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A parábola tripla de Lucas 15 Fevereiro 23, 2011

Posted by David Costa in Estudos.
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“Interpreta primeiro; depois aplica.” Esta é uma regra básica do estudo da Bíblia. A falha no cumprimento desta regra conduzirá inevitavelmente à confusão e ao erro.

Esta parábola tripla[1] de Lucas 15 é um bom exemplo disso mesmo. Estas palavras, tal como todas as Escrituras, foram escritas “para nosso ensino” (Romanos 15:14) e “para aviso nosso” (I Coríntios 10:11), mas elas não foram originalmente dirigidas a nós. Elas foram dirigidas a uma audiência de judeus numa altura em que Israel ainda era a nação favorecida por Deus. Assim, se pretendemos ser “ensinados” e “avisados” por estas palavras, devemo-nos primeiramente colocar no lugar do destinatário original e determinar o que o nosso Senhor pretendia que eles entendessem das Suas palavras. Só depois poderemos ver de que forma essas lições se aplicam a nós.

Esta é a única forma para verdadeiramente compreender e tirar proveito de passagens não dirigidas a nós. Se em vez disso começarmos a aplicar estas parábolas directamente a nós, como se tivessem sido dirigidas a nós e se referissem a nós, certamente falharemos na sua compreensão, interpretação e aplicação.

Quantas vezes a história da ovelha perdida tem sido usada em mensagens evangelísticas como uma ilustração da salvação nos dias de hoje! Supostamente as noventa e nove ovelhas representam os salvos, “seguros no curral”, e a ovelha perdida os perdidos. Mas o que dizer sobre as palavras do Senhor, sobre o serem muitos os que entram pela “porta larga” e poucos os que entram pela “porta estreita” (Mateus 7:13-14)? E porque deixa o pastor as noventa e nove? E porque o Senhor compara estas ovelhas a “justos que não necessitam de arrependimento”?

O mesmo se passa com a história do filho pródigo. Supostamente esta parábola é uma ilustração da necessidade e do caminho da salvação nesta presente dispensação da Graça de Deus. Sendo assim, porque são ambos os homens referidos como sendo filhos e ambos feitos participantes das riquezas do pai ainda antes de um deles ser salvo? E porque diz o pai ao filho que se considerava justo: “Todas as minhas coisas são tuas”? Tudo isto é deixado por explicar.

E todas estas questões ficarão sem resposta se não nos ocuparmos primeiramente com a verdadeira interpretação das palavras do nosso Senhor, e só depois da aplicação, ou se não tivermos em conta que os destinatários destas palavras eram judeus, sob a Lei, que eles não tinham as epístolas Romanos, Gálatas ou Efésios, que Cristo ainda não tinha morrido e que muitos deles nem o reconheciam como Messias.

Quando o fizermos ficará claro, em primeiro lugar, que esta é uma parábola gradual relativa a Israel. Quase conseguimos imaginar vozes de protesto: “Será que nos vão tirar também esta passagem?!”, ao que respondemos “Não!” Esta passagem, tal como o resto das Escrituras, é para nós, mas tiraremos mais dela se reconhecermos primeiramente a quem estas palavras foram originalmente dirigidas. Fazendo isto, cremos que o leitor verá por si mesmo que não perdeu nada e ganhou muitíssimo.

A ocasião da parábola

“E chegavam-se a Ele todos os publicanos e pecadores para O ouvir. E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: ‘Este recebe pecadores e come com eles’.” (Lucas 15:1-2)

Foi a ideia de justiça própria dos fariseus e escribas que provocou esta parábola tripla. João Baptista tinha exortado estes líderes a produzir frutos dignos de arrependimento (Mateus 3:8), mas eles não viram necessidade de mudar os seus caminhos. Sobre eles lemos: “Mas os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido baptizados por ele (João Baptista)” (Lucas 7:30).

A sua presunção era quase inacreditável. Numa ocasião, o homem a quem o Senhor tinha curado da sua cegueira de nascença ousou dizer-lhes: “Se Este não fosse de Deus, nada poderia fazer”, ao que eles responderam muito irritados: “Tu és nascido todo em pecados e nos ensinas a nós?” (João 9:33-34). Como se eles não tivessem nascido em pecados!

E agora eles murmuram contra o Senhor por receber pecadores e comer com eles. Claro que eles não eram pecadores! E eles tinham um surpreendente número de seguidores em Israel: justos aos seus próprios olhos, satisfeitos consigo mesmos, não sentindo necessidade de arrependimento.

Foi esta a situação que originou a parábola tripla da ovelha perdida, da dracma perdida e do filho pródigo.

A ovelha perdida

O Senhor começa por responder aos seus críticos perguntando-lhes: “Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e não vai após a perdida até que venha a achá-la?” (Lucas 15.4).

Ele afirma que mesmo eles não seriam capazes de ignorar o balido de uma ovelha perdida. Eles não seriam capazes de deixar passar despercebida aquele apelo ou deixar a criatura indefesa a morrer sozinha.

E então ele continua a descrever a satisfação quando a ovelha perdida é encontrada. Colocando a criatura nos seus ombros, o pastor trá-la para casa e chama os seus amigos e vizinhos para se alegrarem com ele.

Quem é o pastor?

Na interpretação da parábola da ovelha perdida, devemos primeiro perguntar o que representa o pastor. Só pode haver uma resposta a esta questão. Representa o Próprio Senhor. Os Salmos e os profetas retratavam há muito o Messias vindouro como um Pastor, e mesmo na Terra Ele mesmo disse: “Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (João 10.11).

Quem são as ovelhas?

Devemos dizer que elas representam a humanidade? Certamente que não, porque em lado nenhum nas Escrituras vemos Cristo como Pastor da humanidade. Nem foram alguma vez os gentios classificados como ovelhas. Eles eram chamados cães e estranhos, mas nunca ovelhas.[2] É verdade que os membros do Corpo de Cristo são vistos como ovelhas por ilação[3], mas isso não se pode aplicar aqui, porque não há ovelhas perdidas entre os membros do Corpo de Cristo. Além disso, o que poderiam os Seus ouvintes saber sobre o Corpo de Cristo? Nesse tempo a formação deste conjunto de crentes ainda era um mistério “oculto em Deus” (Efésios 3:9).

As ovelhas nesta parábola representam o povo de Israel. Qualquer judeu instruído teria reconhecido isto imediatamente. Muitos dos Salmos apresentavam Israel como ovelhas do pasto de Deus (Salmos 78:52, 79:13, 95:7 e 100:3, entre outros) e os profetas há muito descreviam o Messias como o futuro Pastor de Israel (Isaías 40:11 e Jeremias 31:10, entre outras).
Isto explica a razão pela qual todas as cem ovelhas na parábola, independentemente do seu estado, são vistas como Suas ovelhas. Hoje, os perdidos não são de maneira alguma Suas ovelhas, mas o povo de Israel, quer salvos quer perdidos, tinham uma relação de concerto com Deus.

O facto de que as ovelhas perdidas são ovelhas perdidas de Israel, e não gentias, é provado pelas palavras do próprio Senhor. Quando Lhe foi pedido auxílio pela mulher siro-fenícia, Ele disse: “Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel… Não é bom pegar o pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos” (Mateus 15:24,26).

O nosso Senhor ordenou de forma clara aos seus discípulos: “Não ireis pelo caminho das gentes, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mateus 10:5-6)

Quantas ovelhas perdidas?

É um facto interessante que todo o povo de Israel era visto pelos profetas como ovelhas perdidas que precisavam de ser encontradas e resgatadas. Falando do povo de Israel, Isaías disse: “Todos nós andamos desgarrados como ovelhas; cada um se desvia pelo seu caminho…” (Isaías 53:6). E Jeremias: “Ovelhas perdidas foram o meu povo” (Jeremias 50:6).

Mas o problema era que muito poucos em Israel reconheceram a sua condição de perdidos. Havia apenas um em cem; os restantes sentiam-se bastante bem com eles mesmos.

Muita atenção! As noventa e nove ovelhas da parábola não estavam “seguras no curral”, como alguns dos nossos hinos poderão indicar. Elas estavam no deserto, se bem que todas juntas. Mas o Senhor diz que o pastor “deixa no deserto as noventa e nove, e vai após a perdida ate que venha a achá-la. A ideia aqui é a de que o Senhor veio não para “chamar os (que pensam ser) justos, mas sim os pecadores” (Marcos 2:17). Ele veio para “buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19:10; comparar com Lucas 15:7).

Contexto histórico

Antes de começar com a segunda fase da parábola tripla, devemos saber onde se encaixa cronologicamente a história da ovelha perdida. O nosso Senhor referia-se ao passado, presente ou futuro de Israel? Não é difícil determinar, pois houve um único período na História durante o qual o Próprio Pastor veio buscar os perdidos em Israel, o que aconteceu durante o Seu ministério terreno. Isto concorda com as Suas próprias afirmações de que Ele foi “enviado… às ovelhas perdidas da casa de Israel” e que “veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Mateus 15:24; Lucas 19:10).

A dracma perdida
Quem é a mulher?

Comecemos a interpretação da parábola da dracma perdida por perguntar primeiro quem é a mulher. Será que ela representa a Igreja de hoje, como tem sido dado a entender tantas vezes? Dificilmente, pois a Igreja de hoje era nesse tempo ainda um mistério escondido em Deus, pelo que o nosso Senhor não se poderia ter referido a ela, nem poderiam os Seus seguidores mais espirituais perceber qualquer alusão àquilo que nunca havia sequer sido mencionado.

Deve ser notado que, qualquer que seja a dispensação, o povo de Deus é sempre visto como a mulher, o vaso mais fraco, amado e cuidado por Ele e chamada para ser sujeita a Ele.

É o que acontece com a Igreja de hoje: “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da Igreja, sendo Ele próprio o Salvador do Corpo… vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e a Si mesmo se entregou por ela” (Efésios 5:23, 25).
Mas também acontece com Israel, porque Deus disse, sob a Lei: “… eles invalidaram o meu concerto, apesar de eu os haver desposado” (Jeremias 31:32).

A Israel foi dado um “libelo (carta) de divórcio” (Isaías 50:1), mas um dia ela será restaurada a Jeová, como está escrito: “… como o noivo se alegra com a noiva, assim se alegrará contigo o teu Deus” (Isaías 62:5) e “… ó filha da Sião… o Senhor, o Rei de Israel, está no meio de ti… poderoso para te salvar; Ele se deleitará em ti com alegria; calar-se-à por seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sofonias 3:14-17).

Em João 3:29, Cristo é apresentado como “Aquele que tem a esposa”, enquanto que em Apocalipse 21:2 vemos a Nova Jerusalém, de Deus descendo do Céu, “como uma esposa ataviada para o seu marido”.

Assim, o povo de Deus é visto de forma consistente como a mulher na sua relação com Ele. Então, a quem se refere a mulher na parábola do Senhor? Aos remidos em Israel, visto que os seus ouvintes eram israelitas. Dizemos aos remidos em Israel e não a todo o Israel, visto que aqui a mulher é apresentada a procurar o que se havia perdido.

A dracma

A dracma perdida, tal como a ovelha perdida, representa os perdidos em Israel, ou aqueles que se sentem perdidos, mas qual a razão da mudança no simbolismo? O dinheiro é, claro está, um meio de troca. Representa valor. Assim, as dez dracmas representam o valor de Israel para as nações.

Na parábola anterior foi a compaixão por uma ovelha perdida que impeliu o pastor a ir e encontrá-la. O seu primeiro pensamento não foi o de que ele havia investido dinheiro nela, mas que a criatura indefesa precisava de ser resgatada do perigo e da morte. Mas nesta parábola a motivação é apenas a preocupação pelo valor perdido.

Quando a mulher descobre que perdeu uma moeda, ela “acende uma candeia, e varre a casa, e busca diligentemente até a achar”. Então ela chama as suas amigas e vizinhas para se alegrarem com ela por ter encontrado o seu dinheiro. Isto leva-nos ao valor de Israel para as nações, visto que a benção das nações aguarda pela salvação de Israel.

Deus havia prometido a Abraão, em relação à sua semente multiplicada: “E em tua semente serão benditas todas as nações da terra…” (Génesis 22:18)
Mas Israel no seu estado não regenerado não poderia ser uma benção para o mundo. Por isso o profeta Zacarias disse: “E há de acontecer, ó casa de Judá e ó casa de Israel, que, assim como fostes uma maldição entre as nações, assim vos salvarei, e sereis uma benção…” (Zacarias 8:13).

Portanto, o povo de Israel era de grande valor potencial para o mundo. Notemos, no entanto, que toda a atenção é focada na dracma perdida e todo o regozijo acontece quando é encontrada. As outras nove dracmas, tal como na parábola anterior, representam aqueles que não se consideravam perdidos e não sentiam qualquer necessidade de arrependimento.

Contexto histórico

Mas também aqui devemos perguntar onde se encaixa cronologicamente a história. Alguns detalhes na parábola ajudarão a responder a esta questão.
Em primeiro lugar, o facto de que a mulher, e não o Próprio Senhor, é enviada a procurar a dracma, indica que esta parábola fala de um tempo em que o Seu povo, e não Ele, procurava os perdidos em Israel. Isto aconteceu em Pentecostes e depois, quando os doze apóstolos e o “pequeno rebanho” dos seguidores de Cristo chamaram o povo de Israel a arrepender-se e salvar-se daquela “geração perversa” (Actos 2:40).

É de notar que nesse tempo o valor de Israel para o resto do mundo era fortemente enfatizado como, por exemplo, no apelo de Pedro no alpendre de Salomão: “Vós sois os filhos dos profetas e do concerto que Deus fez com nossos pais, dizendo a Abraão: na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra. Ressuscitando Deus a Seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse, e vos desviasse, a cada um, das vossas maldades” (Actos 3:25-26).

Esta visão do contexto histórico da parábola da dracma perdida é ainda mais confirmada pela sua posição entre a parábola da ovelha perdida e a do filho pródigo, que inquestionavelmente aponta para o futuro.

O filho pródigo
Israel, filho de Deus

Certamente ninguém duvidará que o pai nesta Terceira parábola representa Deus, mas quem são os filhos? Novamente eles representam dois tipos de pessoas em Israel: os que se consideram a si mesmos justos e aqueles que reconhecem a sua condição de perdidos.

Claro que nem os pecadores que se consideram justos, nem os pecadores pródigos são chamados filhos de Deus, mas é aqui que entra novamente a relação de concerto com Deus. Aquilo que um pai é para um filho, Deus era para a Israel por causa dos concertos que Ele tinha feito com eles. Com o assunto da salvação completamente à parte, as pessoas do povo de Israel eram os Seus filhos do concerto[4] (Ver Mateus 15:26 e Actos 3:25). Assim, Moisés foi instruído para dizer a Faraó: “Assim diz o Senhor: ‘Israel é meu filho, meu primogénito’ “ (Êxodo 4:22).

Assim nesta parábola o simbolismo mostra-se superior ao da ovelha e da dracma. É mais do que compaixão por uma criatura perdida ou preocupação por causa do valor perdido que é contemplado aqui. É a filiação de Israel que está em consideração, bem como toda a comunhão, privilégio e glória que acompanham essa posição.

O filho mais novo

Nesta parábola é o filho mais novo que é “perdido” e depois “achado”. É para ele que o banquete é feito, o banquete no qual o irmão mais velho recusa participar. E isto é importante. Foi principalmente a geração mais nova que seguiu o nosso Senhor. Em geral, a geração mais velha não sentiu necessidade de arrependimento. Os fariseus e os saduceus, os escribas e os doutores da Lei, os principais dos sacerdotes e os principais do povo, todos eles se sentiam “suficientemente bons”. Numa ocasião eles exclamaram a alguns que ficaram impressionados com as palavras de Cristo: “Creu nEle porventura algum dos principais ou dos fariseus?” (João 7:48). E quando alguns dos líderes “cria” nEle, era apenas com o intelecto, e não com o coração, pelo que Jesus não confiava neles (João 2:23-3:3, 12:42-48).

Contexto histórico

É significativo que nesta última parte da parábola tripla não temos nada sobre procurar o perdido. Em vez disso temos o pai esperando em casa até que o filho errante torna em si e volta para casa. Assim, esta parábola olha para o futuro, quando Jeová dará as boas vindas a casa ao Seu filho Israel.
Claro que a presente dispensação da graça não é contemplada nesta parábola. Vemos o filho mais novo, quando torna em si, no mesmo ponto onde uma futura geração de Israel se encontrará nos últimos dias: numa “terra longínqua”, “padecendo necessidades” e chegando-se a “um dos cidadãos daquela terra”.

O regresso do filho pródigo

Finalmente o filho pródigo torna em si. Reflectindo no facto de que os servos do seu pai têm abundância de pão, enquanto ele, o filho, perece de fome, ele diz:

“Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: ‘Pai, pequei contra o céu e perante ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros” (Lucas 15:18-19).

Que mudança foi operada neste jovem! Antes ele dizia “dá-me” (Lucas 15:12); agora pede “faze-me” (Lucas 15:19). Antes ele exigia tudo a que tinha direito; agora reconhece que não merece nada. Esta é uma notável figura do arrependimento de Israel quando tornar em si, como é referido por Jeremias: “Naqueles dias e naquele tempo, diz o Senhor, os Filhos de Israel virão, eles e os Filhos de Judá juntamente; andando e chorando, virão e buscarão ao Senhor, seu Deus.” (Jeremias 50:4).

O resto da história é uma comovente descrição do amor do Pai pelo seu filho renegado.

O que o filho esperava, na melhor das hipóteses, era que o pai lhe abrisse a porta.

“… E, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão, e correndo, lançou-se-lhe ao pescoço, e o beijou” (Lucas 15:20).

Ah, o pai estava todo este tempo ansiosamente à espera que ele voltasse! E agora o errante, humildemente reconhecendo a sua indignidade de ser chamado filho do seu pai, estava prestes a pedir um lugar de servo.

“Mas o pai disse aos seus servos: trazei depressa a melhor roupa, e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão e sandálias nos pés, e trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos e alegremo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu; tinha-se perdido e foi achado…” (Lucas 15:22-24).

Da mesma forma Deus receberá um dia Israel com alegria e banquete, como está escrito:

“Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai benignamente a Jerusalém e bradai-lhe que já a sua servidão é acabada, que a sua iniquidade está expiada e que já recebeu em dobro da mão do Senhor, por todos os seus pecados” (Isaías 40:1-2).

“O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para te salvar; Ele se deleitará em ti com alegria; calar-se-á por seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sofonias 3:17).

“E folgarei em Jerusalém e exultarei no meu povo; e nunca mais se ouvirá nela voz de choro nem voz de clamor.” (Isaías 65:19).

“E alegrar-me-ei por causa deles, fazendo-lhes bem; e os plantarei nesta terra certamente, com todo o meu coração e com toda a minha alma” (Jeremias 32:41).

Mas a geração mais velha, que “não necessita de arrependimento” ficará, tal como o filho mais velho, de fora do banquete por sua própria escolha.

A parábola tripla e nós

Agora que procurámos interpretar correctamente as palavras do nosso Senhor, que lições podemos nós tirar delas e como pode esta parábola tripla aplicar-se a nós? A resposta é: deixando as coisas no lugar a que elas pertencem.

As parábolas do nosso Senhor descrevem as suas relações com Israel. As epístolas de Paulo descrevem o propósito de Deus relativamente ao Corpo de Cristo. Comparemos as duas e vejamos se perdemos ou ganhamos quando fazemos a distinção.

Tal como observámos, Deus nunca olhou para os gentios como ovelhas, nem está de forma alguma obrigado a vigiá-los como Pastor, porque “como eles se não importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso…” (Romanos 1:28). Os gentios são antes vistos como cachorrinhos (Mateus 15:26) e estranhos (Efésios 2:12). Na verdade, também o judeu está agora de parte (Romanos 11:15; Efésios 2:16-17).

Agora Deus tomou-nos, crentes judeus e gentios desta dispensação, e deu-nos um lugar muito mais elevado do que aquele que será ocupado por Israel no futuro. Israel é, afinal, o povo terreno de Deus. A sua vocação e a sua expectativa são terrenas. Quando convertidos eles habitarão na sua terra com Cristo como Rei em Jerusalém. Mas nós que temos confiado em Cristo nesta era da Sua rejeição somos feitos um com Ele através de um baptismo sobrenatural e é-nos dado um lugar à mão direita de Deus, abençoados com todas as bênçãos nos lugares celestiais em Cristo (Gálatas 3:26-27; Efésios 1:3). Que graça!

E de que valor eram os gentios no plano profético de Deus? Nenhum![5] Deus não traria bênção a este mundo através de qualquer gentio. A adopção, a glória, os concertos, a lei, a adoração no templo, as promessas, todas pertenciam a Israel (Romanos 9:4). Nós gentios estávamos “sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo” (Efésios 2:12). Mas mesmo Israel, na sua presente condição, não tem valor para o mundo. Ainda assim Deus tomou-nos, judeus e gentios, e fez-nos um com o Seu Filho, do qual depende a esperança deste mundo. Ele fez de nós as obras-primas da sua graça:

“Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da Sua graça, pela Sua benignidade para connosco em Cristo Jesus” (Efésios 2:7).

Novamente, os gentios não são chamados filhos de Deus nas Escrituras. Somos antes vistos como estranhos e inimigos (Colossenses 1:21). Na verdade, Israel é agora Lo-ami: “Não sois Meu povo” (Oséias 1:9). No entanto Deus deu aos crentes judeus e gentios o lugar de filhos muito mais elevado do que o da nação de Israel. Israel era filho de Deus por uma relação de concerto. Nós somos filhos de Deus em Cristo, o Seu Filho unigénito.

“E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais servo, mas filho; E se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo” (Gálatas 4:6-7).
E uma vez mais dizemos: que graça infinita, maravilhosa e sem par!
Que seja o leitor a decidir: Temos a perder no reconhecimento de que nesta parábola o nosso Senhor não se referia aos gentios ou à salvação nesta presente dispensação? Não temos a ganhar incomensuravelmente com a compreensão e satisfação da Palavra quando deixamos a parábola no sítio à qual ela pertence e depois a examinamos à luz da revelação dada a Paulo?

Cristo é a chave

Cristo é a chave desta parábola tripla, tal como é de todas as Escrituras. É Ele que cumpriu a redenção daqueles que confiaram nEle durante o Seu ministério terreno bem como dos que confiam nEle agora. Como ovelhas, o povo de Israel falhou e dispersou-se. Para salvar as “ovelhas perdidas da casa de Israel”, o próprio Cristo teve de tomar o seu lugar com eles e tornar-se uma ovelha (ou cordeiro).

“… Como um cordeiro, foi levado ao matadouro e, como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, Ele não abriu a boca” (Isaías 53:7).

E o Seu sacrifício também tira o nosso pecado.

“Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29)

É interessante que foi uma dracma de prata que a mulher perdeu. Isto era o preço de redenção em Israel e lembra-nos da lei do parente redentor (Levítico 25:47-49). Israel era o parente rico dos gentios através do qual os gentios deveriam ser redimidos. Mas Israel, longe de redimir os gentios, estava falido e precisava ele mesmo de redenção. Assim Cristo nasceu, a semente de Abraão, para que Ele pudesse tornar-se no parente redentor de Israel (e nosso).

“Porque assim diz o Senhor: Por nada fostes vendidos; também sem dinheiro sereis resgatados” (Isaías 52:3).

“… Eu sou o Senhor, o teu Salvador, e o teu Redentor, e o possante de Jacó” (Isaías 60:16).

“Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro… mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, em outro tempo, foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado, nestes últimos tempos, por amor de vós” (I Pedro 1:18-20).

“Em quem temos a redenção pelo Seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da Sua graça.” (Efésios 1:7)

Outra vez, Israel era o filho de Deus (Êxodo 4:22), mas nunca alcançou o lugar de adopção, ou de filiação (de filhos adultos). Era necessário mantê-lo, tal como a uma criança, sob a Lei. Então Cristo, o filho perfeito de Deus, veio e tomou o lugar de servo, sob a Lei, por amor deles (e nosso). Por duas vezes o Pai rompeu os céus para exclamar: “Este é o Meu Filho amado, em Quem Me comprazo”, mas ainda assim morreu como um transgressor, por Israel (e por nós). Mas Ele ressuscitou dos mortos no terceiro dia e “declarado Filho [adulto] de Deus em poder… pela ressurreição dos mortos” (Romanos 1:4) Agora todos os crentes são aceites como filhos adultos de Deus no Amado (Efésios 1:5-6). Assim sendo, “vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para remir os que estavam debaixo da Lei, a fim de recebermos (nós, quer judeus, quer gentios) a adopção de filhos [6]. Assim que já não és mais servo, mas filho; e se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo (Gálatas 4:4-5, 7).

(por Cornelius R. Stam) 

Notas:
[1] Na verdade, as três parábolas de Lucas 15 formam um todo gradual. O Senhor contou “esta parábola” (versículo 3); as três parábolas referem-se a coisas perdidas; nos versículos 8 e 11, em vez de começar com outra parábola, continua com a sua ilustração.
[2] No julgamento das nações o Senhor “apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas” (Mateus 25:32), mas isto será no futuro. Mesmo que nesta passagem alguns gentios sejam vistos como ovelhas, os gentios não eram vistos como ovelhas no tempos do Velho Testamento ou do nosso Senhor.
[3] Actos 20:28: “rebanho”; Efésios 4:11: “pastores”.
[4] Embora houvesse o facto de que os crentes podem desfrutar desta relação.
[5] Se bem que cada indivíduo é de grande valor para Deus.
[6] No grego, huiothesia, que significa ser colocado como filho adulto.

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Comentários»

1. romario - Abril 12, 2012

mande as referências do contexto histórico para mim, por favor…

2. marcos - Janeiro 12, 2013

amem

3. Elinael - Março 21, 2013

Quase que vc acertou, só faltou um pouco de exegese

4. Ronieri rodrigues sousa - Julho 31, 2016

Deus e fieu

5. Pedro Renato - Janeiro 16, 2017

Ótimo

6. Marcello.Sylva - Abril 14, 2017

Parabéns.Amygo.!.A.Sua.Interpretação.Está.Mays.Q.Certa…!…

7. Samuel - Novembro 27, 2017

Muito bom , bem explicado no contexto Histórico.


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