que é bom e justo. Os Seus inimigos, por outro lado, estavam cheio de mentira e hipocrisia. Eles O odiavam sem causa. Portanto, não devemos ficar surpreendidos quando o mundo nos odeia sem nenhum motivo, devido a sermos fiéis à verdade do evangelho.

(por Paul M. Sadler) 

O Perdão dos Pecados Março 27, 2010

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“Em quem [Cristo] temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da Sua graça” (Efésios 1:7).

Um homem de negócios recentemente aceitou Jesus Cristo como Senhor e Salvador e alegrava-se no conhecimento de seus pecados se encontrarem perdoados.

Ultimamente, porém, ele tem consciência do pecado estar a rastejar de volta para sua vida. Medos de um Deus irado o assombram e torturam a sua frágil consciência,
levando-o a questionar-se se Deus ainda o aceita.

Uma dona de casa tem um marido que é alcoólico. De manhã cedo, ele voltou para casa bêbado, com uma grande amolgadela no carro da família. Ele desculpou-se, mas ela sabe que, se ela o perdoa, ele voltará a fazê-lo novamente.

Uma velha mulher de 83 anos, senta-se sozinha numa casa grande e vazia. Anos atrás, a sua família magoou-a profundamente. Houve uma altura em que ela queria perdoar, mas eles nunca reconheceram que o erro tinha acontecido. “Como poderiam eles ter feito tal coisa?”, pergunta ela. Agora ela espera a morte e libertação da amargura e desilusão que se prende a ela.

Os exemplos acima referidos são mais que meramente hipotéticos. Há incontáveis casos semelhantes que são vividos todos os dias em casas e igrejas por todo o mundo. Têm os Cristãos a resposta para tais situações? Isso depende a que “Cristãos” perguntamos. Uma das doutrinas mais incompreendidas na Palavra de Deus é a questão dos pecados perdoados. Estou convencido de que duas das coisas mais difíceis de ensinar a um Cristão são:

  1. os seus pecados foram completa e eternamente perdoados e
  2. este perdão deve agora estender-se a outros.

Porquê existem tantas opiniões diferentes sobre um assunto tão fundamental para a vida Cristã? Tal como acontece em relação a outros temas na Bíblia, a falha em “dividir correctamente a Palavra da verdade” tem conduzido crentes sinceros em Cristo a posições contraditórias sobre o perdão. Eles dizem, “Graças a Deus por Ele ter-me perdoado todos os pecados, mas…”, e então eles apresentam a lista de condições na qual eles acreditam que devem cumprir, para Deus os aceitar.

Perdão sob a Graça

Paulo, o apóstolo dos gentios e o revelador dos mistérios de Deus para a Igreja que é o Seu Corpo, apresenta uma única condição: crer no seu evangelho. De acordo com a passagem acima referida de Efésios 1:7, o perdão de pecados está intimamente ligado com a nossa redenção, que por sua vez, está assente no sangue sacrificial de Cristo e as riquezas da Sua graça. Além disso, notemos que o perdão (assim como as nossas bênçãos espirituais) foi algo alcançado no passado na vida do crente em Cristo. Nós temos (no presente) a redenção… o perdão dos pecados.

Para aqueles que necessitam de confirmação destas maravilhosas notícias, considerem em oração estes exemplos adicionais das epístolas de Paulo:

“Antes sede, uns para com os outros, benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como, também, Deus vos perdoou em Cristo.” (Efésios 4:32)
“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” (Colossenses 1:14)

“E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou, juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas,” (Colossenses 2:13)

“Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça. Assim, também, David declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça, sem as obras, dizendo: Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos; Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado.” (Romanos 4:5-8)

“Seja-vos, pois, notório, varões irmãos, que por este se anuncia a remissão dos pecados. E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudeste ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê.” (Actos 13:38,39)

Os versos acima enunciados apresentam o ensino sobre o perdão para a presente dispensação da Graça de Deus (Efésios 3:1-9). O crente instruído na Graça sabe que o homem, por natureza, está morto em delitos e pecados, e como tal não merece um lugar no céu com Deus (Efésios 2:1,8,9). O amor de Deus providenciou perdão ao homem perdido através do sangue de Seu Filho. A responsabilidade que o Deus Soberano tem colocado sobre o homem, como resposta ao Seu amor, é a Fé em Jesus Cristo. “Cristo morreu pelos nossos pecados… e que ressuscitou ao terceiro dia…” é o evangelho que Paulo recebeu do Senhor Jesus glorificado e pregava onde quer que fosse (I Coríntios 15:1-4). O Espírito Santo de Deus pega então no pecador salvo e baptiza-o de forma sobrenatural em Cristo, estabelecendo uma união eterna (I Coríntios 12:13). Isto tem sido testificado pela prova de que nada nos pode separar do amor de Cristo porque o Espírito Santo nos selou até ao dia da redenção (arrebatamento) (Romanos 8:31-39; Efésios 1:13-14, 4:30).

O conhecimento destes factos pelas escrituras dá ao crente uma grande paz e uma alegria inexplicável. Mas como é o caso com muitos assuntos bíblicos, aqueles que querem homogeneizar a Palavra de Deus vão aos ensinos sobre perdão dado a Israel, para a dispensação passada, e arbitrariamente transplantam-nos para a presente dispensação da Graça. Os resultados são medo, dúvida e falta de ousadia nas nossas orações.

Perdão sob a Lei

Na verdade pode ser benéfico estudarmos como era concedido o perdão sob a Lei de Moisés, de forma a compreendermos as diferenças.

“E se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra” (II Crónicas 7:14).

Eis um versículo citado frequentemente e utilizado por pregadores sinceros que desejam ver o nosso país restaurado no aspecto moral e espiritual. Na verdade, existem aqui sábios conselhos para os crentes de todas as épocas. Espírito de humildade, oração, buscando a face de Deus e abandonando o pecado deve produzir um tremendo reavivamento na Igreja de hoje. Mas olhemos profundamente para o versículo. “E se o meu povo, que se chama pelo meu nome…” refere-se a Israel, sob a Lei, e não à Igreja, sob a Graça. A terra que é curada não é Portugal, mas antes é a Palestina. Agora reparemos na natureza condicional deste perdão. “E se o meu povo… se… então… perdoarei os seus pecados…”. Este síndrome do “se – então”, tão característico do pacto da Lei, leva-nos a retroceder a Êxodo 19:5: “Agora, pois, se, diligentemente, ouvirdes a minha voz, e guardardes o meu concerto, então sereis a minha propriedade peculiar de entre todos os povos: porque toda a terra é minha.”
Este sistema de bênção condicional é referido repetidamente ao longo dos livros do Velho Testamento, de Êxodo a Malaquias. Se Israel obedecesse aos mandamentos de Deus (a lei), Deus os abençoaria. Se eles desobedecessem, Deus os amaldiçoaria (Deuteronómio 28:1-68). Esta não é a forma como Deus lida com os crentes actualmente. Nós já fomos abençoados com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (Efésios 1:3,7). Isto inclui o perdão dos pecados.

Em relação à passagem de II Crónicas 7:14, nós devemos reconhecer a diferença entre interpretação e aplicação. Uma vez que toda a Escritura é inspirada por Deus e proveitosa, há verdades neste versículo que nos falam actualmente, mas nós só o podemos aplicar à luz da revelação do mistério que nos foi dado através do Apóstolo Paulo (Romanos 16:25; Colossenses 1:25-27). O versículo refere-se a bênçãos condicionais, que pertencem por interpretação a Israel, sob a lei.

Enquanto alguns têm vindo ao conhecimento da diferença entre o sistema Mosaico e o Paulino em relação às bênçãos (incluindo o perdão), poucos têm visto que o perdão condicional é transportado para os evangelhos e epístolas do Novo Testamento não escritas por Paulo. Considere o seguinte:

“E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; Se porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas.” (Mateus 6:12,14,15)

“E, indignado, o seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia. Assim vos fará, também, meu Pai celestial, se de coração não perdoares, cada um, a seu irmão, as suas ofensas” (Mateus 18:34,35)

“E, quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas; Mas, se vós não perdoardes, também vosso Pai, que está nos céus, vos não perdoará as vossas ofensas.” (Marcos 11:25,26)

“Não condeneis, e não sereis condenados” (Lucas 6:37).

“Olhai para vós mesmos. E, se teu irmão pecar contra ti, repreende-o, e, se ele se arrepender, perdoa-lhe. E se pecar contra ti sete vezes no dia, e sete vezes no dia vier ter contigo, dizendo: Arrependo-me, perdoa-lhe.” (Lucas 17:3,4)

Observemos cuidadosamente que o perdão, nos exemplos em cima, é oferecido pelo Pai celestial só quando o perdão é primeiramente oferecido aos outros. Da mesma forma, o outro (ofensor) é perdoado só se ele se arrepender. A ordem é: (1) Ofensa cometida, (2) Confrontação e repreensão, (3) Arrependimento do infractor, (4) Perdão oferecido pela vítima e (5) Perdão de Deus oferecido. Este ensino mostra o perdão em relação à fase milenial do reino de Deus na terra, segundo a profecia (Lucas 1:70; Actos 3:21; Apocalipse 5:10).

Em contraste, os escritos de Paulo revelam que o crente em Cristo actualmente trabalha a partir da posição de perdão perpétuo a partir da qual ele é livre para perdoar outros.

“… perdoando-vos uns aos outros, como, também, Deus vos perdoou em Cristo.” (Efésios 4:32)

“… perdoando-vos uns aos outros,… assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós, também.” (Colossenses 3:13)

Este ensino mostra o perdão em relação à parte celestial do reino de Deus de acordo com o Mistério (Romanos 16:25; I Coríntios 2:7; Efésios 1:4; II Timóteo 4:18). Como Scofield tão bem afirmou: “Perdão sob a lei é condicionado a um espírito semelhante em nós (nós perdoarmos primeiro). Sob a graça, somos perdoados por amor de Cristo e exortados a perdoar porque fomos perdoados primeiramente.”

Que diferença entre a lei e a graça, entre perdão condicional e incondicional! Ambos os sistemas são consistentes com o carácter de Deus e trabalham de acordo com o Seu plano para as dispensações. Como na verdade nos devemos alegrar em sermos membros salvos do Corpo de Cristo durante a presente dispensação da graça de Deus! Isto mostra que, embora o próprio Deus nunca mude, o Seu trato, para com o homem, muda com o curso da história e profecia.

Alguns podem permanecer na crença de que os ensinos de Jesus sobre o perdão, enquanto na terra, representam a doutrina que mais tarde foi escrita para nós, como membros da igreja actual. Eles afirmam ainda que nós devemos tornar o nosso perdão condicional. Eles fazem-no por causa de pretextos tradicionais e do medo de que a graça será corrompida.

Em primeiro lugar, nós concordamos que “Porque tudo que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito…” (Romanos 15:4). Toda a Escritura é igualmente inspirada por Deus, mas é proveitosa somente quando é bem dividida (II Timóteo 2:15; 3:16). Em segundo lugar, entendemos que o ministério terreno de Jesus foi somente para os Judeus, de acordo com a profecia (Mateus 10:5-6; 15:21-28; Marcos 7:24-30; Romanos 15:8). Em terceiro lugar, a vida e os ensinos do nosso Senhor não anularam o concerto da lei dada através de Moisés no monte Sinai (Mateus 5:17-18; 8:1-4; 23:1- -3; Lucas 2:21-24; Gálatas 4:4). Jesus viveu e trabalhou como um Judeu, sob a lei foi circuncidado ao oitavo dia, observou os dias de festa dos Judeus, disse ao leproso curado para se mostrar ao sacerdote e apresentar a oferta (sacrifício de animal) que Moisés mandara, e ordenou os Seus discípulos a observar e praticar tudo o que aqueles que estavam assentados na cadeira de Moisés ordenavam (ou seja, os escribas e fariseus que tinham essa autoridade e eram adeptos rigorosos de ensinar e seguir a lei à letra).

Enquanto os ensinos de Jesus a respeito do Reino levaram a lei a um ponto mais íntimo, para incluir os motivos (emocionais) do coração (Mateus 5:22,28,32,34), e enquanto alguns ajustes foram feitos de modo a introduzirem a chegada do Reino (Mateus 5:44; 13:52), o Seu ensino foi uma confirmação das coisas que haviam sido antes profetizadas. (Romanos 15:8). Quaisquer novas revelações dadas por Jesus neste tempo foram apenas detalhes adicionais confirmando o reino milenial que havia sido profetizado e que se encontra descrito no velho testamento.

Finalmente, temos que reconhecer que o apóstolo Paulo é o “teólogo” para a presente dispensação da Graça de Deus. Apenas nos seus escritos podemos encontrar a doutrina, a posição, o andar e o destino para a Igreja, Corpo de Cristo. O nosso Senhor Jesus Cristo conduziu um ministério celestial através do apóstolo Paulo, que foi o seu porta-voz (I Coríntios 14:37, II Coríntios 13:3; Gálatas 1:11; 2:2,9; Efésios 3:1-9). Nós somos hoje beneficiários do seu ministério, através das suas epístolas. Que nunca percamos de vista onde nos encontramos no programa de Deus. Isto é crucial para o nosso estudo do perdão, como se tem vindo a mostrar.

Estar devidamente ajustado ao ensino da Graça é absolutamente essencial para uma vida alegre e vitoriosa na fé. Como podemos amar e louvar a Deus por algo que nós não temos certeza se Ele nos deu? Da mesma forma, como podemos ter alegria e paz quando tememos que Deus nos retire as bênçãos? Não deixemos que ensinos não-bíblicos ou não–dispensacionais nos separem do gozo do perdão dos pecados e da comunhão com Aquele “no qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele” (Efésios 3:12).

Perdão nos nossos relacionamentos pessoais

É muito provável que vacilemos nesta área se não estivermos firmemente apoiados no evangelho da graça. Nós somos instruídos a lidarmos com o nosso próximo da mesma maneira que Deus lidou connosco.

Uma vez que Deus nos perdoou de todas as ofensas (passadas, presentes e futuras) será razoável não perdoarmos aqueles que nos tem ofendido? “Mas eu fui extremamente magoado”, é aquilo que o leitor poderá estar a pensar.

Será que nunca ferimos o coração do Pai Celestial com o nosso espírito imperdoável? Nós nunca conseguiremos perdoar mais do que Deus nos perdoou. Deus sabia de antemão a forma como nós iríamos pecar contra Ele, no entanto ele perdoou todo o nosso pecado assim que cremos na sua obra redentora e a aceitamos como único meio pelo qual podemos ser salvos.

Para alguém que possa estar a debater-se com um espírito de inflexibilidade ficam aqui estas sugestões:

(1)  Tenha a certeza que compreende e crê no evangelho da Graça (Romanos 3:19-28). Sem a presença do Espírito Santo na sua vida e sem o amor que Deus derrama em nossos corações, não estaremos capacitados para perdoar da forma que é aceitável para Deus (Romanos 5:5).

(2)  Reconheça que a incapacidade de perdoar é um pecado originário da carne (do velho homem) (I Tessalonicenses 5:15; Romanos 12:17-21).

(3)  Não ceda aos desejos da carne (velho homem) mas combata-os (Romanos 13:8-14).

(4)  Considere os pecados dos quais foi perdoado e o que eles deverão ter significado para o nosso Senhor Jesus aquando da sua morte por nós. Um certo homem orava sempre desta maneira: “Senhor, nunca me deixes esquecer o que fui antes de me ter tornado um Cristão”. Como semente decaída de Adão, o nosso pecado contra o Deus santo é infinitamente maior do que qualquer pecado que possamos cometer uns contra os outros.

(5)  Considere o que a sua desobediência está a fazer à sua alma interior. Algumas pessoas pensam que ficam perfeitamente justificadas guardando para si os maus sentimentos, enquanto são apoiadas nestes maus sentimentos por outras pessoas. Tal atitude provoca maior dano na alma da pessoa ofendida do que propriamente no transgressor. 

(6)  Perdoe a pessoa como um acto de espontaneidade! Isto é o amor cristão em acção. Não espere até que se “sinta” capaz de perdoar.

(7)  Ore pelo bem-estar espiritual do ofensor (transgressor). Eu sempre ouvi um pregador dizer: “É extremamente difícil permanecer implacável contra alguém por quem você ora constantemente”. Que excelente conselho! Deus promete a “paz que excede todo o entendimento” quando apresentamos todas as nossas petições a Ele. (Filipenses 4:6-7). Com isto temos a alegria extra de sabermos que estamos a agradar e a trazer honra ao nome de Deus.

(8)  Esteja preparado para o reaparecimento da raiz da amargura. Muitos cristãos têm relatado o reaparecimento de sentimentos destrutivos, especialmente se o transgressor permanecer intransigente ou as ofensas continuarem a acontecer. De novo os desejos do velho homem a aparecer! Neste caso, repita os passos anteriores.

(9)  Utilize a situação para permitir que Deus o use conforme a imagem do Seu Filho (Romanos 8:28,29). Pecadores sem vergonha têm vindo a causar dor e sofrimento à família de Deus. Que oportunidade fantástica para retiramos o nosso Cristianismo do “armário” e deixar que este brilhe diante os homens.

Até agora ainda nada foi dito acerca da mudança de atitude do ofensor (transgressor). Se a pessoa ainda se encontrar perdida devemos procurar, de forma sábia, compartilhar as verdades do evangelho da salvação com ela. Se já for salva devemos, de forma amável, aplicar os ensinamentos que estejam coerentes com as instruções do apóstolo Paulo acerca do irmão errante. (Gálatas 6:1; II Timóteo 2:24-26; I Coríntios 5; II Coríntios 2; Hebreus 12:14-15). “O que encobre as suas transgressões, nunca prosperará, mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia” (Provérbios 28:13). Esta é uma verdade que transcende as dispensações e que é válida em todo o tempo. Se estamos a permitir que o Senhor Jesus o ame através de nós, certamente estaremos interessados na mudança do seu comportamento.

Apesar de estar fora do âmbito do presente artigo, o tema acerca da confissão de pecados tem sido muito discutido, em grande parte por causa da má aplicação do versículo que se encontra em I João 1:9. Paulo não fala de confissão nas sua epístolas, apesar de Lucas nos dar uma um relato inspirado em relação ao seu ministério (Actos 19:18). Muitos dos mandamentos de Paulo não podem ser obedecidos sem um auto julgamento por parte da pessoa que pode incluir a necessidade de confissão do pecado (II Coríntios 7:1; II Timóteo 2:21; I Coríntios 5:2, 11:32).

Quando um crente peca, devemos concordar com a Palavra de Deus que isso é errado (confessar) e abandonar esse comportamento ou atitude colocando de parte o velho homem e dando lugar ao novo homem. (Efésios 4:22-24; Colossenses 3:7-10). Em suma, confessamos os nossos pecados não para recebermos perdão mas para que possamos estar devidamente ajustados na graça e assim podermos glorificar Aquele que nos perdoou de todas as transgressões. 

Após tudo isto, temos que estar conscientes que nem todas as pessoas irão mudar. Mas nós podemos, se procurarmos viver para aquele que morreu por nós e ressuscitou de entre os mortos. Perdoar não é fácil, mas é uma boa oportunidade para que o Espírito Santo nos molde à sua semelhança. Lembremo-nos que Deus nos ordena que perdoemos, mas ao mesmo tempo nos dá a capacidade para tal fazermos. O nosso Deus nunca nos pedirá algo que nós não consigamos fazer. Se Deus pôde ressuscitar o Senhor Jesus Cristo da morte e dar de novo vida à sua alma morta, não poderá Ele também dar-nos a vitória nesta área? “Fiel é o que vos chama, o qual também o fará” (I Tessalonicenses 5:24)

(por Ken Lawson) 

Nota dos editores: 
Não cremos que o escritor deste artigo tenha sido suficientemente claro em relação ao que devemos fazer perante uma situação em que o ofensor não reconhece que cometeu ofensa contra nós. Deve nesta situação o crente conceder-lhe o perdão? A nossa convicção é que não o pode fazer verdadeiramente. O crente deverá estar disposto a perdoar, mas enquanto não houver reconhecimento do pecado e arrependimento, como pode tal perdão ser concedido ao ofensor? Mas apesar deste princípio, o crente não deve deixar o ressentimento e a raiz da amargura tomarem lugar em seu coração, e deve trazer em oração esta situação aos pés do Senhor.

Não é assim que Deus lida com o Homem? Deus tudo preparou para poder perdoar o homem, enviando o Seu Unigénito Filho ao mundo para morrer pelo pecador, e agora oferece o perdão livremente e de graça. Mas tal obra de Salvação e oferta de Perdão por parte de Deus de nada serve àquele que nunca reconhece a sua condição de pecador. O perdão só pode ser concedido àquele que reconhecer a ofensa como sendo uma verdadeira ofensa.

A Confissão de Pecados – Parte 4 Janeiro 21, 2010

Posted by David Costa in Estudos.
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Algumas Ilustrações

A culpa pode ser arrasadora. Arrasadora da nossa alegria, da nossa paz, do nosso gozo de intimidade com Deus. Se Satanás puder usar a culpa (que Deus já levou de nós), como um grilhão para restringir a nossa liberdade, para nos separar de Deus, é segura a sua estratégia de nos levar como cativos na batalha. Para ele não faz diferença se a culpa, separação e cativeiro são imaginários ou reais. Isto é muito bem descrito pelo escritor Hal Lindsey, num dos seus livros:

“Uma das tácticas dos demónios que têm mais sucesso em neutralizar os seus inimigos (os crentes), é fazê‑los insistir em todas as suas falhas. Assim que eles começam a sentir‑se culpados, em relação ao seu desempenho na vida cristã, deixam de ser uma ameaça para o programa de Satanás.

As tácticas de Satanás não têm mudado muito. Porque mudariam? Têm tido sucesso.
Não há nada de que Satanás goste mais de alcançar do que um crente entrar numa jornada de culpa.

Ao olhar para trás na minha vida, compreendo que a culpa é um manípulo a que o Diabo tenta constantemente deitar a mão para me conduzir. Uma ilustração clássica que me vem à mente é a de algo que me aconteceu enquanto estudava. Tinha um colega muito chegado. Passámos três anos de bons momentos. Depois pedi‑lhe algum dinheiro emprestado, dizendo‑lhe que lhe pagaria passadas duas semanas.

Passada uma semana, comecei a ficar um pouco preocupado pois não sabia de onde viria o dinheiro para lhe pagar. Mas ainda faltava uma semana e por isso não estava muito preocupado.

Passou‑se a segunda semana e não conseguia arranjar o dinheiro. Sentia alguma tensão, mas não puxava o assunto porque esperava que ele se tivesse esquecido do prazo.

À medida que os dias passavam, parecia que ele me olhava de uma maneira acusadora sempre que o via e fazia os possíveis para o evitar. Depois de passadas duas semanas sobre o prazo, comecei a planear o meu dia de forma a não me cruzar com ele. Foi horrível. Senti‑me muito mal por ter perdido um amigo tão bom como ele, mas por outro lado não percebia como ele não era mais compreensivo em relação ao meu problema. Não houve sequer uma palavra que fosse em relação ao dinheiro, mas eu sentia‑me tão culpado que estava certo de que ele me tinha eliminado como amigo.
Finalmente chegou o dia que eu tanto temia. Vi‑o a caminhar na minha direcção no corredor. Não tinha hipótese de me esconder! Ele encurralou‑me e disse: ‘OK, Hal, o que se passa contigo?’

‘Bem, é por causa do dinheiro que te devo’, respondi‑lhe na defensiva.
Ele riu, pôs a sua mão no meu ombro e disse: ‘Amigo, eu pensei que fosse isso. Olha, eu não mudei. Não houve qualquer mudança na consideração que tenho por ti nas últimas semanas. Se tivesses o dinheiro, sei que me pagarias. Mas o dinheiro não significa assim tanto para mim. A tua amizade significa muito mais e ainda sou teu amigo.’

Durante três semanas vivi pensando que ele me condenava. Mas isso não era verdade, pois ele era continuava a ser o meu melhor amigo.
Isto ensinou‑me uma lição inesquecível. Se pensamos que alguém tem algo contra nós, afastamo‑nos e tornamo‑nos hostis para com ele. É uma reacção inevitável, é um mecanismo de defesa.

Creio que esta é a principal razão pela qual os crentes falham na sua relação com Deus. Visto que estamos sempre cientes de que falhamos de muitas maneiras na vida cristã, é natural supormos que Deus deve estar desagradado com o nosso desempenho. Quanto mais desapontamos Deus, mais supomos que ele está zangado connosco. Isto até ao ponto que esse esfriamento da relação torna‑se tão real nas nossas mentes, que se torna quase impossível desfrutar de uma relação vital com Deus.

A verdadeira tragédia é que isto acontece apenas no interior das nossas mentes. Deus não está zangado connosco!”

Outra ilustração que poderá ajudar a tornar mais claro o nosso entendimento do perdão e da nossa relação com Deus encontra‑se no livro “Dictionary of the Gospel” (“Dicionário do Evangelho”) de Thomas Bruscha.

“Não seria incómodo se dissesses a alguém “Eu perdoo‑te” e depois, todos os dias durante o resto da sua vida, viesse dizer‑te “Perdoa‑me, por favor”?
Não só seria incómodo, como impediria o crescimento da vossa relação. Em vez de deixar o pecado para trás e criar maior intimidade no relacionamento, o pecado é trazido de novo para a conversa, uma e outra vez, impedindo tanto o crescimento assim como o gozo do relacionamento. Da mesma forma, muitas pessoas que dizem acreditar que os seus pecados estão perdoados, passam a maior parte do seu tempo de oração pedindo a Deus para as perdoar. O crescimento e o gozo são impedidos porque se recusam a acreditar que lhes foi oferecido perdão completo para todos os seus pecados.

Os meus pecados (passados, presentes e futuros) foram tirados por Deus para sempre a partir do momento em que cri. Agora, em vez de Lhe pedir perdão todos os dias, agradeço‑lhe por isso e prossigo para crescer na minha relação com o meu Salvador, o Senhor Jesus Cristo.

Se sabemos que recebemos a salvação que nos é dada através de Cristo por meio da fé apenas, e sabemos que foi pago o preço pelos nossos pecados, mas ainda vivemos carregando a culpa dos nossos pecados, ainda não chegamos a desfrutar e a alegrarmo-nos da nossa salvação. Façamos o que Paulo diz em Filipenses 3:13: ‘esquecendo-me das coisas que atrás ficam, e avançando para as que estão diante de mim…’ ”

A nossa comunhão com o nosso Senhor Jesus Cristo nunca será quebrada, mas o nosso gozo dela poderá ser, devido a uma percepção errada. Se como crentes ainda lutamos com o fardo da culpa, há boas notícias para nós. Deus é por nos; Ele não está contra nos, não importa as circunstâncias (Romanos 8:31-39). Não há nada entre cada um de nós e o Senhor Jesus Cristo que não tenha sido resolvido na Cruz. Agora cada um de nós é um filho de Deus com todos os respectivos direitos e privilégios. Todos os nossos pecados, falhas e imperfeições foram previstos por ele e completamente redimidos pelo Seu precioso sangue. Agora, qual deve ser a resposta do nosso coração a essa verdade? Será “Permaneceremos no pecado, para que a graça abunde”? ou “Graças a Deus! Esta é a coisa mais maravilhosa que já ouvi. Senhor, eu creio. Ajuda a minha incredulidade.” É esta uma resposta sincera ao Seu amor e que motiva o serviço cristão ou é uma ocasião para a carne? Bem precisamos de recordar o que a graça de Deus nos ensina na vida de fé (Tito 2:11-12).

Caro amigo perdido. Procura a culpa vergar‑te até à perdição eterna? Vem ao pé da Cruz e com os olhos da fé vê aquele que foi ferido pelas tuas transgressões e moído pelas tuas iniquidades. Se creres no teu coração que o Senhor Jesus Cristo morreu por ti e ressuscitou, a autoridade da Palavra de Deus garante que passas da morte para a vida. Como filho de Deus podes cantar com o teu coração voltado para o Céu:

“Meu mal, oh, que gozo a verdade saber!
Meu mal, em seu fruto e raiz,
Jesus sobre a cruz com Seu sangue expiou
Ele mesmo na Bíblia mo diz.”

O que deve o crente fazer quando peca?

Uma questão final deve ser respondida. Se I João 1:9 não é um versículo de restauração à comunhão, o que devem fazer os crentes quando pecam? Temos um padrão paulino que é muito mais eficaz em lidar com o pecado na vida do crente. Em primeiro lugar, devemos reconhecer que não precisamos de pecar. Em cada situação, temos à disposição poder espiritual para vencer o pecado. Deus providenciou um programa de vitória total sobre o pecado para cada membro do Corpo de Cristo. Romanos 6 é a chave do conhecimento da santificação prática. Consideremos em especial as palavras “sabei”, “considerai” e “apresentai” nos versículos 3, 11 e 13. Outras passagens de vitória são: Romanos 8:1-11, 12:1-2, 13:8-14, I Coríntios 6:9-20, 9:24-27, 10:13, 13:4-7, II Coríntios 3:17-18, 6:14-7:1, 10:4-5, 12:21, Gálatas 5:13-26, Efésios 4:17-24, 5:1-21, 6:10-18, Filipenses 2:5-11, 3:10-14, 4:5-9, Colossenses 3:1-17, I Tessalonicenses 2:13, 5:22-23, I Timóteo 3:1-13, 4:11-16, 5:2, Tito 2:6-8, 2:11-14.

Se o pecado tiver vantagem sobre nós, a razão é exclusivamente nossa, e não porque Deus nos deixou sem preparação.

No entanto, por causa da enfermidade da nossa carne, mesmo os crentes mais maduros pecam. Quando isto acontece, a primeira coisa a lembrarmo-nos é o perdão completo que possuímos em Cristo Jesus. Isto impedir‑nos‑á de entrar noutra jornada de culpa e produzirá, isto sim, gratidão, amor e estabilidade. Em vez de tal resultar numa licença para pecar, a motivação adequada (Graça de Deus) e a capacidade que nos foi dada (a Vida de Cristo) encontram-se em posição de tomar o controlo sobre nossas vidas.

Além disso, uma atitude de auto-análise deve caracterizar o crente arrependido (I Coríntios 11:31). A tristeza segundo Deus opera arrependimento (II Coríntios 7:10), mas a tristeza segundo o mundo opera a morte (Mateus 27:5, Hebreus 12:16-17). Por vezes, os anciãos da Igreja local podem ser úteis (Gálatas 6:1-2, II Timóteo 2:24-26).
Intimamente associado com o auto analise está o mandamento de Paulo de “despojar” do velho homem e “revestir” do novo homem (Romanos 8:13, 13;14, Gálatas 5;16-25, Efésios 4:22‑24, Colossenses 3:5‑10). Dizemos “não” à velha natureza que herdámos de Adão e dizemos “sim” à nova natureza que herdámos de Cristo. Não há aqui nada de complicado ou misterioso, apenas obediência ao mandamento de Deus. Embora Paulo não fale da confissão de pecados nas suas epístolas, Lucas dá‑nos um relato inspirado disso em relação ao seu ministério (Actos 19;18). Muitos dos mandamentos de Paulo não podem ser obedecidos sem auto-análise que inclui necessariamente a confissão de pecados (I Coríntios 5:2, 11:31-32, II Coríntios 7:1, II Timóteo 2:21).

Quando um crente peca, deve concordar com a Palavra de Deus que está errado (confessar) e abandonar o comportamento ou atitude, despojando‑se do velho homem e revestindo‑se do novo homem. Assim, confessamos os nossos pecados, não para receber perdão, mas porque queremos estar em harmonia com a graça e assim glorificar aquele que perdoou todos os nossos delitos. O pecado provoca desarticulação no Corpo de Cristo. Quando nos vemos “em Cristo” e compreendemos que o pecado é contrário à nossa posição exaltada como filhos de Deus, podemos tomar medidas de forma a ajustarmos a nossa conduta para sermos mais conformes à imagem de Cristo.

Finalmente, a separação é absolutamente essencial para uma vida agradável a Deus (II Coríntios 6:14 ‑7:1). Isto envolve separação mas não isolamento. Devemos separar‑nos de influências nocivas e profanas (incluindo religião mundana) e cultivar amizades com crentes com fé igualmente preciosa, que nos encorajarão a viver de forma mais piedosa.

Estes não devem ser vistos como passos isolados, mas como parte de todo um programa de vitória sobre o pecado. A Palavra de Deus actua como nosso professor, alimentador e disciplinador (II Timóteo 3:16-17, 4:2).

Em conclusão, I João 1:9 é um versículo de salvação que encaixa “que nem uma luva” com o programa da Profecia do evangelho do Reino. É o “Efésios 2:8-9” da dispensação do Reino. É errado e uma perversão grosseira usá‑lo para “perseguir” crentes sinceros ao longo das suas vidas cristãs por causa dos seus pecados, para os quais o nosso Salvador já providenciou perdão na Cruz. Deus já não perdoa pecados às prestações ou aos bocados.

À luz desta “revelação” do perdão completo, total e incondicional de pecados, o ciclo infindável de

  • pecado,
  • culpa,
  • quebra de comunhão,
  • confissão e
  • perdão

acaba por tornar‑se numa tarefa rotineira para a carne. Prende a pessoa a um sistema de desempenho pessoal (obras) e desonra o Cristo da Cruz que morreu para nos libertar dele.

Somos agora membros de uma Nova Criação em Cristo e vivemos num estado de perdão perpétuo. Aqueles que fizeram a transição da Lei para a presente verdade das epístolas de Paulo nunca terminarão uma oração dizendo “… e perdoa os nossos pecados por amor de Jesus”.

Foi grande a minha alegria quando me tornei crente em Jesus Cristo e soube que os meus pecados não mais poderiam separar‑me de Deus e de um lar no céu. Mas ainda maior se tornou a minha alegria quando comecei a compreender que todos os meus pecados (incluindo aqueles que cometi depois de pertencer à família de Deus) foram perdoados por amor de Jesus. Não consideramos apropriado curvar agora nossas cabeças, louvá‑lO e agradecer‑Lhe pela Sua graça? E estas coisas vos escrevemos para que o vosso gozo seja completo. Possa o Deus de toda a Graça conduzir‑nos da dúvida e medo até ao gozo e paz de crer para louvor da Sua glória. Amén.

“Eu sei que tudo quanto Deus faz durará eternamente; nada se lhe deve acrescentar, e nada se lhe deve tirar; e isto faz Deus para que haja temor diante dEle” (Eclesiastes 3:14).

(por Ken Lawson)

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