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Epístola aos Romanos – Capítulo 1 Dezembro 30, 2009

Posted by David Costa in Epístola aos Romanos.
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A Epístola aos Romanos começa com uma apresentação de seu autor e qual a sua mensagem. Paulo apresenta-se como um servo, ou escravo, de Jesus Cristo, tendo sido chamado para apóstolo, para comunicar as boas novas, o evangelho de Deus.

Ao lermos a palavra “apóstolo”, podemos pensar que Paulo tinha sido chamado para ser um dos 12 apóstolos. Mas lembremo-nos que Matias tinha sido divinamente escolhido para substituir Judas, para fazer parte do grupo dos 12 apóstolos. Na verdade Paulo não preenchia os requisitos para ser um dos 12 apóstolos, pois lemos em Actos 1:21-22, quando os 11 apóstolos procuravam um substituto para Judas os requisitos eram:

“É necessário pois, que, dos varões que conviveram connosco, todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu entre nós, começando desde o baptismo de João, até ao dia em que de entre nós foi recebido em cima, um deles se faça connosco testemunha da sua ressurreição.”

Paulo claramente não seguiu Cristo, durante o seu ministério terreno. Pelo contrário! Após o Pentecostes, Paulo era o maior inimigo de Cristo na terra.

Sendo assim, Paulo foi chamado para ser outro tipo de apóstolo, isto é, um apóstolo com uma mensagem nova de Deus, um evangelho diferente do evangelho que os 12 apóstolos anunciavam.

E que evangelho é este, que mensagem é esta? Lemos a partir do versículo 3:

“Acerca de Seu Filho, que nasceu da descendência de David, segundo a carne, declarado Filho de Deus, em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos – Jesus Cristo, nosso Senhor. Pelo qual (Cristo) recebemos a graça e o apostolado, para obediência de fé, entre todas as gentes pelo Seu nome. Entre as quais sois, também, vós chamados, para serdes de Jesus Cristo.” (Romanos 1:3-6)

Paulo foi chamado a proclamar “acerca do Filho de Deus, Jesus Cristo, nosso Senhor”. Em todas as suas epístolas, o tema principal é “Cristo”, e várias vezes Paulo claramente afirma que prega Cristo. Paulo não foi chamado por Deus para anunciar um novo conjunto de leis, um novo conjunto de princípios morais de como devemos viver, ou um conjunto de promessas de prosperidade material. Paulo foi chamado a anunciar Cristo.

Voltando um pouco atrás, no versículo 2, temos uma frase que pode gerar alguma controvérsia relativamente à singularidade do apostolado de Paulo e a “novidade” do seu evangelho:

“O qual antes havia prometido pelos Seus profetas, nas santas escrituras…”.

Em relação ao princípio do versículo 2, no tocante à expressão “o qual”, há duas vertentes em relação ao que se refere “o qual”. Uma delas é a de que “o qual” se refere a Deus, tomando assim o versículo o sentido que de Deus “havia prometido… acerca de seu Filho”. A segunda vertente é de que “o qual” se refere ao evangelho de Deus, que Paulo refere no versículo 1.

A expressão “o qual” na versão original em Grego é o artigo “hos”, que pode referir-se a “quem”, “o que”, “o qual”, “de quem”. Daí encontrarmos as duas vertentes mencionadas no parágrafo anterior.

Poderemos pensar, ao ler este versículo, que o evangelho que Paulo anunciava, afinal tinha sido profetizado no passado. Mas esta ideia entra em contradição com o que Paulo claramente afirma na conclusão desta Epístola aos Romanos:

“Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar, segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto, mas que se manifestou agora.” (Romanos 16:25).

Sendo assim, a vertente que parece estar mais perto da ideia original das palavras de Paulo é que Deus havia revelado pelas palavras dos profetas do Velho Testamento acerca do Messias. De facto nos versículos 3 e 4, o que lemos é um resumo do que estes profetas haviam escrito sobre o Cristo. Neste resumo não há nenhuma informação nova, pelo que não parece fazer sentido associá-lo ao (novo) evangelho de Paulo. Paulo aqui associa o Cristo da Profecia ao Cristo do Mistério, à semelhança do que ele fazia quando pregava Cristo nas sinagogas. Esta interpretação que fazemos não é para encaixar no que cremos, mas é a única que é coerente.

Existem algumas traduções da Bíblia (em outras línguas ou mesmo em Português) que transmitem a ideia de que “o qual” se refere ao evangelho. Isso acontece porque as pessoas que trabalharam nessas traduções seguiam a ideia dominante de que a mensagem de Paulo já vinha sendo profetizada desde Génesis 3:15. Tais traduções induzem as pessoas em erro.

A nossa versão em Português, de João Ferreira de Almeida (Revista e Corrigida), é feliz neste versículo em particular, não induzindo em erro, visto que não força uma interpretação, como acontece em outras.

A quem se destina esta Epístola e qual a sua mensagem?

O versículo 7 é muito importante! Paulo escreve a todos os crentes que estão em Roma, que são amados de Deus, chamados santos. Todo o crente, todo o amado de Deus, salvo por Jesus Cristo, é chamado “santo”, não por causa das suas boas obras, mas porque Deus o chama, o declara “santo”, com base na obra da Cruz, efectuada por Cristo.

Na segunda parte do versículo encontramos não uma saudação “espiritual” de Paulo para os crentes de Roma, mas sim o âmago da mensagem que Deus tem para eles, e para todos nós hoje:

“Graça e Paz, de Deus, nosso Pai, e do nosso Senhor Jesus Cristo.”

Paulo proclama que Deus oferece agora Graça e Paz a todo o homem. Deus oferece a Sua Graça, oferecendo ao homem salvação, pelo Senhor Jesus Cristo. E oferece Paz ao homem, não derramando a Sua ira sobre o mundo e todo o homem, que estava profetizado para acontecer após o Pentecostes, tal como lemos em Actos 2:16-20. Deus adia a sua “declaração de guerra” para com o homem, para proclamar Paz.

A fé dos crentes em Roma e o desejo de Paulo os visitar

É de notar como os crentes em Roma eram fiéis e a sua fé em Cristo já era reconhecida pelo mundo fora, apesar de Paulo não ter visitado estes crentes até então. Daí Paulo ter um desejo muito forte de os visitar, e continuamente orar por eles e por uma oportunidade de os visitar.

Com que objectivo pretendia Paulo os visitar? Seria para “ter comunhão com eles”, como costumamos dizer no nosso meio? Seria para “adorar e louvar a Deus” junto com eles? Não! Paulo queria lhes “comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais confortados” (v. 11).

Mas afinal o que são estes “dons espirituais”? Será algum “dom espiritual” de profecia, de cura, de línguas, ou de algo desse género, como era comum no Evangelho do Reino, anunciado pelos 12 apóstolos? Consideremos mais abaixo o versículo 15:
“E assim, quanto está em mim, estou pronto para também vos anunciar, o evangelho, a vós que estais em Roma.”

O que Paulo queria comunicar era o Evangelho, nada mais que o Evangelho. É esse o dom espiritual que Paulo queria comunicar aos crentes em Roma. A motivação de Paulo era Poder anunciar e explicar o Evangelho que Deus tinha entregue ao apóstolo Paulo, para assim estes crentes poderem ser confortados. E assim Paulo ser consolado também, ao ver que estes crentes compreendiam e criam no mesmo evangelho.

E Paulo não se envergonha deste evangelho, não se envergonha de Cristo. Isto em claro contraste com a nação de Israel, que rejeitou Cristo enquanto nação, tendo Cristo lhe sido oferecido como Messias, como seu Rei. Mas agora, Paulo anuncia Cristo, “poder de Deus para salvação de todo aquele que crê”. Não só para o Judeu, como primeiramente Cristo foi anunciado, “oferecido” à nação de Israel, mas também para o grego, para o gentio. Isto é, Cristo para Salvação de todo o homem.

Umas das razões pelas quais Paulo não se envergonhava do evangelho de Cristo era porque nele se vê a Justiça de Deus, não só a sua Graça e Misericórdia, mas a sua Justiça perfeita (v. 17). Deus não baixou os seus padrões de Justiça com o evangelho da graça, ao oferecer Salvação pela Fé a todo o homem. Paulo claramente afirma mais à frente neste epístola:

“Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei.” (Romanos 3:31)

A queda do homem

Na segunda parte do capítulo 1, o Apóstolo Paulo apresenta uma análise da condição do homem perante Deus, e é surpreendente seguir a progressão, a queda do homem passo a passo.

O versículo 18 começa com uma introdução aos versículos que se seguem:

“Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça.”

É de notar que este versículo não avisa acerca da ira que está para vir, mas sim acerca da ira que agora está a ser manifestada do céu. Mediante os versículos que vamos considerar de seguida, estou convicto que esta ira que se manifesta no presente, é a ira que Deus revela cada dia pelos frutos que a conduta do homem traz sobre si próprio. Consideremos os passos da degradação espiritual do homem, e compreenderemos melhor esta ideia.

Lemos no versículo 19 que “o que de Deus se pode conhecer, neles”, nos homens, “se manifesta, porque Deus lho manifestou”. Isto claramente não se refere a tudo o que se pode conhecer acerca de Deus, porque até lemos em I aos Coríntios 2:10-11:

“Mas Deus no-las revelou pelo Seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim, também, ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.” 

O versículo 19 refere-se ao conhecimento que o homem naturalmente pode ter de Deus. Gravado na natureza humana, está o conhecimento, como por instinto, que Deus existe. E as “coisas invisíveis” de Deus, o Seu eterno poder e a sua divindade podem claramente ser compreendidos pelo homem, ao considerar o mundo e a natureza, isto é, as coisas que foram criadas por Deus. Tudo possui a marca de Deus.

Daí Paulo afirmar, no fim do versículo 20, que nenhum homem tem desculpa, é inescusável, pois a compreensão que Deus existe e acerca da sua divindade e poder, podem ser reconhecidos, ao alcance de qualquer homem, pela Criação.

Seguidamente encontramos no versículo 21 o primeiro passo histórico da descida à depravação do homem. Apesar de o homem conhecer Deus no passado, compreender que Deus existe, que é o criador e o todo-poderoso Deus, o homem escolheu não dar glória a Deus, não reconhecer a sua glória e poder, não reconhecer as suas obras e dádivas como sendo dignas de acções de graças. E na verdade o homem se corrompeu nos seus pensamentos (“em seus discursos”), e o seu coração insensato, por não reconhecer Deus, ainda mais se obscureceu.

Achando-se sábios, segundo o conhecimento, capacidade e sabedoria humanos, na verdade aos olhos de Deus, não passam de loucos, ignorantes, estúpidos e néscios.
Chegamos ao segundo passo histórico da queda do homem, que na verdade traduz-se numa série de quatro passos.

Na sua tentativa de adorar a Deus, segundo a sabedoria e ideias humanas, o homem mudou, corrompeu a glória de Deus, ser incorruptível, fazendo representações em ouro e prata de seres e coisas corruptíveis, que considerava serem Deus. Assim começou por imagens de homens, depois de aves, seguidamente de quadrúpedes até criar imagens de répteis, uma clara diminuta aberração do que Deus é no seu Ser.
Até Israel, o povo escolhido de Deus, que conhecia a Deus e tinha recebido a Sua lei, muitas vezes adorou outros deuses e imagens de deuses, sob a forma de homem e animais (como lemos em Êxodo 32).

Sendo assim, chegado o homem a este ponto, lemos no versículo 24 que Deus o “entregou”, no versículo 26 que Deus o “abandonou”, e mais uma vez no versículo 28, Deus o “entregou”.

Perante a corrupção espiritual do homem, Deus deixa, abandona, entrega o homem aos desejos do seu coração e aos seus pensamentos corruptos. Assim como o homem corrompeu a glória de Deus, corrompeu assim também a sua própria “glória”, as suas próprias funções naturais (“mudaram o uso natural”), “contrário à sua própria natureza” (v.26). Na verdade o homem trouxe sobre si próprio toda a perversão sexual, apesar de na aparência humana, parecer um ser intelectual, sábio e poderoso. Basta lembrarmo-nos dos impérios Babilónio, Grego e Romano, cheios de poder, glória, arte, ciência, filosofia e conhecimento, e quão corruptos se tornaram na área sexual.

Tal como lemos no versículo 28, isto é consequência de o homem não querer nada com Deus. Mas não pensemos que a corrupção do homem é culpa de Deus, pois Deus o “entregou” e o “abandonou”. Não é esse o sentido de tais expressões!

O homem longe de Deus só lhe espera a corrupção, ir de mal a pior moralmente falando, até ao ponto de desonrar tudo o que tem de precioso naturalmente. Deus concede ao homem o que o homem quer. Deus não força ninguém a adorá-lo, a reconhece-lo como Deus. Deus na verdade é longânimo, e espera que o homem venha a “despertar”, mas ele concede ao homem a sua vontade própria, mesmo que isso seja não querer nada com Deus. Mas as consequências são visíveis – a corrupção e degradação moral do homem.

E sem intervenção divina, em que se converte o homem? Que frutos traz ele sobre si próprio? De que forma se manifesta então a ira de Deus diariamente? Temos uma longa lista nos versículos 29 a 31:

“Estando cheios de toda a iniquidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; Sendo murmuradores, detractores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães; Néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia.”

E apos lermos esta lista, vemos no versículo seguinte que o homem conhecendo em seu coração a justiça de Deus, que um dia o castigo cairá sobre si por cometer tais coisas, não só continua a praticá-las, como louva e incentiva (consente) os outros que as fazem também. Na verdade vemos isso claramente na nossa sociedade, quando muitas vezes o corrupto é adorado e louvado, o criminoso chamado de herói, o enganador é imitado e respeitado… e por aí adiante. Na verdade o homem no seu coração e alma encontra-se completamente corrompido.

(por David Costa e Daniel Ferreira)

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