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Cristo e Este Crucificado Agosto 29, 2010

Posted by David Costa in Estudos.
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O nosso Senhor Jesus Cristo é o nosso Redentor que foi “obediente até à morte, e morte de Cruz.” Ele não morreu uma morte qualquer; Ele morreu a morte de Cruz. Morte por crucificação nos tempos da Bíblia era uma das mais cruéis e vergonhosas formas de tortura possíveis. O historiador judeu Flávio Josefo, presenciou durante a sua vida incontáveis crucificações, pelo que as chamou das mais miseráveis mortes possíveis de se padecer. Cícero, referindo-se à morte por crucificação, afirmou que esta era uma morte “cruel e uma tortura horrorosamente feia”. Will Durant escreveu que “até os Romanos tinham alguma pena das vítimas.”

Ao começarmos um estudo sobre a Cruz de Cristo, estamos prestes a embarcar numa extraordinária e maravilhosa viagem pelo “mar” das Escrituras. A nossa jornada começa em águas proféticas com a “A Profecia da Cruz”. David será o nosso capitão, o qual nos guiará através dos sofrimentos que Cristo padeceu na Cruz do Calvário.

Um Salmo de David

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? por que Te alongas das palavras do meu bramido, e não me auxilias? Deus meu, eu clamo de dia, e Tu não me ouves; de noite, e não tenho sossego.” (Salmos 22:1-2)

Quando meditamos neste Salmo 22, encontramos o que será talvez o relato mais pormenorizado acerca dos sofrimentos de Cristo em toda a Palavra de Deus. Nas Escrituras Hebraicas, o cabeçalho “Aijeleth-hash-Shaar” surge no topo deste Salmo, que é traduzido por: “O Messias sofre, mas triunfa”.

Os Salmos 22, 23, e 24 formam uma trilogia. Sobre o Senhor Jesus Cristo, no evangelho de João, é dito que Ele é o Bom Pastor que dá a Sua Vida pelas Suas ovelhas, tal como descrito no Salmo 22. De acordo com Hebreus 13, Cristo é chamado de Supremo Pastor, que foi trazido de novo dos mortos para guiar o Seu povo através do vale do pecado e morte. Este é o tema central do livro de Salmo 23. Finalmente, o Sumo Pastor de I Pedro 5 encontramos as suas raízes no Salmo 24 onde Cristo retorna com poder e grande glória para estabelecer o Seu Reino aqui na terra.

Umas das coisas mais marcantes acerca do capítulo 22 do livro de Salmos é que David descreve com vivacidade a crucificação de Cristo, aproximadamente 1000 anos antes de esta suceder. Outro facto extraordinário é o facto da morte por crucificação não tinha sido ainda introduzida na humanidade no tempo em que David escreveu este salmo. Crê-se que os Assírios foram os primeiros homens a usar esta forma de execução, pois eles eram bem conhecidos pelas suas torturas desumanas. Mas o que os Assírios criaram, podemos ter a certeza que os Romanos aperfeiçoaram. No tempo do Senhor Jesus Cristo, a morte por crucificação era a forma principal que era usada para executar criminosos contra o Império Romano.

O Salmo 22 é dividido em duas partes: os sofrimentos espirituais de Cristo e os Seus sofrimentos físicos. O Salmo começa com a expressão “Meu Deus, meu Deus, porque me desamparaste?” e termina com “Porquanto Ele o fez” (versículo 31), ou em Hebraico, “Está terminado!” A frase “Meu Deus, meu Deus, porque me desamparaste?” foi uma das últimas proferidas por Cristo enquanto pregado na Cruz. A palavra “desamparado” é uma das palavras na linguagem humana que mais fortemente transmite um sentido de abandono e tragédia. É difícil para nós compreender como, por exemplo, uma mãe pode abandonar o seu recém-nascido, mas infelizmente tal acto é comum nos nossos dias. Ficamos estupefactos quando ouvimos acerca de um homem que abandona a sua mulher depois de tantos anos juntos. Perguntamos “Porquê?”. Nós temos dificuldade em acreditar, mas muito menos conseguimos aceitá-las.

Mas quando o Filho de Deus afirmou na Cruz que tinha sido desamparado pelo Pai, de certeza isso nos deixa admirados. Uma das coisas que caracterizava sem qualquer dúvida a vida de Cristo aqui na terra era a inquebrável comunhão que Cristo gozava com o Pai. O silêncio do Céu foi quebrado mais do que uma vez, quando por exemplo o Pai disse: “Este é o Meu amado Filho, em quem Me comprazo; escutai-O.” (Mateus 17:5). Mas agora, no momento e na hora mais negra pela qual o Senhor Jesus Cristo passou, o Pai desamparou o seu Filho. Porquê? Esta, com certeza, foi uma das perguntas que pesava no coração do Senhor Jesus Cristo, enquanto procurava entender o porquê de ter sido humanamente falando, abandonado.

Enquanto descia a escuridão desde a hora sexta até à hora nona no dia em que Cristo morreu, Ele afirmou, ” Deus meu, eu clamo de dia, e Tu não me ouves; de noite, e não tenho sossego… Em Ti confiaram nossos pais; confiaram, e Tu os livraste.” (Salmos. 22:2,4). Aqui temos os pensamentos íntimos de Cristo, enquanto estava pregado naquela Cruz.

Este é o único lugar na Palavra de Deus onde nos é dito o que o nosso Salvador estava realmente pensando enquanto as trevas caíam sobre a Palestina. Apenas o Espírito de Deus podia dar-nos esta preciosa revelação por intermédio do profeta. O Senhor Jesus Cristo argumentou com o Pai, “Em Ti confiaram nossos pais; confiaram, e Tu os livraste.” Enquanto o Filho considerava a história de Seu povo, Ele recordou de como Sansão os libertou das mãos dos Filisteus; Daniel da boca de leões famintos; e Sadrach, Mesach, and Abed-nego do fogo da fornalha ardente. Mas para o Filho de Deus não haveria qualquer tipo de libertação, que foi predestinado a sofrer pelos pecados do Seu Povo; na realidade, pelos pecados do mundo!

O Filho respondeu à Sua própria questão do porquê do abandono por parte do Pai no versículo 3: “Porém Tu és Santo, o que habitas entre os louvores de Israel.” O Pai é Santo, o que nos indica a sua perfeita moral. O pecado, sem qualquer tipo de excepção, é uma violação à Sua santidade. Os nossos pensamentos finitos nunca poderão alcançar a majestade e a perfeição da santidade de Deus. Ele é infinitamente puro. Isto ajuda-nos a compreender o propósito do véu no tabernáculo: separava um Deus Santo de Seu povo pecador. Isaías e o Rei Uzias ambos tiveram um encontro com a santidade de Deus, mas como vamos ver com resultados totalmente opostos.

“No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi ao Senhor, assentado sobre um alto e sublime trono; e o seu séquito enchia o templo. Os serafins estavam acima dele, cada um tinha seis asas: com duas cobriam os seus rostos, e com duas cobriam os seus pés, e com duas voavam. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos: toda a terra está cheia de sua glória. E os umbrais das portas se moveram com a voz do que clamava, e casa se encheu de fumo” (Isaías 6:1-4).

Durante os anos em que Uzias reinou, ele conduziu Judá num programa de paz e prosperidade. Mas enquanto a nação prosperava materialmente, estava totalmente corrompida espiritualmente. Notemos que no ano em que Uzias morreu, Isaías viu o Senhor sentado no seu trono. Uzias também esteve exposto à santidade de Deus, mas com consequências catastróficas. Apesar de este rei ter feito o que era correcto aos olhos do Senhor, transgrediu contra o Senhor, seu Deus, porque entrou no templo do Senhor para queimar incenso no altar do incenso. Uzias naquele preciso instante foi atingido com lepra e morreu seguidamente, devido à sua intrusão nas santas coisas de Deus (II Crónicas 26:16-23).

Um único pecado originou morte e baniu tanto Adão como Eva do jardim do Éden. Apenas um pecado impediu a entrada de Moisés na Terra Prometida. Um pecado terminou com as vidas de Ananias e Safira. Notemos que uma correcta compreensão da santidade de Deus conduz a um entendimento correcto do pecado. Quando Isaías estava na presença de Deus e ouviu os serafins clamando uns para os outros: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos: toda a terra está cheia da Sua glória. E os umbrais das portas se moveram com a voz do que clamava, e casa se encheu de fumo. A reacção de Isaías foi: “Ai de mim, que vou perecendo! porque eu sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios.” Porque Isaías tinha a correcta compreensão da Santidade de Deus, ele viveu, e as suas iniquidades foram retiradas, e o seu pecado perdoado (no Hebreu kaòphar ou expiado—Isa. 6:5-7). 

Pelo facto de o pecado ser uma transgressão à santidade de Deus, o Pai não podia olhar para o Seu Filho pois estava a ser feito pecado por nós, e por esse acto singular somos justificados perante Deus. Absolutamente só, Jesus Cristo carregou o fardo dos nossos pecados. À medida que o desespero crescia, o Salvador afirmava: ” Mas eu sou verme, e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo”. Normalmente no Hebraico o termo “verme” refere-se no grego à palavra tola. A tola (coccus ilicis) é uma pequena larva, que pode ser encontrada em várias espécies de carvalhos perto do Mediterrâneo. Nos tempos antigos estas larvas eram esmagadas de forma a produzirem uma tinta escarlate. Tal como sabemos, Salomão vestiu a filhas de Israel em escarlate. O que estamos a tentar sugerir com esta analogia às tolas é que o peso dos nossos pecados (igualmente os de Israel) quebrantaram a vida do nosso Senhor Jesus Cristo, o qual derramou o Seu precioso sangue para que agora possamos vestir as vestes da salvação.

O Sofrimento Físico de Cristo

“Muitos touros me cercaram; fortes touros de Bazan me rodearam. Abriram contra mim suas bocas, como um leão que despedaça e que ruge. Como água me derramei, e todos os meus ossos se desconjuntaram; o meu coração é como cera, derreteu-se no meio das minhas entranhas. A minha força se secou como um caco, e a língua se me pega ao paladar; e me puseste no pó da morte. Pois me rodearam cães; o ajuntamento de malfeitores me cercou, traspassaram-me as mãos e os pés. Poderia contar todos os meus ossos; eles vêem e me contemplam.” (Salmos 22:12-17).

É interessante contar o número de referências a animais encontrado no Salmo 22: o touro, leão, cão, unicórnio, etc. Aqueles que foram os responsáveis pela crucificação eram como as bestas dos campos. Eles eram astutos, perversos, e intimidavam as suas presas. Os fortes touros de Bazan, sem qualquer tipo de dúvida referem-se aos lideres de Israel, os quais buscavam ferir o Senhor Jesus com os cornos do ódio (Lucas 23:8-21). Tal como as bestas do campo que perseguem as suas presas antes de as matar, estes lideres ímpios zombaram: “Salvou os outros, e a si mesmo não pode salvar-se. Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz, e creremos nele; confiou em Deus; livre-o agora, se o ama; porque disse: Sou Filho de Deus.” (Mateus 27:42-43). Bem aventurados somos, pois o nosso Salvador permaneceu naquela Cruz, pois se tivesse descido de forma a satisfazer a santidade e a justiça de Deus, o mundo iria ser “varrido” para dentro do lago de fogo por toda a eternidade. A determinação de Cristo para completar a obra da nossa redenção nunca vacilou. O que foi dito anteriormente prova que os lideres religiosos eram ignorantes não apenas na predição da Cruz, mas igualmente desconhecedores do verdadeiro significado do Calvário.

A morte por crucificação era a morte das mortes. Os braços das vítimas eram estendidos e os pregos eram pregados nas palmas das mãos. De seguida, prendiam os pulsos de forma a que os pregos não rompessem as mãos da vítima. Depois disto, um pé era colocado sobre o outro em cima de uma cunha de madeira. Daí, “trespassaram-me as mãos e os pés.” Este foi apenas o começo das dores, porque a morte numa Cruz era lenta, dolorosa, que poderia durar dois a três dias. Três pregos enferrujados garantiram a nossa redenção: um pregou a lei à Cruz, outro os pecados do mundo e o terceiro pregou Jesus Cristo à Cruz. (Colossenses. 2:14; II Coríntios 5:14-19; Gálatas 2:20). 

Apesar de nenhum dos ossos do corpo de nosso Senhor ter sido quebrado, cremos que quando a Cruz foi colocada em terra os braços do Senhor Jesus Cristo foram deslocados dos seus ombros, baseados na frase “todos os meus ossos se desconjuntaram”. Estar suspenso pelos braços gerava uma tremenda pressão sobre os pulmões e gradualmente tornava-se mais complicado poder respirar. Para o poder fazer, a vítima era obrigada a impulsionar-se com ajuda dos seus pés para facilitar a inspiração. À medida que os níveis de dióxido de carbono aumentavam no interior do corpo, a vítima começava a padecer de edema pulmonar, e acabaria por morrer de paragem cardíaca ou de asfixia.

É interessante o facto de o nosso Senhor Jesus morrer passadas poucas horas de ter sido pregado na Cruz. Nas Suas próprias palavras: “o meu coração é como cera, derreteu-se no meio das minhas entranhas” (vs. 14). Poderá ser que o nosso Salvador morreu de coração partido devido aos pecados do mundo? À medida que o momento da Sua morte se aproximava, o Filho orava da seguinte forma ao Pai:
“Mas tu, Senhor, não te alongues de mim. Força minha, apressa-Te em socorrer-me.  Livra a minha alma da espada, e a minha predilecta da força do cão (gentios). (Salmos 22:19-20).

O Senhor Jesus Cristo desejou voluntariamente dar a Sua vida pelo pecados do mundo e esta não ser terminada pelos Gentios ao fio da espada. O Pai garantiu graciosamente o pedido de Seu Filho, pois lemos no evangelho de João que o Salvador já tinha rendido o Seu Espirito ao Pai antes de ter sido trespassado pela lança:

“Foram, pois, os soldados, e, na verdade, quebraram as pernas ao primeiro, e ao outro que como ele fora crucificado; Mas, vindo a Jesus, e vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas. Contudo um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água.” (S. João 19:32-34) 

Lições práticas para cada um de nós

Enquanto a palavra do homem é instável como a água, a Palavra de Deus é sempre precisa e verdadeira, tal como vimos na predição da Cruz aproximadamente 1000 anos antes e no total cumprimento dos acontecimentos. A palavra de Deus é verdadeira. Então quando estamos a ler um passagem semelhante a esta: “Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes. Vigiai justamente e não pequeis; porque alguns ainda não têm o conhecimento de Deus; digo-o para vergonha vossa.” (I Cor. 15:33,34), podemos ter a certeza que é totalmente verdadeira.

O contexto desta passagem é um aviso para não adoptarmos as formas de vida deste mundo. Devido a o mundo ter rejeitado a ressurreição, a sua filosofia de vida é comer, beber, e ser feliz, pois amanhã morrerás. Aqueles que pertencem à família da fé ficam pasmados e horrorizados com este tipo de raciocínio. Mas Deus diz: “não vos enganeis, as más associações neste mundo destroem gradualmente a boa moral”. Por outras palavras, se pouco a pouco nos deixamos associar com este mundo, podemos ter a certeza de que em pouco tempo a sua influência irá criar em nós dúvidas, e começaremos a negar a Palavra de Deus. O pecado e consentimento de comportamentos pecaminosos são ambos desagradáveis a Deus. Os Coríntios são um dos principais exemplos de falha em ter atenção a este tipo de aviso; não sejamos nós também culpados do mesmo acto. (I Coríntios 5:1-13; 6:1-8,13-18; 11:20-22).

O Salmo 22 ensina-nos que há no mundo um conflito entre o bem e o mal existente no mundo. Cristo é a personificação de tudo o que é bom e justo. Os Seus inimigos, por outro lado, estavam cheio de mentira e hipocrisia. Eles O odiavam sem causa. Portanto, não devemos ficar surpreendidos quando o mundo nos odeia sem nenhum motivo, devido a sermos fiéis à verdade do evangelho.

(por Paul M. Sadler) 

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Epístola aos Romanos – Capítulo 3 Agosto 27, 2010

Posted by David Costa in Epístola aos Romanos.
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A vantagem do Judeu

No capítulo anterior Paulo demonstrou que sem Cristo tanto o Judeu como o Gentio se encontram culpados diante de Deus, e assim dignos de condenação. Assim sendo, Paulo levanta uma questão natural no começo do capítulo 3 da sua Epístola aos Romanos: 

“Qual é, logo, a vantagem do Judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão?” (Romanos 3:1).

E Paulo responde à sua própria questão: “Muita, em toda a maneira…” (v.2).

O Judeu orgulhava-se de pertencer ao Povo escolhido de Deus. Mas Paulo explica no versículo 2 que a vantagem do Judeu era antes “primeiramente, porque as palavras de Deus lhe foram confiadas”. É verdade que Paulo se refere à Palavra de Deus, mas só em parte. Na tradução inglesa “King James”, em vez de “palavras” é usado o termo “oráculos”, que se encontra mais perto do significado original do termo grego “logion“.

Ora “oráculos” não se refere somente à Palavra de Deus mas também ao Culto a Deus. Podemos encontrar tal princípio de que o que foi confiado ao Judeu não foram somente as “Palavras de Deus”, um pouco mais à frente nesta epístola:

“Que são israelitas, dos quais é a adopção de filhos, e a glória, e os concertos, e a lei, e o culto, e as promessas” (Romanos 9:4).

No Novo Testamento, o termo “logion”, apesar de ser o diminutivo de “logos” (palavra), difere do termo “logos”, já que denota uma resposta, enquanto “logo” refere-se somente à “palavra”.

Quando Deus entregou a Lei a Moisés (a Sua Palavra), também lhe entregou os planos para o tabernáculo: “um santuário, e habitarei no meio deles” (Êxodo 25:3). Este santuário era o lugar designado por Deus onde o Seu povo se podia chegar a Ele e cultuá-lo, por intermédio dos sacerdotes. 

Sendo assim, cremos que a vantagem que o Judeu possuía não se reduz às “Palavras”, já em si muito importantes, mas também em que lhes tinha sido confiado por Deus o verdadeiro Culto a Deus, estabelecido e designado por Ele, de acordo com a Sua vontade. Qualquer outro culto a Deus nunca era o verdadeiro Culto, aceite por Deus, pois não era feito segundo o Seu plano.

Presentemente as Palavras de Deus e o Culto a Deus não pertence mais a Israel, ao povo Judeu, mas como lemos no capítulo 11 desta epístola: “… que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado” (Romanos 11:25). Enquanto Israel está sendo posto de parte, nesta dispensação da Graça de Deus, as Palavras de Deus e o Culto a Deus são agora posse da Igreja, Corpo de Cristo.

Agora, os membros da Igreja chegam-se a Deus para O cultuar de uma forma completamente diferente; não num tabernáculo ou num templo, não diante de um “propiciatório” (Êxodo 25:21-22), mas antes diante do trono da Graça de Deus:
“Cheguemo-nos, pois, com confiança, ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia, e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hebreus 4:16).

Não só o culto a Deus é agora novo, mas também a Palavra de Deus foi alargada (comparando com o que o Judeu possuía antes) com a revelação “do mistério”, a mensagem para esta dispensação da Graça de Deus, revelada nas epístolas do apóstolo Paulo.

Chegado ao versículo 3, vemos que a vantagem que o Judeu possuía, nomeadamente pela Lei e pelo Culto a Deus, rapidamente se tornou em desvantagem, pela incredulidade e pelo pecado. A Lei que era uma vantagem para o Judeu, em relação ao Gentio, agora condenava-o. Mas independente de o homem (neste caso o Judeu) crer e cumprir a Lei, ou pelo contrário se chegar-se a Deus em mera religiosidade, Deus não deixa de ser fiel e cumpridor das Suas palavras e promessas.

Deus revela ser justo em que condena o gentio que vive longe de Deus, o gentio que procura viver uma vida moral, e também a Sua nação escolhida, Israel. Aqueles que confiavam na lei, quebraram-na e, pecando, trouxeram a justiça de Deus sobre si. E assim todo o homem, Judeu ou Gentio, moralista ou ímpio, está debaixo da Ira de Deus.

Nos versículos 7 e 8, Paulo refuta uma corrente e uma acusação que faziam sobre ele e sobre os crentes que proclamavam o Evangelho da Graça. A corrente era que Deus era o criador do pecado. Deus tinha criado o pecado para trazer glória para si, pelo facto de que Ele vence o pecado com a Sua Graça, trazendo glória para Si. E sendo assim, não pode haver qualquer condenação para o homem, pois foi pelo pecado do homem que Deus tomou glória para Si e trouxe graça para o homem.

Paulo nem sequer se preocupa em dar resposta a tal ideia absurda. Eles simplesmente afirma que aqueles que dizem que o homem deve continuar a pecar, para que o bem daí advenha (a graça de Deus), serão justamente condenados.

Paulo refere no versículo 9 que o Judeu, mesmo com a vantagem que possui, não é melhor que qualquer outro homem, pois a natureza de todo o homem é a mesma. 

A condição de todo o homem diante de Deus

Nos versículos 10 a 12, Paulo cita uma passagem de Salmos 14. Este Salmo fala de como o homem não dá lugar a Deus na Sua vida, nem quer saber de Deus, mesmo que reconheça que Ele existe. Deus procura neste mundo por homens que O busquem, que sejam justos, e a sua conclusão é que não há ninguém que O busque. Todos se corromperam, não seguindo o bem e a justiça.

Seguidamente Paulo descreve como o homem se corrompeu em todo o seu ser, por viver uma vida longe de Deus. É interessante reparar na progressão do mal revelado pelo homem ímpio. O versículo 13 fala da garganta, da língua, dos lábios estarem contaminados (sepulcro, engano, peçonha de áspides), mas ao chegar ao versículo 14, fala de toda a boca estar cheia de maldade e amargura. E nos restantes versículos 15 a 18 vemos como o mundo dos homens se tornou num lugar de assassínio, destruição, miséria, guerra e falta de temor de Deus.

Após ter abordado a depravação geral do homem e de que todo o homem está debaixo de pecado, Paulo demonstra a impossibilidade de o homem se justificar diante de Deus pelas obras da Lei.

Como vemos no princípio do versículo 19, Paulo não se refere aos Gentios, pois não se encontravam debaixo da Lei, mas antes aos Judeus. O Judeu orgulhava-se na Lei que possuía e cria que a Lei o podia justificar, e assim pensava encontrar-se justo diante de Deus. Mas como Paulo refere na segunda parte do versículo, era necessário provar que a Lei não pode justificar nenhum homem, “para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo condenável diante de Deus”.

Como é que a condenação de Israel pela Lei traz todo o mundo condenável diante de Deus?

  1. Como vimos atrás no capítulo 1 desta epístola, todo o homem se encontra inescusável nas sua culpa diante de Deus (Romanos 1:20). A condenação de Israel pela Lei demonstra que todo o homem se encontra culpado diante de Deus.
  2. O Concerto de Deus com Israel também afectava os gentios. A única forma de um não-judeu, um gentio, se poder chegar a Deus era através de Israel. Ele deveria tornar-se prosélito, passando a estar debaixo do Concerto de Deus com Israel. Mas este concerto só o podia justificar se ele fosse capaz de obedecer e guardar a Lei na perfeição. Se tanto o Judeu como o Gentio não conseguia guardar a Lei na perfeição, qualquer gentio que se tornava prosélito continuava culpado diante de Deus, e a Lei que ele tomava sobre si, agora o condenava.

O reconhecimento do pecado que cada um de nós carrega sobre si é o primeiro passo, e deveras importante, para a salvação. Enquanto o homem acreditar que os seus esforços e “boas obras” o podem salvar, que não é assim tão mau, ou que seguir a Lei o justifica, ele nunca reconhecerá a verdadeira situação em que se encontra. Enquanto o homem continuar a arranjar argumentos para ignorar ou negar a sua verdadeira condição, nunca poderá receber a provisão que Deus fez na Cruz por intermédio de Jesus Cristo.

Ao chegarmos ao versículo 20, encontramos o segundo passo na mensagem do Evangelho da Graça, que Paulo apresenta nesta epístola. Podemos reconhecer os diferentes passos se atentarmos para os termos “portanto”, “pois” e “por isso”, que são usados no princípio de um versículo. Consideremos então os diferentes passos:

  1. “Portanto ficas sem desculpa…” (2:1)
  2. “Por isso, nenhuma carne será justificada diante dEle pelas obras da Lei” (3:20)
  3. “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei” (3:28)
  4. “Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (5:1)
  5. “Portanto, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (8:1)
  6. “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (12:1)

Voltando ao nosso versículo 20 do capítulo 3, encontramos Paulo a demonstrar, em especial ao Judeu debaixo da Lei, a sua necessidade de Cristo. A palavra traduzida por “conhecimento” neste versículo não é, no original, a palavra grega “gnosis”, normalmente traduzida por “conhecimento”, mas antes o termo “epignosis”, que refere-se a um conhecimento conclusivo ou provado. O homem não necessita da Lei para conhecer que é um pecador, pois a sua consciência o acusa dos seus pecados, como vimos anteriormente no versículo 2:15. Mas o Judeu e todo aquele debaixo da Lei, possuía a lei que confirmava tal facto. A consciência do homem o acusa de pecado, enquanto a Lei o confirma por escrito, pronunciando a sentença do homem.

Como exemplo, para mais facilmente compreendermos este princípio, consideremos o caso de um homem que conduz o seu automóvel por uma cidade, a uma velocidade superior a 90km/h. Ele sabe que o limite de velocidade dentro das localidades é de 50km/h, e a sua consciência o acusa da infracção que ele está a cometer. Mas este conhecimento não lhe traz penalização alguma. Mas agora imaginemos que ele é apanhado pela polícia a cometer tal infracção, e é confrontado por uma patrulha mais à frente no seu percurso. Neste momento não é só a sua consciência que o acusa, mas a Lei (o Código da Estrada) e a Polícia (que fiscaliza o seu cumprimento) que o condenam a uma pena (uma multa) devido à sua conduta.

A Lei de Deus actua da mesma forma. Pela consciência o homem vem ao mero conhecimento do pecado, mas pela Lei da Deus vem a confirmação e a condenação.

É de referir a distinção entre “conhecimento de pecado” e “convicção de pecado”. Todos os homens têm conhecimento dos seus pecados, mas nem todos estão debaixo de convicção de pecado. Se todos estivessem convictos do seu pecado, todo o homem se apressaria a ouvir o Evangelho da Graça de Deus. A Lei acrescenta o seu testemunho ao da consciência do homem, para que ele possa ficar convicto do seu pecado, enquanto o Espírito Santo usa a Palavra de Deus para trazer o homem a tal convicção.

Muitas pessoas religiosas, mesmo muitos chamados cristãos, pensam que a Lei foi dada por Deus para mostrar ao homem como “fazer o bem” e como “ser justo”. Mas na verdade a Lei não mostra ao homem como é que ele pode fazer o bem, mas antes o condena. A Lei foi dada antes para nos mostrar que todo o homem é ímpio e precisa de um salvador.

“E, de tudo que, pela Lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por Ele é justificado todo aquele que crê.” (Actos 13:39).

A Justiça de Deus sem a Lei

“Mas agora se manifestou…” (v.21).

Neste versículo encontramos uma mudança dispensacional, denotada pela expressão “mas agora”. “Agora” refere-se ao tempo presente, a esta época, a esta dispensação. Durante 1500 anos, Deus manteve Israel debaixo da Lei, de forma a demonstrar historicamente que “nenhuma carne será justificada diante dEle pelas obras da Lei” (v.20). 

“Mas agora a Justiça de Deus, sem a Lei, se manifestou.”

Tomemos atenção à expressão “se manifestou”. O princípio da Justiça sem a Lei esteve sempre operante, mas ainda não tinha sido anunciado, revelado ou manifestado. Quando terá sido manifestado pela primeira vez este princípio? Terá sido por João Baptista, por Cristo durante o seu ministério terreno, pelos 12 apóstolos, ou durante o Pentecostes?

Cristo ensinou os seus discípulos a sujeitarem-se à Lei (Mateus 23:1-3). Antes da sua ascensão, Cristo comissionou os 11 a guardar a Lei (Mateus 28:20). Mesmo no Pentecostes, os 12 viviam sob a lei e “viviam” quase literalmente no templo judaico.
Só por meio de Paulo é que ouvimos pela primeira vez que a Justiça de Deus se manifestou sem a Lei. Ninguém antes de Paulo proclamou tal mensagem. Daí Paulo insistir em expressões como “mas agora” (v.21) e “neste tempo presente” (v.26). Encontramos tal princípio também noutras epístolas de Paulo (Gálatas 3:23; I Timóteo 2:6-7; II Timóteo 1:10-11; Tito 1:2-3).

Na segunda parte do versículo 21, Paulo afirma que a Justiça de Deus sem a Lei tem o “testemunho” da Lei e dos Profetas. Isto não quer dizer que o princípio da justiça de Deus sem a Lei tenha sido anunciado pela Lei e pelos Profetas (a Palavra de Deus que o Judeu possuía, muitas vezes referida como “a Lei e os Profetas”). Pelo contrário, pois só “agora” se manifestou. O que esta expressão quer dizer é que não há nada na Escritura (chamado agora por “Velho Testamento”), tanto na Lei como nos Profetas, que anule o princípio da Justiça de Deus sem a Lei. Neste plano de justificação do homem, há justiça completa e perfeita, pois o castigo pelos pecados do homem foi pago, completamente, por Cristo. Daí Paulo no primeiro capítulo afirmar que se orgulhava deste evangelho, pois a Justiça de Deus se revela nele, neste plano (Romanos 1:16-17).

A Fé de Jesus Cristo

Na nossa tradução de João Ferreira de Almeida, edição revista e corrigida, encontramos no versículo 22 a expressão “fé em Jesus Cristo”, mas na verdade a expressão que estaria mais perto da ideia original seria “fé de Jesus Cristo”. Esta expressão, “fé de Jesus Cristo”, é usada sete vezes nas epístolas de Paulo, e podemos encontrar as duas expressões num só versículo, “fé em Cristo” e “fé de Cristo” em Gálatas 2:16.

A expressão “fé de Jesus Cristo” neste versículo 22 refere-se à natureza, ao que Cristo é, em vez do que Ele fez. Não tem que ver com a “fé em Cristo”, mas sim com Jesus Cristo ser digno de confiança, isto é, tanto pela sua fidelidade, como pela sua capacidade em cumprir as Suas promessas, nomeadamente de salvação, a todos os que confiarem nEle para remissão de pecados. Aquele em quem foram imputados os nossos pecados possui toda a Justiça de Deus, e quando confiamos nele para salvação, estamos certos que a Sua Justiça é verdadeiramente imputada em nós. Sendo assim a nossa fé em Cristo está assente e encontra-se segura na fé de Cristo.

Para todos e sobre todos os que crêem

Na segunda parte do versículo 22 encontramos outro princípio muito importante: “a Justiça de Deus… para todos e sobre todos os que crêem”. 

O artigo traduzido por “para”, nesta expressão, é o artigo “eis” no grego, que refere-se à “direcção”, enquanto o artigo traduzido por “sobre” é o artigo “epi” no grego, que se refere ao “objecto”. Por outras palavras, encontramos dois grupos distintos de pessoas nesta expressão: “todos” referindo-se a todo o homem, e “todos os que crêem” referindo-se àqueles homens e mulheres que confiam em Jesus Cristo para salvação dos seus pecados, com base na expiação feita na cruz, por Jesus Cristo. A Justiça de Deus é “para” o primeiro grupo (“todos”) e é “sobre” o segundo (“os que crêem”). A Justiça de Deus é oferecida a todos os homens e mulheres, mas ela só é imputada (colocada sobre) àqueles que crêem.

Esta expressão é muito importante, pois claramente mostra que a Salvação não será universal. Apesar da provisão que Deus estabeleceu ser passível de salvar todo o homem, só aqueles que crêem na Salvação oferecida é que serão verdadeiramente salvos.

A última parte do versículo deve ser tomada em conjunto com o versículo 22, pois “não há diferença” não se refere aos dois grupos de pessoas mencionados. A expressão “não há diferença” refere-se a que todo o homem pecou, seja judeu ou gentio, moralista ou ímpio. É verdade que existem diferenças na natureza e gravidade dos pecados cometidos pelos homens neste mundo. Mas o facto simples de que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” não é posto em causa por essas diferenças. Na prática, um só pecado faz do homem pecador, assim como um só assassínio faz de um homem um assassino, ou um só roubo faz de um homem um ladrão.

No versículo 24, Paulo torna ao argumento deixado a meio no versículo 22: “a justiça de Deus… para todos e sobre todos os que crêem… sendo justificados gratuitamente, pela Sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus”.

Somos justificados gratuitamente pela Sua graça, não porque o merecêssemos, mas somente pelo Seu favor. No grego o termo “charis” (graça), neste contexto traz consigo a ideia de “deleite”, de prazer, como um avô que se deleita no seu neto e busca oportunidades de lhe trazer alegria. Assim é a Graça de Deus, em que Deus se deleita em salvar pecadores e em encher as suas vidas de bênçãos (Efésios 2:1-7). Deus fez completa provisão para salvar o pecador, e agora convida cada um a reconciliar-se com Ele, sendo justificado “pela redenção que há em Cristo Jesus”.

A palavra “gratuitamente” no versículo 22 dá ênfase em que a Justificação é unicamente pela Graça.

Cristo proposto para propiciação

Ao chegarmos ao versículo 25, encontramos a expressão “ao qual (Cristo) Deus propôs para propiciação”, onde o verbo “propor” também podia ter sido traduzido por “apresentar”. Agora a questão que define o destino eterno do homem já não é mais “o pecado” (pois todo o homem encontra-se debaixo da mesma condição) mas sim a sua decisão pessoal por Cristo. Deus fez completa provisão para o pecado do homem, e agora convida o homem a receber o “dom da justiça” (Romanos 5:17), pela fé em Cristo, que morreu pelos nossos pecados.

Paulo explica que Deus propôs Cristo para propiciação dos pecados que foram “dantes cometidos”. Em relação aos pecados que foram dantes cometidos, não no passado dos leitores desta epístola, mas nos tempos passados, na história passada, a paciência de Deus suspendeu julgamento nesses dias, pois Ele tinha proposto Cristo para propiciação desses mesmos pecados. As pessoas desses dias não eram justificadas na realidade pelos sacrifícios ordenados por Deus e estabelecidos na Lei de Moisés, mas sim pela propiciação realizada por Cristo no futuro. Apesar da Justiça de Deus lhes ser imputada então, só agora, na dispensação da Graça de Deus, pelo evangelho de Paulo, é que tal foi manifestado.

É importante relembrar que a justificação não significa que o pecador é declarado inocente de pecado. Deus condena justamente o pecador, mas Ele justifica o crente pecador, declarando-o justo em Cristo. Como podemos ver nos capítulos 3 e 4 desta epístola, o processo é:

  1. O pecador é declarado culpado (Romanos 3:19)
  2. Os pecados do pecador são imputados a Cristo (Romanos 3:24)
  3. A Justiça de Cristo é imputada ao pecador (Romanos 4:5)

Na segunda parte do versículo 26 lemos que Deus propôs Cristo para propiciação, demonstrando “a sua Justiça, para que Ele seja Justo”. A justificação do crente pecador foi obtida de uma forma perfeitamente justa. Deus no Seu amor não deixou de ser justo, pois nenhum princípio da justiça de Deus foi posto de parte, para que aqueles “que tem fé em Jesus” pudessem ser justificados.

A expressão “justificador daquele que tem fé em Jesus” mostra claramente que agora, na dispensação da Graça de Deus, o crente é salvo unicamente pela fé, sem qualquer obra requerida. No evangelho do Reino, o qual Cristo comissionou os seus discípulos para proclamar, o princípio era: “Quem crer e for baptizado será salvo” (Marcos 16:16). Neste versículo em Romanos e em todas as epístolas de Paulo está propositadamente ausente o baptismo como requisito para salvação. Agora Deus justifica aqueles que simplesmente, mas sinceramente, “tem fé em Jesus”.

O orgulho humano no Plano de Salvação

“Onde está, logo, a jactância?”. De que se pode o homem gloriar ou orgulhar em todo este plano de Salvação estabelecido por Deus? Paulo responde à sua própria pergunta, afirmando que a jactância é excluída, isto é, não há lugar nenhum para o homem se gloriar ou orgulhar em algo que ele possa ter feito no plano de Salvação. Deus conhece o coração do homem, e conhece o mal que resulta do orgulho humano, e assim sendo, Deus não o tolera no Seu plano de Redenção. O homem não toma parte alguma na sua salvação, por pequena e insignificante que possa ser, a não ser receber a Salvação gratuitamente, de graça: “para que nenhum homem ser glorie” (Efésios 2:8-9).

A alegria da Salvação não resulta do orgulho humano sobre algo que o homem alcançou, mas sim resulta de verdadeira gratidão pelo que ele gratuitamente recebe de Deus.

E porque “lei”, isto é, porque princípio, é que a glória humana (a jactância) é excluída? Paulo explica que não é pela lei das obras, mas antes pela lei da fé.

Encontramos aqui duas leis (dois princípios) mutuamente exclusivos (isto é, não podem ocorrer em simultâneo) em relação à salvação do homem. Isto é, ou o homem é salvo pela lei das obras ou pela lei da fé; não há outra lei ou princípio intermédio. Como lemos mais à frente, em Romanos 11:6, se o homem é salvo pela graça, pela lei da fé, não o pode ser pelas obras, pois no momento em que se acrescentam obras, a graça já não é graça e já não é a “lei da fé”.

Sendo assim, ao homem são apresentadas duas alternativas. Se ele busca salvação pelas obras (a lei das obras), então não é um dom da graça de Deus que deve ser recebido somente pela fé. Se ele busca salvação pelo dom da graça de Deus (a lei da fé), então esta não pode ser alcançada por meio das obras, pois a graça de Deus deixaria de ser “graça”. A “graça” e as “obras” para Salvação são mutuamente exclusivas.

Tal como referido por James McKendrik, “Se eu tivesse de dobrar, nem que fosse um pouquinho, o meu dedo indicador para ser salvo, a salvação não seria pela graça, por meio da fé, mas também pelas obras. E eu nunca poderia ter a certeza da salvação, porque não tinha a certeza de que o tinha feito correctamente.”

Mas como já podemos ver que todo o homem pecou, mesmo que ele tentasse cumprir a “lei das obras”, nunca o conseguiria fazer na perfeição. Daí Paulo concluir no versículo 28 que “o homem é (unicamente) justificado pela fé, sem as obras da lei”.

A Justificação pela Fé estabelece a Lei

Para o Judeu era difícil aceitar que agora Deus também era o Deus dos Gentios. O rito da circuncisão era extremamente significativo para o Judeu, pois simbolizava o concerto que Deus tinha feito com Abraão, separando-o a ele e à sua semente dos restantes homens, os gentios. Mais tarde, a circuncisão foi incorporada na Lei da Moisés. A circuncisão era tão importante que qualquer homem entre os Judeus que não fosse circuncidado, seria “extirpado dos seus povos, quebrantou o meu concerto” (Génesis 17:14).

Mas Paulo prova nestes primeiros três capítulos de Romanos que tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado (3:19), e sendo assim encontram-se “extirpados”, longe de Deus, quer sejam circuncidados ou incircuncidados. Paulo também demonstra que somente “pela redenção que há em Cristo Jesus” pode aquele que crê ser “justificado gratuitamente pela Sua (Deus) graça” (3:22-24). O Deus, que é um só, justifica tanto o Judeu como o Gentio através da obra da redenção efectuada por Cristo.

Pela fé e por meio da fé

Ao chegarmos ao versículo 30 é fácil passar despercebida uma “pequena” diferença entre a justificação da circuncisão (Judeu) e incircuncisão (Gentio). Paulo afirma que Deus justifica o Judeu “pela fé” e o Gentio “por meio da fé”. 

A proposição traduzida do grego por “pela” (fé) denota a origem ou casa de onde uma ideia, acção ou movimento procedem. A proposição traduzida do grego “por meio da” (fé) denota o canal ou meio pelo qual uma acção é efectuada.

Os Judeus que estavam sobre a lei de Moisés (nos tempos passados) eram justificados:

  • pela fé (a origem),
  • por meio das obras (sacrifícios) da lei (o meio).

Isto é, o Judeu pela fé que Ele colocava nas Palavras de Deus, na lei dada por Moisés, executava os sacrifícios para perdão de pecados que Deus tinha estabelecido. Na verdade como Paulo explica no capítulo 4, o Judeu não era salvo pelas obras, mas pela fé que o levava a fazer as obras que Deus tinha estabelecido. Dando ouvidos à Palavra de Deus, confiando nas promessas de perdão que Deus tinha feito, o Judeu cumpria o que Deus tinha definido. Fazia-o colocando a sua fé em Deus, em que Ele era fiel cumpridor das suas promessas.

O Gentio é salvo “por meio da fé”, o mesmo acontecendo agora com todo o Judeu. Na dispensação da Graça, o Judeu não se encontra mais debaixo da Lei, não havendo distinção entre Judeu e Gentio, em particular no tocante à Salvação.

Agora todo o homem (Gentio ou Judeu) é justificado:

  • pela fé (a origem),
  • por meio da fé (o meio).

Agora o homem é salvo exclusivamente pela fé e por meio da fé!

Mais uma vez, Paulo, no versículo 31, refere que a Lei não é anulada por tal plano de salvação, pela fé, mas antes todos os requisitos de perfeita justiça da lei são alcançados por este plano, com base na redenção alcançada por Cristo na Cruz.

(por David Costa)