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Epístola aos Romanos – Capítulo 3 Agosto 27, 2010

Posted by David Costa in Epístola aos Romanos.
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A vantagem do Judeu

No capítulo anterior Paulo demonstrou que sem Cristo tanto o Judeu como o Gentio se encontram culpados diante de Deus, e assim dignos de condenação. Assim sendo, Paulo levanta uma questão natural no começo do capítulo 3 da sua Epístola aos Romanos: 

“Qual é, logo, a vantagem do Judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão?” (Romanos 3:1).

E Paulo responde à sua própria questão: “Muita, em toda a maneira…” (v.2).

O Judeu orgulhava-se de pertencer ao Povo escolhido de Deus. Mas Paulo explica no versículo 2 que a vantagem do Judeu era antes “primeiramente, porque as palavras de Deus lhe foram confiadas”. É verdade que Paulo se refere à Palavra de Deus, mas só em parte. Na tradução inglesa “King James”, em vez de “palavras” é usado o termo “oráculos”, que se encontra mais perto do significado original do termo grego “logion“.

Ora “oráculos” não se refere somente à Palavra de Deus mas também ao Culto a Deus. Podemos encontrar tal princípio de que o que foi confiado ao Judeu não foram somente as “Palavras de Deus”, um pouco mais à frente nesta epístola:

“Que são israelitas, dos quais é a adopção de filhos, e a glória, e os concertos, e a lei, e o culto, e as promessas” (Romanos 9:4).

No Novo Testamento, o termo “logion”, apesar de ser o diminutivo de “logos” (palavra), difere do termo “logos”, já que denota uma resposta, enquanto “logo” refere-se somente à “palavra”.

Quando Deus entregou a Lei a Moisés (a Sua Palavra), também lhe entregou os planos para o tabernáculo: “um santuário, e habitarei no meio deles” (Êxodo 25:3). Este santuário era o lugar designado por Deus onde o Seu povo se podia chegar a Ele e cultuá-lo, por intermédio dos sacerdotes. 

Sendo assim, cremos que a vantagem que o Judeu possuía não se reduz às “Palavras”, já em si muito importantes, mas também em que lhes tinha sido confiado por Deus o verdadeiro Culto a Deus, estabelecido e designado por Ele, de acordo com a Sua vontade. Qualquer outro culto a Deus nunca era o verdadeiro Culto, aceite por Deus, pois não era feito segundo o Seu plano.

Presentemente as Palavras de Deus e o Culto a Deus não pertence mais a Israel, ao povo Judeu, mas como lemos no capítulo 11 desta epístola: “… que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado” (Romanos 11:25). Enquanto Israel está sendo posto de parte, nesta dispensação da Graça de Deus, as Palavras de Deus e o Culto a Deus são agora posse da Igreja, Corpo de Cristo.

Agora, os membros da Igreja chegam-se a Deus para O cultuar de uma forma completamente diferente; não num tabernáculo ou num templo, não diante de um “propiciatório” (Êxodo 25:21-22), mas antes diante do trono da Graça de Deus:
“Cheguemo-nos, pois, com confiança, ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia, e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hebreus 4:16).

Não só o culto a Deus é agora novo, mas também a Palavra de Deus foi alargada (comparando com o que o Judeu possuía antes) com a revelação “do mistério”, a mensagem para esta dispensação da Graça de Deus, revelada nas epístolas do apóstolo Paulo.

Chegado ao versículo 3, vemos que a vantagem que o Judeu possuía, nomeadamente pela Lei e pelo Culto a Deus, rapidamente se tornou em desvantagem, pela incredulidade e pelo pecado. A Lei que era uma vantagem para o Judeu, em relação ao Gentio, agora condenava-o. Mas independente de o homem (neste caso o Judeu) crer e cumprir a Lei, ou pelo contrário se chegar-se a Deus em mera religiosidade, Deus não deixa de ser fiel e cumpridor das Suas palavras e promessas.

Deus revela ser justo em que condena o gentio que vive longe de Deus, o gentio que procura viver uma vida moral, e também a Sua nação escolhida, Israel. Aqueles que confiavam na lei, quebraram-na e, pecando, trouxeram a justiça de Deus sobre si. E assim todo o homem, Judeu ou Gentio, moralista ou ímpio, está debaixo da Ira de Deus.

Nos versículos 7 e 8, Paulo refuta uma corrente e uma acusação que faziam sobre ele e sobre os crentes que proclamavam o Evangelho da Graça. A corrente era que Deus era o criador do pecado. Deus tinha criado o pecado para trazer glória para si, pelo facto de que Ele vence o pecado com a Sua Graça, trazendo glória para Si. E sendo assim, não pode haver qualquer condenação para o homem, pois foi pelo pecado do homem que Deus tomou glória para Si e trouxe graça para o homem.

Paulo nem sequer se preocupa em dar resposta a tal ideia absurda. Eles simplesmente afirma que aqueles que dizem que o homem deve continuar a pecar, para que o bem daí advenha (a graça de Deus), serão justamente condenados.

Paulo refere no versículo 9 que o Judeu, mesmo com a vantagem que possui, não é melhor que qualquer outro homem, pois a natureza de todo o homem é a mesma. 

A condição de todo o homem diante de Deus

Nos versículos 10 a 12, Paulo cita uma passagem de Salmos 14. Este Salmo fala de como o homem não dá lugar a Deus na Sua vida, nem quer saber de Deus, mesmo que reconheça que Ele existe. Deus procura neste mundo por homens que O busquem, que sejam justos, e a sua conclusão é que não há ninguém que O busque. Todos se corromperam, não seguindo o bem e a justiça.

Seguidamente Paulo descreve como o homem se corrompeu em todo o seu ser, por viver uma vida longe de Deus. É interessante reparar na progressão do mal revelado pelo homem ímpio. O versículo 13 fala da garganta, da língua, dos lábios estarem contaminados (sepulcro, engano, peçonha de áspides), mas ao chegar ao versículo 14, fala de toda a boca estar cheia de maldade e amargura. E nos restantes versículos 15 a 18 vemos como o mundo dos homens se tornou num lugar de assassínio, destruição, miséria, guerra e falta de temor de Deus.

Após ter abordado a depravação geral do homem e de que todo o homem está debaixo de pecado, Paulo demonstra a impossibilidade de o homem se justificar diante de Deus pelas obras da Lei.

Como vemos no princípio do versículo 19, Paulo não se refere aos Gentios, pois não se encontravam debaixo da Lei, mas antes aos Judeus. O Judeu orgulhava-se na Lei que possuía e cria que a Lei o podia justificar, e assim pensava encontrar-se justo diante de Deus. Mas como Paulo refere na segunda parte do versículo, era necessário provar que a Lei não pode justificar nenhum homem, “para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo condenável diante de Deus”.

Como é que a condenação de Israel pela Lei traz todo o mundo condenável diante de Deus?

  1. Como vimos atrás no capítulo 1 desta epístola, todo o homem se encontra inescusável nas sua culpa diante de Deus (Romanos 1:20). A condenação de Israel pela Lei demonstra que todo o homem se encontra culpado diante de Deus.
  2. O Concerto de Deus com Israel também afectava os gentios. A única forma de um não-judeu, um gentio, se poder chegar a Deus era através de Israel. Ele deveria tornar-se prosélito, passando a estar debaixo do Concerto de Deus com Israel. Mas este concerto só o podia justificar se ele fosse capaz de obedecer e guardar a Lei na perfeição. Se tanto o Judeu como o Gentio não conseguia guardar a Lei na perfeição, qualquer gentio que se tornava prosélito continuava culpado diante de Deus, e a Lei que ele tomava sobre si, agora o condenava.

O reconhecimento do pecado que cada um de nós carrega sobre si é o primeiro passo, e deveras importante, para a salvação. Enquanto o homem acreditar que os seus esforços e “boas obras” o podem salvar, que não é assim tão mau, ou que seguir a Lei o justifica, ele nunca reconhecerá a verdadeira situação em que se encontra. Enquanto o homem continuar a arranjar argumentos para ignorar ou negar a sua verdadeira condição, nunca poderá receber a provisão que Deus fez na Cruz por intermédio de Jesus Cristo.

Ao chegarmos ao versículo 20, encontramos o segundo passo na mensagem do Evangelho da Graça, que Paulo apresenta nesta epístola. Podemos reconhecer os diferentes passos se atentarmos para os termos “portanto”, “pois” e “por isso”, que são usados no princípio de um versículo. Consideremos então os diferentes passos:

  1. “Portanto ficas sem desculpa…” (2:1)
  2. “Por isso, nenhuma carne será justificada diante dEle pelas obras da Lei” (3:20)
  3. “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei” (3:28)
  4. “Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (5:1)
  5. “Portanto, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (8:1)
  6. “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (12:1)

Voltando ao nosso versículo 20 do capítulo 3, encontramos Paulo a demonstrar, em especial ao Judeu debaixo da Lei, a sua necessidade de Cristo. A palavra traduzida por “conhecimento” neste versículo não é, no original, a palavra grega “gnosis”, normalmente traduzida por “conhecimento”, mas antes o termo “epignosis”, que refere-se a um conhecimento conclusivo ou provado. O homem não necessita da Lei para conhecer que é um pecador, pois a sua consciência o acusa dos seus pecados, como vimos anteriormente no versículo 2:15. Mas o Judeu e todo aquele debaixo da Lei, possuía a lei que confirmava tal facto. A consciência do homem o acusa de pecado, enquanto a Lei o confirma por escrito, pronunciando a sentença do homem.

Como exemplo, para mais facilmente compreendermos este princípio, consideremos o caso de um homem que conduz o seu automóvel por uma cidade, a uma velocidade superior a 90km/h. Ele sabe que o limite de velocidade dentro das localidades é de 50km/h, e a sua consciência o acusa da infracção que ele está a cometer. Mas este conhecimento não lhe traz penalização alguma. Mas agora imaginemos que ele é apanhado pela polícia a cometer tal infracção, e é confrontado por uma patrulha mais à frente no seu percurso. Neste momento não é só a sua consciência que o acusa, mas a Lei (o Código da Estrada) e a Polícia (que fiscaliza o seu cumprimento) que o condenam a uma pena (uma multa) devido à sua conduta.

A Lei de Deus actua da mesma forma. Pela consciência o homem vem ao mero conhecimento do pecado, mas pela Lei da Deus vem a confirmação e a condenação.

É de referir a distinção entre “conhecimento de pecado” e “convicção de pecado”. Todos os homens têm conhecimento dos seus pecados, mas nem todos estão debaixo de convicção de pecado. Se todos estivessem convictos do seu pecado, todo o homem se apressaria a ouvir o Evangelho da Graça de Deus. A Lei acrescenta o seu testemunho ao da consciência do homem, para que ele possa ficar convicto do seu pecado, enquanto o Espírito Santo usa a Palavra de Deus para trazer o homem a tal convicção.

Muitas pessoas religiosas, mesmo muitos chamados cristãos, pensam que a Lei foi dada por Deus para mostrar ao homem como “fazer o bem” e como “ser justo”. Mas na verdade a Lei não mostra ao homem como é que ele pode fazer o bem, mas antes o condena. A Lei foi dada antes para nos mostrar que todo o homem é ímpio e precisa de um salvador.

“E, de tudo que, pela Lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por Ele é justificado todo aquele que crê.” (Actos 13:39).

A Justiça de Deus sem a Lei

“Mas agora se manifestou…” (v.21).

Neste versículo encontramos uma mudança dispensacional, denotada pela expressão “mas agora”. “Agora” refere-se ao tempo presente, a esta época, a esta dispensação. Durante 1500 anos, Deus manteve Israel debaixo da Lei, de forma a demonstrar historicamente que “nenhuma carne será justificada diante dEle pelas obras da Lei” (v.20). 

“Mas agora a Justiça de Deus, sem a Lei, se manifestou.”

Tomemos atenção à expressão “se manifestou”. O princípio da Justiça sem a Lei esteve sempre operante, mas ainda não tinha sido anunciado, revelado ou manifestado. Quando terá sido manifestado pela primeira vez este princípio? Terá sido por João Baptista, por Cristo durante o seu ministério terreno, pelos 12 apóstolos, ou durante o Pentecostes?

Cristo ensinou os seus discípulos a sujeitarem-se à Lei (Mateus 23:1-3). Antes da sua ascensão, Cristo comissionou os 11 a guardar a Lei (Mateus 28:20). Mesmo no Pentecostes, os 12 viviam sob a lei e “viviam” quase literalmente no templo judaico.
Só por meio de Paulo é que ouvimos pela primeira vez que a Justiça de Deus se manifestou sem a Lei. Ninguém antes de Paulo proclamou tal mensagem. Daí Paulo insistir em expressões como “mas agora” (v.21) e “neste tempo presente” (v.26). Encontramos tal princípio também noutras epístolas de Paulo (Gálatas 3:23; I Timóteo 2:6-7; II Timóteo 1:10-11; Tito 1:2-3).

Na segunda parte do versículo 21, Paulo afirma que a Justiça de Deus sem a Lei tem o “testemunho” da Lei e dos Profetas. Isto não quer dizer que o princípio da justiça de Deus sem a Lei tenha sido anunciado pela Lei e pelos Profetas (a Palavra de Deus que o Judeu possuía, muitas vezes referida como “a Lei e os Profetas”). Pelo contrário, pois só “agora” se manifestou. O que esta expressão quer dizer é que não há nada na Escritura (chamado agora por “Velho Testamento”), tanto na Lei como nos Profetas, que anule o princípio da Justiça de Deus sem a Lei. Neste plano de justificação do homem, há justiça completa e perfeita, pois o castigo pelos pecados do homem foi pago, completamente, por Cristo. Daí Paulo no primeiro capítulo afirmar que se orgulhava deste evangelho, pois a Justiça de Deus se revela nele, neste plano (Romanos 1:16-17).

A Fé de Jesus Cristo

Na nossa tradução de João Ferreira de Almeida, edição revista e corrigida, encontramos no versículo 22 a expressão “fé em Jesus Cristo”, mas na verdade a expressão que estaria mais perto da ideia original seria “fé de Jesus Cristo”. Esta expressão, “fé de Jesus Cristo”, é usada sete vezes nas epístolas de Paulo, e podemos encontrar as duas expressões num só versículo, “fé em Cristo” e “fé de Cristo” em Gálatas 2:16.

A expressão “fé de Jesus Cristo” neste versículo 22 refere-se à natureza, ao que Cristo é, em vez do que Ele fez. Não tem que ver com a “fé em Cristo”, mas sim com Jesus Cristo ser digno de confiança, isto é, tanto pela sua fidelidade, como pela sua capacidade em cumprir as Suas promessas, nomeadamente de salvação, a todos os que confiarem nEle para remissão de pecados. Aquele em quem foram imputados os nossos pecados possui toda a Justiça de Deus, e quando confiamos nele para salvação, estamos certos que a Sua Justiça é verdadeiramente imputada em nós. Sendo assim a nossa fé em Cristo está assente e encontra-se segura na fé de Cristo.

Para todos e sobre todos os que crêem

Na segunda parte do versículo 22 encontramos outro princípio muito importante: “a Justiça de Deus… para todos e sobre todos os que crêem”. 

O artigo traduzido por “para”, nesta expressão, é o artigo “eis” no grego, que refere-se à “direcção”, enquanto o artigo traduzido por “sobre” é o artigo “epi” no grego, que se refere ao “objecto”. Por outras palavras, encontramos dois grupos distintos de pessoas nesta expressão: “todos” referindo-se a todo o homem, e “todos os que crêem” referindo-se àqueles homens e mulheres que confiam em Jesus Cristo para salvação dos seus pecados, com base na expiação feita na cruz, por Jesus Cristo. A Justiça de Deus é “para” o primeiro grupo (“todos”) e é “sobre” o segundo (“os que crêem”). A Justiça de Deus é oferecida a todos os homens e mulheres, mas ela só é imputada (colocada sobre) àqueles que crêem.

Esta expressão é muito importante, pois claramente mostra que a Salvação não será universal. Apesar da provisão que Deus estabeleceu ser passível de salvar todo o homem, só aqueles que crêem na Salvação oferecida é que serão verdadeiramente salvos.

A última parte do versículo deve ser tomada em conjunto com o versículo 22, pois “não há diferença” não se refere aos dois grupos de pessoas mencionados. A expressão “não há diferença” refere-se a que todo o homem pecou, seja judeu ou gentio, moralista ou ímpio. É verdade que existem diferenças na natureza e gravidade dos pecados cometidos pelos homens neste mundo. Mas o facto simples de que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” não é posto em causa por essas diferenças. Na prática, um só pecado faz do homem pecador, assim como um só assassínio faz de um homem um assassino, ou um só roubo faz de um homem um ladrão.

No versículo 24, Paulo torna ao argumento deixado a meio no versículo 22: “a justiça de Deus… para todos e sobre todos os que crêem… sendo justificados gratuitamente, pela Sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus”.

Somos justificados gratuitamente pela Sua graça, não porque o merecêssemos, mas somente pelo Seu favor. No grego o termo “charis” (graça), neste contexto traz consigo a ideia de “deleite”, de prazer, como um avô que se deleita no seu neto e busca oportunidades de lhe trazer alegria. Assim é a Graça de Deus, em que Deus se deleita em salvar pecadores e em encher as suas vidas de bênçãos (Efésios 2:1-7). Deus fez completa provisão para salvar o pecador, e agora convida cada um a reconciliar-se com Ele, sendo justificado “pela redenção que há em Cristo Jesus”.

A palavra “gratuitamente” no versículo 22 dá ênfase em que a Justificação é unicamente pela Graça.

Cristo proposto para propiciação

Ao chegarmos ao versículo 25, encontramos a expressão “ao qual (Cristo) Deus propôs para propiciação”, onde o verbo “propor” também podia ter sido traduzido por “apresentar”. Agora a questão que define o destino eterno do homem já não é mais “o pecado” (pois todo o homem encontra-se debaixo da mesma condição) mas sim a sua decisão pessoal por Cristo. Deus fez completa provisão para o pecado do homem, e agora convida o homem a receber o “dom da justiça” (Romanos 5:17), pela fé em Cristo, que morreu pelos nossos pecados.

Paulo explica que Deus propôs Cristo para propiciação dos pecados que foram “dantes cometidos”. Em relação aos pecados que foram dantes cometidos, não no passado dos leitores desta epístola, mas nos tempos passados, na história passada, a paciência de Deus suspendeu julgamento nesses dias, pois Ele tinha proposto Cristo para propiciação desses mesmos pecados. As pessoas desses dias não eram justificadas na realidade pelos sacrifícios ordenados por Deus e estabelecidos na Lei de Moisés, mas sim pela propiciação realizada por Cristo no futuro. Apesar da Justiça de Deus lhes ser imputada então, só agora, na dispensação da Graça de Deus, pelo evangelho de Paulo, é que tal foi manifestado.

É importante relembrar que a justificação não significa que o pecador é declarado inocente de pecado. Deus condena justamente o pecador, mas Ele justifica o crente pecador, declarando-o justo em Cristo. Como podemos ver nos capítulos 3 e 4 desta epístola, o processo é:

  1. O pecador é declarado culpado (Romanos 3:19)
  2. Os pecados do pecador são imputados a Cristo (Romanos 3:24)
  3. A Justiça de Cristo é imputada ao pecador (Romanos 4:5)

Na segunda parte do versículo 26 lemos que Deus propôs Cristo para propiciação, demonstrando “a sua Justiça, para que Ele seja Justo”. A justificação do crente pecador foi obtida de uma forma perfeitamente justa. Deus no Seu amor não deixou de ser justo, pois nenhum princípio da justiça de Deus foi posto de parte, para que aqueles “que tem fé em Jesus” pudessem ser justificados.

A expressão “justificador daquele que tem fé em Jesus” mostra claramente que agora, na dispensação da Graça de Deus, o crente é salvo unicamente pela fé, sem qualquer obra requerida. No evangelho do Reino, o qual Cristo comissionou os seus discípulos para proclamar, o princípio era: “Quem crer e for baptizado será salvo” (Marcos 16:16). Neste versículo em Romanos e em todas as epístolas de Paulo está propositadamente ausente o baptismo como requisito para salvação. Agora Deus justifica aqueles que simplesmente, mas sinceramente, “tem fé em Jesus”.

O orgulho humano no Plano de Salvação

“Onde está, logo, a jactância?”. De que se pode o homem gloriar ou orgulhar em todo este plano de Salvação estabelecido por Deus? Paulo responde à sua própria pergunta, afirmando que a jactância é excluída, isto é, não há lugar nenhum para o homem se gloriar ou orgulhar em algo que ele possa ter feito no plano de Salvação. Deus conhece o coração do homem, e conhece o mal que resulta do orgulho humano, e assim sendo, Deus não o tolera no Seu plano de Redenção. O homem não toma parte alguma na sua salvação, por pequena e insignificante que possa ser, a não ser receber a Salvação gratuitamente, de graça: “para que nenhum homem ser glorie” (Efésios 2:8-9).

A alegria da Salvação não resulta do orgulho humano sobre algo que o homem alcançou, mas sim resulta de verdadeira gratidão pelo que ele gratuitamente recebe de Deus.

E porque “lei”, isto é, porque princípio, é que a glória humana (a jactância) é excluída? Paulo explica que não é pela lei das obras, mas antes pela lei da fé.

Encontramos aqui duas leis (dois princípios) mutuamente exclusivos (isto é, não podem ocorrer em simultâneo) em relação à salvação do homem. Isto é, ou o homem é salvo pela lei das obras ou pela lei da fé; não há outra lei ou princípio intermédio. Como lemos mais à frente, em Romanos 11:6, se o homem é salvo pela graça, pela lei da fé, não o pode ser pelas obras, pois no momento em que se acrescentam obras, a graça já não é graça e já não é a “lei da fé”.

Sendo assim, ao homem são apresentadas duas alternativas. Se ele busca salvação pelas obras (a lei das obras), então não é um dom da graça de Deus que deve ser recebido somente pela fé. Se ele busca salvação pelo dom da graça de Deus (a lei da fé), então esta não pode ser alcançada por meio das obras, pois a graça de Deus deixaria de ser “graça”. A “graça” e as “obras” para Salvação são mutuamente exclusivas.

Tal como referido por James McKendrik, “Se eu tivesse de dobrar, nem que fosse um pouquinho, o meu dedo indicador para ser salvo, a salvação não seria pela graça, por meio da fé, mas também pelas obras. E eu nunca poderia ter a certeza da salvação, porque não tinha a certeza de que o tinha feito correctamente.”

Mas como já podemos ver que todo o homem pecou, mesmo que ele tentasse cumprir a “lei das obras”, nunca o conseguiria fazer na perfeição. Daí Paulo concluir no versículo 28 que “o homem é (unicamente) justificado pela fé, sem as obras da lei”.

A Justificação pela Fé estabelece a Lei

Para o Judeu era difícil aceitar que agora Deus também era o Deus dos Gentios. O rito da circuncisão era extremamente significativo para o Judeu, pois simbolizava o concerto que Deus tinha feito com Abraão, separando-o a ele e à sua semente dos restantes homens, os gentios. Mais tarde, a circuncisão foi incorporada na Lei da Moisés. A circuncisão era tão importante que qualquer homem entre os Judeus que não fosse circuncidado, seria “extirpado dos seus povos, quebrantou o meu concerto” (Génesis 17:14).

Mas Paulo prova nestes primeiros três capítulos de Romanos que tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado (3:19), e sendo assim encontram-se “extirpados”, longe de Deus, quer sejam circuncidados ou incircuncidados. Paulo também demonstra que somente “pela redenção que há em Cristo Jesus” pode aquele que crê ser “justificado gratuitamente pela Sua (Deus) graça” (3:22-24). O Deus, que é um só, justifica tanto o Judeu como o Gentio através da obra da redenção efectuada por Cristo.

Pela fé e por meio da fé

Ao chegarmos ao versículo 30 é fácil passar despercebida uma “pequena” diferença entre a justificação da circuncisão (Judeu) e incircuncisão (Gentio). Paulo afirma que Deus justifica o Judeu “pela fé” e o Gentio “por meio da fé”. 

A proposição traduzida do grego por “pela” (fé) denota a origem ou casa de onde uma ideia, acção ou movimento procedem. A proposição traduzida do grego “por meio da” (fé) denota o canal ou meio pelo qual uma acção é efectuada.

Os Judeus que estavam sobre a lei de Moisés (nos tempos passados) eram justificados:

  • pela fé (a origem),
  • por meio das obras (sacrifícios) da lei (o meio).

Isto é, o Judeu pela fé que Ele colocava nas Palavras de Deus, na lei dada por Moisés, executava os sacrifícios para perdão de pecados que Deus tinha estabelecido. Na verdade como Paulo explica no capítulo 4, o Judeu não era salvo pelas obras, mas pela fé que o levava a fazer as obras que Deus tinha estabelecido. Dando ouvidos à Palavra de Deus, confiando nas promessas de perdão que Deus tinha feito, o Judeu cumpria o que Deus tinha definido. Fazia-o colocando a sua fé em Deus, em que Ele era fiel cumpridor das suas promessas.

O Gentio é salvo “por meio da fé”, o mesmo acontecendo agora com todo o Judeu. Na dispensação da Graça, o Judeu não se encontra mais debaixo da Lei, não havendo distinção entre Judeu e Gentio, em particular no tocante à Salvação.

Agora todo o homem (Gentio ou Judeu) é justificado:

  • pela fé (a origem),
  • por meio da fé (o meio).

Agora o homem é salvo exclusivamente pela fé e por meio da fé!

Mais uma vez, Paulo, no versículo 31, refere que a Lei não é anulada por tal plano de salvação, pela fé, mas antes todos os requisitos de perfeita justiça da lei são alcançados por este plano, com base na redenção alcançada por Cristo na Cruz.

(por David Costa)

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Comentários»

1. Gabriel Veras - Junho 5, 2014

Muito bom esse estudo. Me ajudou bastante, agora consegui entender melhor esse capítulo do livro de Romanos. Obrigado, Deus o abençoe. 🙂

2. bruhbarros - Agosto 5, 2015

Muito bom o estudo, esclareceu muitas dúvidas, Deus os abençoe, continuem o trabalho!!


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