O Perdão dos Pecados Março 27, 2010
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“Em quem [Cristo] temos a redenção pelo seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da Sua graça” (Efésios 1:7).
Um homem de negócios recentemente aceitou Jesus Cristo como Senhor e Salvador e alegrava-se no conhecimento de seus pecados se encontrarem perdoados.
Ultimamente, porém, ele tem consciência do pecado estar a rastejar de volta para sua vida. Medos de um Deus irado o assombram e torturam a sua frágil consciência,
levando-o a questionar-se se Deus ainda o aceita.
Uma dona de casa tem um marido que é alcoólico. De manhã cedo, ele voltou para casa bêbado, com uma grande amolgadela no carro da família. Ele desculpou-se, mas ela sabe que, se ela o perdoa, ele voltará a fazê-lo novamente.
Uma velha mulher de 83 anos, senta-se sozinha numa casa grande e vazia. Anos atrás, a sua família magoou-a profundamente. Houve uma altura em que ela queria perdoar, mas eles nunca reconheceram que o erro tinha acontecido. “Como poderiam eles ter feito tal coisa?”, pergunta ela. Agora ela espera a morte e libertação da amargura e desilusão que se prende a ela.
Os exemplos acima referidos são mais que meramente hipotéticos. Há incontáveis casos semelhantes que são vividos todos os dias em casas e igrejas por todo o mundo. Têm os Cristãos a resposta para tais situações? Isso depende a que “Cristãos” perguntamos. Uma das doutrinas mais incompreendidas na Palavra de Deus é a questão dos pecados perdoados. Estou convencido de que duas das coisas mais difíceis de ensinar a um Cristão são:
- os seus pecados foram completa e eternamente perdoados e
- este perdão deve agora estender-se a outros.
Porquê existem tantas opiniões diferentes sobre um assunto tão fundamental para a vida Cristã? Tal como acontece em relação a outros temas na Bíblia, a falha em “dividir correctamente a Palavra da verdade” tem conduzido crentes sinceros em Cristo a posições contraditórias sobre o perdão. Eles dizem, “Graças a Deus por Ele ter-me perdoado todos os pecados, mas…”, e então eles apresentam a lista de condições na qual eles acreditam que devem cumprir, para Deus os aceitar.
Perdão sob a Graça
Paulo, o apóstolo dos gentios e o revelador dos mistérios de Deus para a Igreja que é o Seu Corpo, apresenta uma única condição: crer no seu evangelho. De acordo com a passagem acima referida de Efésios 1:7, o perdão de pecados está intimamente ligado com a nossa redenção, que por sua vez, está assente no sangue sacrificial de Cristo e as riquezas da Sua graça. Além disso, notemos que o perdão (assim como as nossas bênçãos espirituais) foi algo alcançado no passado na vida do crente em Cristo. Nós temos (no presente) a redenção… o perdão dos pecados.
Para aqueles que necessitam de confirmação destas maravilhosas notícias, considerem em oração estes exemplos adicionais das epístolas de Paulo:
“Antes sede, uns para com os outros, benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como, também, Deus vos perdoou em Cristo.” (Efésios 4:32)
“Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados” (Colossenses 1:14)
“E, quando vós estáveis mortos nos pecados, e na incircuncisão da vossa carne, vos vivificou, juntamente com ele, perdoando-vos todas as ofensas,” (Colossenses 2:13)
“Mas, àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça. Assim, também, David declara bem-aventurado o homem a quem Deus imputa a justiça, sem as obras, dizendo: Bem-aventurados aqueles cujas maldades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos; Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa o pecado.” (Romanos 4:5-8)
“Seja-vos, pois, notório, varões irmãos, que por este se anuncia a remissão dos pecados. E de tudo o que, pela lei de Moisés, não pudeste ser justificados, por ele é justificado todo aquele que crê.” (Actos 13:38,39)
Os versos acima enunciados apresentam o ensino sobre o perdão para a presente dispensação da Graça de Deus (Efésios 3:1-9). O crente instruído na Graça sabe que o homem, por natureza, está morto em delitos e pecados, e como tal não merece um lugar no céu com Deus (Efésios 2:1,8,9). O amor de Deus providenciou perdão ao homem perdido através do sangue de Seu Filho. A responsabilidade que o Deus Soberano tem colocado sobre o homem, como resposta ao Seu amor, é a Fé em Jesus Cristo. “Cristo morreu pelos nossos pecados… e que ressuscitou ao terceiro dia…” é o evangelho que Paulo recebeu do Senhor Jesus glorificado e pregava onde quer que fosse (I Coríntios 15:1-4). O Espírito Santo de Deus pega então no pecador salvo e baptiza-o de forma sobrenatural em Cristo, estabelecendo uma união eterna (I Coríntios 12:13). Isto tem sido testificado pela prova de que nada nos pode separar do amor de Cristo porque o Espírito Santo nos selou até ao dia da redenção (arrebatamento) (Romanos 8:31-39; Efésios 1:13-14, 4:30).
O conhecimento destes factos pelas escrituras dá ao crente uma grande paz e uma alegria inexplicável. Mas como é o caso com muitos assuntos bíblicos, aqueles que querem homogeneizar a Palavra de Deus vão aos ensinos sobre perdão dado a Israel, para a dispensação passada, e arbitrariamente transplantam-nos para a presente dispensação da Graça. Os resultados são medo, dúvida e falta de ousadia nas nossas orações.
Perdão sob a Lei
Na verdade pode ser benéfico estudarmos como era concedido o perdão sob a Lei de Moisés, de forma a compreendermos as diferenças.
“E se o meu povo, que se chama pelo meu nome, se humilhar, e orar, e buscar a minha face e se converter dos seus maus caminhos, então eu ouvirei dos céus, e perdoarei os seus pecados e sararei a sua terra” (II Crónicas 7:14).
Eis um versículo citado frequentemente e utilizado por pregadores sinceros que desejam ver o nosso país restaurado no aspecto moral e espiritual. Na verdade, existem aqui sábios conselhos para os crentes de todas as épocas. Espírito de humildade, oração, buscando a face de Deus e abandonando o pecado deve produzir um tremendo reavivamento na Igreja de hoje. Mas olhemos profundamente para o versículo. “E se o meu povo, que se chama pelo meu nome…” refere-se a Israel, sob a Lei, e não à Igreja, sob a Graça. A terra que é curada não é Portugal, mas antes é a Palestina. Agora reparemos na natureza condicional deste perdão. “E se o meu povo… se… então… perdoarei os seus pecados…”. Este síndrome do “se – então”, tão característico do pacto da Lei, leva-nos a retroceder a Êxodo 19:5: “Agora, pois, se, diligentemente, ouvirdes a minha voz, e guardardes o meu concerto, então sereis a minha propriedade peculiar de entre todos os povos: porque toda a terra é minha.”
Este sistema de bênção condicional é referido repetidamente ao longo dos livros do Velho Testamento, de Êxodo a Malaquias. Se Israel obedecesse aos mandamentos de Deus (a lei), Deus os abençoaria. Se eles desobedecessem, Deus os amaldiçoaria (Deuteronómio 28:1-68). Esta não é a forma como Deus lida com os crentes actualmente. Nós já fomos abençoados com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo (Efésios 1:3,7). Isto inclui o perdão dos pecados.
Em relação à passagem de II Crónicas 7:14, nós devemos reconhecer a diferença entre interpretação e aplicação. Uma vez que toda a Escritura é inspirada por Deus e proveitosa, há verdades neste versículo que nos falam actualmente, mas nós só o podemos aplicar à luz da revelação do mistério que nos foi dado através do Apóstolo Paulo (Romanos 16:25; Colossenses 1:25-27). O versículo refere-se a bênçãos condicionais, que pertencem por interpretação a Israel, sob a lei.
Enquanto alguns têm vindo ao conhecimento da diferença entre o sistema Mosaico e o Paulino em relação às bênçãos (incluindo o perdão), poucos têm visto que o perdão condicional é transportado para os evangelhos e epístolas do Novo Testamento não escritas por Paulo. Considere o seguinte:
“E perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores; Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; Se porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas.” (Mateus 6:12,14,15)
“E, indignado, o seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia. Assim vos fará, também, meu Pai celestial, se de coração não perdoares, cada um, a seu irmão, as suas ofensas” (Mateus 18:34,35)
“E, quando estiverdes orando, perdoai, se tendes alguma coisa contra alguém, para que vosso Pai, que está nos céus, vos perdoe as vossas ofensas; Mas, se vós não perdoardes, também vosso Pai, que está nos céus, vos não perdoará as vossas ofensas.” (Marcos 11:25,26)
“Não condeneis, e não sereis condenados” (Lucas 6:37).
“Olhai para vós mesmos. E, se teu irmão pecar contra ti, repreende-o, e, se ele se arrepender, perdoa-lhe. E se pecar contra ti sete vezes no dia, e sete vezes no dia vier ter contigo, dizendo: Arrependo-me, perdoa-lhe.” (Lucas 17:3,4)
Observemos cuidadosamente que o perdão, nos exemplos em cima, é oferecido pelo Pai celestial só quando o perdão é primeiramente oferecido aos outros. Da mesma forma, o outro (ofensor) é perdoado só se ele se arrepender. A ordem é: (1) Ofensa cometida, (2) Confrontação e repreensão, (3) Arrependimento do infractor, (4) Perdão oferecido pela vítima e (5) Perdão de Deus oferecido. Este ensino mostra o perdão em relação à fase milenial do reino de Deus na terra, segundo a profecia (Lucas 1:70; Actos 3:21; Apocalipse 5:10).
Em contraste, os escritos de Paulo revelam que o crente em Cristo actualmente trabalha a partir da posição de perdão perpétuo a partir da qual ele é livre para perdoar outros.
“… perdoando-vos uns aos outros, como, também, Deus vos perdoou em Cristo.” (Efésios 4:32)
“… perdoando-vos uns aos outros,… assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós, também.” (Colossenses 3:13)
Este ensino mostra o perdão em relação à parte celestial do reino de Deus de acordo com o Mistério (Romanos 16:25; I Coríntios 2:7; Efésios 1:4; II Timóteo 4:18). Como Scofield tão bem afirmou: “Perdão sob a lei é condicionado a um espírito semelhante em nós (nós perdoarmos primeiro). Sob a graça, somos perdoados por amor de Cristo e exortados a perdoar porque fomos perdoados primeiramente.”
Que diferença entre a lei e a graça, entre perdão condicional e incondicional! Ambos os sistemas são consistentes com o carácter de Deus e trabalham de acordo com o Seu plano para as dispensações. Como na verdade nos devemos alegrar em sermos membros salvos do Corpo de Cristo durante a presente dispensação da graça de Deus! Isto mostra que, embora o próprio Deus nunca mude, o Seu trato, para com o homem, muda com o curso da história e profecia.
Alguns podem permanecer na crença de que os ensinos de Jesus sobre o perdão, enquanto na terra, representam a doutrina que mais tarde foi escrita para nós, como membros da igreja actual. Eles afirmam ainda que nós devemos tornar o nosso perdão condicional. Eles fazem-no por causa de pretextos tradicionais e do medo de que a graça será corrompida.
Em primeiro lugar, nós concordamos que “Porque tudo que dantes foi escrito, para nosso ensino foi escrito…” (Romanos 15:4). Toda a Escritura é igualmente inspirada por Deus, mas é proveitosa somente quando é bem dividida (II Timóteo 2:15; 3:16). Em segundo lugar, entendemos que o ministério terreno de Jesus foi somente para os Judeus, de acordo com a profecia (Mateus 10:5-6; 15:21-28; Marcos 7:24-30; Romanos 15:8). Em terceiro lugar, a vida e os ensinos do nosso Senhor não anularam o concerto da lei dada através de Moisés no monte Sinai (Mateus 5:17-18; 8:1-4; 23:1- -3; Lucas 2:21-24; Gálatas 4:4). Jesus viveu e trabalhou como um Judeu, sob a lei foi circuncidado ao oitavo dia, observou os dias de festa dos Judeus, disse ao leproso curado para se mostrar ao sacerdote e apresentar a oferta (sacrifício de animal) que Moisés mandara, e ordenou os Seus discípulos a observar e praticar tudo o que aqueles que estavam assentados na cadeira de Moisés ordenavam (ou seja, os escribas e fariseus que tinham essa autoridade e eram adeptos rigorosos de ensinar e seguir a lei à letra).
Enquanto os ensinos de Jesus a respeito do Reino levaram a lei a um ponto mais íntimo, para incluir os motivos (emocionais) do coração (Mateus 5:22,28,32,34), e enquanto alguns ajustes foram feitos de modo a introduzirem a chegada do Reino (Mateus 5:44; 13:52), o Seu ensino foi uma confirmação das coisas que haviam sido antes profetizadas. (Romanos 15:8). Quaisquer novas revelações dadas por Jesus neste tempo foram apenas detalhes adicionais confirmando o reino milenial que havia sido profetizado e que se encontra descrito no velho testamento.
Finalmente, temos que reconhecer que o apóstolo Paulo é o “teólogo” para a presente dispensação da Graça de Deus. Apenas nos seus escritos podemos encontrar a doutrina, a posição, o andar e o destino para a Igreja, Corpo de Cristo. O nosso Senhor Jesus Cristo conduziu um ministério celestial através do apóstolo Paulo, que foi o seu porta-voz (I Coríntios 14:37, II Coríntios 13:3; Gálatas 1:11; 2:2,9; Efésios 3:1-9). Nós somos hoje beneficiários do seu ministério, através das suas epístolas. Que nunca percamos de vista onde nos encontramos no programa de Deus. Isto é crucial para o nosso estudo do perdão, como se tem vindo a mostrar.
Estar devidamente ajustado ao ensino da Graça é absolutamente essencial para uma vida alegre e vitoriosa na fé. Como podemos amar e louvar a Deus por algo que nós não temos certeza se Ele nos deu? Da mesma forma, como podemos ter alegria e paz quando tememos que Deus nos retire as bênçãos? Não deixemos que ensinos não-bíblicos ou não–dispensacionais nos separem do gozo do perdão dos pecados e da comunhão com Aquele “no qual temos ousadia e acesso com confiança, pela nossa fé nele” (Efésios 3:12).
Perdão nos nossos relacionamentos pessoais
É muito provável que vacilemos nesta área se não estivermos firmemente apoiados no evangelho da graça. Nós somos instruídos a lidarmos com o nosso próximo da mesma maneira que Deus lidou connosco.
Uma vez que Deus nos perdoou de todas as ofensas (passadas, presentes e futuras) será razoável não perdoarmos aqueles que nos tem ofendido? “Mas eu fui extremamente magoado”, é aquilo que o leitor poderá estar a pensar.
Será que nunca ferimos o coração do Pai Celestial com o nosso espírito imperdoável? Nós nunca conseguiremos perdoar mais do que Deus nos perdoou. Deus sabia de antemão a forma como nós iríamos pecar contra Ele, no entanto ele perdoou todo o nosso pecado assim que cremos na sua obra redentora e a aceitamos como único meio pelo qual podemos ser salvos.
Para alguém que possa estar a debater-se com um espírito de inflexibilidade ficam aqui estas sugestões:
(1) Tenha a certeza que compreende e crê no evangelho da Graça (Romanos 3:19-28). Sem a presença do Espírito Santo na sua vida e sem o amor que Deus derrama em nossos corações, não estaremos capacitados para perdoar da forma que é aceitável para Deus (Romanos 5:5).
(2) Reconheça que a incapacidade de perdoar é um pecado originário da carne (do velho homem) (I Tessalonicenses 5:15; Romanos 12:17-21).
(3) Não ceda aos desejos da carne (velho homem) mas combata-os (Romanos 13:8-14).
(4) Considere os pecados dos quais foi perdoado e o que eles deverão ter significado para o nosso Senhor Jesus aquando da sua morte por nós. Um certo homem orava sempre desta maneira: “Senhor, nunca me deixes esquecer o que fui antes de me ter tornado um Cristão”. Como semente decaída de Adão, o nosso pecado contra o Deus santo é infinitamente maior do que qualquer pecado que possamos cometer uns contra os outros.
(5) Considere o que a sua desobediência está a fazer à sua alma interior. Algumas pessoas pensam que ficam perfeitamente justificadas guardando para si os maus sentimentos, enquanto são apoiadas nestes maus sentimentos por outras pessoas. Tal atitude provoca maior dano na alma da pessoa ofendida do que propriamente no transgressor.
(6) Perdoe a pessoa como um acto de espontaneidade! Isto é o amor cristão em acção. Não espere até que se “sinta” capaz de perdoar.
(7) Ore pelo bem-estar espiritual do ofensor (transgressor). Eu sempre ouvi um pregador dizer: “É extremamente difícil permanecer implacável contra alguém por quem você ora constantemente”. Que excelente conselho! Deus promete a “paz que excede todo o entendimento” quando apresentamos todas as nossas petições a Ele. (Filipenses 4:6-7). Com isto temos a alegria extra de sabermos que estamos a agradar e a trazer honra ao nome de Deus.
(8) Esteja preparado para o reaparecimento da raiz da amargura. Muitos cristãos têm relatado o reaparecimento de sentimentos destrutivos, especialmente se o transgressor permanecer intransigente ou as ofensas continuarem a acontecer. De novo os desejos do velho homem a aparecer! Neste caso, repita os passos anteriores.
(9) Utilize a situação para permitir que Deus o use conforme a imagem do Seu Filho (Romanos 8:28,29). Pecadores sem vergonha têm vindo a causar dor e sofrimento à família de Deus. Que oportunidade fantástica para retiramos o nosso Cristianismo do “armário” e deixar que este brilhe diante os homens.
Até agora ainda nada foi dito acerca da mudança de atitude do ofensor (transgressor). Se a pessoa ainda se encontrar perdida devemos procurar, de forma sábia, compartilhar as verdades do evangelho da salvação com ela. Se já for salva devemos, de forma amável, aplicar os ensinamentos que estejam coerentes com as instruções do apóstolo Paulo acerca do irmão errante. (Gálatas 6:1; II Timóteo 2:24-26; I Coríntios 5; II Coríntios 2; Hebreus 12:14-15). “O que encobre as suas transgressões, nunca prosperará, mas o que as confessa e deixa, alcançará misericórdia” (Provérbios 28:13). Esta é uma verdade que transcende as dispensações e que é válida em todo o tempo. Se estamos a permitir que o Senhor Jesus o ame através de nós, certamente estaremos interessados na mudança do seu comportamento.
Apesar de estar fora do âmbito do presente artigo, o tema acerca da confissão de pecados tem sido muito discutido, em grande parte por causa da má aplicação do versículo que se encontra em I João 1:9. Paulo não fala de confissão nas sua epístolas, apesar de Lucas nos dar uma um relato inspirado em relação ao seu ministério (Actos 19:18). Muitos dos mandamentos de Paulo não podem ser obedecidos sem um auto julgamento por parte da pessoa que pode incluir a necessidade de confissão do pecado (II Coríntios 7:1; II Timóteo 2:21; I Coríntios 5:2, 11:32).
Quando um crente peca, devemos concordar com a Palavra de Deus que isso é errado (confessar) e abandonar esse comportamento ou atitude colocando de parte o velho homem e dando lugar ao novo homem. (Efésios 4:22-24; Colossenses 3:7-10). Em suma, confessamos os nossos pecados não para recebermos perdão mas para que possamos estar devidamente ajustados na graça e assim podermos glorificar Aquele que nos perdoou de todas as transgressões.
Após tudo isto, temos que estar conscientes que nem todas as pessoas irão mudar. Mas nós podemos, se procurarmos viver para aquele que morreu por nós e ressuscitou de entre os mortos. Perdoar não é fácil, mas é uma boa oportunidade para que o Espírito Santo nos molde à sua semelhança. Lembremo-nos que Deus nos ordena que perdoemos, mas ao mesmo tempo nos dá a capacidade para tal fazermos. O nosso Deus nunca nos pedirá algo que nós não consigamos fazer. Se Deus pôde ressuscitar o Senhor Jesus Cristo da morte e dar de novo vida à sua alma morta, não poderá Ele também dar-nos a vitória nesta área? “Fiel é o que vos chama, o qual também o fará” (I Tessalonicenses 5:24)
(por Ken Lawson)
Nota dos editores:
Não cremos que o escritor deste artigo tenha sido suficientemente claro em relação ao que devemos fazer perante uma situação em que o ofensor não reconhece que cometeu ofensa contra nós. Deve nesta situação o crente conceder-lhe o perdão? A nossa convicção é que não o pode fazer verdadeiramente. O crente deverá estar disposto a perdoar, mas enquanto não houver reconhecimento do pecado e arrependimento, como pode tal perdão ser concedido ao ofensor? Mas apesar deste princípio, o crente não deve deixar o ressentimento e a raiz da amargura tomarem lugar em seu coração, e deve trazer em oração esta situação aos pés do Senhor.
Não é assim que Deus lida com o Homem? Deus tudo preparou para poder perdoar o homem, enviando o Seu Unigénito Filho ao mundo para morrer pelo pecador, e agora oferece o perdão livremente e de graça. Mas tal obra de Salvação e oferta de Perdão por parte de Deus de nada serve àquele que nunca reconhece a sua condição de pecador. O perdão só pode ser concedido àquele que reconhecer a ofensa como sendo uma verdadeira ofensa.
Duas Orações por Coragem Março 27, 2010
Posted by David Costa in Geral.1 comment so far
O título deste artigo pode parecer-nos algo estranho, mas este é um estudo interessante e com algum proveito: a comparação entre duas orações por Coragem. Estas duas orações encontramo-las no livro de Actos 4:29-30 e na carta do Apóstolo Paulo aos Efésios 6:18-20. A primeira oração descrita no livro de Actos foi proferida na companhia dos crentes em Jerusalém e dos doze, no momento em que Israel “andava” com Deus (Efésios 2:12; Romanos 3:1-2, 9:4-5). Não devemos esquecer que eles eram os cidadãos da nação de Deus. Como consequência da queda de Israel (Romanos 11:11) a salvação é oferecida aos gentios. Passados aproximadamente trinta anos a segunda oração foi proferida pelo apóstolo Paulo, o apóstolo dos Gentios. Esta oração de Paulo é uma oração de um embaixador numa terra estrangeira.
Prestemos agora atenção à oração em Actos 4:29-30, lendo juntamente o versículo 31:
“Agora, pois, ó Senhor, olha para as suas ameaças, e concede aos teus servos que falem, com toda a ousadia, a tua palavra,
“Enquanto estendes a tua mão para curar, e para que se façam sinais e prodígios pelo nome de teu santo Filho Jesus.
“E, tendo orado, moveu-se o lugar em que estavam reunidos; e todos foram cheios do Espírito Santo, e anunciavam com ousadia a palavra de Deus.”
Com toda a certeza o sua oração foi rapidamente respondida.
Os apóstolos Pedro e João sem dúvida alguma já tinham dado provas da sua coragem. Por exemplo, em Actos 4:13 lemos o seguinte: “Então eles, vendo a ousadia de Pedro e João, e informados de que eram homens sem letras e indoutos, se maravilharam; e tinham conhecimento que eles haviam estado com Jesus”, isto é, com Jesus na ressurreição. Neste quarto capítulo de Actos é descrito o início da perseguição aos crentes em Jerusalém por parte dos governantes de Israel, e igualmente descreve a primeira experiência de Pedro e João na cadeia, devido a pregarem Jesus como o Messias de Israel, e este ressurrecto.
Nos dias de hoje, concerteza todos o crentes precisam de coragem para falar acerca da Palavra de Deus. Para possuirmos este tipo de coragem necessitamos sem dúvida de oração nas nossas vidas, mas será que devemos orar da mesma forma que nos é apresentada em Actos 4? Alguns crentes dirão que “NÃO”, mas quando questionados “Porquê?” eles permanecem em silêncio. Outros procuram reproduzir esses sinais, tendo como resultado um sistema de pseudo-sinais e fanatismo.
A outra oração, ou pedido de oração, para a nossa comparação encontra-se em Efésios 6:18-20:
“Orando em todo o tempo, com toda a oração e súplica no Espírito, e vigiando nisto com toda a perseverança e súplica, por todos os santos,
“E por mim, para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra com confiança, para fazer notório o mistério do evangelho,
“Pelo qual sou embaixador em cadeias; para que possa falar dele, livremente, como me convém falar.”
Não é estranho que o apóstolo Paulo, sendo igualmente um apóstolo do Senhor Jesus Cristo e prisioneiro em Roma, não tenha orado como Pedro, João e tantos outros para que o Senhor lhe desse coragem, estendendo-lhe as suas mãos para curar e para que fossem feitos sinais e prodígios em nome do Senhor Jesus? De facto, o apóstolo Paulo não pediu através da oração uma libertação miraculosa das suas prisões, mas antes declarou abertamente que era um embaixador entre cadeias.
O apóstolo Paulo falou acerca de coragem, em uma das suas primeiras epístolas. Em I Tessalonicenses 2:2 lemos que: “Mas… havendo primeiro padecido, e sido agravados em Filipos, como sabeis, tornámo-nos ousados em nosso Deus, para vos (aos Gentios) falar o evangelho de Deus com grande combate.”
Também houve um tempo em que o ministério de Paulo foi acompanhado de sinais. Leiamos Actos 14:3, “Detiveram-se, pois, muito tempo, falando ousadamente acerca do Senhor, o qual dava testemunho à palavra da sua graça, permitindo que, por suas mãos, se fizessem sinais e prodígios.” Estes sinais não faziam parte do seu ministério, mas apenas serviam para provar o seu apostolado e para de alguma forma provocar inveja ao povo de Israel (II Coríntios 12:12; Romanos 11:11; I Coríntios 14:18-22). Mas no capítulo anterior, Paulo teve a ousadia para declarar algo que era extremamente não invulgar. “Mas Paulo e Barnabé, usando de ousadia, disseram: Era necessário que a vós se vos pregasse primeiro a palavra de Deus; mas, visto que a rejeitais, e vos não julgais dignos da vida eterna, eis que nos voltamos para os gentios.” (Actos 13:46). No próximo capitulo, o apóstolo Paulo declara que o Senhor abriu a porta da fé para os Gentios (Actos 14:27).
Na carta do apóstolo Paulo aos Romanos 15:15-16, a palavra “Coragem” é utilizada com um sentido deveras importante:
“Mas, irmãos, em parte vos escrevi mais ousadamente, como para vos trazer outra vez isto à memória, pela graça que por Deus me foi dada;
“Que seja ministro de Jesus Cristo entre os gentios, ministrando o evangelho de Deus, para que seja agradável a oferta dos gentios, santificada pelo Espírito Santo.”
Devido à “queda” ou “tropeço” de Israel, Paulo teve a coragem necessária para ir aos Gentios e para escrever algo novo, algo que não estava profetizado. Ele foi corajoso porque tinha recebido a comissão através da revelação de Jesus Cristo (Gálatas 1:11, 11-12; Gálatas 2:2,7-9; Efésios 3:1-9; Colossences 1:24-29).
Um período de aproximadamente trinta anos separa a oração dos discípulos em Actos 4 e o pedido de oração feito por Paulo em Efésios 6. Tal como nos é revelado pelas passagens anteriores, este período temporal é deveras importante.
O Senhor permitiu que Israel “tropeçasse” e “caísse” (Romanos 11:11-15), encerrando-os debaixo da desobediência, para com todos usar de misericórdia (Romanos 11:32), existindo assim a possibilidade de reconciliação para todo o mundo através do sangue derramado na cruz no Corpo de Cristo, o qual é a verdadeira Igreja.
Enquanto o Senhor estava em estreita relação com Israel enquanto nação, Ele deu aos discípulos sinais, os quais tinham o direito de esperar. (Actos 2:19).
Os discípulos não eram chamados embaixadores no mesmo sentido em que Paulo era, mas estavam entre a sua nação, que ainda era a nação de Deus. Deus tinha respondido à oração de Seu Filho: ”Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.” Deus na sua misericórdia respondeu à sua oração.
Normalmente nos nossos dicionários um embaixador pode ser definido como “um representante do chefe de um Estado numa corte estrangeira.” O apóstolo Paulo torna-se um verdadeiro embaixador de Jesus Cristo quando a nação de Israel é colocada de parte, e Deus oferece sua salvação a todo o mundo. Todo o crente agora como membro de Igreja, a qual é o Corpo de Cristo, torna-se da mesma forma que Paulo num embaixador (II Coríntios 5:14-21).
Como representantes de Deus numa “corte” estrangeira, da mesma forma, nós precisamos de coragem. Satánas é o deus deste mundo (II Coríntios 4:4). Mas sendo abençoados com “todas as bençãos espirituais, nos lugares celestiais, em Cristo”, concerteza transcede “todos os sinais e prodígios”, dando-nos coragem para falar os mistério de Cristo. O pedido de Paulo por coragem deveria igualmente ser o nosso e com toda a certeza neste mundo hostil podemos esperar receber um tratamento semelhante ao de Paulo. Mas quão maior é a coragem de Paulo quando é comparada com as dos doze apóstolos! A sua coragem duplamente superior perante a prisão e até mesmo a morte, a sua coragem para pregar o que não tinha sido profetizado, mas que tinha sido revelado por Jesus Cristo ressuscitado e rejeitado. Oremos todos por coragem para “demonstrar a todos qual seja a dispensação do mistério que desde os séculos esteve oculto em Deus, que tudo criou.” (Efésios 3:9)
(por Eugene F. Rueweler)
Epístola aos Romanos – Capítulo 2 Março 21, 2010
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Continuando a análise iniciada no capítulo 1 acerca da condição do homem perante Deus, o apóstolo Paulo dirige-se agora àqueles que procuram viver vidas moralmente correctas.
O homem moral
O segundo capítulo começa com uma expressão digna de nota. O apóstolo Paulo não diz que a condição em que o homem vive é de pobreza, de doença, de dificuldades ou de infelicidade, ansiando por uma vida melhor. Não! É verdade que muitas vezes é isto que ouvimos em algumas mensagens de evangelização. Tais coisas são anunciadas como as maiores necessidades que o homem tem na sua condição natural, e que por tais razões precisam de Cristo. Não! Completamente errado! Paulo afirma claramente que o maior problema que o homem enfrenta, na sua condição natural é estar “sem desculpa” perante Deus.
Ao contrário do grupo de pessoas referidas no fim do capítulo 1, que viviam e consentiam vidas de pecado, este grupo de pessoas, referidas no inicio do capítulo 2, julgam antes os que tais vidas viviam (do capítulo 1), e se consideram superiores, na sua moral, pela vida “refinada” que vivem. Estas pessoas são aquelas que dizem: “Ah, eu não sou tão mau assim. Eu vivo uma vida correcta! Não mato, não roubo, não faço mal nenhum a ninguém.”
Sobre tal grupo de pessoas, Paulo afirma que eles estão prontos a julgar os outros, que vivem vidas abertamente de pecado, mas esquecem-se que Deus conhece o coração e as intenções de tudo o que o homem faz em segredo. Daí Paulo dizer que estes se condenam a si próprios nas mesmas coisas em que julgam os outros.
Tomemos em atenção o fim do versículo 1. Paulo não diz “tu fazes coisas que são tão más e graves como as coisas que esses fazem”. Ele antes diz: “tu, que julgas, fazes o mesmo”. Na verdade o homem possui uma forte tendência para condenar nos outros exactamente as mesmas coisas que ele próprio faz. E agindo assim, como lemos nos versículos 2 e 3, o homem condena-se a si próprio, ao condenar nos outros as mesmas coisas que ele faz.
Nos versículos 4 e 5 vemos que tais pessoas deviam antes reconhecer a bênção que possuem de nunca terem cometido pecados “horríveis”, pecados “a céu aberto”, mas preferem antes ignorar os pecados que enchem o seu coração, e encobrir a sua culpa e condição, criticando e julgando os outros.
Assim, Paulo diz a essas pessoas que deviam antes agradecer a Deus pela Sua misericórdia e arrepender-se dos seus pecados. Mas na verdade tais pessoas endurecem o seu coração, continuando a achar-se justas diante de Deus. Na prática o que acontece é que “entesouram ira” sobre si mesmas, que virá sobre elas no dia em que Deus julgar o homem.
Princípios Básicos da Justiça Divina
Nos versículos seguintes, encontramos uma descrição dos princípios básicos da justiça divina. Nesta descrição não encontramos a Graça de Deus, mas sim a perfeita justiça de Deus. O princípio básico da justiça divina é que Deus irá recompensar aquele que fizer o bem com a vida eterna, e aquele que obra o mal com tribulação e angústia. Não está aqui em questão se o homem é verdadeiramente bom e se é capaz de perseverar em fazer o bem. Paulo explica passo a passo a necessidade de salvação e o plano de salvação estabelecido por Deus, de uma forma progressiva. A intenção de Paulo nestes versículos é somente de explicar que Deus recompensa o bem e castiga o mal. Mais à frente ele demonstrará que ninguém consegue verdadeiramente fazer o bem continuamente, e que é por isso que precisamos de um Salvador.
É verdade que isto parece ser algo básico, mas não estaremos a esquecer a sua devida importância? Quando evangelizamos não evitamos dizer abertamente que o descrente é pecador, que será condenado, e por isso precisa de um Salvador? Não se ouve dizer muitas vezes no meio das nossas igrejas que o descrente precisa de um Salvador para “consertar” a sua vida que se encontra num caos, para trazer paz aos seus relacionamentos pessoas e familiares, ou para trazer benção e prosperidade? Mas tal é completamente errado! Não é essa a necessidade principal do homem!
Paulo ocupa os primeiro três capítulos desta Epístola aos Romanos a demonstrar a condição do homem, e que todos estão inescusáveis e são culpados, independentemente da sua condição social, sabedoria, moralidade ou religiosidade. Decerto é algo de extrema importância.
Paulo só pode explicar a obra de Cristo na Cruz, a Salvação que agora nos é oferecida, após demonstrar, sem quaisquer dúvidas, qual a verdadeira condição de todo o homem perante Deus: a sua incapacidade de perseverar em fazer o bem e a sua necessidade de Salvação.
No fim dos versículos 9 e 10 encontramos uma expressão que já tínhamos encontrado atrás, no capítulo 1, “primeiramente do judeu e também do grego”. Porque, tanto na condenação como na recompensa, lemos “primeiramente do judeu e também do grego”? Simplesmente porque o judeu, possuindo uma maior vantagem espiritual sobre os gentios, por ser o povo escolhido de Deus e por ter a lei de Deus, é certamente mais responsável pelos seus actos.
No versículo 11 encontramos um versículo muito conhecido: “Porque, para com Deus, não há distinção de pessoas”. No original grego a palavra traduzida por “distinção” pode também ser traduzida por “parcialidade”. A definição de “parcialidade” nos dará uma melhor compreensão desta passagem.
Parcialidade:
-> É o erro daquele que sendo chamado a julgar, dá maior valor às circunstâncias exteriores do homem que está a julgar, e não aos seus méritos intrínsecos. Assim sendo, ele dá preferência, no seu julgamento, àquele que é mais digno, mais rico, de mais elevada filiação, ou mais poderoso, do que outro que não possua tais qualidades.
Deus não dá preferência a ninguém por aquilo que ele é ou pelo que possui. Deus julga o homem unicamente com base nos seus actos. A sua justiça é absolutamente perfeita e imparcial.
O Judeu e o Gentio sob o Julgamento de Deus
Ao chegarmos ao versículo 12, se tomarmos em atenção as expressões usadas, surge de seguida uma questão importante. Porque é que Paulo diz que os “sem lei”, isto é os gentios, “perecerão”, mas os “sob a lei”, os judeus, serão “julgados”?
É importante recordarmos que mesmo sem lei, isto é, para aqueles que nunca conheceram ou estiveram sobre a lei dada por Deus, através de Moisés, o pecado mata. É o princípio divino que lemos nos primeiros capítulos de Génesis: “No dia em que pecares, morrerás” (Génesis 2:17). A inveja, o ódio, o vício e a vida desgarrada destroem a vida do homem e acabam por matá-lo. Não somente o pecado destrói o corpo e vida física, mas também destrói a alma do homem.
Isto não quer dizer que Deus não vai julgar todos os homens, pois vemos claramente mais à frente, no versículo 16, que Ele o fará. A questão aqui é o homem estar debaixo da lei de Moisés ou não. O que Paulo quer explicar aqui é que aqueles que pecaram e não estavam sobre a lei (os gentios) perecerão nos seus pecados naturalmente, não porque rejeitaram ou desprezaram a lei, já que a lei nunca lhes foi dada. Mas os outros que pecaram estando debaixo da lei (os judeus) serão julgados pela mesma lei que transgrediram.
Nos versículos 13 a 15 temos um parêntesis, pois o versículo 16 é a conclusão da ideia apresentada no versículo 12.
A lei em si mesma nunca trouxe vantagem alguma àqueles que estavam sujeitos a ela, caso não lhe obedecessem. Encontramos um exemplo disso no caso da mulher adúltera que é trazida perante Jesus, em João 8. Ela era judia, possuía e conhecia a lei, mas isso não a ajudou. Em vez disso, os escribas e fariseus estavam prestes a apedrejá-la, de acordo com a mesma lei. Sendo assim, a vantagem que ela possuía sobre os gentios, a de possuir a divina revelação da lei de Deus, tornou-se numa clara desvantagem. A lei condenava-a e exigia a sua morte como castigo.
É certamente esta a ideia que Paulo exprime nestes versículos. A lei só justifica aqueles que a praticam, não aqueles que a possuem. Nestes versículos não está em questão se o homem é capaz de perseverar em praticar a lei. Aqui só é explicada a lógica presente na lei.
Quanto aos gentios que nunca conheceram ou ouviram falar da lei, muitos compreendiam que era errado mentir, roubar, matar ou cometer adultério. Como pode tal ser? Depois da queda do homem (de Adão e Eva terem pecado), a consciência do homem passou a transmitir um sentimento de culpa ao homem quando ele pecava. Daí lermos no versículo 15 que os gentios “mostram a obra da lei escrita em seus corações”. É importante atentarmos que não diz que os gentios tinham a lei “escrita” em seus corações, mas antes “a obra da lei”. E qual é a obra de lei? Leiamos Romanos 3:20, “Porque pela lei vem o conhecimento do pecado”, e em II Coríntios 3:9, “o ministério da condenação”. Então compreendemos que a obra da lei é o (re)conhecimento do pecado, pelo testemunho da consciência do homem, que leva o homem a sentir-se acusado e culpado, ou a arranjar desculpas sobre os pecados que comete (“defendendo-os”).
O Julgamento do Pecador
Voltemos ao versículo 12 e ligando-o ao versículo 16, lemos:
“Porque, todos os que sem lei pecaram, sem lei, também, perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados; (…) No dia em em que Deus há-de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho.”
Encontramos então no versículo 16 três factos importantes:
- Deus julgará os segredos dos homens.
- Ele o fará por Jesus Cristo, que será o Juiz.
- Ele o fará de acordo com o evangelho confiado a Paulo.
1.
O homem, quando peca, tem a tendência natural de esconder esse pecado das pessoas à sua volta e de Deus, em vez de o confessar, buscar o perdão, e corrigir o mal que fez, se tal for o caso. Mas Deus vê o coração do homem e nada está escondido aos seus olhos, tal como podemos encontrar em:
“E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes, todas as coisas estão nuas e patentes, aos olhos daquele com quem temos que tratar.” (Hebreus 4:13) e “Porque Deus há-de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau.” (Eclesiastes 12:14).
2.
Jesus Cristo será o Juiz, neste julgamento dos perdidos. Já encontramos tal facto nas palavras de Jesus Cristo, enquanto habitou entre o Seus aqui na terra, durante o seu ministério terreno:
“E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo; (…) E deu-lhe o poder de exercer o juízo, porque é o Filho do homem.” (João 5:22,27).
3.
A última parte do versículo decerto traz às nossas mentes a questão: “Como pode Deus julgar os homens de todas as épocas com base numa mensagem que esteve guardada em segredo até ser revelada ao Apóstolo Paulo? A resposta é que é pela revelação do mistério que Deus entregou a Paulo que podemos compreender as “boas novas” que Deus confiou aos homens nos tempos passados.
Tomemos por exemplo Hebreus 10:4, “É impossível que o sangue dos toiros e dos bodes tire os pecados”. Sendo assim, porque requereu Deus sacrifícios de sangue a Caim e Abel, de forma a serem aceites por Ele? Se o sangue de animais não podia tirar os pecados, como é que então Abel foi salvo? Pelo evangelho de Paulo agora compreendemos que Abel foi justificado, pois tomou a palavra de Deus como verdadeira, e se aproximou dele segundo a forma que Deus tinha prescrito. Isto é a “obediência da fé”, tal como lemos em Hebreus 11:4, “Pela fé, Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim, pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho dos seus dons, e por ela, depois de morto, ainda fala.”
Mas se os sacrifícios em si não tinham valor, como podia Deus aceitar os homens que os ofereciam? Somente porque Cristo iria morrer pelos pecados deles, e que nessa base Deus, podia aceitar justamente aqueles que se chegavam a Ele na forma que Ele prescrevia.
Mas agora que compreendemos o mistério do evangelho de Deus, as obras não fazem mais sentido e não são requeridas para salvação. Daí podermos ler mais à frente, no capítulo 3 desta Epístola, “Ao qual Deus propôs para propiciação, pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus”, e na Epístola aos Hebreus, “E, por isso, é Mediador de um novo testamento, para que, intervindo a morte, para remissão das transgressões que havia debaixo do primeiro testamento, os chamados recebam a promessa da herança eterna.” (Hebreus 9:15).
Assim, creio que o homem não será condenado somente porque é pecador, mas sim porque em qualquer que seja a altura em que ele viveu, não se chegou a Deus segundo o que Deus prescreveu para tal época. Isto é, se o homem se chegou a Deus pela fé na Sua palavra e prescrição (por exemplo, os sacrifícios animais), ou pelo contrário, se chegou a Deus segundo a sua justiça e ideias humanas, ou mesmo se nunca se quis chegar a Deus, rebelando-se contra Ele.
Para compreendermos tal ideia basta pensarmos no caso de David, o segundo Rei de Israel. Se aquele que pecasse sob a lei estivesse irremediavelmente condenado, então David, após ter adulterado com Batseba e assassinado Urias, estaria irremediavelmente perdido. Não! David chegou-se a Deus, após ter pecado, segundo o que Deus prescreveu na lei, em relação ao arrependimento e aos sacrifícios, evidenciando a fé que tinha na Palavra de Deus.
Assim, os perdidos serão julgados no Grande Trono Branco, por Jesus Cristo, aquele que morreu pelos pecados do homem, tendo por base os princípios que encontramos no evangelho proclamado por Paulo, isto é, que em qualquer época a Salvação foi sempre pela Graça, através da Fé. Nunca a Salvação foi ou será negada àqueles que colocam a sua fé e confiança nas Palavras de Deus, e se chegaram a Ele (em fé) pela forma que Ele prescreveu.
O Judeu
Na segunda parte do capítulo 2, Paulo fala especificamente para o homem Judeu, aquele que recebeu a Lei. Paulo não descansa enquanto não demonstrar que todo o homem é pecador e perdido, incluindo os Judeus.
“Judeu” refere-se a todos os filhos de Israel; o povo de Deus era chamado de “Hebreus” segundo a sua raça, “Israelitas” segundo a sua nacionalidade, e “Judeus” segundo a sua religião.
Vemos nos evangelhos que os Judeus, em particular na figura dos fariseus e escribas, se orgulhavam de serem Judeus, de serem descendência de Abraão, de serem o povo escolhido de Deus e por possuírem a lei de Moisés.
O objectivo de Paulo não é demonstrar que o Judeu é pior que o outros, mas, como qualquer homem, ele é pecador e precisa de um Salvador. De facto, o Judeu é a representação viva de que todos somos pecadores e que não podemos ser salvos pelas nossas obras ou méritos. Ora se até o povo escolhido de Deus, que recebeu a santa Lei e todas as bençãos materiais de Deus ao longo dos tempos, está em falta e precisa de salvação, muito mais todos os outros homens de todos os tempos. Não há outra solução!
Assim Paulo enumera as virtudes e bençãos que ser “povo escolhido” trouxe sobre eles, nos versículos 18 a 20. Mas a seguir Paulo questiona-os:
“ensinas outros, mas não te ensinas a ti mesmo?”
“pregas que não de deve furtar, e furtas?”
“dizes que não se deve adulterar, e adulteras?”
“abominas os ídolos, e cometes sacrilégio?”
Tomemos em atenção os verbos e expressões que Paulo usa:
Ensinar, Pregar, Dizer e Abominar (nos versículos 18 a 20)
Saber, Aprovar, Instruir, Guiar, Luz, Mestre (nos versículos 21 a 22).
Todos estes verbos e expressões são “passivos”, não revelam nenhuma acção. Nunca Paulo diz “fazes isto” segundo a lei. Afinal de que lhes servia a Lei a não ser para eles se gloriarem nela, aprovarem-na, ensinarem-na, pregarem-na, mas não lhe obedeciam? A gravidade é que Deus era desonrado diante dos outros povos, os gentios, ao verem como os Judeus se comportavam em relação a Deus e à Sua Lei (versículos 23 e 24).
Circuncisão
Para além da lei, havia algo mais em que o Judeu se orgulhava e confiava que lhe trazia segurança: a circuncisão.
A circuncisão era um sinal do concerto que Deus fez com Abraão, o rito que separava Israel de todas as outras nações gentias. Falava da separação para Deus e morte para a carne e suas paixões. Com Moisés, a circuncisão tornou-se parte da Lei. Daí as duas estarem tão intimamente ligadas.
O que Paulo explica nos versículos 25 a 29 é que a mera possessão da Lei ou a submissão à Circuncisão não traria nenhum favor especial de Deus no tocante ao julgamento das obras do homem.
Assim, ao quebrar a Lei, um Judeu reputava por perdido o sinal da circuncisão. Mas quando um Gentio, incircuncidado, guardava os preceitos da lei, o que a circuncisão significava podia ver-se na sua vida, isto é, que queria viver separado para Deus, morrendo para as paixões da carne. Isto não o salvava, é verdade, pois como veremos no capítulo 3 desta Epístola aos Romanos, nenhum homem cumpriu a Lei completamente. Mas um gentio ao viver assim, Deus certamente se revelava a ele, tal como temos o exemplo de Cornélio em Actos 10:35, “Mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e obra o que é justo”.
Paulo demonstra que o Judeu ao confiar somente no seu “pedigree” espiritual, por ser povo escolhido de Deus, por lhe ter sido confiada a Lei, e por ser circuncidado, não podia ser salvo com base na sua religião. Não é por o homem seguir uma religião que pode ser salvo, nem mesmo a judaica, como os judeus, pois engaram-se a si próprios, pensando que os sinais externos eram suficientes, isto é, a Lei e a Circuncisão (versículo 28). Mas o que Deus busca é antes a “obra interior”, operada no espírito do homem, o qual só Deus pode ver, reconhecer e louvar (versículo 29).
(por David Costa)
Boletim de Fevereiro de 2010 Fevereiro 8, 2010
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Disponibilizamos hoje o terceiro Boletim do “Conhecer o Mistério”. Esperamos que assim estes artigos possam chegar a pessoas que não tenham acesso à Internet.
Pedimos a vossa colaboração em imprimir, fotocopiar e distribuir este boletim (e os próximos) pelos irmãos e amigos nas nossas igrejas que não tem acesso à Internet.
Tomando em atenção os comentários que recebemos, iremos só publicar uma versão do boletim, que deverá ser impressa em papel A4. Desta forma estamos certos que será legível e confortável de ler para todos.
Para ser impressa 1 página em cada folha A4:
Conhecer o Mistério – Fevereiro 2010
Verdadeira Espiritualidade – Cap. 1 – A Natureza do Homem Janeiro 30, 2010
Posted by David Costa in Verdadeira Espiritualidade.add a comment
É bem possível que enquanto crianças pensássemos que os nossos pais sabiam todas as coisas, se bem que tal não é verdade. Mas nós que somos crentes devemos estar gratos por termos um Pai celestial que sabe todas as coisas e que pela sua graça há muitas coisas, as mais importantes, que Ele nos deu para que as conheçamos muito bem. Ainda assim, há muitas coisas que não sabemos, e isto é particularmente verdade em relação à nossa própria natureza e constituição. Esta questão é tão complexa, que nunca terminaremos o estudo dela aqui na Terra. Bem escreveu David em relação a este assunto:
“Eu Te louvarei, porque de um modo terrível e tão maravilhoso fui formado; maravilhosas são as Tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.” (Salmos 139:14).
Há, no entanto, algumas coisas que Deus nos diz em relação à nossa natureza e constituição, e destas devemos possuir um conhecimento básico, se queremos compreender o que é ser verdadeiramente espiritual, e isto no sentido bíblico do termo. Comecemos por considerar, de forma breve, a natureza do homem.
Corpo, alma e espírito
O homem possui um corpo com olhos, ouvidos, nariz, língua, dedos e outros membros. Mas ele é mais do que um corpo. Há dentro dele aquilo que dá vida a estes membros e fazem com que possamos ver, ouvir, cheirar, saborear e sentir. A isto chamamos alma (em hebraico, nephesh; em grego, psychē). Pode ser definida como: o sopro da vida; a força vital que anima o corpo e que se evidencia na respiração; aquilo pelo qual o corpo vive e sente. O corpo do homem foi feito a partir do pó da terra, mas para lhe transmitir vida foi necessário que Deus inspirasse nele o sopro da vida.
“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.” (Génesis 2:7).
Assim há pelo menos duas partes da constituição do homem, uma material e outra imaterial. Mas há ainda uma outra parte, também imaterial, chamada espírito (em hebraico, ruwach; em grego, pneuma).
A alma e o espírito, sendo ambos imateriais, têm algumas funções comuns atribuídas nas Escrituras e são por vezes usados alternadamente, mas não se conclui daqui que eles sejam o mesmo, visto que encontramos distinções entre elas em muitas passagens bíblicas.
Lemos na epístola aos Hebreus:
“Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e PENETRA ATÉ À DIVISÃO DA ALMA E DO ESPÍRITO…” (Hebreus 4:12).
Paulo escreveu aos Coríntios sobre o corpo do crente:
“Semeia-se corpo natural [em grego, psychikos, palavra derivada de psychē], ressuscitará corpo espiritual” (I Coríntios 15:44).
Também na epístola de Judas é clara a distinção entre alma e espírito:
“Estes são os que causam divisões, sensuais [em grego, psychikos], que NÃO têm o Espírito [pneuma]” (Judas 19).
Pneuma é normalmente definida como a parte racional do homem e pela qual ele alcança e compreende as coisas as coisas divinas e eternas e sobre a qual o Espírito de Deus exerce a Sua influência.
As passagens anteriores também refutam as seguintes ideias:
- o espírito no corpo faz a alma
- o espírito e o corpo juntos fazem a alma
- o homem não tem alma mas sim é alma
- quando o espírito deixa o corpo deixa de haver alma.
De facto, embora o homem tenha sido “feito alma vivente”, a alma é mesmo assim referida nas Escrituras como sendo distinta do corpo, bem como do espírito, porque a Palavra de Deus não só “penetra até à divisão da alma e do espírito” (Hebreus 4:12) como também faz a divisão entre a alma e o corpo, porque em Mateus 10:28 temos as seguintes palavras do Senhor Jesus Cristo:
“E não temais os que matam o CORPO e não podem matar a alma; temei antes Aquele que pode fazer perecer no inferno A ALMA E O CORPO” (Mateus 10:28).
Como veremos, a alma é a sede da existência consciente do homem e por isso ele é chamado de alma (Génesis 2:7 e Actos 2:41, entre outras passagens), mas visto que ele é mais do que uma alma, uma vez que é também corpo e espírito, lemos nas Escrituras que ele tem uma alma:
“Mas a sua carne nele tem dores; e A SUA ALMA NELE lamenta” (Job 14:22).
“… porquanto derramou A SUA ALMA na morte…” (Isaías 53:12).
“… A SUA ALMA NÃO FOI DEIXADA NO INFERNO, nem a Sua carne viu a corrupção” (Actos 2:31).
Deste modo, o Apóstolo Paulo escreve aos Tessalonicenses:
“… e TODO O VOSSO ESPÍRITO, E ALMA, E CORPO, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (I Tessalonicenses 5:23).
Concordamos, assim, com a posição amplamente divulgada de que a consciência do mundo pertence ao corpo (Mateus 6:22; I Coríntios 12:14-17), a consciência de si mesmo pertence à alma (Mateus 16:26; I Pedro 1:9) e a consciência de Deus pertence ao espírito (Romanos 1:9, 8:16). No entanto, devemos ter em conta que estes três estão intimamente relacionados, pois o corpo, por exemplo, tem consciência do mundo apenas se a alma lhe der consciência, enquanto a alma e o espírito estão relacionados de forma semelhante. Certamente é verdade que o corpo, sendo físico, está mais relacionado com a terra e com as coisas materiais (Génesis 3:19) e que o espírito, antes da queda, relacionava-se mais com Deus e é ainda sobre ele que o Espírito Santo exerce a Sua influência (Efésios 1:17, 4:23), enquanto que a alma é o intermediário entre os dois, sendo a sede dos sentimentos, emoções e decisões, unindo o corpo e o espírito (Génesis 2:7; Marcos 14:34; João 11:33).
Alma, a sede da existência do homem
Embora pareça evidente, com base em Génesis 2:7, que a alma é a sede da existência do homem desde a criação, também é evidente que antes da queda a alma do homem era sujeita ao seu espírito, o qual por sua vez estava em completa harmonia com o Espírito de Deus. No entanto, isto mudou com a queda. O enganador convenceu o homem de que, se se fizesse valer dos seus próprios “direitos”, poderia ser “como Deus”. O homem creu na mentira e como resultado foi dominado por ela. A consciência de si mesmo deu lugar à sua própria vontade e aos próprios interesses. Todo o ser humano tornou-se por natureza um deus para si mesmo. Com a queda o homem tornou-se num ser centrado na alma, passando a sua alma caída, a sua própria importância e os seus próprios interesses a influenciar e a dominar tanto o seu corpo como o seu espírito. Claro que isto teve como consequência a inimizade contra Deus e a separação de Deus. Numa palavra, a morte.
É nosso objectivo ver como Deus, pela graça, oferece libertação desta condição, de forma a que os pecadores mortos em seus pecados possam tornar-se em santos vivos e espirituais.
Espiritualidade bíblica
O que se quer dizer com expressões como “o que é espiritual” e “vós, que sois espirituais” que lemos nas Escrituras? O que é verdadeira espiritualidade no sentido bíblico?
Antes de responder a esta pergunta, devemos referir que a verdadeira espiritualidade não consiste meramente no domínio da vida do homem pelo seu espírito (e não pela sua alma ou pelo seu corpo), porque com a entrada do pecado todo o ser do homem foi “separado da vida de Deus” (Efésios 4:17-19), tornando-se o seu espírito, alma e corpo caídos. Além disso, como vimos, a alma pervertida, em vez de ser a sede da simples consciência de si mesmo, tornou-se na sede da sua própria importância e dos seus próprios interesses, o que teve um efeito devastador no seu espírito, tornando todo o homem interior em inimizade com Deus (Romanos 8:7; Colossenses 1:21).
Uma verificação do uso bíblico da palavra pneuma afastará rapidamente a noção de que o espírito em si mesmo é bom. Várias vezes lemos nas Escrituras acerca de espíritos “imundos” e “maus” (Marcos 1:23 e Lucas 7:21, entre outras). Em I Pedro 3:19-20 lemos acerca dos “espíritos em prisão”, que foram ali lançados por causa da sua desobediência a Deus nos dias de Noé. O próprio Satanás é, como sabemos, o “espírito que agora opera nos filhos da desobediência” (Efésios 2:2) e os crentes são agora avisados explicitamente que a sua luta não é contra a carne e o sangue, mas sim contra os espíritos malignos nos lugares celestiais (Efésios 6:12). Na verdade, o facto de que somos chamados a purificarmo-nos de toda “a imundícia da carne [corpo] e do espírito” (II Coríntios 7:1) e que alguns procuram ser santos, “tanto no corpo como no espírito” (I Coríntios 7:34), indica claramente que o espírito do homem não ficou imaculado com a queda.
Por isso não é suficiente que as nossas vidas sejam dominadas pelos nossos espíritos. O homem no seu todo (espírito, alma e corpo) deve estar dominado pelo Espírito de Deus. Homens espirituais, no sentido bíblico da palavra, são aqueles que têm “o Espírito que vem de Deus” (I Coríntios 2:12), apreciam e são sensíveis às “coisas do Espírito de Deus” (I Coríntios 2:14), são “guiados pelo Espírito de Deus” (Romanos 8:14) e assim produzem “o fruto do Espírito” (Gálatas 5:22).
Em I Coríntios 2:11 fica claro que a espiritualidade bíblica tem que ver com a actuação do Espírito de Deus no crente. Nessa passagem o Apóstolo Paulo nota que, tal como ninguém poderia entender “as coisas do homem” se não fosse “o espírito do homem, que nele está”, assim ninguém pode entender “as coisas de Deus” se não for “o Espírito de Deus”.
O simples facto de o homem caído ter espírito não o ajuda a compreender Deus ou a ser mais como Ele. Este facto devia ser tomado em atenção por aqueles que procuram agradar a Deus, tentando constantemente, e em vão, alcançar um “estado mais elevado”.
O espírito e a carne
Em relação a isto, as epístolas de Paulo têm muito a dizer sobre a carne (no grego, sarx) num sentido ético. O termo “carne” não se refere ao mero corpo físico, nem mesmo ao corpo e à alma, mas antes à natureza adâmica e caída do homem, a qual afecta todo o seu ser, mesmo o seu espírito.
Diz o apóstolo que na carne “não habita bem algum” (Romanos 7:18). Ele chama-a de “carne do pecado” (Romanos 8:3). Ele diz-nos que “a carne cobiça contra o espírito” (Gálatas 5:17), que ela busca “ocasião” para o mal (Gálatas 5:13) e que “as obras da carne” são todas más (Gálatas 5:19-21).
É importante que compreendamos o que significa o termo “carne” em passagens como estas. Não é o corpo físico, nem o corpo e a alma, mas a velha natureza na sua operação no homem no seu todo.
Muitas vezes a natureza caída do homem exprime-se na sua entrega às paixões sensuais, mas por outro lado também se pode exprimir na sua tentativa de controlar essas paixões. O “velho homem” pode parecer moral e íntegro e até muito religioso. Ele pode cumprir fielmente jejuns, festas e dias santos. Ele pode esforçar-se por manter o seu corpo sob controlo, disciplinando-se pela participação em práticas de mortificação dos sentidos “com pretexto de humildade”, mas estará de facto a desagradar ainda mais a Deus porque está “debalde inchado na sua carnal compreensão”, supondo que está a fazer algo de bom dele mesmo. E no entanto as “ordenanças” com as quais o “carregam” e mesmo a “disciplina do corpo” “não são de valor algum senão para a satisfação da carne” (Colossenses 2:18-23) pela simples razão de que todos estes esforços representam apenas uma tentativa da carne para se tornar melhor.
Não é de admirar que não só lemos que “o que semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção” (Gálatas 6:8), mas também que mesmo “a inclinação da carne é morte… porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” (Romanos 8:6,7).
“Portanto, os que estão na carne [isto é, vivem sob o domínio da velha natureza] não podem agradar a Deus” (Romanos 8:8). É importante lembrar isto. Por muito educado, culto ou religioso que o homem seja, ele não pode agradar a Deus!
Até agora abordámos este assunto de forma um pouco pormenorizada de forma a que o leitor não seja induzido no erro de pensar que se ao menos o seu espírito conseguisse controlar o seu corpo, ele seria um homem melhor; isto porque o seu espírito, alma e corpo são, desde a meninice, controlados pela natureza adâmica caída: a carne.
Aquilo de que o pecador precisa é de uma nova natureza, gerada pelo espírito de Deus, para que Deus possa ter o controlo.
Formas predominantes de pseudo-espiritualidade
Antes de explicar pelas Escrituras como os pecadores se podem tornar “participantes da natureza divina”, algo mais deve ser dito sobre o que não é espiritualidade.
Para além das tentativas sinceras (embora vãs) dos perdidos para melhorar a sua velha natureza, há várias formas de pseudo-espiritualidade que muitos, mesmo entre o povo de Deus, têm trocado pela verdadeira, supondo que evidenciam a operação do Espírito de Deus neles.
Para alguns, o puro emocionismo é tido como espiritualidade. Reacções emocionais a histórias comoventes, apelos apaixonados ou bela música sacra é por vezes vista como a operação do Espírito e aqueles que prontamente reagem a estas coisas são considerados como bastante espirituais.
Para outros, a solenidade é tida como espiritualidade. Eles sentem que os verdadeiros crentes deveriam ser sempre solenes e andar sempre com a cabeça inclinada, olhar deprimido e com uma postura séria, procurando simular espiritualidade, enquanto os outros, que não os conhecem bem, reparam na sua aparente piedade.
Com outros é exactamente o oposto. Eles confundem jovialidade ou boa disposição com espiritualidade e vêem aqueles que são rápidos a gritar “Aleluia” ou parecem sempre felizes como os mais espirituais.
Muitas vezes o mero cerimonialismo é confundido com espiritualidade. Celebrar um “sacramento”, contemplar uma imagem “sagrada”, ajoelhar-se perante um altar; tais coisas podem ser, e muitas vezes são, confundidas com espiritualidade.
Talvez a forma mais predominante de “verdadeira” espiritualidade contrafeita é aquela pela qual os crentes menos esperariam ser enganados: superstição, que se move tão agilmente na nossa imaginação. Eis alguns exemplos:
Um jovem que procura saber qual a vontade de Deus para a sua vida abre a sua Bíblia ao acaso e aponta para um versículo também ao acaso o qual supostamente indica a orientação do Senhor. Uma dona de casa procura orientação para o dia retirando uma promessa de uma “caixinha de promessas”, uma promessa que pode até nem se aplicar minimamente a ela e que terá de ser “espiritualizada” de qualquer forma de modo a encaixar. Outros dirão: “Falei com o Senhor sobre isso e Ele disse…” Muitas vezes as práticas mais em desacordo com as Escrituras são justificadas desta forma. Perante estas justificações, deveria ser perguntado “Exactamente o que te disse o Senhor?”, “Como é que Ele te disse isso?” ou “Ouviste a Sua voz?”.
Cremos que Deus fala de facto aos seus filhos directamente na Sua Palavra e indirectamente através das circunstâncias, mas mesmo nos tempos bíblicos era relativamente raro alguém ouvir a voz de Deus. Geralmente o que “o Senhor disse” nos casos anteriormente referidos eram nada mais do que uma emoção completamente humana ou opinião pessoal à qual se chegou e totalmente falível. Se aquilo que “o Senhor disse” era uma convicção genuína, baseado na vontade revelada de Deus, então pode ser dito que Deus falou a essa pessoa através da sua Palavra, em resposta a oração, mas a ideia que deve ficar não deve ser a de que o Senhor “disse” ou “sussurrou” alguma coisa enquanto essa pessoa estava em oração. Aqueles que imaginam que têm tais experiências e supõe que isto reflecte algum grau de espiritualidade da sua parte, deveriam procurar nas Escrituras e ficar a saber que nos dias em que o Senhor falava audivelmente ou por aparições de anjos, Ele fazia-o tanto aos ímpios e imorais como aos Seus santos. Sem dúvida, de boa vontade o nosso adversário nos deixará ocupados com “vozes” imaginárias e “revelações” e assim tirar do seu devido lugar a completa revelação das Sagradas Escrituras.
Mas não pretendemos que haja algum mal-entendido. Não dizemos que reacções emotivas, solenidade sincera ou jovialidade são erradas. Apenas dizemos que elas não devem ser confundidas com verdadeira espiritualidade. Os perdidos podem experimentar reacções emotivas semelhantes às que os salvos sentem. Os perdidos também podem ser alegres ou solenes. Certamente o cerimonialismo e a superstição tem um amplo lugar entre os perdidos. No entanto os perdidos, quaisquer que sejam as suas experiências emocionais, sejam eles solenes ou joviais, dados ao cerimonialismo ou superstição, estão longe de ser espirituais.
(por Cornelius Stam)