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Verdadeira Espiritualidade – Cap. 1 – A Natureza do Homem Janeiro 30, 2010

Posted by David Costa in Verdadeira Espiritualidade.
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É bem possível que enquanto crianças pensássemos que os nossos pais sabiam todas as coisas, se bem que tal não é verdade. Mas nós que somos crentes devemos estar gratos por termos um Pai celestial que sabe todas as coisas e que pela sua graça há muitas coisas, as mais importantes, que Ele nos deu para que as conheçamos muito bem. Ainda assim, há muitas coisas que não sabemos, e isto é particularmente verdade em relação à nossa própria natureza e constituição. Esta questão é tão complexa, que nunca terminaremos o estudo dela aqui na Terra. Bem escreveu David em relação a este assunto:

“Eu Te louvarei, porque de um modo terrível e tão maravilhoso fui formado; maravilhosas são as Tuas obras, e a minha alma o sabe muito bem.” (Salmos 139:14).

Há, no entanto, algumas coisas que Deus nos diz em relação à nossa natureza e constituição, e destas devemos possuir um conhecimento básico, se queremos compreender o que é ser verdadeiramente espiritual, e isto no sentido bíblico do termo. Comecemos por considerar, de forma breve, a natureza do homem.

Corpo, alma e espírito

O homem possui um corpo com olhos, ouvidos, nariz, língua, dedos e outros membros. Mas ele é mais do que um corpo. Há dentro dele aquilo que dá vida a estes membros e fazem com que possamos ver, ouvir, cheirar, saborear e sentir. A isto chamamos alma (em hebraico, nephesh; em grego, psychē). Pode ser definida como: o sopro da vida; a força vital que anima o corpo e que se evidencia na respiração; aquilo pelo qual o corpo vive e sente. O corpo do homem foi feito a partir do pó da terra, mas para lhe transmitir vida foi necessário que Deus inspirasse nele o sopro da vida.
“E formou o Senhor Deus o homem do pó da terra e soprou em seus narizes o fôlego da vida; e o homem foi feito alma vivente.” (Génesis 2:7).

Assim há pelo menos duas partes da constituição do homem, uma material e outra imaterial. Mas há ainda uma outra parte, também imaterial, chamada espírito (em hebraico, ruwach; em grego, pneuma).

A alma e o espírito, sendo ambos imateriais, têm algumas funções comuns atribuídas nas Escrituras e são por vezes usados alternadamente, mas não se conclui daqui que eles sejam o mesmo, visto que encontramos distinções entre elas em muitas passagens bíblicas.

Lemos na epístola aos Hebreus:
“Porque a palavra de Deus é viva e eficaz, e mais penetrante do que espada alguma de dois gumes, e PENETRA ATÉ À DIVISÃO DA ALMA E DO ESPÍRITO…” (Hebreus 4:12).

Paulo escreveu aos Coríntios sobre o corpo do crente:
“Semeia-se corpo natural [em grego, psychikos, palavra derivada de psychē], ressuscitará corpo espiritual” (I Coríntios 15:44).

Também na epístola de Judas é clara a distinção entre alma e espírito:
“Estes são os que causam divisões, sensuais [em grego, psychikos], que NÃO têm o Espírito [pneuma]” (Judas 19).

Pneuma é normalmente definida como a parte racional do homem e pela qual ele alcança e compreende as coisas as coisas divinas e eternas e sobre a qual o Espírito de Deus exerce a Sua influência.

As passagens anteriores também refutam as seguintes ideias:

  • o espírito no corpo faz a alma
  • o espírito e o corpo juntos fazem a alma
  • o homem não tem alma mas sim é alma
  • quando o espírito deixa o corpo deixa de haver alma.

De facto, embora o homem tenha sido “feito alma vivente”, a alma é mesmo assim referida nas Escrituras como sendo distinta do corpo, bem como do espírito, porque a Palavra de Deus não só “penetra até à divisão da alma e do espírito” (Hebreus 4:12) como também faz a divisão entre a alma e o corpo, porque em Mateus 10:28 temos as seguintes palavras do Senhor Jesus Cristo:

“E não temais os que matam o CORPO e não podem matar a alma; temei antes Aquele que pode fazer perecer no inferno A ALMA E O CORPO” (Mateus 10:28).

Como veremos, a alma é a sede da existência consciente do homem e por isso ele é chamado de alma (Génesis 2:7 e Actos 2:41, entre outras passagens), mas visto que ele é mais do que uma alma, uma vez que é também corpo e espírito, lemos nas Escrituras que ele tem uma alma:

“Mas a sua carne nele tem dores; e A SUA ALMA NELE lamenta” (Job 14:22).
“… porquanto derramou A SUA ALMA na morte…” (Isaías 53:12).
“… A SUA ALMA NÃO FOI DEIXADA NO INFERNO, nem a Sua carne viu a corrupção” (Actos 2:31).

Deste modo, o Apóstolo Paulo escreve aos Tessalonicenses:
“… e TODO O VOSSO ESPÍRITO, E ALMA, E CORPO, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” (I Tessalonicenses 5:23).

Concordamos, assim, com a posição amplamente divulgada de que a consciência do mundo pertence ao corpo (Mateus 6:22; I Coríntios 12:14-17), a consciência de si mesmo pertence à alma (Mateus 16:26; I Pedro 1:9) e a consciência de Deus pertence ao espírito (Romanos 1:9, 8:16). No entanto, devemos ter em conta que estes três estão intimamente relacionados, pois o corpo, por exemplo, tem consciência do mundo apenas se a alma lhe der consciência, enquanto a alma e o espírito estão relacionados de forma semelhante. Certamente é verdade que o corpo, sendo físico, está mais relacionado com a terra e com as coisas materiais (Génesis 3:19) e que o espírito, antes da queda, relacionava-se mais com Deus e é ainda sobre ele que o Espírito Santo exerce a Sua influência (Efésios 1:17, 4:23), enquanto que a alma é o intermediário entre os dois, sendo a sede dos sentimentos, emoções e decisões, unindo o corpo e o espírito (Génesis 2:7; Marcos 14:34; João 11:33).

Alma, a sede da existência do homem

Embora pareça evidente, com base em Génesis 2:7, que a alma é a sede da existência do homem desde a criação, também é evidente que antes da queda a alma do homem era sujeita ao seu espírito, o qual por sua vez estava em completa harmonia com o Espírito de Deus. No entanto, isto mudou com a queda. O enganador convenceu o homem de que, se se fizesse valer dos seus próprios “direitos”, poderia ser “como Deus”. O homem creu na mentira e como resultado foi dominado por ela. A consciência de si mesmo deu lugar à sua própria vontade e aos próprios interesses. Todo o ser humano tornou-se por natureza um deus para si mesmo. Com a queda o homem tornou-se num ser centrado na alma, passando a sua alma caída, a sua própria importância e os seus próprios interesses a influenciar e a dominar tanto o seu corpo como o seu espírito. Claro que isto teve como consequência a inimizade contra Deus e a separação de Deus. Numa palavra, a morte.

É nosso objectivo ver como Deus, pela graça, oferece libertação desta condição, de forma a que os pecadores mortos em seus pecados possam tornar-se em santos vivos e espirituais.

Espiritualidade bíblica

O que se quer dizer com expressões como “o que é espiritual” e “vós, que sois espirituais” que lemos nas Escrituras? O que é verdadeira espiritualidade no sentido bíblico?

Antes de responder a esta pergunta, devemos referir que a verdadeira espiritualidade não consiste meramente no domínio da vida do homem pelo seu espírito (e não pela sua alma ou pelo seu corpo), porque com a entrada do pecado todo o ser do homem foi “separado da vida de Deus” (Efésios 4:17-19), tornando-se o seu espírito, alma e corpo caídos. Além disso, como vimos, a alma pervertida, em vez de ser a sede da simples consciência de si mesmo, tornou-se na sede da sua própria importância e dos seus próprios interesses, o que teve um efeito devastador no seu espírito, tornando todo o homem interior em inimizade com Deus (Romanos 8:7; Colossenses 1:21).

Uma verificação do uso bíblico da palavra pneuma afastará rapidamente a noção de que o espírito em si mesmo é bom. Várias vezes lemos nas Escrituras acerca de espíritos “imundos” e “maus” (Marcos 1:23 e Lucas 7:21, entre outras). Em I Pedro 3:19-20 lemos acerca dos “espíritos em prisão”, que foram ali lançados por causa da sua desobediência a Deus nos dias de Noé. O próprio Satanás é, como sabemos, o “espírito que agora opera nos filhos da desobediência” (Efésios 2:2) e os crentes são agora avisados explicitamente que a sua luta não é contra a carne e o sangue, mas sim contra os espíritos malignos nos lugares celestiais (Efésios 6:12). Na verdade, o facto de que somos chamados a purificarmo-nos de toda “a imundícia da carne [corpo] e do espírito” (II Coríntios 7:1) e que alguns procuram ser santos, “tanto no corpo como no espírito” (I Coríntios 7:34), indica claramente que o espírito do homem não ficou imaculado com a queda.

Por isso não é suficiente que as nossas vidas sejam dominadas pelos nossos espíritos. O homem no seu todo (espírito, alma e corpo) deve estar dominado pelo Espírito de Deus. Homens espirituais, no sentido bíblico da palavra, são aqueles que têm “o Espírito que vem de Deus” (I Coríntios 2:12), apreciam e são sensíveis às “coisas do Espírito de Deus” (I Coríntios 2:14), são “guiados pelo Espírito de Deus” (Romanos 8:14) e assim produzem “o fruto do Espírito” (Gálatas 5:22).

Em I Coríntios 2:11 fica claro que a espiritualidade bíblica tem que ver com a actuação do Espírito de Deus no crente. Nessa passagem o Apóstolo Paulo nota que, tal como ninguém poderia entender “as coisas do homem” se não fosse “o espírito do homem, que nele está”, assim ninguém pode entender “as coisas de Deus” se não for “o Espírito de Deus”.

O simples facto de o homem caído ter espírito não o ajuda a compreender Deus ou a ser mais como Ele. Este facto devia ser tomado em atenção por aqueles que procuram agradar a Deus, tentando constantemente, e em vão, alcançar um “estado mais elevado”.

O espírito e a carne

Em relação a isto, as epístolas de Paulo têm muito a dizer sobre a carne (no grego, sarx) num sentido ético. O termo “carne” não se refere ao mero corpo físico, nem mesmo ao corpo e à alma, mas antes à natureza adâmica e caída do homem, a qual afecta todo o seu ser, mesmo o seu espírito.

Diz o apóstolo que na carne “não habita bem algum” (Romanos 7:18). Ele chama-a de “carne do pecado” (Romanos 8:3). Ele diz-nos que “a carne cobiça contra o espírito” (Gálatas 5:17), que ela busca “ocasião” para o mal (Gálatas 5:13) e que “as obras da carne” são todas más (Gálatas 5:19-21).

É importante que compreendamos o que significa o termo “carne” em passagens como estas. Não é o corpo físico, nem o corpo e a alma, mas a velha natureza na sua operação no homem no seu todo.

Muitas vezes a natureza caída do homem exprime-se na sua entrega às paixões sensuais, mas por outro lado também se pode exprimir na sua tentativa de controlar essas paixões. O “velho homem” pode parecer moral e íntegro e até muito religioso. Ele pode cumprir fielmente jejuns, festas e dias santos. Ele pode esforçar-se por manter o seu corpo sob controlo, disciplinando-se pela participação em práticas de mortificação dos sentidos “com pretexto de humildade”, mas estará de facto a desagradar ainda mais a Deus porque está “debalde inchado na sua carnal compreensão”, supondo que está a fazer algo de bom dele mesmo. E no entanto as “ordenanças” com as quais o “carregam” e mesmo a “disciplina do corpo” “não são de valor algum senão para a satisfação da carne” (Colossenses 2:18-23) pela simples razão de que todos estes esforços representam apenas uma tentativa da carne para se tornar melhor.

Não é de admirar que não só lemos que “o que semeia na sua carne, da carne ceifará a corrupção” (Gálatas 6:8), mas também que mesmo “a inclinação da carne é morte… porquanto a inclinação da carne é inimizade contra Deus, pois não é sujeita à lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser” (Romanos 8:6,7).

“Portanto, os que estão na carne [isto é, vivem sob o domínio da velha natureza] não podem agradar a Deus” (Romanos 8:8). É importante lembrar isto. Por muito educado, culto ou religioso que o homem seja, ele não pode agradar a Deus!

Até agora abordámos este assunto de forma um pouco pormenorizada de forma a que o leitor não seja induzido no erro de pensar que se ao menos o seu espírito conseguisse controlar o seu corpo, ele seria um homem melhor; isto porque o seu espírito, alma e corpo são, desde a meninice, controlados pela natureza adâmica caída: a carne.

Aquilo de que o pecador precisa é de uma nova natureza, gerada pelo espírito de Deus, para que Deus possa ter o controlo.

Formas predominantes de pseudo-espiritualidade

Antes de explicar pelas Escrituras como os pecadores se podem tornar “participantes da natureza divina”, algo mais deve ser dito sobre o que não é espiritualidade.

Para além das tentativas sinceras (embora vãs) dos perdidos para melhorar a sua velha natureza, há várias formas de pseudo-espiritualidade que muitos, mesmo entre o povo de Deus, têm trocado pela verdadeira, supondo que evidenciam a operação do Espírito de Deus neles.

Para alguns, o puro emocionismo é tido como espiritualidade. Reacções emocionais a histórias comoventes, apelos apaixonados ou bela música sacra é por vezes vista como a operação do Espírito e aqueles que prontamente reagem a estas coisas são considerados como bastante espirituais.

Para outros, a solenidade é tida como espiritualidade. Eles sentem que os verdadeiros crentes deveriam ser sempre solenes e andar sempre com a cabeça inclinada, olhar deprimido e com uma postura séria, procurando simular espiritualidade, enquanto os outros, que não os conhecem bem, reparam na sua aparente piedade.

Com outros é exactamente o oposto. Eles confundem jovialidade ou boa disposição com espiritualidade e vêem aqueles que são rápidos a gritar “Aleluia” ou parecem sempre felizes como os mais espirituais.

Muitas vezes o mero cerimonialismo é confundido com espiritualidade. Celebrar um “sacramento”, contemplar uma imagem “sagrada”, ajoelhar-se perante um altar; tais coisas podem ser, e muitas vezes são, confundidas com espiritualidade.

Talvez a forma mais predominante de “verdadeira” espiritualidade contrafeita é aquela pela qual os crentes menos esperariam ser enganados: superstição, que se move tão agilmente na nossa imaginação. Eis alguns exemplos:

Um jovem que procura saber qual a vontade de Deus para a sua vida abre a sua Bíblia ao acaso e aponta para um versículo também ao acaso o qual supostamente indica a orientação do Senhor. Uma dona de casa procura orientação para o dia retirando uma promessa de uma “caixinha de promessas”, uma promessa que pode até nem se aplicar minimamente a ela e que terá de ser “espiritualizada” de qualquer forma de modo a encaixar. Outros dirão: “Falei com o Senhor sobre isso e Ele disse…” Muitas vezes as práticas mais em desacordo com as Escrituras são justificadas desta forma. Perante estas justificações, deveria ser perguntado “Exactamente o que te disse o Senhor?”, “Como é que Ele te disse isso?” ou “Ouviste a Sua voz?”.

Cremos que Deus fala de facto aos seus filhos directamente na Sua Palavra e indirectamente através das circunstâncias, mas mesmo nos tempos bíblicos era relativamente raro alguém ouvir a voz de Deus. Geralmente o que “o Senhor disse” nos casos anteriormente referidos eram nada mais do que uma emoção completamente humana ou opinião pessoal à qual se chegou e totalmente falível. Se aquilo que “o Senhor disse” era uma convicção genuína, baseado na vontade revelada de Deus, então pode ser dito que Deus falou a essa pessoa através da sua Palavra, em resposta a oração, mas a ideia que deve ficar não deve ser a de que o Senhor “disse” ou “sussurrou” alguma coisa enquanto essa pessoa estava em oração. Aqueles que imaginam que têm tais experiências e supõe que isto reflecte algum grau de espiritualidade da sua parte, deveriam procurar nas Escrituras e ficar a saber que nos dias em que o Senhor falava audivelmente ou por aparições de anjos, Ele fazia-o tanto aos ímpios e imorais como aos Seus santos. Sem dúvida, de boa vontade o nosso adversário nos deixará ocupados com “vozes” imaginárias e “revelações” e assim tirar do seu devido lugar a completa revelação das Sagradas Escrituras.

Mas não pretendemos que haja algum mal-entendido. Não dizemos que reacções emotivas, solenidade sincera ou jovialidade são erradas. Apenas dizemos que elas não devem ser confundidas com verdadeira espiritualidade. Os perdidos podem experimentar reacções emotivas semelhantes às que os salvos sentem. Os perdidos também podem ser alegres ou solenes. Certamente o cerimonialismo e a superstição tem um amplo lugar entre os perdidos. No entanto os perdidos, quaisquer que sejam as suas experiências emocionais, sejam eles solenes ou joviais, dados ao cerimonialismo ou superstição, estão longe de ser espirituais.

(por Cornelius Stam)

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