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Boletim de Fevereiro de 2011 Fevereiro 23, 2011

Posted by David Costa in Boletins.
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Disponibilizamos hoje o sexto Boletim do “Conhecer o Mistério”. Esperamos que assim estes artigos possam chegar a pessoas que não tenham acesso à Internet.

Mais uma vez, pedimos a vossa colaboração em imprimir, fotocopiar e distribuir este boletim (e os próximos) pelos irmãos e amigos nas nossas igrejas que não tem acesso à Internet.

Para ser impressa 1 página em cada folha A4:
Conhecer o Mistério – Fevereiro 2011

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A parábola tripla de Lucas 15 Fevereiro 23, 2011

Posted by David Costa in Estudos.
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“Interpreta primeiro; depois aplica.” Esta é uma regra básica do estudo da Bíblia. A falha no cumprimento desta regra conduzirá inevitavelmente à confusão e ao erro.

Esta parábola tripla[1] de Lucas 15 é um bom exemplo disso mesmo. Estas palavras, tal como todas as Escrituras, foram escritas “para nosso ensino” (Romanos 15:14) e “para aviso nosso” (I Coríntios 10:11), mas elas não foram originalmente dirigidas a nós. Elas foram dirigidas a uma audiência de judeus numa altura em que Israel ainda era a nação favorecida por Deus. Assim, se pretendemos ser “ensinados” e “avisados” por estas palavras, devemo-nos primeiramente colocar no lugar do destinatário original e determinar o que o nosso Senhor pretendia que eles entendessem das Suas palavras. Só depois poderemos ver de que forma essas lições se aplicam a nós.

Esta é a única forma para verdadeiramente compreender e tirar proveito de passagens não dirigidas a nós. Se em vez disso começarmos a aplicar estas parábolas directamente a nós, como se tivessem sido dirigidas a nós e se referissem a nós, certamente falharemos na sua compreensão, interpretação e aplicação.

Quantas vezes a história da ovelha perdida tem sido usada em mensagens evangelísticas como uma ilustração da salvação nos dias de hoje! Supostamente as noventa e nove ovelhas representam os salvos, “seguros no curral”, e a ovelha perdida os perdidos. Mas o que dizer sobre as palavras do Senhor, sobre o serem muitos os que entram pela “porta larga” e poucos os que entram pela “porta estreita” (Mateus 7:13-14)? E porque deixa o pastor as noventa e nove? E porque o Senhor compara estas ovelhas a “justos que não necessitam de arrependimento”?

O mesmo se passa com a história do filho pródigo. Supostamente esta parábola é uma ilustração da necessidade e do caminho da salvação nesta presente dispensação da Graça de Deus. Sendo assim, porque são ambos os homens referidos como sendo filhos e ambos feitos participantes das riquezas do pai ainda antes de um deles ser salvo? E porque diz o pai ao filho que se considerava justo: “Todas as minhas coisas são tuas”? Tudo isto é deixado por explicar.

E todas estas questões ficarão sem resposta se não nos ocuparmos primeiramente com a verdadeira interpretação das palavras do nosso Senhor, e só depois da aplicação, ou se não tivermos em conta que os destinatários destas palavras eram judeus, sob a Lei, que eles não tinham as epístolas Romanos, Gálatas ou Efésios, que Cristo ainda não tinha morrido e que muitos deles nem o reconheciam como Messias.

Quando o fizermos ficará claro, em primeiro lugar, que esta é uma parábola gradual relativa a Israel. Quase conseguimos imaginar vozes de protesto: “Será que nos vão tirar também esta passagem?!”, ao que respondemos “Não!” Esta passagem, tal como o resto das Escrituras, é para nós, mas tiraremos mais dela se reconhecermos primeiramente a quem estas palavras foram originalmente dirigidas. Fazendo isto, cremos que o leitor verá por si mesmo que não perdeu nada e ganhou muitíssimo.

A ocasião da parábola

“E chegavam-se a Ele todos os publicanos e pecadores para O ouvir. E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: ‘Este recebe pecadores e come com eles’.” (Lucas 15:1-2)

Foi a ideia de justiça própria dos fariseus e escribas que provocou esta parábola tripla. João Baptista tinha exortado estes líderes a produzir frutos dignos de arrependimento (Mateus 3:8), mas eles não viram necessidade de mudar os seus caminhos. Sobre eles lemos: “Mas os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido baptizados por ele (João Baptista)” (Lucas 7:30).

A sua presunção era quase inacreditável. Numa ocasião, o homem a quem o Senhor tinha curado da sua cegueira de nascença ousou dizer-lhes: “Se Este não fosse de Deus, nada poderia fazer”, ao que eles responderam muito irritados: “Tu és nascido todo em pecados e nos ensinas a nós?” (João 9:33-34). Como se eles não tivessem nascido em pecados!

E agora eles murmuram contra o Senhor por receber pecadores e comer com eles. Claro que eles não eram pecadores! E eles tinham um surpreendente número de seguidores em Israel: justos aos seus próprios olhos, satisfeitos consigo mesmos, não sentindo necessidade de arrependimento.

Foi esta a situação que originou a parábola tripla da ovelha perdida, da dracma perdida e do filho pródigo.

A ovelha perdida

O Senhor começa por responder aos seus críticos perguntando-lhes: “Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e não vai após a perdida até que venha a achá-la?” (Lucas 15.4).

Ele afirma que mesmo eles não seriam capazes de ignorar o balido de uma ovelha perdida. Eles não seriam capazes de deixar passar despercebida aquele apelo ou deixar a criatura indefesa a morrer sozinha.

E então ele continua a descrever a satisfação quando a ovelha perdida é encontrada. Colocando a criatura nos seus ombros, o pastor trá-la para casa e chama os seus amigos e vizinhos para se alegrarem com ele.

Quem é o pastor?

Na interpretação da parábola da ovelha perdida, devemos primeiro perguntar o que representa o pastor. Só pode haver uma resposta a esta questão. Representa o Próprio Senhor. Os Salmos e os profetas retratavam há muito o Messias vindouro como um Pastor, e mesmo na Terra Ele mesmo disse: “Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (João 10.11).

Quem são as ovelhas?

Devemos dizer que elas representam a humanidade? Certamente que não, porque em lado nenhum nas Escrituras vemos Cristo como Pastor da humanidade. Nem foram alguma vez os gentios classificados como ovelhas. Eles eram chamados cães e estranhos, mas nunca ovelhas.[2] É verdade que os membros do Corpo de Cristo são vistos como ovelhas por ilação[3], mas isso não se pode aplicar aqui, porque não há ovelhas perdidas entre os membros do Corpo de Cristo. Além disso, o que poderiam os Seus ouvintes saber sobre o Corpo de Cristo? Nesse tempo a formação deste conjunto de crentes ainda era um mistério “oculto em Deus” (Efésios 3:9).

As ovelhas nesta parábola representam o povo de Israel. Qualquer judeu instruído teria reconhecido isto imediatamente. Muitos dos Salmos apresentavam Israel como ovelhas do pasto de Deus (Salmos 78:52, 79:13, 95:7 e 100:3, entre outros) e os profetas há muito descreviam o Messias como o futuro Pastor de Israel (Isaías 40:11 e Jeremias 31:10, entre outras).
Isto explica a razão pela qual todas as cem ovelhas na parábola, independentemente do seu estado, são vistas como Suas ovelhas. Hoje, os perdidos não são de maneira alguma Suas ovelhas, mas o povo de Israel, quer salvos quer perdidos, tinham uma relação de concerto com Deus.

O facto de que as ovelhas perdidas são ovelhas perdidas de Israel, e não gentias, é provado pelas palavras do próprio Senhor. Quando Lhe foi pedido auxílio pela mulher siro-fenícia, Ele disse: “Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel… Não é bom pegar o pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos” (Mateus 15:24,26).

O nosso Senhor ordenou de forma clara aos seus discípulos: “Não ireis pelo caminho das gentes, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mateus 10:5-6)

Quantas ovelhas perdidas?

É um facto interessante que todo o povo de Israel era visto pelos profetas como ovelhas perdidas que precisavam de ser encontradas e resgatadas. Falando do povo de Israel, Isaías disse: “Todos nós andamos desgarrados como ovelhas; cada um se desvia pelo seu caminho…” (Isaías 53:6). E Jeremias: “Ovelhas perdidas foram o meu povo” (Jeremias 50:6).

Mas o problema era que muito poucos em Israel reconheceram a sua condição de perdidos. Havia apenas um em cem; os restantes sentiam-se bastante bem com eles mesmos.

Muita atenção! As noventa e nove ovelhas da parábola não estavam “seguras no curral”, como alguns dos nossos hinos poderão indicar. Elas estavam no deserto, se bem que todas juntas. Mas o Senhor diz que o pastor “deixa no deserto as noventa e nove, e vai após a perdida ate que venha a achá-la. A ideia aqui é a de que o Senhor veio não para “chamar os (que pensam ser) justos, mas sim os pecadores” (Marcos 2:17). Ele veio para “buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19:10; comparar com Lucas 15:7).

Contexto histórico

Antes de começar com a segunda fase da parábola tripla, devemos saber onde se encaixa cronologicamente a história da ovelha perdida. O nosso Senhor referia-se ao passado, presente ou futuro de Israel? Não é difícil determinar, pois houve um único período na História durante o qual o Próprio Pastor veio buscar os perdidos em Israel, o que aconteceu durante o Seu ministério terreno. Isto concorda com as Suas próprias afirmações de que Ele foi “enviado… às ovelhas perdidas da casa de Israel” e que “veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Mateus 15:24; Lucas 19:10).

A dracma perdida
Quem é a mulher?

Comecemos a interpretação da parábola da dracma perdida por perguntar primeiro quem é a mulher. Será que ela representa a Igreja de hoje, como tem sido dado a entender tantas vezes? Dificilmente, pois a Igreja de hoje era nesse tempo ainda um mistério escondido em Deus, pelo que o nosso Senhor não se poderia ter referido a ela, nem poderiam os Seus seguidores mais espirituais perceber qualquer alusão àquilo que nunca havia sequer sido mencionado.

Deve ser notado que, qualquer que seja a dispensação, o povo de Deus é sempre visto como a mulher, o vaso mais fraco, amado e cuidado por Ele e chamada para ser sujeita a Ele.

É o que acontece com a Igreja de hoje: “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da Igreja, sendo Ele próprio o Salvador do Corpo… vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e a Si mesmo se entregou por ela” (Efésios 5:23, 25).
Mas também acontece com Israel, porque Deus disse, sob a Lei: “… eles invalidaram o meu concerto, apesar de eu os haver desposado” (Jeremias 31:32).

A Israel foi dado um “libelo (carta) de divórcio” (Isaías 50:1), mas um dia ela será restaurada a Jeová, como está escrito: “… como o noivo se alegra com a noiva, assim se alegrará contigo o teu Deus” (Isaías 62:5) e “… ó filha da Sião… o Senhor, o Rei de Israel, está no meio de ti… poderoso para te salvar; Ele se deleitará em ti com alegria; calar-se-à por seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sofonias 3:14-17).

Em João 3:29, Cristo é apresentado como “Aquele que tem a esposa”, enquanto que em Apocalipse 21:2 vemos a Nova Jerusalém, de Deus descendo do Céu, “como uma esposa ataviada para o seu marido”.

Assim, o povo de Deus é visto de forma consistente como a mulher na sua relação com Ele. Então, a quem se refere a mulher na parábola do Senhor? Aos remidos em Israel, visto que os seus ouvintes eram israelitas. Dizemos aos remidos em Israel e não a todo o Israel, visto que aqui a mulher é apresentada a procurar o que se havia perdido.

A dracma

A dracma perdida, tal como a ovelha perdida, representa os perdidos em Israel, ou aqueles que se sentem perdidos, mas qual a razão da mudança no simbolismo? O dinheiro é, claro está, um meio de troca. Representa valor. Assim, as dez dracmas representam o valor de Israel para as nações.

Na parábola anterior foi a compaixão por uma ovelha perdida que impeliu o pastor a ir e encontrá-la. O seu primeiro pensamento não foi o de que ele havia investido dinheiro nela, mas que a criatura indefesa precisava de ser resgatada do perigo e da morte. Mas nesta parábola a motivação é apenas a preocupação pelo valor perdido.

Quando a mulher descobre que perdeu uma moeda, ela “acende uma candeia, e varre a casa, e busca diligentemente até a achar”. Então ela chama as suas amigas e vizinhas para se alegrarem com ela por ter encontrado o seu dinheiro. Isto leva-nos ao valor de Israel para as nações, visto que a benção das nações aguarda pela salvação de Israel.

Deus havia prometido a Abraão, em relação à sua semente multiplicada: “E em tua semente serão benditas todas as nações da terra…” (Génesis 22:18)
Mas Israel no seu estado não regenerado não poderia ser uma benção para o mundo. Por isso o profeta Zacarias disse: “E há de acontecer, ó casa de Judá e ó casa de Israel, que, assim como fostes uma maldição entre as nações, assim vos salvarei, e sereis uma benção…” (Zacarias 8:13).

Portanto, o povo de Israel era de grande valor potencial para o mundo. Notemos, no entanto, que toda a atenção é focada na dracma perdida e todo o regozijo acontece quando é encontrada. As outras nove dracmas, tal como na parábola anterior, representam aqueles que não se consideravam perdidos e não sentiam qualquer necessidade de arrependimento.

Contexto histórico

Mas também aqui devemos perguntar onde se encaixa cronologicamente a história. Alguns detalhes na parábola ajudarão a responder a esta questão.
Em primeiro lugar, o facto de que a mulher, e não o Próprio Senhor, é enviada a procurar a dracma, indica que esta parábola fala de um tempo em que o Seu povo, e não Ele, procurava os perdidos em Israel. Isto aconteceu em Pentecostes e depois, quando os doze apóstolos e o “pequeno rebanho” dos seguidores de Cristo chamaram o povo de Israel a arrepender-se e salvar-se daquela “geração perversa” (Actos 2:40).

É de notar que nesse tempo o valor de Israel para o resto do mundo era fortemente enfatizado como, por exemplo, no apelo de Pedro no alpendre de Salomão: “Vós sois os filhos dos profetas e do concerto que Deus fez com nossos pais, dizendo a Abraão: na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra. Ressuscitando Deus a Seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse, e vos desviasse, a cada um, das vossas maldades” (Actos 3:25-26).

Esta visão do contexto histórico da parábola da dracma perdida é ainda mais confirmada pela sua posição entre a parábola da ovelha perdida e a do filho pródigo, que inquestionavelmente aponta para o futuro.

O filho pródigo
Israel, filho de Deus

Certamente ninguém duvidará que o pai nesta Terceira parábola representa Deus, mas quem são os filhos? Novamente eles representam dois tipos de pessoas em Israel: os que se consideram a si mesmos justos e aqueles que reconhecem a sua condição de perdidos.

Claro que nem os pecadores que se consideram justos, nem os pecadores pródigos são chamados filhos de Deus, mas é aqui que entra novamente a relação de concerto com Deus. Aquilo que um pai é para um filho, Deus era para a Israel por causa dos concertos que Ele tinha feito com eles. Com o assunto da salvação completamente à parte, as pessoas do povo de Israel eram os Seus filhos do concerto[4] (Ver Mateus 15:26 e Actos 3:25). Assim, Moisés foi instruído para dizer a Faraó: “Assim diz o Senhor: ‘Israel é meu filho, meu primogénito’ “ (Êxodo 4:22).

Assim nesta parábola o simbolismo mostra-se superior ao da ovelha e da dracma. É mais do que compaixão por uma criatura perdida ou preocupação por causa do valor perdido que é contemplado aqui. É a filiação de Israel que está em consideração, bem como toda a comunhão, privilégio e glória que acompanham essa posição.

O filho mais novo

Nesta parábola é o filho mais novo que é “perdido” e depois “achado”. É para ele que o banquete é feito, o banquete no qual o irmão mais velho recusa participar. E isto é importante. Foi principalmente a geração mais nova que seguiu o nosso Senhor. Em geral, a geração mais velha não sentiu necessidade de arrependimento. Os fariseus e os saduceus, os escribas e os doutores da Lei, os principais dos sacerdotes e os principais do povo, todos eles se sentiam “suficientemente bons”. Numa ocasião eles exclamaram a alguns que ficaram impressionados com as palavras de Cristo: “Creu nEle porventura algum dos principais ou dos fariseus?” (João 7:48). E quando alguns dos líderes “cria” nEle, era apenas com o intelecto, e não com o coração, pelo que Jesus não confiava neles (João 2:23-3:3, 12:42-48).

Contexto histórico

É significativo que nesta última parte da parábola tripla não temos nada sobre procurar o perdido. Em vez disso temos o pai esperando em casa até que o filho errante torna em si e volta para casa. Assim, esta parábola olha para o futuro, quando Jeová dará as boas vindas a casa ao Seu filho Israel.
Claro que a presente dispensação da graça não é contemplada nesta parábola. Vemos o filho mais novo, quando torna em si, no mesmo ponto onde uma futura geração de Israel se encontrará nos últimos dias: numa “terra longínqua”, “padecendo necessidades” e chegando-se a “um dos cidadãos daquela terra”.

O regresso do filho pródigo

Finalmente o filho pródigo torna em si. Reflectindo no facto de que os servos do seu pai têm abundância de pão, enquanto ele, o filho, perece de fome, ele diz:

“Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: ‘Pai, pequei contra o céu e perante ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros” (Lucas 15:18-19).

Que mudança foi operada neste jovem! Antes ele dizia “dá-me” (Lucas 15:12); agora pede “faze-me” (Lucas 15:19). Antes ele exigia tudo a que tinha direito; agora reconhece que não merece nada. Esta é uma notável figura do arrependimento de Israel quando tornar em si, como é referido por Jeremias: “Naqueles dias e naquele tempo, diz o Senhor, os Filhos de Israel virão, eles e os Filhos de Judá juntamente; andando e chorando, virão e buscarão ao Senhor, seu Deus.” (Jeremias 50:4).

O resto da história é uma comovente descrição do amor do Pai pelo seu filho renegado.

O que o filho esperava, na melhor das hipóteses, era que o pai lhe abrisse a porta.

“… E, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão, e correndo, lançou-se-lhe ao pescoço, e o beijou” (Lucas 15:20).

Ah, o pai estava todo este tempo ansiosamente à espera que ele voltasse! E agora o errante, humildemente reconhecendo a sua indignidade de ser chamado filho do seu pai, estava prestes a pedir um lugar de servo.

“Mas o pai disse aos seus servos: trazei depressa a melhor roupa, e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão e sandálias nos pés, e trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos e alegremo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu; tinha-se perdido e foi achado…” (Lucas 15:22-24).

Da mesma forma Deus receberá um dia Israel com alegria e banquete, como está escrito:

“Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai benignamente a Jerusalém e bradai-lhe que já a sua servidão é acabada, que a sua iniquidade está expiada e que já recebeu em dobro da mão do Senhor, por todos os seus pecados” (Isaías 40:1-2).

“O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para te salvar; Ele se deleitará em ti com alegria; calar-se-á por seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sofonias 3:17).

“E folgarei em Jerusalém e exultarei no meu povo; e nunca mais se ouvirá nela voz de choro nem voz de clamor.” (Isaías 65:19).

“E alegrar-me-ei por causa deles, fazendo-lhes bem; e os plantarei nesta terra certamente, com todo o meu coração e com toda a minha alma” (Jeremias 32:41).

Mas a geração mais velha, que “não necessita de arrependimento” ficará, tal como o filho mais velho, de fora do banquete por sua própria escolha.

A parábola tripla e nós

Agora que procurámos interpretar correctamente as palavras do nosso Senhor, que lições podemos nós tirar delas e como pode esta parábola tripla aplicar-se a nós? A resposta é: deixando as coisas no lugar a que elas pertencem.

As parábolas do nosso Senhor descrevem as suas relações com Israel. As epístolas de Paulo descrevem o propósito de Deus relativamente ao Corpo de Cristo. Comparemos as duas e vejamos se perdemos ou ganhamos quando fazemos a distinção.

Tal como observámos, Deus nunca olhou para os gentios como ovelhas, nem está de forma alguma obrigado a vigiá-los como Pastor, porque “como eles se não importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso…” (Romanos 1:28). Os gentios são antes vistos como cachorrinhos (Mateus 15:26) e estranhos (Efésios 2:12). Na verdade, também o judeu está agora de parte (Romanos 11:15; Efésios 2:16-17).

Agora Deus tomou-nos, crentes judeus e gentios desta dispensação, e deu-nos um lugar muito mais elevado do que aquele que será ocupado por Israel no futuro. Israel é, afinal, o povo terreno de Deus. A sua vocação e a sua expectativa são terrenas. Quando convertidos eles habitarão na sua terra com Cristo como Rei em Jerusalém. Mas nós que temos confiado em Cristo nesta era da Sua rejeição somos feitos um com Ele através de um baptismo sobrenatural e é-nos dado um lugar à mão direita de Deus, abençoados com todas as bênçãos nos lugares celestiais em Cristo (Gálatas 3:26-27; Efésios 1:3). Que graça!

E de que valor eram os gentios no plano profético de Deus? Nenhum![5] Deus não traria bênção a este mundo através de qualquer gentio. A adopção, a glória, os concertos, a lei, a adoração no templo, as promessas, todas pertenciam a Israel (Romanos 9:4). Nós gentios estávamos “sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo” (Efésios 2:12). Mas mesmo Israel, na sua presente condição, não tem valor para o mundo. Ainda assim Deus tomou-nos, judeus e gentios, e fez-nos um com o Seu Filho, do qual depende a esperança deste mundo. Ele fez de nós as obras-primas da sua graça:

“Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da Sua graça, pela Sua benignidade para connosco em Cristo Jesus” (Efésios 2:7).

Novamente, os gentios não são chamados filhos de Deus nas Escrituras. Somos antes vistos como estranhos e inimigos (Colossenses 1:21). Na verdade, Israel é agora Lo-ami: “Não sois Meu povo” (Oséias 1:9). No entanto Deus deu aos crentes judeus e gentios o lugar de filhos muito mais elevado do que o da nação de Israel. Israel era filho de Deus por uma relação de concerto. Nós somos filhos de Deus em Cristo, o Seu Filho unigénito.

“E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais servo, mas filho; E se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo” (Gálatas 4:6-7).
E uma vez mais dizemos: que graça infinita, maravilhosa e sem par!
Que seja o leitor a decidir: Temos a perder no reconhecimento de que nesta parábola o nosso Senhor não se referia aos gentios ou à salvação nesta presente dispensação? Não temos a ganhar incomensuravelmente com a compreensão e satisfação da Palavra quando deixamos a parábola no sítio à qual ela pertence e depois a examinamos à luz da revelação dada a Paulo?

Cristo é a chave

Cristo é a chave desta parábola tripla, tal como é de todas as Escrituras. É Ele que cumpriu a redenção daqueles que confiaram nEle durante o Seu ministério terreno bem como dos que confiam nEle agora. Como ovelhas, o povo de Israel falhou e dispersou-se. Para salvar as “ovelhas perdidas da casa de Israel”, o próprio Cristo teve de tomar o seu lugar com eles e tornar-se uma ovelha (ou cordeiro).

“… Como um cordeiro, foi levado ao matadouro e, como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, Ele não abriu a boca” (Isaías 53:7).

E o Seu sacrifício também tira o nosso pecado.

“Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29)

É interessante que foi uma dracma de prata que a mulher perdeu. Isto era o preço de redenção em Israel e lembra-nos da lei do parente redentor (Levítico 25:47-49). Israel era o parente rico dos gentios através do qual os gentios deveriam ser redimidos. Mas Israel, longe de redimir os gentios, estava falido e precisava ele mesmo de redenção. Assim Cristo nasceu, a semente de Abraão, para que Ele pudesse tornar-se no parente redentor de Israel (e nosso).

“Porque assim diz o Senhor: Por nada fostes vendidos; também sem dinheiro sereis resgatados” (Isaías 52:3).

“… Eu sou o Senhor, o teu Salvador, e o teu Redentor, e o possante de Jacó” (Isaías 60:16).

“Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro… mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, em outro tempo, foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado, nestes últimos tempos, por amor de vós” (I Pedro 1:18-20).

“Em quem temos a redenção pelo Seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da Sua graça.” (Efésios 1:7)

Outra vez, Israel era o filho de Deus (Êxodo 4:22), mas nunca alcançou o lugar de adopção, ou de filiação (de filhos adultos). Era necessário mantê-lo, tal como a uma criança, sob a Lei. Então Cristo, o filho perfeito de Deus, veio e tomou o lugar de servo, sob a Lei, por amor deles (e nosso). Por duas vezes o Pai rompeu os céus para exclamar: “Este é o Meu Filho amado, em Quem Me comprazo”, mas ainda assim morreu como um transgressor, por Israel (e por nós). Mas Ele ressuscitou dos mortos no terceiro dia e “declarado Filho [adulto] de Deus em poder… pela ressurreição dos mortos” (Romanos 1:4) Agora todos os crentes são aceites como filhos adultos de Deus no Amado (Efésios 1:5-6). Assim sendo, “vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para remir os que estavam debaixo da Lei, a fim de recebermos (nós, quer judeus, quer gentios) a adopção de filhos [6]. Assim que já não és mais servo, mas filho; e se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo (Gálatas 4:4-5, 7).

(por Cornelius R. Stam) 

Notas:
[1] Na verdade, as três parábolas de Lucas 15 formam um todo gradual. O Senhor contou “esta parábola” (versículo 3); as três parábolas referem-se a coisas perdidas; nos versículos 8 e 11, em vez de começar com outra parábola, continua com a sua ilustração.
[2] No julgamento das nações o Senhor “apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas” (Mateus 25:32), mas isto será no futuro. Mesmo que nesta passagem alguns gentios sejam vistos como ovelhas, os gentios não eram vistos como ovelhas no tempos do Velho Testamento ou do nosso Senhor.
[3] Actos 20:28: “rebanho”; Efésios 4:11: “pastores”.
[4] Embora houvesse o facto de que os crentes podem desfrutar desta relação.
[5] Se bem que cada indivíduo é de grande valor para Deus.
[6] No grego, huiothesia, que significa ser colocado como filho adulto.

O Ensino da Cruz Fevereiro 23, 2011

Posted by David Costa in Estudos.
1 comment so far

No artigo do boletim anterior (”Cristo e Este Crucificado”) iniciámos uma viagem tendo como primeira paragem a predição da Cruz. O rei David proporcionou-nos uma descrição clara acerca da crucificação de Cristo mil anos antes da sua ocorrência. O livro Salmo 22 é um testemunho notável da presciência de Deus.

Retomando esta nossa viagem, vamos passar agora a considerar o ensino da Cruz. À medida que a nossa viagem prossegue, e esta nos leva a ter uma visão da crucificação, queremos agora estudar os eventos que precederam e se seguiram a este grandioso acontecimento histórico. Agora o apóstolo Pedro é o nosso guia, enquanto o drama da redenção se desenrola. À medida que o nosso conhecimento da Palavra de Deus aumenta, podemos colocar a seguinte questão: Exactamente o quê Pedro e os outros apóstolos do reino compreendiam e ensinavam acerca Cruz?

Palavras mal acolhidas

“Desde então, começou Jesus a mostrar aos Seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muito dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia” (Mateus 16:21).

Aproximadamente um ano antes do ministério do nosso Senhor ter terminado, Ele começou a ensinar aos seus discípulos acerca da Sua morte iminente. Esta é mais uma notável referência sobre a divindade de Cristo. Nenhum de nós pode prever o lugar, tempo ou forma de como irá morrer, mas Cristo fê-lo! Mais uma vez, o Espírito de Deus demonstra-nos que tanto a soberania de Deus como a responsabilidade de homem são os principais elementos da crucificação. O termo “convinha” indica claramente que a morte de Cristo em Jerusalém estava de acordo com os planos e propósitos de Deus, os quais não podiam de forma alguma ser alterados. Isto está de acordo com a presciência de Deus, a qual permitiu que os líderes de Israel levassem a cabo o seu plano diabólico para executar o nosso Senhor.

Após o Senhor prever a Sua morte, as Suas palavras desagradaram profundamente a Pedro, o qual chamou o nosso Senhor à parte e começou a repreendê-lO: “Senhor, tem compaixão de Ti; de modo nenhum Te acontecerá isso” (Mateus 16:22). Se Pedro estivesse ainda entre nós, de certeza iria ser o último a ser escolhido para dirigir um elevado ministério a nível nacional. Aos olhos de muitos, ele era impetuoso, ignorante e inculto: um simples e pobre pescador. Mas o Senhor viu algo em Pedro e continua a agir da mesma forma para com todos os crêem. No caso do apóstolo Pedro, a sua maior qualidade era um coração disposto. O “barro” era bastante maleável! Assim o Oleiro pôde moldá-lo até se tornar um vaso de honra, apto para ser usado pelo Mestre. À medida que Pedro amadureceu na fé, em mais do que em uma ocasião deitou por terra os seus críticos deixando-os sem palavras (Actos 4:13).

À medida que voltamos aos anos iniciais da sua “formação”, Pedro não podia acreditar no que estava ouvindo a respeito do que iria em breve suceder em Jerusalém, o que originou esta resposta: “Senhor, tem compaixão de Ti; de modo nenhum Te acontecerá isso”.  No fundo, ele queria dizer: “Senhor, Tu és o Filho de Deus, o Messias de Israel. Nós iremos defender-Te até ao nosso último fôlego, se isso for necessário.” As acções de Pedro provaram a sinceridade do seu amor quando ele tirou a sua espada, na noite em que o Senhor foi traído, e tentou separar a cabeça do servo do Sumo Sacerdote dos seus ombros. Aparentemente, Malco utilizou aqui uma acção evasiva, ou então uma mão invisível o protegeu, pois apenas resultou numa orelha cortada. Não há registo de alguém morrer na presença do nosso Senhor (João 18:10-11).

Por alguma razão Pedro não compreendeu na totalidade que, de acordo com a profecia, os sofrimentos de Cristo deviam anteceder a glória do reino. Esta primeira parte foi parcialmente oculta, portanto ele apenas podia ver por enquanto o brilho da coroa à sua frente. De alguma forma podemos afirmar que o apóstolo Pedro possuía ainda uma visão em túnel! Ele estava ansioso pela vinda dos tempos dourados, de paz e justiça, quando os inimigos de Israel serão derrubados, e os fiéis reinarão com o Messias na terra.

“Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de Mim, Satanás, que Me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens” (Mateus 16:23).

Momentos antes, Pedro tinha sido o porta-voz do Pai, quando anunciou que o Mestre era o Messias, o Filho de Deus. Mas rapidamente as coisas se alteraram, porque agora ele tornou-se o porta-voz de Satanás ao declarar: “De modo nenhum Te acontecerá isso” o que demonstra o seu desconhecimento da vontade de Deus. Pelo simples facto de sermos crentes, não estamos livres de podermos ser instrumentos nas mãos de Satanás. Não existe coisa mais triste do que um filho de Deus preso nos laços do diabo. Infelizmente, aqueles que se deixam enredar na sua teia de mentiras são geralmente os últimos a ter consciência disso.

Pedro caiu na armadilha de Satanás tendo sido impedido de desfrutar das coisas de Deus. Neste contexto, as “coisas de Deus” falam da rejeição e dos sofrimentos do Seu amado Filho para efectuar o plano da redenção, apesar de nesta altura ainda não ser compreendido na sua totalidade. Em vez de aceitar a palavra de Deus pela fé, Pedro preferiu seguir os passos de Satanás, sentindo prazer nas “coisas do homem”, isto é, glória, honra e reconhecimento. O reino estava agora tão perto que não havia tempo para ter em mente o pensamento de que alguma coisa acontecesse ao Mestre. Seguindo esta linha de pensamento, podemos compreender melhor a próxima frase proferida pelo Senhor Jesus.

“Então, disse Jesus aos Seus discípulos: Se alguém quiser vir após Mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-Me” (Mateus 16:24).

Esta passagem bíblica tem sofrido bastante nas mãos daqueles que tentam aplicar a sua mensagem aos crentes dos nossos dias. Por exemplo, alguns dizem que “a sua cruz”  pode tomar a forma de problemas financeiros, doenças físicas, ou outros fardos que tenhamos de carregar. Mas, dispensacionalmente, o Senhor está a dizer que os santos do reino podem ser chamados a suportar determinadas aflições pela causa de Cristo. Aqueles que se negarem a si mesmos e seguirem a Jesus serão rejeitados pelo mundo e provavelmente pagarão o derradeiro sacrifício pela sua fé. De acordo com a história da Igreja, todos os apóstolos do reino padeceram ou morreram como mártires. No caso do apóstolo Pedro, a tradição conta que ele requereu que fosse crucificado de cabeça para baixo por respeito ao sacrifício que o Seu Mestre padeceu por amor de cada um de nós.

Um pedido ambicioso

“E, subindo Jesus a Jerusalém, chamou de parte os Seus doze discípulos, e no caminho disse-lhes: Eis que vamos para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, e condená-lO-ão à morte. E O entregarão aos gentios para que dEle escarneçam, e O açoitem e crucifiquem, e ao terceiro dia ressuscitará” (Mateus 20:17-19).

Agora, na sombra da Cruz, o Senhor dirige-Se juntamente com os Seus discípulos para um lugar à parte, para lhes contar com maior detalhe os eventos que iriam de seguida acontecer em Jerusalém. Ele confirma as palavras do profeta, segundo as quais Ele iria ser traído e entregue nas mãos dos homens ímpios, os quais O condenariam à morte. Notemos também que os Gentios iriam sofrer a responsabilidade de colocar em prática a vontade dos líderes de Israel, crucificando Cristo. Esta é a primeira vez que o Senhor afirma especificamente a forma da Sua morte. Ele iria sofrer morte por crucificação, tal como profetizado no Salmo 22!

Naquele tempo, exactamente o que é que os discípulos e os santos do reino compreendiam acerca da morte, sepultura e ressurreição de Cristo? Nada! Claramente os discípulos não compreendiam o significado destes acontecimentos, nem tão pouco colocaram a sua fé na vinda de Cristo para morrer no Calvário como forma de serem salvos, apesar de ser esse o meio pelo qual eles iriam ser redimidos. De acordo com relatos bíblicos, estas coisas lhes eram encobertas (Ver Lucas 18:31-34).

Ao lermos estes versículos, percebemos melhor a razão pela qual os discípulos pareciam tão alheios às palavras do nosso Senhor. Eles estavam mais interessados nas glórias do reino e as posições que eles teriam quando reinassem com Ele. Este pensamento pode ser comprovado nos versículos que se seguem: 

“Então se aproximou dEle a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, adorando-O, e fazendo-Lhe um pedido. E Ele diz-lhe: Que queres? Ela respondeu: Dize que estes meus dois filhos se assentem, um à Tua direita e outro à Tua esquerda, no Teu reino” (Mateus 20:20-21).

Certamente todas a mães desejam o melhor para seus filhos, mas por vezes a sua ambição pode ser um produto da carne. Concluindo de que o reino seria brevemente estabelecido, a mãe de Tiago e João queriam que seus filhos tivessem honra distinta de todos os outros, sentados à mão direita e à mão esquerda do Mestre. Claro que Tiago e João pensavam ter legitimidade para fazer este pedido. Afinal, eles estavam entre os primeiros que tinham deixado as suas redes de pesca para trás e seguiam agora o Senhor Jesus. A verdadeira intenção deste seu pedido era apenas garantir posições de autoridade para poderem governar sobre outros, tal como desejam os gentios. Mas o desejo dos gentios por tal poder é apenas por mero egoísmo.

Infelizmente eles não compreenderam que o reino nunca poderia ser estabelecido antes que o Mestre sofresse e morresse pelos pecados da nação. O Senhor também revela nesta porção bíblica que eles, da mesma forma, iriam beber deste mesmo cálix. Ele então acrescenta: “Mas o assentar-se à Minha direita ou à Minha esquerda não Me pertence dá-lo, mas é para aqueles para quem Meu Pai o tem preparado.” Muito provavelmente esta honra será dada a Moisés e Elias, os quais representam a lei e os profetas (Mateus 16:28; 17:1-3).

Podemos constatar que a chave para a glória no reino não estava baseada em posição ou poder, coisas que os gentios cobiçam, mas sim no carácter. Ele deveriam seguir o espírito de nosso Senhor, que não veio a este mundo para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos. Cristo é o Criador de todas as coisas, mas mesmo assim Ele humilhou-Se a Si mesmo e tomou a forma de um humilde servo. Assim, o Mestre admoesta os Seus discípulos: “Bem sabeis que pelos príncipes dos gentios são estes dominados, e que os grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal” (Mateus 20:23-28). Acreditamos que este mesmo princípio pode ser aplicado ao Corpo de Cristo, quando nos lugares celestiais reinarmos com Cristo.

A remoção do véu

“E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de Mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos. Então abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras. E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dentre os mortos” (Lucas 24:44-46).

Após a morte, sepultamento e a ressurreição de Jesus Cristo, os olhos dos discípulos foram como que abertos, pois o Senhor permitiu que eles compreendessem que era acerca dEle que a lei de Moisés (Deuteronómio 18), os profetas (Isaías 53) e os Salmos (Salmo 22) falavam. O véu que outrora envolvia os seus olhos sobre este assunto foi removido. Agora pela primeira vez ficou claro para eles que Cristo era o Redentor Prometido que as Escrituras tinham profetizado. Mas, atenção! Não devemos partir do princípio de que os discípulos entenderam este facto na totalidade. Eles apenas compreenderam o facto da morte, sepultamento e ressurreição de Cristo. Nada mais do que isso!

Agora, fortalecidos com esta nova luz, os discípulos continuaram a proclamar Cristo de acordo com as profecias, que O retratavam como uma vítima. Isto é-nos confirmado pelo discurso de Pedro aos seus compatriotas no dia de Pentecostes:

“E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar” (Actos 2:1).

No início do Livro de Actos, ainda estamos a navegar em águas proféticas. Pedro guia-nos cuidadosamente através das perigosas tradições e mandamentos criados pelos homens. É importante relembrar que os primeiros capítulos de Actos são um simples registo da continuação do ministério terreno de Cristo.

Lucas deixa isto muito claro quando escreve: “Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo, acerca de tudo que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar, até ao dia em que foi recebido em cima, depois de ter dado mandamentos, pelo Espírito Santo, aos apóstolos que escolhera.” O “primeiro tratado” a que Lucas aqui refere-se é o evangelho segundo Lucas onde ele dá a conhecer ao seu amigo Teófilo “tudo o que Jesus começou, não só a fazer mas a ensinar.” Mas agora prossegue com a história: “Aos quais também, depois de ter padecido, Se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias, e falando do que respeita ao reino de Deus. (Actos 1:1-3).

No dia de Pentecostes, quando Pedro se dirigiu aos seus compatriotas de Israel, pregou-lhes a mesma mensagem que Cristo tinha pregado no seu ministério terreno. Mas agora com um “aditamento”: ele acusa o povo de Israel de ter assassinado o seu Messias!

“Varões israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, varão aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por Ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis; a Este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, tomando-O vós, O crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” (Actos 2:22-23).

Tal como vimos, a morte de Cristo estava em total acordo com o plano soberano de Deus, sendo aqui referida como “determinado conselho”. Pedro afirma sem qualquer tipo de dúvida que Cristo não foi entregue nas mãos dos homens maus devido à Sua “fraqueza” ou que Ele não tinha controlo das circunstâncias que O rodeavam. As Escrituras são claras e inequívocas de que Cristo deu a Sua vida voluntariamente (João 10:17-18). 

Curiosamente, Pedro acrescenta: “e presciência de Deus.” Deus escolheu o momento mais adequado, lugar e forma da Sua vontade ser realizada. O simples facto de Deus ter previsto as acções daqueles que iriam rejeitar e condenar o Seu Filho não diminui de nenhuma forma a culpa deles. Alguns que estavam naquele momento perante Pedro no Pentecostes eram conspiradores que ajudaram a criar falsas testemunhas contra o Senhor Jesus. Estavam presentes certamente também alguns que tinham afirmado: “Fora daqui com este, e solta-nos Barrabás” e “Tira, tira, crucifica-o”.
Pedro não era de “falinhas mansas”. Na verdade, Ele expôs a culpa dos responsáveis pela morte de Cristo, quando afirmou: “Tomando-O vós, O crucificastes e matastes pelas mãos dos injustos”. Era como se as suas mãos ainda estivessem manchadas com o sangue de Cristo. Já agora, leste algumas boas novas até agora? À falta de melhor termo, Pedro estava a pregar as “más novas” da Cruz. Como se isto não bastasse, Pedro fez-lhes saber que a situação era ainda mais grave: Vós O crucificastes, mas Deus O ressuscitou dos mortos e colocou-O à Sua mão direita até que os seus inimigos sejam postos por escabelo dos Seus pés. E saiba todo o Israel que quem cometeu este crime é inimigo de Deus (Actos 2:24-36). 

Suponhamos que com um amigo levamos a cabo um perfeito assassínio. Inesperadamente, uns meses depois o nosso amigo encontra-nos e diz: “Olha, ainda te recordas do homem que assassinámos? Ele voltou dos mortos e anda à nossa procura.” Com toda a certeza teria toda a nossa atenção! Da mesma forma, Pedro teve a atenção dos seus ouvintes quando os declarou culpados da morte de Cristo. “E, ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração, e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, varões irmãos?”.  Ou seja, o que devemos nós agora fazer para sermos salvos do terrível pecado que cometemos?

“E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos.” Finalmente, aqui estão as boas noticias: “Arrependei-vos”. Mas, arrependei-vos de quê? Arrependei-vos de terdes crucificado o Vosso Messias. Isto iria incluir que tinham de crer no Seu nome e em tudo o que tinha proclamado ser, o verdadeiro Filho de Deus, o Messias (João 20:31). “E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja baptizado (na água) em nome de Jesus Cristo, para perdão (ao expressarem a sua fé através deste acto, eles seriam salvos, segundo Marcos 16:16) dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo” (Actos 2:38).

No evangelho do reino estes eram os termos de salvação “revistos” após o dia de Pentecostes. Estamos muito gratos a Pedro, que nos trouxe ao destino desta viagem em segurança, onde agora vai apresentar a primeira oferta legítima do reino a Israel (Actos 3:17-21). No entanto, a rejeição de Israel à oferta graciosa de Deus marcará um grande ponto de viragem no relacionamento de Deus para com o homens.

Uma das coisas de que nos devemos recordar desta mensagem de Pedro é que somos sempre responsáveis pelos nosso actos. Quanto maior for a nossa posição, maior será a nossa responsabilidade. No próximo boletim vamos velejar com o apóstolo Paulo!

(por Paul M. Sadler) 

Verdadeira Espiritualidade – Capítulo 3 Fevereiro 23, 2011

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Novidade de Vida – Ressurreição com Cristo

“De sorte que fomos sepultados com Ele pelo baptismo na morte; para que, como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim andemos nós também em novidade de vida” (Romanos 6:4).

Comparação entre o novo nascimento e a novidade de vida

Embora o Velho Testamento empregue a figura da ressurreição, relacionando-a com a conversão de Israel e futuras bênçãos na terra (por exemplo, Ezequiel 37:1-4), esta figura, tal como a do novo nascimento, é usada num sentido mais pleno e profundo na grande revelação dada a Paulo sobre Cristo e os membros do Seu Corpo.

Além disso, a doutrina da nossa ressurreição com Cristo para uma nova vida é um progresso relativamente ao que mesmo Paulo, pelo Espírito, tem a dizer sobre o novo nascimento.

O nascimento fala apenas de começo; não contempla o passado. Quando Nicodemos perguntou: “Pode (um homem) tornar a entrar no ventre de sua mãe e nascer?”, o nosso Senhor rapidamente explicou que ao usar a expressão “nascer de novo” Ele não queria dizer nascer de novo da mesma maneira, mas nascer de novo de maneira diferente. Deus não se encarrega de melhorar a velha natureza ou de induzir o “velho homem” a começar tudo de novo porque, como vimos, “o que é nascido da carne é carne” e “os que estão na carne não podem agradar a Deus” (João 3:6; Romanos 8:8). Por muito intelectual, culta ou religiosa que “a carne” possa ser, ela não deixa de ter sido gerada por alguém caído e portanto não pode agradar a Deus. Assim, “o que é nascido da carne” precisa não apenas de nascer de novo e começar de novo; precisa que uma natureza nova e diferente lhe seja concedida; uma vida completamente nova, gerada do Espírito Santo. Esta nova vida é independente e distinta daquela que foi gerada com o nascimento natural; na verdade, é-lhe contrária. O conflito que daqui resulta será abordado num capítulo posterior. Aqui enfatizamos apenas que o novo nascimento fala apenas de um novo começo e não contempla o passado.

O novo nascimento é a contrapartida espiritual do nascimento natural. Não é costume falarmos do passado de um recém-nascido. Como indivíduo, ele não tem passado. Ele mal começou a abrir os seus olhos e olhar à sua volta, sem conseguir focar a sua visão num objecto em particular. Deste modo, o novo nascimento fala do começo de uma nova vida.

Avançando um pouco mais, verificamos que recebemos esta nova vida pela identificação com Cristo na Sua morte, sepultamento e ressurreição, e que a doutrina da ressurreição com Cristo contempla o passado. Ressurreição pressupõe uma vida anterior e morte. A identidade do indivíduo é preservada em todo o processo. O indivíduo que viveu um determinado tipo de vida, morreu e é agora ressuscitado para viver uma nova vida. Agora, ressurrecto de entre os mortos, ele é a mesma pessoa, mas não é mais o mesmo. Assim o apóstolo Paulo pôde dizer: “Já estou crucificado com Cristo; e vivo, não mais eu, mas Cristo vive em mim” (Gálatas 2:20).

É verdade que Efésios 2:1 ensina que estávamos “mortos em ofensas e pecados” antes de termos sido identificados com Cristo na Sua morte, mas isso não muda a situação, porque nessa mesma passagem lemos que “noutro tempo” andámos “segundo o curso deste mundo”… Tal como a viúva descrita em I Timóteo 5, os descrentes vivendo estão mortos, e podem ser vivificados da sua morte em ofensas e pecados apenas pela identificação com Cristo na Sua morte e ressurreição, pela simples razão de que Ele veio para Se identificar connosco na nossa morte para nos trazer com Ele na vida ressurrecta.

A ressurreição do crente com Cristo

Mas como pode alguém identificar-se com Cristo na Sua morte, sepultamento e ressurreição? Como pode alguém morrer para a velha vida e ressuscitar para andar em novidade de vida?

A resposta é: pela graça por meio da fé. Aquilo que Cristo fez por nós pela graça, devemos aceitar e apropriar-nos pela fé. Ele, por um acto de infinita graça, identificou-Se connosco, morrendo a nossa morte. Nós, por um acto simples de fé, devemos-nos identificar com Ele, confessando: “Eu sou o pecador. É a minha morte que Ele está a morrer. Aceito a Sua graça e entrego-me a Ele para salvação.” No momento em que isto é feito, tornamo-nos um com o Cristo crucificado, mas vivo para sempre.

É muito importante notar que o Calvário é sempre o ponto de encontro, o local onde a identificação é realizada. Nenhum homem foi feito um com Cristo sem ter sido feito um com Ele na Sua morte. “Ou não sabeis que todos quantos fomos baptizados em Jesus Cristo fomos baptizados na sua morte?” (Romanos 6:3). E é por esta razão que somos sepultados com Cristo, por esse mesmo baptismo, e ressuscitados com Ele para andar em novidade de vida (v. 4).

Que tragédia que a verdade sublime desta passagem tenha sido obscurecida com a injecção nela de um cerimonial de baptismo na água! Como se o baptismo na água pudesse trazer o crente de hoje a alguma relação com Cristo! Como se pudesse verdadeiramente sepultar o velho homem e ajudar-nos a revestirmo-nos do novo! Aqueles que caíram neste erro, pegaram numa cerimónia que nunca se relacionou com sepultamento, mas apenas de lavagens (Actos 22:16, entre outras passagens), e confundiram-na com o nosso verdadeiro baptismo pelo Espírito na morte, sepultamento e ressurreição de Cristo. Não é de admirar que o apóstolo exclame, em relação a este assunto: “Tende cuidado, para que ninguém vos faça presa sua… Estais perfeitos nEle… No Qual também estais circuncidados com a circuncisão… Sepultados com Ele no baptismo, nEle também ressuscitastes pela fé no poder de Deus, que O ressuscitou dos mortos” (Colossenses 2:8-12).

Quão perfeito e maravilhoso é o plano divino! Pela graça, Cristo morreu a nossa morte. Pela fé, reconhecemos que era nossa a morte que Ele morreu e confiamos nisso para sermos salvos. E ali na Cruz tornamo-nos um. A resposta que a fé dá à graça uniu-nos de forma eterna e inseparável.

A realidade da nossa ressurreição com Cristo

O aspecto posicional desta verdade é claramente a mais importante. Lemos que o nosso Senhor “por nossos pecados foi entregue, e ressuscitou para nossa justificação” (Romanos 4:25). Por outras palavras, a Sua morte pagou todo a punição pelos nossos pecados e adquiriu para nós plena justificação. Portanto, Ele ressuscitou dos mortos. E como a Sua morte era nossa (a punição pelos nossos pecados) e nos apropriámos disso pela fé, a justificação e vida ressurrecta também é nossa. Tal como reconhecemos a morte de Cristo como nossa, também Deus nos considera um com Ele, como já tendo morrido pelos pecados e para o pecado e tendo ressuscitado para andarmos em novidade de vida.

Este aspecto posicional da nossa identificação com Cristo na sua morte, sepultamento e ressurreição está longe de ser apenas mera teoria. É um facto. É uma realidade vital. A justa condenação do pecado por parte de Deus é real. O sofrimento de Cristo e a sua morte por nós é real. E tivemos de exercer uma fé real na obra consumada de Cristo antes de Deus nos justificar e declarar-nos justos, considerando-nos como já tendo morrido pelos pecados e para o pecado. É com base nesta transacção que o apóstolo argumenta que não temos o direito de permanecer no pecado. Os pecados, que tanta tendência temos para cometer depois de termos sido justificados, pertencem à velha vida e não à nova que temos em Cristo. Portanto não temos o direito de permanecer no pecado. Paulo pergunta: “Nós que estamos mortos para o pecado, como viveremos ainda nele?” (Romanos 6:2). E referindo-se ao facto de que Cristo “uma vez morreu para o pecado”, mas “vive para Deus”, continua:

“Assim também vós considerai-vos como mortos para o pecado, mas vivos para Deus, em Cristo Jesus, nosso Senhor. Não reine, portanto, o pecado em vosso corpo mortal, para lhe obedecerdes em suas concupiscências; nem tão-pouco apresenteis os vossos membros ao pecado por instrumentos de iniquidade; mas apresentai-vos a Deus, como vivos dentre mortos, e os vossos membros a Deus, como instrumentos de justiça. Porque o pecado não terá domínio sobre vós, pois não estais debaixo da lei, mas debaixo da graça” (Romanos 6:11-14).

Mas as verdades posicionais que temos considerado são apenas parte da doutrina global do nosso baptismo em Cristo, porque embora estas realidades posicionais afectem a nossa experiência quando nos apropriamos delas pela fé, o nosso baptismo em Cristo é um assunto muito prático.

Quando o pecador reconhece a morte de Cristo como sua e confia em Cristo para salvação, não só ele recebe uma posição perante Deus como tendo sido crucificado, sepultado e ressuscitado com Cristo, mas também o Espírito sela a transacção, unindo-o numa relação viva com Cristo. Assim, o crente torna-se de facto participante da Vida ressurrecta de Cristo. Está aqui em consideração mais do que a justificação; há também a necessidade e a transmissão de vida, e esta vida, embora espiritual na sua natureza, não é por isso menos real.

Não foi a morte de Cristo real? Não foi a Sua morte realmente a nossa morte? Tão real é então a nossa vida ressurrecta! Em primeiro lugar, quando aceitamos a morte de Cristo como nossa e somos identificados com Ele, morremos de facto para a velha vida, no sentido em que não podemos mais voltar à condição de perdidos. Esse estado é para sempre passado. Além disso, agora tornamo-nos participantes da vida ressurrecta de Cristo, a qual não podemos perder (Romanos 6:9), visto que é a Sua vida. Tal como o Pai nos ressuscitou dos mortos do ponto de vista posicional, também o Espírito nos ressuscitou espiritualmente, no sentido em que de facto Ele nos transmitiu vida espiritual. Agora, é connosco apropriarmo-nos e desfrutarmos da plenitude dessa vida pela fé.

Em Romanos 8:2, Paulo fala desta transmissão de vida pelo Espírito como uma lei que opera em cada crente: “Porque a lei do Espírito de vida, em Cristo Jesus, me livrou da lei do pecado e da morte.”

E então o apóstolo continua a mostrar que aquilo que a lei de Moisés “não podia fazer” por causa do carácter “da carne”, Deus enviou o Seu próprio Filho para cumprir: “Para que a justiça da lei se cumprisse em nós, que não andamos segundo a carne, mas segundo o Espírito” (Romanos 8:4).

Assim, para além da razão moral pela qual não devemos permanecer no pecado, há também uma razão muito prática: a nova vida que o Espírito gerou dentro de nós. É isto que o apóstolo enfatiza em Romanos 8:11-12, quando diz:

“E, se o Espírito daquele que dos mortos ressuscitou a Jesus habita em vós, aquele que dos mortos ressuscitou a Cristo também vivificará o vosso corpo mortal, pelo seu Espírito que em vós habita. De maneira que, irmãos, somos devedores, não à carne para viver segundo a carne.”

Alguns supõe que esta passagem se refere à futura ressurreição dos mortos, mas convém notar que o Espírito que em nós habita vivifica os nossos corpos mortais (e não mortos). Assim, somos devedores, não ao pecado, mas a Deus. Não nos podemos desculpar com expressões como “Afinal, ainda sou humano”, ou “O espírito está pronto, mas a carne é fraca”, porque temos o Espírito Santo em nós para fortalecer os nossos corpos mortais e ajudar-nos a andar em novidade de vida. No entanto, os aspectos posicionais e práticos da nossa ressurreição com Cristo estão intimamente ligados. Efésios 2:4-6 parece referir-se a ambos:

“Mas Deus, que é riquíssimo em misericórdia, pelo Seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossas ofensas, nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos), e nos ressuscitou juntamente com Ele, e nos fez assentar nos lugares celestiais, em Cristo Jesus.”

Assim, a posição do crente em Cristo é já no Céu, e pela fé e pelo poder do Espírito, ele pode ocupar essa posição e gozar na prática essas bênçãos. É por isso que Paulo abre a epístola aos Efésios com estas palavras de louvor:

“Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Qual nos abençoou com todas as bênçãos espirituais nos lugares celestiais em Cristo” (Efésios 1:3).

E é por isso que ele desafia os Colossenses:

“Portanto, se já ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são de cima, onde Cristo está assentado à dextra de Deus. Pensai nas coisas que são de cima e não nas que são da terra; porque já estais mortos, e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Colossenses 3:1-3).

(por Cornelius R. Stam)

Epístola aos Romanos – Capítulo 4 Fevereiro 23, 2011

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No capítulo 4 da Epístola aos Romanos, Paulo apresenta dois exemplos de como o princípio da justificação pela fé foi aplicado em relação a duas personagens notórias da história judaica. Paulo apresenta Abraão e David como exemplos. Ambos são personagens notórias, na medida em que Deus celebrou concertos com ambos, em períodos diferentes da história judaica.

O concerto que Deus realizou com Abraão prometia uma terra e uma grande nação (Génesis 12:1-3; 13:14-18). O concerto com David era diferente: Deus prometia-lhe um reino eterno e um rei da sua linhagem para sempre sobre esse reino.

Mas neste capítulo 4, Paulo não se refere a estes patriarcas da nação de Israel no tocante aos concertos que Deus celebrou com eles. Paulo usa as conhecidas histórias destas duas personagens para demonstrar a validade da nova mensagem de Deus, que ele proclamava. É como se Paulo quisesse dizer aos leitores judeus desta epístola para não ficarem confusos ou surpreendidos com o princípio da justificação pela fé, pois ele já estava activo nas vidas de Abraão e David, apesar de tal princípio ainda não ter sido revelado.

Abraão como exemplo

Paulo questiona então os seus leitores judeus acerca do que Abraão alcançou. Esta questão é feita aos judeus especificamente, pois Paulo refere-se a Abraão como pai segundo a carne, identificando os judeus como descendência de Abraão.

Abraão alcançou a justificação, como lemos no versículo 2. Paulo pergunta: Mas terá Abraão sido justificado pelas obras? Se assim foi, Abraão tem razão para se gloriar nas suas obras e esforços. Mas mesmo que se assim fosse, o princípio é que diante de Deus ninguém verdadeiramente se pode gloriar (tal como lemos em I Coríntios 1:29).

Paulo responde então à sua própria questão, citando uma passagem de Génesis (capítulo 15, versículo 6): “E creu ele no Senhor, e foi-lhe imputado isto por justiça”.

Na verdade, Abraão creu em Deus, na Sua Palavra, no tocante às promessas de uma descendência que não se pode contar. Esta descendência viria a partir da sua semente, de um filho que nasceria dele. E nós lemos que Abraão creu em Deus no tocante a esta promessa. E esta fé que ele colocou nas palavras e promessas de Deus foi contada para sua justificação (ou como diz na nossa tradução, “imputado isto por justiça”).

É de notar que Deus não explicou a Abraão que a sua fé seria contada (ou tomada) para sua justificação. Deus só lhe tinha prometido uma descendência inumerável a partir do filho que lhes (Abraão e Sara) iria conceder. Nem sequer Paulo, ao citar esta passagem, queria dizer que Abraão compreendeu e colocou a sua fé no Cristo que viria no futuro para ser salvo. Abraão somente creu nas promessas que Deus fez. Génesis foi escrito muito mais tarde por Moisés, após Abraão ter morrido, e ele não leu este versículo. Paulo usa-o agora como exemplo do princípio de Salvação pela Fé.

Nos versículos 4 e 5, Paulo tira a lição para o presente, tendo apresentado Abraão como exemplo. Compreendemos que a justificação unicamente pela Graça de Deus, tal como Paulo explicou em anteriormente Romanos 3:24. Se alguém (hipoteticamente) alcançasse a justificação por meio das obras, alcançá-la-ia porque Deus estaria em dívida para com ele (”segundo a dívida”), devido às suas obras e não porque Deus a concedia segundo a Sua Graça. Na prática, aqueles que buscam “comprar” (pelas suas obras) o favor de Deus, irão certamente receber a devida recompensa da Sua parte: a condenação, aquilo que o homem merece, visto que nenhuma obra (ou obras) pode cobrir os pecados do homem diante de Deus.

Por outro lado, não é suficiente ao homem não praticar obras para alcançar a justificação. Tal como lemos no versículo 5, só aqueles que não praticam obras para salvação e crêem em Deus, que é capaz de os justificar sem qualquer obra que possam fazer, alcançarão justificação. A esses, a sua fé em Deus será contada para justificação, tal como aconteceu com Abraão. E tal acontece não por causa de qualquer “dívida” ou recompensa que Deus tenha de conceder ao homem, mas sim unicamente pela Sua Graça.

David como exemplo

Nos versículos 6 a 8 , Paulo apresenta o exemplo de David. Tal como Abraão, podemos ver o princípio da justificação pela fé a operar em David. Ao contrário de Abraão, David vivia sob a Lei, segundo a qual os sacrifícios era requeridos por Deus para expiação de pecados cometidos, tal como podemos ler nos capítulos 4 a 6 de Levítico.

Paulo cita uma passagem de Salmos, nos versículos 7 e 8, que podemos encontrar em Salmos 32:1-2. Ao considerarmos todo o Salmo, podemos ver que David escreve sobre esconder ou encobrir o seu pecado, mas a disciplina de Deus (”a tua mão pesada”) estar sobre ele, até que ele reconhecesse e confessasse o seu pecado. E ao confessar o pecado a Deus, Ele perdoa-o (v. 5). E no resto do Salmo, David louva a Deus por este princípio de disciplina e perdão que ele viu a operar na sua vida.

Podemos também encontrar em Salmos 51:16-17 que primeiro Deus espera por um coração “quebrantado e contrito” (i.e., arrependido), o qual Ele não desprezará, e que não Se compraz unicamente com os sacrifícios.
David experimentou na sua vida o perdão de Deus antes de ele oferecer os sacrifícios (devidos), os holocaustos pelos pecados, requeridos pela lei. E é este princípio que David louva no Salmo 32. Ele não compreendia como ou porquê isto podia acontecer, mas ele foi perdoado por Deus após ter-se arrependido, ainda sem qualquer “obra de arrependimento”, isto é, os sacrifícios requeridos pela Lei. David somente dava louvores a Deus por tal, e chamava de bem-aventurado o homem a quem Deus justifica (declara justo) apesar dos seus pecados, sem as obras da Lei.

Uma Aparente Contradição

No seu comentário à Epístola aos Romanos, C. R. Stam faz um parêntesis quando chega a estes versículos 3 a 6 do capítulo 4. Nomeadamente, ele aborda uma (aparente) contradição entre estes versículos e Tiago 2:24. Em Romanos 4:5, lemos que Deus justifica o homem pela fé, sem as obras. Mas em Tiago 2:24 lemos: “Vede então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé”.

Cremos que a resposta a esta aparente contradição é uma resposta dispensacional, e com isto em vista tomemos em atenção as seguintes comparações.

O escritor da primeira passagem é Paulo; o escritor da segunda passagem é Tiago. Paulo escreve dirigindo-se a Gentios (Romanos 11:13), enquanto que Tiago escreve “às doze tribos (de Israel) que andam dispersas” (Tiago 1:1). Paulo refere-se a Abraão antes da sua circuncisão; Tiago refere-se a Abraão depois da sua circuncisão (enquanto pai da raça Hebraica). Paulo cita Génesis 15:6 para defender o seu argumento; Tiago cita Génesis 22:1-18. Paulo menciona apenas a aceitação de Abraão das boas novas em relação à sua semente (Génesis 15:4-6); Tiago refere-se à sua fé demonstrada sob uma prova severa (Génesis 22:16-18). Estas são as diferenças significativas. Tomando em atenção tais diferenças, consideremos os parágrafos seguintes.

A fé irá certamente chegar-se a Deus segundo o caminho que Ele estabeleceu em qualquer época; procurar ganhar aceitação por parte de Deus de outra fora seria, certamente, incredulidade e obstinação. Assim sendo, apesar de as obras em si nunca terem salvo ninguém na prática, e nunca mesmo poderem salvar ninguém, elas antes salvaram como expressões de fé.

Quando Deus diz “Oferece um animal em sacrifício e Eu te aceitarei”, o que faz a fé? A fé irá certamente oferecer o animal em sacrifício. Abel fez tal e foi aceite, não porque o sangue de animais pode tirar os pecados, mas porque ele se chegou a Deus da forma que Deus tinha estipulado. Isto é “a obediência da fé”.

No caso de Caim, temos uma indicação clara de que Deus não fica satisfeito com meras obras em si, pois Caim ofereceu um sacrifício muito mais atractivo do que o de Abel, mas foi rejeitado, porque ele não trouxe o sacrifício que Deus requeria (Génesis 4:5).

Quando Deus diz “Contrói uma arca e Eu te salvarei a ti e aos teus do dilúvio”, o que faz a fé? A fé irá certamente construir uma arca. E quando Noé fez isso, ele revelou a sua fé em Deus e “foi feito herdeiro da justiça, que é segundo a fé” (Hebreus 11:7).

Quando Deus diz “Obedece à minha voz completamente e serás Meu”, o que faz a fé? A fé tentará certamente obedecer. Mas alguns de nós podem dizer: Mas eles não podiam obedecer perfeitamente, e portanto seriam rejeitados por Deus. Mas recordemos que já provámos que as obras em si não podem salvar. Somente quando os Israelitas reconheciam a Lei como a Palavra de Deus para eles e portanto buscavam obedecer-lhe, é que eram salvos. O seu esforço em guardar a Lei representava a “obediência da fé”.

Quando Deus diz “Arrepende-te e sê baptizado para remissão de pecados”, o que faz a fé? Somente uma coisa: arrepender e ser baptizado. Nós compreendemos que rios de água não podem lavar um pecado que seja, mas quando João Baptista e Pedro pregavam arrependimento e baptismo para remissão, nem um sequer dos seus ouvintes poderia ter interpretado as suas palavras em que queriam dizer “Confia na morte de Cristo para salvação”. Certamente que quando Deus requeria o baptismo na água para salvação, o único meio de revelar fé era sendo baptizado, e aqueles que o recusassem ser, eram condenados pela sua incredulidade:

“Mas os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido baptizados por ele.” (Lucas 7:30)

Mas quando presentemente Deus diz “Mas agora se manifestou, sem a lei, a justiça de Deus” (Romanos 3:21) e “àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” (Romanos 4:5)… o que faz a fé? A fé dirá certamente, “Esta é a dádiva mais maravilhosa que alguma vez Deus ofereceu ao homem. Eu não a posso recusar. Eu confiarei em Cristo como meu Salvador, e aceitarei a salvação como dádiva gratuita da Graça de Deus”.

A circuncisão e a justificação

De seguida Paulo explica (nos versículos 9 a 12) como a circuncisão (da qual Abraão é pai) e a Lei (nos versículos 13 a 25) estão relacionadas com a justificação pela fé.

No versículo 9 Paulo explica como a justificação é imputada ao homem sem a circuncisão. Assim, neste versículo, Paulo pergunta aos seus leitores (mais especificamente os Judeus) se a Justificação vem apenas sobre os que são circuncidados, ou também sobre os que nunca tomaram a marca da circuncisão sobre si.

Tomando o exemplo de Abraão, e de Deus o ter declarado justo, tal como lemos em Génesis 15:6, Paulo responde à sua questão com outra pergunta: Quando é que Abraão foi declarado justo? Terá sido enquanto estava na incircuncisão, quando não tinha recebido a marca do concerto de Deus, ou terá sido após ter sido circuncidado?

Voltemos a Génesis. No capítulo 15, versículo 6, lemos que Deus declarou Abraão justo, e só no capítulo 17, versículo 24, lemos que Abraão foi circuncidado. Pelo menos 13 anos terão passado entre os dois momentos. Se atentarmos para Génesis 16:16 e Génesis 17:24, vemos que Abraão tinha 86 anos quando Ismael nasceu e 99 quando foi circuncidado. Provavelmente ele tinha menos de 86 anos quando creu nas promessas de Deus e Ele o declarou justo devido à fé que revelou.

Assim sendo, o concerto da circuncisão que Deus celebrou com Abraão e a sua descendência, tal como lemos em Génesis 17:9-14, nada tem que ver com a Justificação, pois Abraão já tinha sido declarado justo muito tempo antes. Abraão foi justificado pela fé, a qual revelou ao crer nas palavras (i.e., nas promessas) de Deus.

A circuncisão era apenas um sinal, uma marca, “selo da justiça da fé, quando estava na incircuncisão” (Romanos 4:11), e assim Abraão tornou-se “pai de todos os que creêm, estando eles também na incircuncisão” (v. 11).
Abraão tornou-se pai de todos os que crêem mas que nunca se circuncidaram e também “pai da circuncisão” (v.12), daqueles que não só foram circuncidados, mas também revelaram a mesma fé que Abraão revelou (ao crer nas promessas de Deus) estando ainda na incircuncisão (v.12).

A Justificação do homem não depende de nenhum ritual (nem mesmo da Circuncisão) nem de nenhuma obra (mesmo os sacrifícios requeridos pela Lei de Moisés). A Justificação depende unicamente da fé que o homem revela ao crer nas palavras de Deus. Neste presente tempo, a fé em Deus baseia-se em crer naquilo que Ele disse sobre a Justificação através da obra da Redenção, efectuada por Cristo na cruz (Romanos 3:25).

A Lei e a Justificação

Depois de abordar a questão de a circuncisão contribuir ou não para a justificação do homem, Paulo demonstra que esta (a justificação) também não é alcançada pela Lei, usando Abraão mais uma vez como exemplo.
Assim, no versículo 13, Paulo refere que Deus fez uma promessa a Abraão e à sua descendência, a de ser herdeiro do mundo. Isto refere-se à promessa que lemos mais à frente no versículo 17, que também podemos ler em Génesis 12:2-3 (promessa a Abraão) e em Isaías 60:1-3 (promessa à nação de Israel). Esta promessa, de que através de Abraão todas as famílias da terra seriam abençoadas, não foi feita pela Lei, assim como a promessa feita mais tarde à nação de Israel de que todas as nações “caminhariam à sua luz”. De facto, ao pensarmos em Abraão, esta promessa não foi alcançada pelas obras de Lei, pois a Lei só foi dada a Israel muitos séculos mais tarde. Tal promessa simplesmente foi dada a Abraão, e ele confiou na palavra daquele que a prometeu (Deus), colocando a sua fé nEle.

No versículo 14, Paulo explica que se a nação de Israel é herdeira do mundo com base na Lei, passa a ser um contrato e não mais uma promessa, tomada como certa pela fé. Se fosse pela Lei, a nação de Israel esperaria ser “herdeira do mundo” com base num contrato entre Deus e a nação de Israel. Não havia lugar para a Fé para crer na promessa feita por Deus, pois estaria assente num contrato. Israel faria a sua parte e Deus faria a sua.

Podemos ler sobre este princípio mais claramente em Gálatas 3:18: “Porque, se a herança provém da Lei, já não provém da promessa; mas Deus, pela promessa, a deu gratuitamente a Abraão.”

Como já estudámos nos primeiros 3 capítulos de Romanos, a Lei não traz salvação ao homem, pois o homem não é capaz de a cumprir na perfeição, e assim, como Paulo refere no versículo 15, “a Lei opera a Ira”, isto é, a Lei produziu (trouxe) antes a Ira de Deus sobre o Homem. Se não houvesse Lei, o homem não teria uma “condenação legal” sobre si, pois só existindo Lei é que podia existir transgressão à mesma.

Podemos ler também em Colossenses 2:14 acerca da Lei que “nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária”, isto é, estava contra nós.

Abraão como pai de todos nós

No versículo 16, Paulo explica que a Justificação só podia ser pela fé, segundo a graça de Deus, para que a promessa seja certa (segura) para toda a “posteridade” de Abraão. Isto é, se dependesse do desempenho do homem, da sua perseverança ou de qualquer obra que o homem pudesse “esquecer-se” de fazer, ninguém teria a certeza da promessa de Justificação. Ninguém possuía segurança eterna. Mas se a Justificação é pela graça, a nossa segurança está em Deus, e Ele não pode faltar à Sua palavra. Ele declara-nos justos, pela fé, e podemos ter a certeza da Justificação.

Como a justificação é pela fé, Abraão é o pai da fé de todos nós, quer para os que estiveram sob a Lei, quer para aqueles que viveram antes da Lei, ou mesmo para nós agora que vivemos debaixo da Graça, desde que revelemos a mesma fé que existiu em Abraão, de tomar as palavras e promessas de Deus como dignas de confiança.

Mas que fé foi esta que Abraão revelou? Consideremos os próximos versículos.

No versículo 17 lemos acerca dAquele em quem Abraão creu e que compreensão ele tinha acerca dEle. Abraão creu em Deus, “o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem”. Abraão creu que Deus era capaz de ressuscitar pessoas (Hebreus 11:18), como o provou quando esteve pronto a sacrificar Isaac a Deus.

Abraão creu contra a própria esperança natural em que Deus lhe concederia um filho. Se um casal, ambos nos seus 30 ou 40 anos, tenham sido estéreis, ainda podem guardar alguma esperança de a sua limitação física ser ultrapassada, por exemplo através de um novo desenvolvimento na ciência médica. Mas se tal casal tiver a idade que Abraão e Sara tinham nessa altura, não só não há esperança como se torna fisicamente impossível conceber e gerar um filho.

Mas Abraão estava convencido que a sua idade e a idade de Sara, “o seu próprio corpo, já amortecido”, e “o amortecimento do ventre de Sara”, não seriam impedimentos para Deus conceder um filho a Abraão e Sara.
Abraão não duvidou da promessa de Deus (v. 20), questionando se Deus era capaz de cumprir a sua promessa perante impedimentos físicos naturais. Ao revelar tal fé, tal conhecimento de Deus e confiança, Abraão deu glória a Deus. É interessante que Abraão não trouxe glória sobre si, pois nenhuma obra ele fez. Ele somente creu que Deus era poderoso para fazer acontecer aquilo que Ele tinha prometido (v. 21).

Podemos pensar que a nossa justificação depende da “força” ou grau da nossa fé. Mas a nossa justificação não está assente na nossa fé. A nossa fé é meramente a condição. A nossa justificação está assente (firme) na Palavra de Deus, de que Cristo pagou o preço da nossa redenção na Cruz, para nossa Justificação. Consideremos o seguinte exemplo que C. S. Stam usa no seu comentário a Romanos.

Imaginemos dois homem de peso igual, sentados em cadeiras idênticas. Um deles parece nervoso e com medo de que a cadeira possa partir-se, enquanto o outro senta-se confortavelmente. Mas ambos, em fé, colocaram o seu peso sobre a cadeira, e isso é o que importa. Não é a força da nossa fé, mas antes o objecto da nossa fé que é o factor decisivo. Se a cadeira é forte suficiente, irá suster-te, não importando o quão fraca a tua fé possa ser.

Muitas vezes ouvimos no meio evangélico que para alcançarmos a Salvação precisamos de tomar um compromisso com Cristo, de que O vamos seguir. Mas isto é Salvação pelas obras. Atenção! Isto é doutrina errada! Nós precisamos de reconhecer a nossa condição de que somos pecadores e nada podemos fazer para nossa Justificação, e colocarmos a nossa confiança na obra completa da redenção que Cristo fez por nós na Cruz.

Chegado ao fim deste capítulo, no versículo 23, Paulo refere que na Palavra de Deus está escrito que a fé de Abraão lhe foi tomada para Justificação não só para benefício de Abraão, mas também para nosso benefício. Nós (v. 24), que colocamos a nossa fé em Deus, revelamos o mesmo tipo de fé de Abraão.

Mas porque Paulo refere que nós devemos crer “naquele que dos mortos ressuscitou a Jesus” e não naquele que deu Seu Filho a morrer por nós? Porque temos que crer na ressurreição de Jesus Cristo para nossa Justificação, e não somente na Sua morte? Paulo explica este princípio no versículo 25.

Para sermos justificados, precisamos de crer que a morte de Cristo foi pelos nossos pecados. Mas, temos de crer que a sua morte é suficiente, completa e é uma obra terminada. Não há necessidade de sacrifícios ou de quaisquer outras obras. A morte de Cristo trouxe-nos Justificação completa, mas somente a ressurreição de Cristo prova que tal obra foi completada. Se Cristo não tivesse ressuscitado, Ele simplesmente tinha morrido a Sua morte como qualquer outro homem.

Tal como James McKendrick disse uma vez: “A Sua morte foi o pagamento pelos nossos pecados. A Sua ressurreição é o recibo.”

Por este capítulo da Epístola aos Romanos compreendemos que a Justificação do homem diante de Deus não é obtida por cumprir qualquer ritual religioso (como era a circuncisão) ou por observar a Lei, mas unicamente pela fé naquele que morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa Justificação, Jesus Cristo.

(por David Costa)