Verdadeira Espiritualidade – Capítulo 3 Fevereiro 23, 2011
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Novidade de Vida – Ressurreição com Cristo
“De sorte que fomos sepultados com Ele pelo baptismo na morte; para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” (Romanos 6:4).
Comparação entre o novo nascimento e a novidade de vida
Embora o Velho Testamento empregue a figura da ressurreição, relacionando-a com a conversão de Israel e futuras bênçãos na terra (por exemplo, Ezequiel 37:1-4), esta figura, tal como a do novo nascimento, é usada num sentido mais pleno e profundo na grande revelação dada a Paulo sobre Cristo e os membros do Seu Corpo.
Além disso, a doutrina da nossa ressurreição com Cristo para uma nova vida é um progresso relativamente ao que mesmo Paulo, pelo Espírito, tem a dizer sobre o novo nascimento.
O nascimento fala apenas de começo; não contempla o passado. Quando Nicodemos perguntou: “Pode (um homem) tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?”, o nosso Senhor rapidamente explicou que ao usar a expressão “nascer de novo” Ele não queria dizer nascer de novo da mesma maneira, mas nascer de novo de maneira diferente. Deus não se encarrega de melhorar a velha natureza ou de induzir o “velho homem” a começar tudo de novo porque, como vimos, “o que é nascido da carne é carne” e “os que estão na carne não podem agradar a Deus” (João 3:6; Romanos 8:8). Por muito intelectual, culta ou religiosa que “a carne” possa ser, ela não deixa de ter sido gerada por alguém caído e portanto não pode agradar a Deus. Assim, “o que é nascido da carne” precisa não apenas de nascer de novo e começar de novo; precisa que uma natureza nova e diferente lhe seja concedida; uma vida completamente nova, gerada do Espírito Santo. Esta nova vida é independente e distinta daquela que foi gerada com o nascimento natural; na verdade, é-lhe contrária. O conflito que daqui resulta será abordado num capítulo posterior. Aqui enfatizamos apenas que o novo nascimento fala apenas de um novo começo e não contempla o passado.
O novo nascimento é a contrapartida espiritual do nascimento natural. Não é costume falarmos do passado de um recém-nascido. Como indivíduo, ele não tem passado. Ele mal começou a abrir os seus olhos e olhar à sua volta, sem conseguir focar a sua visão num objecto em particular. Deste modo, o novo nascimento fala do começo de uma nova vida.
Avançando um pouco mais, verificamos que recebemos esta nova vida pela identificação com Cristo na Sua morte, sepultamento e ressurreição, e que a doutrina da ressurreição com Cristo contempla o passado. Ressurreição pressupõe uma vida anterior e morte. A identidade do indivíduo é preservada em todo o processo. O indivíduo que viveu um determinado tipo de vida, morreu e é agora ressuscitado para viver uma nova vida. Agora, ressurrecto de entre os mortos, ele é a mesma pessoa, mas não é mais o mesmo. Assim o apóstolo Paulo pôde dizer: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20).
É verdade que Efésios 2:1 ensina que estávamos “mortos em ofensas e pecados” antes de termos sido identificados com Cristo na Sua morte, mas isso não muda a situação, porque nessa mesma passagem lemos que “noutro tempo” andámos “segundo o curso deste mundo”… Tal como a viúva descrita em I Timóteo 5, os descrentes vivendo estão mortos, e podem ser vivificados da sua morte em ofensas e pecados apenas pela identificação com Cristo na Sua morte e ressurreição, pela simples razão de que Ele veio para Se identificar connosco na nossa morte para nos trazer com Ele na vida ressurrecta.
A ressurreição do crente com Cristo
Mas como pode alguém identificar-se com Cristo na Sua morte, sepultamento e ressurreição? Como pode alguém morrer para a velha vida e ressuscitar para andar em novidade de vida?
A resposta é: pela graça por meio da fé. Aquilo que Cristo fez por nós pela graça, devemos aceitar e apropriar-nos pela fé. Ele, por um acto de infinita graça, identificou-Se connosco, morrendo a nossa morte. Nós, por um acto simples de fé, devemos-nos identificar com Ele, confessando: “Eu sou o pecador. É a minha morte que Ele está a morrer. Aceito a Sua graça e entrego-me a Ele para salvação.” No momento em que isto é feito, tornamo-nos um com o Cristo crucificado, mas vivo para sempre.
É muito importante notar que o Calvário é sempre o ponto de encontro, o local onde a identificação é realizada. Nenhum homem foi feito um com Cristo sem ter sido feito um com Ele na Sua morte. “Ou não sabeis que todos quantos fomos baptizados em Jesus Cristo fomos baptizados na sua morte?” (Romanos 6:3). E é por esta razão que somos sepultados com Cristo, por esse mesmo baptismo, e ressuscitados com Ele para andar em novidade de vida (v. 4).
Que tragédia que a verdade sublime desta passagem tenha sido obscurecida com a injecção nela de um cerimonial de baptismo na água! Como se o baptismo na água pudesse trazer o crente de hoje a alguma relação com Cristo! Como se pudesse verdadeiramente sepultar o velho homem e ajudar-nos a revestirmo-nos do novo! Aqueles que caíram neste erro, pegaram numa cerimónia que nunca se relacionou com sepultamento, mas apenas de lavagens (Actos 22:16, entre outras passagens), e confundiram-na com o nosso verdadeiro baptismo pelo Espírito na morte, sepultamento e ressurreição de Cristo. Não é de admirar que o apóstolo exclame, em relação a este assunto: “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua… Estais perfeitos nEle… No Qual também estais circuncidados com a circuncisão… Sepultados com Ele no baptismo, nEle também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que O ressuscitou dos mortos” (Colossenses 2:8-12).
Quão perfeito e maravilhoso é o plano divino! Pela graça, Cristo morreu a nossa morte. Pela fé, reconhecemos que era nossa a morte que Ele morreu e confiamos nisso para sermos salvos. E ali na Cruz tornamo-nos um. A resposta que a fé dá à graça uniu-nos de forma eterna e inseparável.
A realidade da nossa ressurreição com Cristo
O aspecto posicional desta verdade é claramente a mais importante. Lemos que o nosso Senhor “por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” (Romanos 4:25). Por outras palavras, a Sua morte pagou todo a punição pelos nossos pecados e adquiriu para nós plena justificação. Portanto, Ele ressuscitou dos mortos. E como a Sua morte era nossa (a punição pelos nossos pecados) e nos apropriámos disso pela fé, a justificação e vida ressurrecta também é nossa. Tal como reconhecemos a morte de Cristo como nossa, também Deus nos considera um com Ele, como já tendo morrido pelos pecados e para o pecado e tendo ressuscitado para andarmos em novidade de vida.
Este aspecto posicional da nossa identificação com Cristo na sua morte, sepultamento e ressurreição está longe de ser apenas mera teoria. É um facto. É uma realidade vital. A justa condenação do pecado por parte de Deus é real. O sofrimento de Cristo e a sua morte por nós é real. E tivemos de exercer uma fé real na obra consumada de Cristo antes de Deus nos justificar e declarar-nos justos, considerando-nos como já tendo morrido pelos pecados e para o pecado. É com base nesta transacção que o apóstolo argumenta que não temos o direito de permanecer no pecado. Os pecados, que tanta tendência temos para cometer depois de termos sido justificados, pertencem à velha vida e não à nova que temos em Cristo. Portanto não temos o direito de permanecer no pecado. Paulo pergunta: “Nós que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” (Romanos 6:2). E referindo-se ao facto de que Cristo “uma vez morreu para o pecado”, mas “vive para Deus”, continua:
“Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus, nosso Senhor. Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências; nem tão-pouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça. Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça” (Romanos 6:11-14).
Mas as verdades posicionais que temos considerado são apenas parte da doutrina global do nosso baptismo em Cristo, porque embora estas realidades posicionais afectem a nossa experiência quando nos apropriamos delas pela fé, o nosso baptismo em Cristo é um assunto muito prático.
Quando o pecador reconhece a morte de Cristo como sua e confia em Cristo para salvação, não só ele recebe uma posição perante Deus como tendo sido crucificado, sepultado e ressuscitado com Cristo, mas também o Espírito sela a transacção, unindo-o numa relação viva com Cristo. Assim, o crente torna-se de facto participante da Vida ressurrecta de Cristo. Está aqui em consideração mais do que a justificação; há também a necessidade e a transmissão de vida, e esta vida, embora espiritual na sua natureza, não é por isso menos real.
Não foi a morte de Cristo real? Não foi a Sua morte realmente a nossa morte? Tão real é então a nossa vida ressurrecta! Em primeiro lugar, quando aceitamos a morte de Cristo como nossa e somos identificados com Ele, morremos de facto para a velha vida, no sentido em que não podemos mais voltar à condição de perdidos. Esse estado é para sempre passado. Além disso, agora tornamo-nos participantes da vida ressurrecta de Cristo, a qual não podemos perder (Romanos 6:9), visto que é a Sua vida. Tal como o Pai nos ressuscitou dos mortos do ponto de vista posicional, também o Espírito nos ressuscitou espiritualmente, no sentido em que de facto Ele nos transmitiu vida espiritual. Agora, é connosco apropriarmo-nos e desfrutarmos da plenitude dessa vida pela fé.
Em Romanos 8:2, Paulo fala desta transmissão de vida pelo Espírito como uma lei que opera em cada crente: “Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte.”
E então o apóstolo continua a mostrar que aquilo que a lei de Moisés “não podia fazer” por causa do carácter “da carne”, Deus enviou o Seu próprio Filho para cumprir: “Para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Romanos 8:4).
Assim, para além da razão moral pela qual não devemos permanecer no pecado, há também uma razão muito prática: a nova vida que o Espírito gerou dentro de nós. É isto que o apóstolo enfatiza em Romanos 8:11-12, quando diz:
“E, se o Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dos mortos ressuscitou a Cristo também vivificará o vosso corpo mortal, pelo seu Espírito que em vós habita. De maneira que, irmãos, somos devedores, não à carne para viver segundo a carne.”
Alguns supõe que esta passagem se refere à futura ressurreição dos mortos, mas convém notar que o Espírito que em nós habita vivifica os nossos corpos mortais (e não mortos). Assim, somos devedores, não ao pecado, mas a Deus. Não nos podemos desculpar com expressões como “Afinal, ainda sou humano”, ou “O espírito está pronto, mas a carne é fraca”, porque temos o Espírito Santo em nós para fortalecer os nossos corpos mortais e ajudar-nos a andar em novidade de vida. No entanto, os aspectos posicionais e práticos da nossa ressurreição com Cristo estão intimamente ligados. Efésios 2:4-6 parece referir-se a ambos:
“Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo Seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com Ele, e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus.”
Assim, a posição do crente em Cristo é já no Céu, e pela fé e pelo poder do Espírito, ele pode ocupar essa posição e gozar na prática essas bênçãos. É por isso que Paulo abre a epístola aos Efésios com estas palavras de louvor:
“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Efésios 1:3).
E é por isso que ele desafia os Colossenses:
“Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à dextra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima e não nas que são da terra; porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Colossenses 3:1-3).
(por Cornelius R. Stam)
Verdadeira Espiritualidade – Cap. 2 – O primeiro passo para a verdadeira espiritualidade Abril 21, 2010
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A necessidade de uma nova natureza
Aquilo de que o homem precisa, em primeiro lugar, para se tornar verdadeiramente espiritual é, então, uma nova natureza, gerada do Espírito de Deus. O nosso Senhor deixou isso bem claro quando disse a Nicodemos:
“O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (João 3:6).
Novamente nesta passagem o termo carne não pode referir-se meramente ao corpo físico, porque no nascimento são gerados não só um corpo, mas também um espírito e uma alma. Assim, aqui a carne refere-se à natureza adâmica decaída.
Da mesma forma, aqui o espírito que é nascido do Espírito não pode ser o próprio espírito do homem, porque já vimos que o homem natural no seu todo (corpo, alma e espírito) é “nascido da carne”. A ideia principal desta passagem de João 3 é que por esse motivo os homens precisam de nascer (ou ser gerados) de novo, desta vez “do Espírito”, isto é, do Espírito de Deus (versículos 6 a 8).
Todavia, há tantos aspectos relacionados com a comunicação de vida espiritual ao crente, em especial no que diz respeito à presente dispensação, que Deus usa três metáforas para os descrever: nascimento, ressurreição e criação. Nenhuma delas em separado poderia de forma apresentar a ideia de forma adequada, pelo que as três são necessárias.
Comecemos, então, como a figura elementar do novo nascimento.
O novo nascimento
“Jesus respondeu, e disse-lhe: ‘Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus’ ” (João 3:3).
Não é de admirar que os perdidos não vejam a sua necessidade do novo nascimento, não fora o poder do Espírito Santo que os convence do pecado. No entanto, mesmo entre aqueles que já nasceram de novo, há aqueles que defendem que a figura do novo nascimento aplica-se apenas a Israel e não àqueles que vivem sob a presente dispensação. Eles baseiam a sua conclusão na premissa de que o nosso Senhor falava a um judeu sobre os judeus sobre o novo nascimento e que Paulo não menciona o assunto nas suas epístolas. No entanto, esta premissa é errada, bem como as conclusões daí retiradas.
Em primeiro lugar, devemos notar que o nosso Senhor falou a Nicodemos em termos gerais sobre ver e entrar no “Reino de Deus”. Ele não usou o termo mais específico de “Reino dos Céus”, que está relacionado com o estabelecimento do Reino de Deus na terra (ver Daniel 2:44; Mateus 5:3-5, 6:10). Isto porque Ele se referia a algo que envolvia mais do que a entrada no reino milenial.
O facto de que os crentes de hoje entrarão no Reino de Deus tal como os crentes de outras dispensações é bem claro nas epístolas de Paulo (ver Romanos 14:17; I Coríntios 4:20, 6:9-10, 15:50; Gálatas 5:21; Efésios 5:5; Colossenses 4:11; I Tessalonicenses 2:12; II Tessalonicenses 1:5). Deve também notar-se que o nosso Senhor falou em termos gerais quando ele disse que era necessário para o homem nascer de novo para entrar no Reino de Deus. Não temos o direito de partir do princípio que o nosso Senhor queria dizer que era necessário apenas para o judeu nascer de novo para entrar no Reino dos Céus, quando Ele disse que era necessário nascer de novo para entrar no Reino dos Céus.
Se alguém apresentar a objecção de que o Senhor deveria ter em mente apenas os judeus, visto que na altura estava a ministrar apenas aos judeus e aqui dirigia-se a um judeu, deveremos insistir que o diálogo do nosso Senhor com este judeu eminente está registado aqui especialmente para mostrar que todos os homens em todos os tempos precisam de nascer de novo para entrar no Reino de Deus.
Uma infeliz divisão de capítulos tem ofuscado este facto importante, porque o episódio com Nicodemos em João 3 é uma demonstração de uma afirmação importante feita no final do capítulo 2. Citamos os dois juntos para mostrar a ligação.
“E, estando Ele em Jerusalém pela Páscoa, durante a festa, muitos, vendo os sinais que fazia, creram no Seu Nome. Mas o mesmo Jesus não confiava neles, porque a todos conhecia; E não necessitava de que alguém testificasse do homem, porque Ele bem sabia o que havia no homem. E havia entre os fariseus um homem, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus. Este foi ter de noite com Jesus…” (João 2:23-3:2).
Para demonstrar a necessidade universal de regeneração, Deus escolheu esta personagem ilustre: um príncipe dos judeus, altamente intelectual, rigorosamente moral, profundamente religioso e absolutamente sincero na sua investigação sobre Cristo. Deve ter sido verdadeiramente notável: um respeitável fariseu vindo a um jovem de 30 anos, tratando-O respeitosamente por “Rabi” e reconhecendo-O logo à partida como um “Mestre, vindo de Deus”.
Ainda assim este era um daqueles em quem o Senhor não confiava; um daqueles que creu nEle por causa dos seus milagres. As próprias palavras de Nicodemos o mostram: “Bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que Tu fazes, se Deus não for com ele” (João 3:2).
Mas isto não salva (nem alguma vez salvou) o homem. Assim, não fazendo grande caso dos elogios e indo logo directo ao assunto, o Senhor mostra-lhe qual a sua necessidade, sua e de todo o homem: uma nova vida. Não importa o seu intelecto, moralidade ou religião, o homem precisa de nascer de novo, nascer de Deus.
Mas, e quanto ao argumento de que a frase “nascer de novo” não se encontra nas epístolas de Paulo? Em primeiro lugar, argumentos baseados no silêncio são muitas vezes traiçoeiros e, por eles mesmos, não provam nada. Mesmo que as epístolas de Paulo não se referissem ao novo nascimento, o novo nascimento continuaria a ser uma necessidade básica para a entrada no Reino de Deus de acordo com as palavras do nosso Senhor. Em segundo lugar, apesar de a frase exacta “nascer de novo” não ocorrer nas epístolas de Paulo, a doutrina do novo nascimento é ali ensinada tão claramente como em qualquer outra parte da Bíblia.
Ela é ensinada por clara implicação. Referindo-se aos crentes, o apóstolo usa as palavras nepios (bebé, ou pequena criança) e huios (filho adulto). Além disso, ele anseia pelo crescimento espiritual dos crentes. É claro que, posicionalmente, todos os crentes são vistos como filhos (adultos) de Deus a partir do momento em que são salvos, com todos os direitos e privilégios de filhos (Gálatas 4:1-7). Mas nestes estudos não estamos a tratar propriamente de posição, mas sim de experiência: a comunicação de vida espiritual ao pecador e gozo dela pelo santo.
A posição de justiça perante Deus, a qual Cristo comprou para todos os homens, de nada serve ao pecador até que seja aceite pela fé. Da mesma forma, a posição de filhos que é nossa em Cristo, bem como as bênçãos que a acompanham, são apropriadas e gozadas apenas pela fé. Por isso, o apóstolo repreendeu os coríntios pela sua carnalidade, chamando-os de meninos, que precisavam de ser alimentados com leite porque não podiam ainda digerir alimento sólido (I Coríntios 3:1-2). Também os crentes hebreus tiveram de ser repreendidos porque continuavam meninos espirituais quando, pelo tempo em que já tinham de salvos, deveriam já ser mestres da Palavra (Hebreus 5:12-14). Da mesma forma, é-nos dito em Efésios 4:12-15 que Deus deu à Igreja apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e ensinadores, para “o aperfeiçoamento dos santos… para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina… antes, seguindo a verdade em amor”.
Além disso, Paulo escreve em I Coríntios 16:13: “Vigiai, estai firmes na fé; portai-vos varonilmente, e fortalecei-vos.”
Certamente o apóstolo não se refere, nestas passagens, à infância, crescimento e maturidade do homem natural. Ele refere-se à nova vida que é gerada do Espírito.
As palavras homens, filhos e meninos, usados relativamente à vida espiritual, implicam claramente nascimento espiritual. O homem que se porta varonilmente, a dada altura da sua experiência espiritual, alcançou um lugar de maturidade espiritual. Antes disso era um menino. E isso, por sua vez, implica que ele nasceu, porque houve um tempo específico em que o bebé veio a existir.
Além de tudo isto, há duas passagens nas epístolas de Paulo que ensinam o novo nascimento de forma clara. A primeira é Romanos 8:16-17, onde o apóstolo usa a palavra teknon: filhos (nascidos).
“O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos [nascidos] de Deus. E, se nós somos filhos [nascidos], somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo…”
Poderá algo prestar um testemunho mais claro do facto de que os crentes debaixo da dispensação da graça são nascidos de novo? Certamente não nos tornámos filhos (nascidos) de Deus pelo nascimento natural.
A outra passagem é Tito 3:5, onde lemos:
“Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a Sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração [Em grego, palingenesia] e da renovação do Espírito Santo.”
A maior parte das versões do Novo Testamento que existem traduzem esta palavra palingenesia como regeneração, enquanto outras traduzem como novo nascimento ou renascimento, sendo que nenhuma delas se afasta da ideia de novo nascimento.
Devemos também notar o facto de que, na natureza do caso, os homens nascidos de Adão precisam de nascer ou ser gerados de novo para serem salvos. Uma vida nova e diferente tem de ser transmitida e iniciada. A vida que o crente recebe é a vida de Cristo, vida eterna, e não tem começo, no sentido de que, em Cristo, o crente é imediatamente considerado adulto. Mas esta é uma verdade mais profunda que deverá ser considerada mais tarde. A vida espiritual tem um início na experiência de todo o crente, e a necessidade disto é tão enfatizada nas epístolas de Paulo como nas palavras de Cristo na Terra. Tal como o Senhor explicou a Nicodemos o facto de que o homem no seu melhor não pode entrar no reino de Deus (visto que “o que é nascido da carne é carne”), também Paulo, pelo Espírito, insiste:
“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (I Coríntios 15:50).
Deste modo, embora seja verdade que o nosso Senhor ensinou o novo nascimento durante o Seu ministério terreno relativo a Israel, não resulta daqui que este assunto diga respeito unicamente à nação de Israel. O que o nosso Senhor disse relaciona-se com a humanidade, sem relação com a raça ou época.
Como pode o pecador nascer de novo
A questão de como a vida do Espírito é gerada e recebida pelo crente é, claramente, de vital importância para todo o filho de Adão. E novamente aqui, embora o grande mistério revelado pelo Senhor glorificado através de Paulo é um progresso relativamente aos ensinamentos elementares sobre o assunto por parte de Cristo no seu ministério terreno e dos doze apóstolos, de maneira nenhuma os contradiz ou se afasta deles. O pecador nasce de novo e recebe a vida do Espírito quando o Espírito implanta a palavra no seu coração, a qual ele aceita pela fé:
“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade…” (Tiago 1:18).
“Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre.” (I Pedro 1:23).
“Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?” (Gálatas 3:2).
É verdade que aqui o apóstolo argumenta particularmente em relação à necessidade de um novo corpo para a entrada física na presença de Deus, mas não será que isto fortalece o argumento de que o homem no seu estado natural é inapto para a presença de Deus?
“De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus” (Romanos 10:17).
Mais especificamente, o pecador nasce de novo e recebe a vida do Espírito quando crê na Palavra de Deus e crê no Seu Filho para salvação:
“Mas, a todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no Seu nome;” (João 1:12).
De facto, o apóstolo Paulo designa a vida em cristo como a lei do Espírito quando diz:
“Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte.” (Romanos 8:2).
Assim, o crente em Cristo não só é justificado perante Deus, como também recebe a nova vida, porque é uma lei inflexível e imutável que o Espírito dá vida àqueles que confiam em Cristo para salvação.
Somos salvos pela fé na Palavra. Crendo na Palavra, o Espírito transmite vida. Além disso, à medida que crescemos em conhecimento e fé na Palavra, crescemos em maturidade espiritual. É a isso que Pedro se refere:
“Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo” (I Pedro 2:2).
É também a isto que Paulo se refere em Efésios 4:14-15:
“Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina… Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.”
O novo nascimento e a revelação dada a Paulo
Como vimos, a revelação dada a Paulo leva-nos a verdades mais elevadas e mais gloriosas que se relacionam tanto com a nossa posição como com a nossa experiência como crentes. De facto, o novo nascimento, que ocorre no crente hoje, está directamente relacionada com o baptismo divino através do qual Cristo e o crente são feitos um.
Como é que Cristo foi feito um com a humanidade? Ele foi baptizado na raça humana. Ele não veio meramente para habitar com os homens, mas tornou-se homem. Como? Nascendo na raça humana. E foi um nascimento natural? Não, foi um nascimento sobrenatural. Ele foi gerado pelo Espírito Santo. Mas o Seu baptismo na raça humana não terminou com o Seu nascimento e vida aqui na Terra. Tão completamente Ele se tornou um com o homem, que Ele até morreu a morte do homem na cruz maldita. Ele foi baptizado na morte (Lucas 12:50) e, como sabemos agora, a nossa morte.
E é aí, na Cruz, que nos tornamos um com Ele. No momento em que alguém olha pela fé para o calvário, reconhecendo: “Eu sou o pecador. Cristo está a morrer a minha morte.” Nesse momento ele torna-se um com Cristo, baptizado no próprio Cristo crucificado e ressuscitado (Romanos 6:3; Gálatas 3:26-27), não apenas posicionalmente, aos olhos de Deus, mas na sua experiência, pelo Espírito. E assim uma nova vida é gerada. Por um nascimento natural? Não, por um nascimento sobrenatural.
Aqui a figura do nascimento une-se à da ressurreição, porque a vida que o Espírito transmite é a vida do Cristo ressurrecto em nós.
(por Cornelius R. Stam)
Verdadeira Espiritualidade – Cap. 1 – A Natureza do Homem Janeiro 30, 2010
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É bem possível que enquanto crianças pensássemos que os nossos pais sabiam todas as coisas, se bem que tal não é verdade. Mas nós que somos crentes devemos estar gratos por termos um Pai celestial que sabe todas as coisas e que pela sua graça há muitas coisas, as mais importantes, que Ele nos deu para que as conheçamos muito bem. Ainda assim, há muitas coisas que não sabemos, e isto é particularmente verdade em relação à nossa própria natureza e constituição. Esta questão é tão complexa, que nunca terminaremos o estudo dela aqui na Terra. Bem escreveu David em relação a este assunto:
“Eu Te louvarei, porque de um modo terrível e tão maravilhoso fui formado; maravilhosas são as Tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.” (Salmos 139:14).
Há, no entanto, algumas coisas que Deus nos diz em relação à nossa natureza e constituição, e destas devemos possuir um conhecimento básico, se queremos compreender o que é ser verdadeiramente espiritual, e isto no sentido bíblico do termo. Comecemos por considerar, de forma breve, a natureza do homem.
Corpo, alma e espírito
O homem possui um corpo com olhos, ouvidos, nariz, língua, dedos e outros membros. Mas ele é mais do que um corpo. Há dentro dele aquilo que dá vida a estes membros e fazem com que possamos ver, ouvir, cheirar, saborear e sentir. A isto chamamos alma (em hebraico, nephesh; em grego, psychē). Pode ser definida como: o sopro da vida; a força vital que anima o corpo e que se evidencia na respiração; aquilo pelo qual o corpo vive e sente. O corpo do homem foi feito a partir do pó da terra, mas para lhe transmitir vida foi necessário que Deus inspirasse nele o sopro da vida.
“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.” (Génesis 2:7).
Assim há pelo menos duas partes da constituição do homem, uma material e outra imaterial. Mas há ainda uma outra parte, também imaterial, chamada espírito (em hebraico, ruwach; em grego, pneuma).
A alma e o espírito, sendo ambos imateriais, têm algumas funções comuns atribuídas nas Escrituras e são por vezes usados alternadamente, mas não se conclui daqui que eles sejam o mesmo, visto que encontramos distinções entre elas em muitas passagens bíblicas.
Lemos na epístola aos Hebreus:
“Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e PENETRA ATÉ À DIVISÃO DA ALMA E DO ESPÍRITO…” (Hebreus 4:12).
Paulo escreveu aos Coríntios sobre o corpo do crente:
“Semeia-se corpo natural [em grego, psychikos, palavra derivada de psychē], ressuscitará corpo espiritual” (I Coríntios 15:44).
Também na epístola de Judas é clara a distinção entre alma e espírito:
“Estes são os que causam divisões, sensuais [em grego, psychikos], que NÃO têm o Espírito [pneuma]” (Judas 19).
Pneuma é normalmente definida como a parte racional do homem e pela qual ele alcança e compreende as coisas as coisas divinas e eternas e sobre a qual o Espírito de Deus exerce a Sua influência.
As passagens anteriores também refutam as seguintes ideias:
- o espírito no corpo faz a alma
- o espírito e o corpo juntos fazem a alma
- o homem não tem alma mas sim é alma
- quando o espírito deixa o corpo deixa de haver alma.
De facto, embora o homem tenha sido “feito alma vivente”, a alma é mesmo assim referida nas Escrituras como sendo distinta do corpo, bem como do espírito, porque a Palavra de Deus não só “penetra até à divisão da alma e do espírito” (Hebreus 4:12) como também faz a divisão entre a alma e o corpo, porque em Mateus 10:28 temos as seguintes palavras do Senhor Jesus Cristo:
“E não temais os que matam o CORPO e não podem matar a alma; temei antes Aquele que pode fazer perecer no inferno A ALMA E O CORPO” (Mateus 10:28).
Como veremos, a alma é a sede da existência consciente do homem e por isso ele é chamado de alma (Génesis 2:7 e Actos 2:41, entre outras passagens), mas visto que ele é mais do que uma alma, uma vez que é também corpo e espírito, lemos nas Escrituras que ele tem uma alma:
“Mas a sua carne nele tem dores; e A SUA ALMA NELE lamenta” (Job 14:22).
“… porquanto derramou A SUA ALMA na morte…” (Isaías 53:12).
“… A SUA ALMA NÃO FOI DEIXADA NO INFERNO, nem a Sua carne viu a corrupção” (Actos 2:31).
Deste modo, o Apóstolo Paulo escreve aos Tessalonicenses:
“… e TODO O VOSSO ESPÍRITO, E ALMA, E CORPO, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (I Tessalonicenses 5:23).
Concordamos, assim, com a posição amplamente divulgada de que a consciência do mundo pertence ao corpo (Mateus 6:22; I Coríntios 12:14-17), a consciência de si mesmo pertence à alma (Mateus 16:26; I Pedro 1:9) e a consciência de Deus pertence ao espírito (Romanos 1:9, 8:16). No entanto, devemos ter em conta que estes três estão intimamente relacionados, pois o corpo, por exemplo, tem consciência do mundo apenas se a alma lhe der consciência, enquanto a alma e o espírito estão relacionados de forma semelhante. Certamente é verdade que o corpo, sendo físico, está mais relacionado com a terra e com as coisas materiais (Génesis 3:19) e que o espírito, antes da queda, relacionava-se mais com Deus e é ainda sobre ele que o Espírito Santo exerce a Sua influência (Efésios 1:17, 4:23), enquanto que a alma é o intermediário entre os dois, sendo a sede dos sentimentos, emoções e decisões, unindo o corpo e o espírito (Génesis 2:7; Marcos 14:34; João 11:33).
Alma, a sede da existência do homem
Embora pareça evidente, com base em Génesis 2:7, que a alma é a sede da existência do homem desde a criação, também é evidente que antes da queda a alma do homem era sujeita ao seu espírito, o qual por sua vez estava em completa harmonia com o Espírito de Deus. No entanto, isto mudou com a queda. O enganador convenceu o homem de que, se se fizesse valer dos seus próprios “direitos”, poderia ser “como Deus”. O homem creu na mentira e como resultado foi dominado por ela. A consciência de si mesmo deu lugar à sua própria vontade e aos próprios interesses. Todo o ser humano tornou-se por natureza um deus para si mesmo. Com a queda o homem tornou-se num ser centrado na alma, passando a sua alma caída, a sua própria importância e os seus próprios interesses a influenciar e a dominar tanto o seu corpo como o seu espírito. Claro que isto teve como consequência a inimizade contra Deus e a separação de Deus. Numa palavra, a morte.
É nosso objectivo ver como Deus, pela graça, oferece libertação desta condição, de forma a que os pecadores mortos em seus pecados possam tornar-se em santos vivos e espirituais.
Espiritualidade bíblica
O que se quer dizer com expressões como “o que é espiritual” e “vós, que sois espirituais” que lemos nas Escrituras? O que é verdadeira espiritualidade no sentido bíblico?
Antes de responder a esta pergunta, devemos referir que a verdadeira espiritualidade não consiste meramente no domínio da vida do homem pelo seu espírito (e não pela sua alma ou pelo seu corpo), porque com a entrada do pecado todo o ser do homem foi “separado da vida de Deus” (Efésios 4:17-19), tornando-se o seu espírito, alma e corpo caídos. Além disso, como vimos, a alma pervertida, em vez de ser a sede da simples consciência de si mesmo, tornou-se na sede da sua própria importância e dos seus próprios interesses, o que teve um efeito devastador no seu espírito, tornando todo o homem interior em inimizade com Deus (Romanos 8:7; Colossenses 1:21).
Uma verificação do uso bíblico da palavra pneuma afastará rapidamente a noção de que o espírito em si mesmo é bom. Várias vezes lemos nas Escrituras acerca de espíritos “imundos” e “maus” (Marcos 1:23 e Lucas 7:21, entre outras). Em I Pedro 3:19-20 lemos acerca dos “espíritos em prisão”, que foram ali lançados por causa da sua desobediência a Deus nos dias de Noé. O próprio Satanás é, como sabemos, o “espírito que agora opera nos filhos da desobediência” (Efésios 2:2) e os crentes são agora avisados explicitamente que a sua luta não é contra a carne e o sangue, mas sim contra os espíritos malignos nos lugares celestiais (Efésios 6:12). Na verdade, o facto de que somos chamados a purificarmo-nos de toda “a imundícia da carne [corpo] e do espírito” (II Coríntios 7:1) e que alguns procuram ser santos, “tanto no corpo como no espírito” (I Coríntios 7:34), indica claramente que o espírito do homem não ficou imaculado com a queda.
Por isso não é suficiente que as nossas vidas sejam dominadas pelos nossos espíritos. O homem no seu todo (espírito, alma e corpo) deve estar dominado pelo Espírito de Deus. Homens espirituais, no sentido bíblico da palavra, são aqueles que têm “o Espírito que vem de Deus” (I Coríntios 2:12), apreciam e são sensíveis às “coisas do Espírito de Deus” (I Coríntios 2:14), são “guiados pelo Espírito de Deus” (Romanos 8:14) e assim produzem “o fruto do Espírito” (Gálatas 5:22).
Em I Coríntios 2:11 fica claro que a espiritualidade bíblica tem que ver com a actuação do Espírito de Deus no crente. Nessa passagem o Apóstolo Paulo nota que, tal como ninguém poderia entender “as coisas do homem” se não fosse “o espírito do homem, que nele está”, assim ninguém pode entender “as coisas de Deus” se não for “o Espírito de Deus”.
O simples facto de o homem caído ter espírito não o ajuda a compreender Deus ou a ser mais como Ele. Este facto devia ser tomado em atenção por aqueles que procuram agradar a Deus, tentando constantemente, e em vão, alcançar um “estado mais elevado”.
O espírito e a carne
Em relação a isto, as epístolas de Paulo têm muito a dizer sobre a carne (no grego, sarx) num sentido ético. O termo “carne” não se refere ao mero corpo físico, nem mesmo ao corpo e à alma, mas antes à natureza adâmica e caída do homem, a qual afecta todo o seu ser, mesmo o seu espírito.
Diz o apóstolo que na carne “não habita bem algum” (Romanos 7:18). Ele chama-a de “carne do pecado” (Romanos 8:3). Ele diz-nos que “a carne cobiça contra o espírito” (Gálatas 5:17), que ela busca “ocasião” para o mal (Gálatas 5:13) e que “as obras da carne” são todas más (Gálatas 5:19-21).
É importante que compreendamos o que significa o termo “carne” em passagens como estas. Não é o corpo físico, nem o corpo e a alma, mas a velha natureza na sua operação no homem no seu todo.
Muitas vezes a natureza caída do homem exprime-se na sua entrega às paixões sensuais, mas por outro lado também se pode exprimir na sua tentativa de controlar essas paixões. O “velho homem” pode parecer moral e íntegro e até muito religioso. Ele pode cumprir fielmente jejuns, festas e dias santos. Ele pode esforçar-se por manter o seu corpo sob controlo, disciplinando-se pela participação em práticas de mortificação dos sentidos “com pretexto de humildade”, mas estará de facto a desagradar ainda mais a Deus porque está “debalde inchado na sua carnal compreensão”, supondo que está a fazer algo de bom dele mesmo. E no entanto as “ordenanças” com as quais o “carregam” e mesmo a “disciplina do corpo” “não são de valor algum senão para a satisfação da carne” (Colossenses 2:18-23) pela simples razão de que todos estes esforços representam apenas uma tentativa da carne para se tornar melhor.
Não é de admirar que não só lemos que “o que semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção” (Gálatas 6:8), mas também que mesmo “a inclinação da carne é morte… porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” (Romanos 8:6,7).
“Portanto, os que estão na carne [isto é, vivem sob o domínio da velha natureza] não podem agradar a Deus” (Romanos 8:8). É importante lembrar isto. Por muito educado, culto ou religioso que o homem seja, ele não pode agradar a Deus!
Até agora abordámos este assunto de forma um pouco pormenorizada de forma a que o leitor não seja induzido no erro de pensar que se ao menos o seu espírito conseguisse controlar o seu corpo, ele seria um homem melhor; isto porque o seu espírito, alma e corpo são, desde a meninice, controlados pela natureza adâmica caída: a carne.
Aquilo de que o pecador precisa é de uma nova natureza, gerada pelo espírito de Deus, para que Deus possa ter o controlo.
Formas predominantes de pseudo-espiritualidade
Antes de explicar pelas Escrituras como os pecadores se podem tornar “participantes da natureza divina”, algo mais deve ser dito sobre o que não é espiritualidade.
Para além das tentativas sinceras (embora vãs) dos perdidos para melhorar a sua velha natureza, há várias formas de pseudo-espiritualidade que muitos, mesmo entre o povo de Deus, têm trocado pela verdadeira, supondo que evidenciam a operação do Espírito de Deus neles.
Para alguns, o puro emocionismo é tido como espiritualidade. Reacções emocionais a histórias comoventes, apelos apaixonados ou bela música sacra é por vezes vista como a operação do Espírito e aqueles que prontamente reagem a estas coisas são considerados como bastante espirituais.
Para outros, a solenidade é tida como espiritualidade. Eles sentem que os verdadeiros crentes deveriam ser sempre solenes e andar sempre com a cabeça inclinada, olhar deprimido e com uma postura séria, procurando simular espiritualidade, enquanto os outros, que não os conhecem bem, reparam na sua aparente piedade.
Com outros é exactamente o oposto. Eles confundem jovialidade ou boa disposição com espiritualidade e vêem aqueles que são rápidos a gritar “Aleluia” ou parecem sempre felizes como os mais espirituais.
Muitas vezes o mero cerimonialismo é confundido com espiritualidade. Celebrar um “sacramento”, contemplar uma imagem “sagrada”, ajoelhar-se perante um altar; tais coisas podem ser, e muitas vezes são, confundidas com espiritualidade.
Talvez a forma mais predominante de “verdadeira” espiritualidade contrafeita é aquela pela qual os crentes menos esperariam ser enganados: superstição, que se move tão agilmente na nossa imaginação. Eis alguns exemplos:
Um jovem que procura saber qual a vontade de Deus para a sua vida abre a sua Bíblia ao acaso e aponta para um versículo também ao acaso o qual supostamente indica a orientação do Senhor. Uma dona de casa procura orientação para o dia retirando uma promessa de uma “caixinha de promessas”, uma promessa que pode até nem se aplicar minimamente a ela e que terá de ser “espiritualizada” de qualquer forma de modo a encaixar. Outros dirão: “Falei com o Senhor sobre isso e Ele disse…” Muitas vezes as práticas mais em desacordo com as Escrituras são justificadas desta forma. Perante estas justificações, deveria ser perguntado “Exactamente o que te disse o Senhor?”, “Como é que Ele te disse isso?” ou “Ouviste a Sua voz?”.
Cremos que Deus fala de facto aos seus filhos directamente na Sua Palavra e indirectamente através das circunstâncias, mas mesmo nos tempos bíblicos era relativamente raro alguém ouvir a voz de Deus. Geralmente o que “o Senhor disse” nos casos anteriormente referidos eram nada mais do que uma emoção completamente humana ou opinião pessoal à qual se chegou e totalmente falível. Se aquilo que “o Senhor disse” era uma convicção genuína, baseado na vontade revelada de Deus, então pode ser dito que Deus falou a essa pessoa através da sua Palavra, em resposta a oração, mas a ideia que deve ficar não deve ser a de que o Senhor “disse” ou “sussurrou” alguma coisa enquanto essa pessoa estava em oração. Aqueles que imaginam que têm tais experiências e supõe que isto reflecte algum grau de espiritualidade da sua parte, deveriam procurar nas Escrituras e ficar a saber que nos dias em que o Senhor falava audivelmente ou por aparições de anjos, Ele fazia-o tanto aos ímpios e imorais como aos Seus santos. Sem dúvida, de boa vontade o nosso adversário nos deixará ocupados com “vozes” imaginárias e “revelações” e assim tirar do seu devido lugar a completa revelação das Sagradas Escrituras.
Mas não pretendemos que haja algum mal-entendido. Não dizemos que reacções emotivas, solenidade sincera ou jovialidade são erradas. Apenas dizemos que elas não devem ser confundidas com verdadeira espiritualidade. Os perdidos podem experimentar reacções emotivas semelhantes às que os salvos sentem. Os perdidos também podem ser alegres ou solenes. Certamente o cerimonialismo e a superstição tem um amplo lugar entre os perdidos. No entanto os perdidos, quaisquer que sejam as suas experiências emocionais, sejam eles solenes ou joviais, dados ao cerimonialismo ou superstição, estão longe de ser espirituais.
(por Cornelius Stam)
Verdadeira Espiritualidade – Prefácio Janeiro 30, 2010
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“Mas o que é espiritual discerne bem tudo, e ele de ninguém é discernido” (I Coríntios 2:15).
O homem verdadeiramente espiritual está muito acima dos mais sábios filósofos deste mundo e mesmo muito acima da maioria dos crentes com os quais tem contacto, de tal forma que ele os pode compreender mas eles nunca o podem compreender totalmente.
Todos nós devemos anelar por ser verdadeiramente espirituais, mas o que é a verdadeira espiritualidade? É esta questão à qual procuraremos responder, através das Escrituras, e dividindo estas correctamente, de forma a compreender quais são os princípios de Deus para a dispensação em que vivemos.
Há muitos livros sobre este assunto, escritos por homens de Deus capazes. A razão para isto é bem simples. A Igreja professa tem -se baseado desde há tanto tempo na falsa premissa de que a presente dispensação começou no dia de Pentecostes com o derramamento do Espírito Santo. Por isso, a grande maioria dos livros escritos sobre espiritualidade leva os seus leitores de volta aos dias de Pentecostes para encontrar o padrão para a verdadeira espiritualidade. A maioria destes fazem-no necessariamente com reservas e restrições, visto que o derramamento do Espírito em Pentecostes foi acompanhado de línguas, curas e outras demonstrações miraculosas, juntamente com um modo de vida em que os crentes tinham tudo em comum e que é incompatível com o programa de Deus para hoje, tal como foi revelado ao Apóstolo Paulo.
Estamos certos de que a presente dispensação começou, não com Pedro e os onze em Pentecostes, mas com Paulo, ao qual o Senhor ressurrecto e glorificado revelou mais tarde a Sua vontade e o programa para os nossos dias. Por este motivo cremos também que a verdade sobre a operação do Espírito Santo hoje encontra-se nas epístolas de Paulo e noutras passagens que sejam compatíveis com elas. Esperamos e oramos para que este estudo e os seguintes sobre este assunto possam ser, pela graça de Deus, usados para levar muitos a uma experiência cristã sensata, equilibrada e verdadeiramente espiritual.
“Mas, como está escrito: ‘As coisas que o olho não viu, e o ouvido não ouviu, e não subiram ao coração do homem são as que Deus preparou para os que O amam.’ Mas Deus no-las revelou pelo Seu Espírito…” (I Coríntios 2:9-10).
“Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus” (I Coríntios 2:12).
“… a inclinação [mente] do Espírito é vida e paz” (Romanos 8:6).
(por Cornelius Stam)