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Verdadeira Espiritualidade – Cap. 2 – O primeiro passo para a verdadeira espiritualidade Abril 21, 2010

Posted by David Costa in Verdadeira Espiritualidade.
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A necessidade de uma nova natureza

Aquilo de que o homem precisa, em primeiro lugar, para se tornar verdadeiramente espiritual é, então, uma nova natureza, gerada do Espírito de Deus. O nosso Senhor deixou isso bem claro quando disse a Nicodemos:
“O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito” (João 3:6).

Novamente nesta passagem o termo carne não pode referir-se meramente ao corpo físico, porque no nascimento são gerados não só um corpo, mas também um espírito e uma alma. Assim, aqui a carne refere-se à natureza adâmica decaída.

Da mesma forma, aqui o espírito que é nascido do Espírito não pode ser o próprio espírito do homem, porque já vimos que o homem natural no seu todo (corpo, alma e espírito) é “nascido da carne”. A ideia principal desta passagem de João 3 é que por esse motivo os homens precisam de nascer (ou ser gerados) de novo, desta vez “do Espírito”, isto é, do Espírito de Deus (versículos 6 a 8).

Todavia, há tantos aspectos relacionados com a comunicação de vida espiritual ao crente, em especial no que diz respeito à presente dispensação, que Deus usa três metáforas para os descrever: nascimento, ressurreição e criação. Nenhuma delas em separado poderia de forma apresentar a ideia de forma adequada, pelo que as três são necessárias.

Comecemos, então, como a figura elementar do novo nascimento.

O novo nascimento

“Jesus respondeu, e disse-lhe: ‘Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus’ ” (João 3:3).

Não é de admirar que os perdidos não vejam a sua necessidade do novo nascimento, não fora o poder do Espírito Santo que os convence do pecado. No entanto, mesmo entre aqueles que já nasceram de novo, há aqueles que defendem que a figura do novo nascimento aplica-se apenas a Israel e não àqueles que vivem sob a presente dispensação. Eles baseiam a sua conclusão na premissa de que o nosso Senhor falava a um judeu sobre os judeus sobre o novo nascimento e que Paulo não menciona o assunto nas suas epístolas. No entanto, esta premissa é errada, bem como as conclusões daí retiradas.

Em primeiro lugar, devemos notar que o nosso Senhor falou a Nicodemos em termos gerais sobre ver e entrar no “Reino de Deus”. Ele não usou o termo mais específico de “Reino dos Céus”, que está relacionado com o estabelecimento do Reino de Deus na terra (ver Daniel 2:44; Mateus 5:3-5, 6:10). Isto porque Ele se referia a algo que envolvia mais do que a entrada no reino milenial.

O facto de que os crentes de hoje entrarão no Reino de Deus tal como os crentes de outras dispensações é bem claro nas epístolas de Paulo (ver Romanos 14:17; I Coríntios 4:20, 6:9-10, 15:50; Gálatas 5:21; Efésios 5:5; Colossenses 4:11; I Tessalonicenses 2:12; II Tessalonicenses 1:5). Deve também notar-se que o nosso Senhor falou em termos gerais quando ele disse que era necessário para o homem nascer de novo para entrar no Reino de Deus. Não temos o direito de partir do princípio que o nosso Senhor queria dizer que era necessário apenas para o judeu nascer de novo para entrar no Reino dos Céus, quando Ele disse que era necessário nascer de novo para entrar no Reino dos Céus.

Se alguém apresentar a objecção de que o Senhor deveria ter em mente apenas os judeus, visto que na altura estava a ministrar apenas aos judeus e aqui dirigia-se a um judeu, deveremos insistir que o diálogo do nosso Senhor com este judeu eminente está registado aqui especialmente para mostrar que todos os homens em todos os tempos precisam de nascer de novo para entrar no Reino de Deus.

Uma infeliz divisão de capítulos tem ofuscado este facto importante, porque o episódio com Nicodemos em João 3 é uma demonstração de uma afirmação importante feita no final do capítulo 2. Citamos os dois juntos para mostrar a ligação.

“E, estando Ele em Jerusalém pela Páscoa, durante a festa, muitos, vendo os sinais que fazia, creram no Seu Nome. Mas o mesmo Jesus não confiava neles, porque a todos conhecia; E não necessitava de que alguém testificasse do homem, porque Ele bem sabia o que havia no homem. E havia entre os fariseus um homem, chamado Nicodemos, príncipe dos judeus. Este foi ter de noite com Jesus…” (João 2:23-3:2).

Para demonstrar a necessidade universal de regeneração, Deus escolheu esta personagem ilustre: um príncipe dos judeus, altamente intelectual, rigorosamente moral, profundamente religioso e absolutamente sincero na sua investigação sobre Cristo. Deve ter sido verdadeiramente notável: um respeitável fariseu vindo a um jovem de 30 anos, tratando-O respeitosamente por “Rabi” e reconhecendo-O logo à partida como um “Mestre, vindo de Deus”.

Ainda assim este era um daqueles em quem o Senhor não confiava; um daqueles que creu nEle por causa dos seus milagres. As próprias palavras de Nicodemos o mostram: “Bem sabemos que és Mestre, vindo de Deus; porque ninguém pode fazer estes sinais que Tu fazes, se Deus não for com ele” (João 3:2).

Mas isto não salva (nem alguma vez salvou) o homem. Assim, não fazendo grande caso dos elogios e indo logo directo ao assunto, o Senhor mostra-lhe qual a sua necessidade, sua e de todo o homem: uma nova vida. Não importa o seu intelecto, moralidade ou religião, o homem precisa de nascer de novo, nascer de Deus.

Mas, e quanto ao argumento de que a frase “nascer de novo” não se encontra nas epístolas de Paulo? Em primeiro lugar, argumentos baseados no silêncio são muitas vezes traiçoeiros e, por eles mesmos, não provam nada. Mesmo que as epístolas de Paulo não se referissem ao novo nascimento, o novo nascimento continuaria a ser uma necessidade básica para a entrada no Reino de Deus de acordo com as palavras do nosso Senhor. Em segundo lugar, apesar de a frase exacta “nascer de novo” não ocorrer nas epístolas de Paulo, a doutrina do novo nascimento é ali ensinada tão claramente como em qualquer outra parte da Bíblia.

Ela é ensinada por clara implicação. Referindo-se aos crentes, o apóstolo usa as palavras nepios (bebé, ou pequena criança) e huios (filho adulto). Além disso, ele anseia pelo crescimento espiritual dos crentes. É claro que, posicionalmente, todos os crentes são vistos como filhos (adultos) de Deus a partir do momento em que são salvos, com todos os direitos e privilégios de filhos (Gálatas 4:1-7). Mas nestes estudos não estamos a tratar propriamente de posição, mas sim de experiência: a comunicação de vida espiritual ao pecador e gozo dela pelo santo.

A posição de justiça perante Deus, a qual Cristo comprou para todos os homens, de nada serve ao pecador até que seja aceite pela fé. Da mesma forma, a posição de filhos que é nossa em Cristo, bem como as bênçãos que a acompanham, são apropriadas e gozadas apenas pela fé. Por isso, o apóstolo repreendeu os coríntios pela sua carnalidade, chamando-os de meninos, que precisavam de ser alimentados com leite porque não podiam ainda digerir alimento sólido (I Coríntios 3:1-2). Também os crentes hebreus tiveram de ser repreendidos porque continuavam meninos espirituais quando, pelo tempo em que já tinham de salvos, deveriam já ser mestres da Palavra (Hebreus 5:12-14). Da mesma forma, é-nos dito em Efésios 4:12-15 que Deus deu à Igreja apóstolos, profetas, evangelistas, pastores e ensinadores, para “o aperfeiçoamento dos santos… para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina… antes, seguindo a verdade em amor”.

Além disso, Paulo escreve em I Coríntios 16:13: “Vigiai, estai firmes na fé; portai-vos varonilmente, e fortalecei-vos.”

Certamente o apóstolo não se refere, nestas passagens, à infância, crescimento e maturidade do homem natural. Ele refere-se à nova vida que é gerada do Espírito.

As palavras homens, filhos e meninos, usados relativamente à vida espiritual, implicam claramente nascimento espiritual. O homem que se porta varonilmente, a dada altura da sua experiência espiritual, alcançou um lugar de maturidade espiritual. Antes disso era um menino. E isso, por sua vez, implica que ele nasceu, porque houve um tempo específico em que o bebé veio a existir.

Além de tudo isto, há duas passagens nas epístolas de Paulo que ensinam o novo nascimento de forma clara. A primeira é Romanos 8:16-17, onde o apóstolo usa a palavra teknon: filhos (nascidos).

“O mesmo Espírito testifica com o nosso espírito que somos filhos [nascidos] de Deus. E, se nós somos filhos [nascidos], somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus, e co-herdeiros de Cristo…”

Poderá algo prestar um testemunho mais claro do facto de que os crentes debaixo da dispensação da graça são nascidos de novo? Certamente não nos tornámos filhos (nascidos) de Deus pelo nascimento natural.

A outra passagem é Tito 3:5, onde lemos:
“Não pelas obras de justiça que houvéssemos feito, mas segundo a Sua misericórdia, nos salvou pela lavagem da regeneração [Em grego, palingenesia] e da renovação do Espírito Santo.”

A maior parte das versões do Novo Testamento que existem traduzem esta palavra palingenesia como regeneração, enquanto outras traduzem como novo nascimento ou renascimento, sendo que nenhuma delas se afasta da ideia de novo nascimento.

Devemos também notar o facto de que, na natureza do caso, os homens nascidos de Adão precisam de nascer ou ser gerados de novo para serem salvos. Uma vida nova e diferente tem de ser transmitida e iniciada. A vida que o crente recebe é a vida de Cristo, vida eterna, e não tem começo, no sentido de que, em Cristo, o crente é imediatamente considerado adulto. Mas esta é uma verdade mais profunda que deverá ser considerada mais tarde. A vida espiritual tem um início na experiência de todo o crente, e a necessidade disto é tão enfatizada nas epístolas de Paulo como nas palavras de Cristo na Terra. Tal como o Senhor explicou a Nicodemos o facto de que o homem no seu melhor não pode entrar no reino de Deus (visto que “o que é nascido da carne é carne”), também Paulo, pelo Espírito, insiste:

“E agora digo isto, irmãos: que a carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem a corrupção herdar a incorrupção” (I Coríntios 15:50).

Deste modo, embora seja verdade que o nosso Senhor ensinou o novo nascimento durante o Seu ministério terreno relativo a Israel, não resulta daqui que este assunto diga respeito unicamente à nação de Israel. O que o nosso Senhor disse relaciona-se com a humanidade, sem relação com a raça ou época.

Como pode o pecador nascer de novo

A questão de como a vida do Espírito é gerada e recebida pelo crente é, claramente, de vital importância para todo o filho de Adão. E novamente aqui, embora o grande mistério revelado pelo Senhor glorificado através de Paulo é um progresso relativamente aos ensinamentos elementares sobre o assunto por parte de Cristo no seu ministério terreno e dos doze apóstolos, de maneira nenhuma os contradiz ou se afasta deles. O pecador nasce de novo e recebe a vida do Espírito quando o Espírito implanta a palavra no seu coração, a qual ele aceita pela fé:

“Segundo a sua vontade, ele nos gerou pela palavra da verdade…” (Tiago 1:18).

“Sendo de novo gerados, não de semente corruptível, mas da incorruptível, pela palavra de Deus, viva, e que permanece para sempre.” (I Pedro 1:23).

“Só quisera saber isto de vós: recebestes o Espírito pelas obras da lei ou pela pregação da fé?” (Gálatas 3:2).

É verdade que aqui o apóstolo argumenta particularmente em relação à necessidade de um novo corpo para a entrada física na presença de Deus, mas não será que isto fortalece o argumento de que o homem no seu estado natural é inapto para a presença de Deus?

“De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus” (Romanos 10:17).

Mais especificamente, o pecador nasce de novo e recebe a vida do Espírito quando crê na Palavra de Deus e crê no Seu Filho para salvação:
“Mas, a todos quantos O receberam, deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus, aos que crêem no Seu nome;” (João 1:12).

De facto, o apóstolo Paulo designa a vida em cristo como a lei do Espírito quando diz:
“Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte.” (Romanos 8:2).

Assim, o crente em Cristo não só é justificado perante Deus, como também recebe a nova vida, porque é uma lei inflexível e imutável que o Espírito dá vida àqueles que confiam em Cristo para salvação.

Somos salvos pela fé na Palavra. Crendo na Palavra, o Espírito transmite vida. Além disso, à medida que crescemos em conhecimento e fé na Palavra, crescemos em maturidade espiritual. É a isso que Pedro se refere:
“Desejai afetuosamente, como meninos novamente nascidos, o leite racional, não falsificado, para que por ele vades crescendo” (I Pedro 2:2).

É também a isto que Paulo se refere em Efésios 4:14-15:
“Para que não sejamos mais meninos inconstantes, levados em roda por todo o vento de doutrina… Antes, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo.”

O novo nascimento e a revelação dada a Paulo

Como vimos, a revelação dada a Paulo leva-nos a verdades mais elevadas e mais gloriosas que se relacionam tanto com a nossa posição como com a nossa experiência como crentes. De facto, o novo nascimento, que ocorre no crente hoje, está directamente relacionada com o baptismo divino através do qual Cristo e o crente são feitos um.

Como é que Cristo foi feito um com a humanidade? Ele foi baptizado na raça humana. Ele não veio meramente para habitar com os homens, mas tornou-se homem. Como? Nascendo na raça humana. E foi um nascimento natural? Não, foi um nascimento sobrenatural. Ele foi gerado pelo Espírito Santo. Mas o Seu baptismo na raça humana não terminou com o Seu nascimento e vida aqui na Terra. Tão completamente Ele se tornou um com o homem, que Ele até morreu a morte do homem na cruz maldita. Ele foi baptizado na morte (Lucas 12:50) e, como sabemos agora, a nossa morte.

E é aí, na Cruz, que nos tornamos um com Ele. No momento em que alguém olha pela fé para o calvário, reconhecendo: “Eu sou o pecador. Cristo está a morrer a minha morte.” Nesse momento ele torna-se um com Cristo, baptizado no próprio Cristo crucificado e ressuscitado (Romanos 6:3; Gálatas 3:26-27), não apenas posicionalmente, aos olhos de Deus, mas na sua experiência, pelo Espírito. E assim uma nova vida é gerada. Por um nascimento natural? Não, por um nascimento sobrenatural.

Aqui a figura do nascimento une-se à da ressurreição, porque a vida que o Espírito transmite é a vida do Cristo ressurrecto em nós.

(por Cornelius R. Stam)

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