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Epístola aos Romanos – Capítulo 5 Dezembro 10, 2013

Posted by David Costa in Epístola aos Romanos, Estudos.
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Chegando ao capítulo 5 da epístola aos Romanos, o Apóstolo Paulo continua com a exposição sobre a justificação pela fé. Como vimos nos estudos dos capítulos anteriores, Paulo demonstra que a justificação do homem só pode ser alcançada pela fé, e não depende da moralidade ou posição, da lei dada por Moisés ou do cumprimento de rituais religiosos como a circuncisão. Agora, no início deste capítulo, Paulo enumera uma série de bênçãos que aquele que é justificado tem ao seu alcance.

Paz com Deus

No versículo 1 lemos que, quando somos justificados pela fé, alcançamos (temos) paz com Deus. Antes de sermos justificados, pairava sobre nós o juízo de Deus, por causa dos nossos pecados.
Agora, tal barreira entre nós e Deus foi removida, com base no sacrifício de Jesus Cristo na cruz, tal como lemos em Colossenses 1:20: “havendo por ele (Cristo) feito a paz, pelo sangue da sua cruz”.

Agora não mais tememos o juízo de Deus sobre nós, os justificados pelo sangue de Cristo, pois somos declarados justos diante de Deus, não porque o somos pelas nossas obras ou carácter, mas unicamente com base no sacrifício de Cristo na cruz.

Esta é uma paz que está ao nosso alcance dia após dia na nossa vida. É possível deixarmos de gozar tal paz, quando deixamos a culpa, a dúvida, ou ensinos errados que negam a certeza da salvação entrar nas nossas mentes. Mas tal não anula a paz que Deus nos concede. Está sempre ao nosso alcance, concedida livremente e abundantemente por Deus.

Acesso (“entrada”) a Deus

No versículo 2, Paulo explica que para além da paz que agora temos com Deus, também temos “entrada, pela fé, a esta graça, na qual estamos firmes”. Por outras palavras, temos acesso directo a Deus, sem nenhuma barreira ou véu entre nós e Deus. Temos acesso pleno à graça de Deus que nos salvou, em cada dia das nossas vidas.

No tempo em que vivemos, tomamos por garantido este acesso a Deus, mas se olharmos para os tempos passados, de Moisés e dos profetas, certamente iremos dar muito mais valor a esta bênção que agora temos em Cristo.

Quando a Lei foi dada ao povo de Israel através de Moisés, Deus avisou várias vezes Moisés para impedir o povo de aproximar-se do monte Sinai, para que não morressem (Êxodo 19:12-13, 21, 24). Quando Deus ordenou que construíssem o tabernáculo, um véu deveria ser colocado a separar o povo, inclusive os sacerdotes, da presença de Deus. O próprio sumo sacerdote só podia entrar no santuário (separado pelo véu) uma vez por ano, seguindo uma série muito específica de passos preparatórios (Levítico 16).

Quando o templo foi construído, também existia um véu separando o lugar “santo dos santos”, podendo aceder a esse lugar apenas o sumo sacerdote uma vez por ano.

Lemos que quando Cristo expirou na Cruz, o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo (Mateus 27:51). Isto simbolizava que com a morte de Cristo o homem podia agora ter acesso livre e directo à presença de Deus, apesar de tal só ser mais tarde revelado e explicado por Paulo.

Agora, neste tempo da dispensação da graça, o crente salvo por Cristo tem livre acesso à presença de Deus, algo que antes era completamente impossível. Agora até somos encorajados a chegarmo-nos “com confiança ao trono da graça” (Hebreus 4:16).

Convém atentarmos também para a diferença entre “propiciatório” e “trono da graça”.

No tabernáculo e no templo, o sumo sacerdote só tinha acesso ao lugar santo dos santos uma vez por ano, onde Deus se apresentava sobre o propiciatório. O propiciatório era uma placa de ouro sólida que cobria a arca onde estavam as tábuas da lei. “Propiciatório” significa “o lugar onde a propiciação é efectuada”. E propiciação significa apaziguar ou aplacar a ira de alguém irado. Por vezes o termo original no grego é frequentemente traduzido por misericórdia.

Assim no passado, o homem (na figura do sumo sacerdote) e Deus encontravam-se uma vez por ano, estando Deus sobre uma “tábua de misericórdia”. Mas agora, nesta dispensação, o crente salvo é convidado e encorajado a chegar-se em qualquer momento ao trono da graça de Deus. Que diferença abismal!

Gloriar-se na esperança da glória de Deus

Tal como lemos em Romanos 3:23, após a queda de Adão todo o homem se encontra “destituído” da glória de Deus. Quando Deus criou o homem, vestiu-o de dignidade e glória, sem mancha ou pecado, ou algo de que se pudesse envergonhar. Mas por causa do pecado, todo o homem caiu desta posição, para uma de humilhação. O homem não consegue se libertar do ciclo infindável de pecados na sua vida, trazendo-lhe muitas vezes consequências verdadeiramente humilhantes.

Mas o crente pode regozijar-se triunfantemente na antecipação da glória de Deus, uma das consequências da justificação pela fé. Mais à frente nesta epístola lemos: “e aos que justificou, a estes também glorificou” (Romanos 8:30), e em Colossenses 1:27 lemos que “aos quais [santos] Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória”.

Ao homem perdido, espera-lhe após a morte o julgamento, a vergonha e o remorso, mas o homem justificado possui a esperança da glória de Deus.

Gloriar-se nas tribulações

Pode parecer-nos no mínimo estranho que, ao chegarmos ao versículo 3, Paulo afirme que assim como nos regozijamos na esperança da glória de Deus, também nos podemos (e devemos) regozijar nas tribulações, como uma das bênçãos que possui aquele que é justificado por Deus segundo a fé.

O descrente não compreende a razão de a vida ter naturalmente tribulações e dificuldades, variando de frequência e intensidade por pessoa. O crente justificado sofre ainda outro tipo de tribulações, nomeadamente pela sua fidelidade ao evangelho, sejam perseguições, abandono de família e amigos, incompreensão, discriminação, etc.. Mas agora o crente pode regozijar-se nas tribulações, por causa das coisas que resultam de ele passar por elas: “a tribulação produz a paciência, e a paciência a experiência, e a experiência a esperança” (Romanos 5:3-4).

O amor de Deus em nossos corações

A esperança (a antecipação de coisas melhores no porvir) que resulta da experiência (esta gerada pela paciência obtida ao suportar as tribulações) não é algo vão ou ilusório. Isto porque no meio das tribulações o amor de Deus é derramado continuamente nos nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi dado no momento da nossa justificação.

Esta “esperança não nos traz confusão”, isto é, não nos vai enganar, envergonhar ou deixar frustrado, como muitas “esperanças” que podemos encontrar nesta vida. E esta é a esperança de que as tribulações não são um sofrimento em vão, pela dificuldade natural da vida ou por injustiças, mas na verdade operam transformação em nós, tendo sempre o amor de Deus nos nossos corações durante todo o processo.

Uma perspectiva pessoal (fraqueza, pecado, inimizade do homem)

Nos versículos 6 a 11, o apóstolo Paulo apresenta uma progressão digna de atenção. Ele aborda a solução que Deus preparou como resposta à fraqueza, ao pecado e à inimizade do homem para com Deus. Comecemos então por considerar o primeiro passo.

1) – “Estando nós ainda fracos” (v.6)

Paulo apresentou-nos nos capítulos anteriores a verdadeira condição do homem, que não consegue sair do estado decaído em que se encontra, que não consegue resistir às suas paixões malignas e que não consegue evitar as consequências do seu pecado. Na verdade, o homem encontra-se num estado de “fraqueza”, no seu estado natural, longe de Deus.

Não é apenas espiritualmente que o homem se encontra num estado de fraqueza, mas também fisicamente. Basta recordarmo-nos de quão fracos se revelam os nossos corpos, como nos afectam o cansaço diário, a doença, e em último lugar, a morte.

Encontrando-se o homem em tal situação de desespero, Cristo morreu na cruz pelos “ímpios”, pela graça de Deus. A palavra “ímpios” não se encontra por acaso neste versículo (v. 6). Cristo morreu por aqueles homens que reconhecem o verdadeiro estado de impiedade em que vivem. Normalmente o homem gosta de sentir-se bem consigo mesmo, de se ter em alta estima, mas a provisão que Cristo fez, morrendo na cruz, só lhe aproveita quando reconhece que não passa de “ímpio” e de que na sua fraqueza humana, nada pode fazer para sair da sua condição, a não ser confiar e aceitar a provisão feita por Cristo.

No versículo 7, vemos como a graça de Deus é completamente diferente da graça humana. Durante a história da humanidade, e mesmo actualmente, há pessoas que sacrificam as suas vidas para salvar a vida de alguém que eles tem em alta estima, alguém “bom”, justo e digno de tal sacrifício. Mas na verdade, Cristo sacrificou a sua vida quando nós éramos “ímpios”, quando mesmo a olhos humanos tal não merecíamos, quando éramos indignos de tal sacrifício.

2) – “Sendo nós ainda pecadores” (v.8)

No primeiro passo encontrámos o homem na sua fraqueza, nada podendo fazer para sair da sua condição, mas agora no versículo 8, no segundo passo, encontramos o homem no seu pecado.

Como vimos nos capítulos anteriores, a justa retribuição do pecado do homem é a condenação por Deus. “Mas”, Deus preparou a redenção para o homem, por Cristo, que morreu na cruz, revelando o amor que Deus tem por nós, e isto quando nós éramos pecadores. Cristo não morreu por nós por ter visto uma réstia de bondade, piedade ou esperança em nós. Não! Foi quando nós éramos pecadores. Assim sendo, a redenção que Deus preparou só alcança aqueles que reconhecem a sua verdadeira condição de pecadores. Aqueles que tal não reconhecem e se acham pessoas bondosas, piedosas ou justas (pois acham que nunca fizeram grandes males), rejeitam o precioso dom de Deus, Cristo, e insultam o amor que Deus revelou por nós.

Como lemos no versículos 9, aqueles que foram justificados pelo sangue de Cristo, quando ainda eram pecadores, encontram-se livres da ira que Deus um dia trará sobre todos os homens: a justa condenação pelos seus pecados.

3) – “Sendo inimigos” (v.10)

Chegamos agora ao terceiro passo, o de maior gravidade, a inimizade do homem para com Deus. Não somente nos encontramos fracos, em pecado diante de Deus, mas também revelamos ser seus inimigos.

Mas podemos argumentar que mesmo presentemente o homem religioso busca agradar a Deus, que nunca se rebelou contra Ele, nunca imaginando sequer que revela inimizade contra Deus. Mas ao desprezar Cristo, e buscando agradar a Deus à sua maneira, o homem revela desprezo pelo sacrifício de Cristo, e rebela-se contra Deus, tentando comprar o Seu favor com os seus próprios esforços.

Mas ainda assim neste estado de inimizade por parte do homem, Deus buscou a reconciliação com o homem, pela morte de Cristo na cruz. E agora que estamos reconciliados com Deus, seremos salvos da condenação do pecado, pela vida que Cristo derramou na Cruz. E mais, como vemos no versículo 11, não somente temos a salvação de pecados, mas temos a reconciliação com Deus, que derrama o seu amor em nossos corações, pelo Espírito Santo, tal como vimos no versículo 5.

Uma perspectiva histórica

Depois de o apóstolo Paulo se ter referido por três vezes ao homem como raça humana (“nós”, nos versículos 6, 8 e 10, ele considera agora uma perspectiva histórica, referindo três personagens: Adão, Moisés e Cristo. É extraordinária a harmonia que existe entre estes versículos e os anteriores (6-11). Ora observemos:

  • De Adão a Moisés, temos o reino da morte (“a morte reinou”, v. 14) por Adão, em contraste com “estando nós ainda fracos” (v. 6);
  • De Moisés a Cristo, temos o reino do pecado pela lei (v. 20), em contraste com “sendo nós ainda pecadores” (v. 8);
  • De Cristo ao presente temos o reino da graça por Cristo (v. 21), em contraste com “nós, sendo inimigos” (v. 10).

É importante dizer que nas menções a estas três personagens, Paulo refere-se

  • a Adão, não na sua criação, mas após a queda;
  • a Moisés, não no seu nascimento, mas quando ele recebeu a Lei no Monte Sinai;
  • a Cristo, não no seu nascimento ou ministério terreno, mas sim na sua exaltação no Céu, tal como Ele é apresentado em Hebreus 2:9.

Consideremos então em detalhe estes três reinos: da morte, do pecado e da graça.

1) O reino da morte por Adão

No período de Adão a Moisés (até à Lei) não existia a Lei ainda; esta ainda não tinha sido dada por Deus (v. 13). Mas durante este período, “a morte passou a todos os homens” (v. 12), não porque a Lei os condenasse à morte, mas simplesmente por serem da descendência de Adão (decaído) e de a sua natureza, herança de Adão, ser depravada.

O pecado entrou no mundo por um único homem, Adão, e assim a morte (consequência do pecado), “passou a todos os homens, por que todos pecaram” (v. 12). Toda a descendência de Adão, todo o homem, esteve em Adão quando ele pecou. Não nos conseguimos dissociar de Adão, pois todo o homem vem de Adão. Assim a morte caiu sobre todos os homens, pela natureza que herdaram de Adão, mesmo sobre aqueles que não pecaram da mesma forma que Adão (v. 14). Na verdade, “todos pecaram” (Romanos 3:23).

Daí a comparação deste período com a expressão do versículo 6, “estando nós ainda fracos”. Durante todo este período, não existia a Lei para condenar os pecadores à morte. Mas mesmo sem a Lei, os homens morriam, pois o pecado na sua natureza corrompe o homem, e finalmente o destrói, com a morte. Basta considerarmos a primeira genealogia apresentada na Bíblia (Génesis 11). Mesmo aqueles que viveram muitas centenas de anos acabaram por sucumbir à morte. Na verdade, a morte passou a todo o homem.

Apesar desta realidade, durante este período houve alguns que foram salvos e aceites por Deus. Lembramo-nos de Abel, Enoque, Noé e Abraão. Como podem ter sido salvos? Porque colocaram a sua fé naquilo que Deus lhes disse. É claro que foi com base na obra da redenção de Cristo feita na cruz, realizada mais tarde (“estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios” (v. 6)), tal como já tínhamos visto no capítulo 3, “para demonstrar a Sua justiça, pela remissão dos pecados dantes cometidos sob a paciência de Deus”.

Vemos no fim do versículo 14 que Adão é “figura daquele que havia de vir”, Cristo, no tocante a que Abraão como progenitor da raça humana, passou a sua natureza decaída a todo o homem. Cristo, ao morrer na cruz, é agora progenitor de todos aqueles que redimiu pela sua morte, passando agora uma nova natureza a todos eles.

Mas a comparação fica por aqui, tal como vemos nos versículos 15 e 16. A graça de Deus é muito mais do que o restaurar da condição do homem antes do pecado ter dado entrada, mais do que trazer o homem de volta à posição que Adão se encontrava antes de pecar.

Por Adão, pelo seu pecado, a morte passou a todos os homens (“a morte reinou por esse”, v. 17), mas por Cristo a vida abunda naqueles que receberam o dom que Ele preparou na cruz. E como vemos no versículo 18, por um único pecado de Adão (“por uma só ofensa” – desobediência, v. 19), o juízo caiu sobre todos os homens: a morte. Mas pela morte de Cristo na cruz, apresentando propiciação pelo nosso pecado, fazendo justiça por nós (“por um só acto de justiça” – obediência), a graça de Deus e a justificação cairam sobre todos os que recebem tal propiciação como tendo sido por si.

2) O reino do pecado pela Lei

“Veio porém a Lei para que a ofensa abundasse…”

Com Moisés, pela Lei que Deus lhe confiou, durante todo esse período (dispensação da Lei), a Lei revelava o pecado no homem e trazia condenação sobre ele.

Como que num aparte, é importante referir que este período começou com a Lei a ser dada por Deus, por intermédio de Moisés (“revelada por Moisés”), até a graça de Deus ser revelada pelo Senhor Jesus Cristo glorificado na glória (e não durante o seu ministério terreno), por intermédio de Paulo. É verdade que a Lei foi abolida na cruz, mas só mais tarde isso revelado por Paulo, pois vemos os crentes de Pentecostes em Actos ainda a seguir a Lei. Durante a dispensação da Lei, o pecado reinou (v. 21), trazendo (a Lei) a condenação sobre o homem.

Como terão sido salvos homens como Moisés, Aarão, David e Daniel, entre outros crentes do “Velho Testamento”? “Sendo nós ainda pecadores… Cristo morreu por nós” (v. 8). Eles não sabiam nem podiam compreender tal, pois ainda não tinha sido revelado. Mas como vimos anteriormente, eles encontravam a paz de Deus quando confiavam no que Deus dizia nesse tempo, o que Deus requeria na dispensação da Lei (Gálatas 3:23).

3) O reino da graça por Cristo

“Superabundou a graça… a graça reinou pela justiça, para a vida eterna por Jesus Cristo, nosso Senhor” (v. 20-21).

Consideremos o que C. R. Stam escreve acerca destes dois versículos, no seu comentário à epístola a Romanos.

O pecado tinha certamente chegado ao seu auge durante os primeiros anos de Paulo. Cristo tinha sido crucificado e mesmo depois da Sua ressurreição os Seus inimigos continuam vivos após tal obra terrível. Israel juntou-se aos Gentios declarando guerra a Deus e ao Seu Filho ungido (Salmos 2:1-3) e Saulo de Tarso era o líder de tal revolta. Não era mais apenas uma questão de pecado; agora era rebelião.

O ódio de Saulo para com Cristo não tinha limites. Lucas escreve: “E Saulo assolava a Igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, os cerrava na prisão” (Actos 8:3). Os santos em Damasco disseram: “Não é este o que, em Jerusalém, perseguia os que invocavam este nome, e para isso veio aqui, para os levar presos aos principais dos sacerdotes?” (Actos 9:21). Aos crentes da Galácia, o apóstolo escreveu ele próprio: “… como sobremaneira perseguia a Igreja de Deus e a assolava” (Gálatas 1:13).

“Mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça…” (v. 20)

Encontrando-se Saulo “enfurecido demasiadamente contra” os discípulos, “até nas cidades estranhas os” perseguindo (Actos 26:11), Deus entrou em cena para intervir. A caminho de Damasco, “respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor” (Actos 9:1), ele foi impedido no seu caminho e salvo por aquele que ele tão ferozmente perseguia.

Certamente Deus respondeu ao abundante pecado do homem com a Sua superabundante graça! Não surpreende que o apóstolo Paulo tenha escrito: “E a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e amor que há em Jesus Cristo. Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (I Timóteo 1:14-15).

Ainda mais significativo é o que o apóstolo escreve a seguir: “Mas, por isso, alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna” (I Timóteo 1:16).

Assim Paulo que até antes tinha sido o líder da perseguição contra Cristo, a personificação da inimizade que existia entre Deus e o homem, não só se tornou agora arauto, mas o exemplo vivo da superabundante graça de Deus, gastando a sua vida para proclamar aos outros “o evangelho da graça de Deus” (Actos 20:24).

Assim também podemos ligar este período com a expressão “nós, sendo inimigos, fomos reconciliados” (v. 10). Aqui também surge a questão de como é que alguém como Paulo pode ser salvo neste período, alguém que perseguia implacavelmente os discípulos e a igreja? Somente com base na morte de Cristo por nós (“pela morte do Seu Filho” – v. 10). Aplicando a cada um de nós, podemos ler em Colossenses 1:21-22:

“A vós, também, que noutro tempo éreis estranhos e inimigos no entendimento, pelas vossas obras más, agora contudo, vos reconciliou no corpo da sua carne, pela morte, para perante Ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis.”

(por David Costa)

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Epístola aos Romanos – Capítulo 4 Fevereiro 23, 2011

Posted by David Costa in Epístola aos Romanos.
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No capítulo 4 da Epístola aos Romanos, Paulo apresenta dois exemplos de como o princípio da justificação pela fé foi aplicado em relação a duas personagens notórias da história judaica. Paulo apresenta Abraão e David como exemplos. Ambos são personagens notórias, na medida em que Deus celebrou concertos com ambos, em períodos diferentes da história judaica.

O concerto que Deus realizou com Abraão prometia uma terra e uma grande nação (Génesis 12:1-3; 13:14-18). O concerto com David era diferente: Deus prometia-lhe um reino eterno e um rei da sua linhagem para sempre sobre esse reino.

Mas neste capítulo 4, Paulo não se refere a estes patriarcas da nação de Israel no tocante aos concertos que Deus celebrou com eles. Paulo usa as conhecidas histórias destas duas personagens para demonstrar a validade da nova mensagem de Deus, que ele proclamava. É como se Paulo quisesse dizer aos leitores judeus desta epístola para não ficarem confusos ou surpreendidos com o princípio da justificação pela fé, pois ele já estava activo nas vidas de Abraão e David, apesar de tal princípio ainda não ter sido revelado.

Abraão como exemplo

Paulo questiona então os seus leitores judeus acerca do que Abraão alcançou. Esta questão é feita aos judeus especificamente, pois Paulo refere-se a Abraão como pai segundo a carne, identificando os judeus como descendência de Abraão.

Abraão alcançou a justificação, como lemos no versículo 2. Paulo pergunta: Mas terá Abraão sido justificado pelas obras? Se assim foi, Abraão tem razão para se gloriar nas suas obras e esforços. Mas mesmo que se assim fosse, o princípio é que diante de Deus ninguém verdadeiramente se pode gloriar (tal como lemos em I Coríntios 1:29).

Paulo responde então à sua própria questão, citando uma passagem de Génesis (capítulo 15, versículo 6): “E creu ele no Senhor, e foi-lhe imputado isto por justiça”.

Na verdade, Abraão creu em Deus, na Sua Palavra, no tocante às promessas de uma descendência que não se pode contar. Esta descendência viria a partir da sua semente, de um filho que nasceria dele. E nós lemos que Abraão creu em Deus no tocante a esta promessa. E esta fé que ele colocou nas palavras e promessas de Deus foi contada para sua justificação (ou como diz na nossa tradução, “imputado isto por justiça”).

É de notar que Deus não explicou a Abraão que a sua fé seria contada (ou tomada) para sua justificação. Deus só lhe tinha prometido uma descendência inumerável a partir do filho que lhes (Abraão e Sara) iria conceder. Nem sequer Paulo, ao citar esta passagem, queria dizer que Abraão compreendeu e colocou a sua fé no Cristo que viria no futuro para ser salvo. Abraão somente creu nas promessas que Deus fez. Génesis foi escrito muito mais tarde por Moisés, após Abraão ter morrido, e ele não leu este versículo. Paulo usa-o agora como exemplo do princípio de Salvação pela Fé.

Nos versículos 4 e 5, Paulo tira a lição para o presente, tendo apresentado Abraão como exemplo. Compreendemos que a justificação unicamente pela Graça de Deus, tal como Paulo explicou em anteriormente Romanos 3:24. Se alguém (hipoteticamente) alcançasse a justificação por meio das obras, alcançá-la-ia porque Deus estaria em dívida para com ele (”segundo a dívida”), devido às suas obras e não porque Deus a concedia segundo a Sua Graça. Na prática, aqueles que buscam “comprar” (pelas suas obras) o favor de Deus, irão certamente receber a devida recompensa da Sua parte: a condenação, aquilo que o homem merece, visto que nenhuma obra (ou obras) pode cobrir os pecados do homem diante de Deus.

Por outro lado, não é suficiente ao homem não praticar obras para alcançar a justificação. Tal como lemos no versículo 5, só aqueles que não praticam obras para salvação e crêem em Deus, que é capaz de os justificar sem qualquer obra que possam fazer, alcançarão justificação. A esses, a sua fé em Deus será contada para justificação, tal como aconteceu com Abraão. E tal acontece não por causa de qualquer “dívida” ou recompensa que Deus tenha de conceder ao homem, mas sim unicamente pela Sua Graça.

David como exemplo

Nos versículos 6 a 8 , Paulo apresenta o exemplo de David. Tal como Abraão, podemos ver o princípio da justificação pela fé a operar em David. Ao contrário de Abraão, David vivia sob a Lei, segundo a qual os sacrifícios era requeridos por Deus para expiação de pecados cometidos, tal como podemos ler nos capítulos 4 a 6 de Levítico.

Paulo cita uma passagem de Salmos, nos versículos 7 e 8, que podemos encontrar em Salmos 32:1-2. Ao considerarmos todo o Salmo, podemos ver que David escreve sobre esconder ou encobrir o seu pecado, mas a disciplina de Deus (”a tua mão pesada”) estar sobre ele, até que ele reconhecesse e confessasse o seu pecado. E ao confessar o pecado a Deus, Ele perdoa-o (v. 5). E no resto do Salmo, David louva a Deus por este princípio de disciplina e perdão que ele viu a operar na sua vida.

Podemos também encontrar em Salmos 51:16-17 que primeiro Deus espera por um coração “quebrantado e contrito” (i.e., arrependido), o qual Ele não desprezará, e que não Se compraz unicamente com os sacrifícios.
David experimentou na sua vida o perdão de Deus antes de ele oferecer os sacrifícios (devidos), os holocaustos pelos pecados, requeridos pela lei. E é este princípio que David louva no Salmo 32. Ele não compreendia como ou porquê isto podia acontecer, mas ele foi perdoado por Deus após ter-se arrependido, ainda sem qualquer “obra de arrependimento”, isto é, os sacrifícios requeridos pela Lei. David somente dava louvores a Deus por tal, e chamava de bem-aventurado o homem a quem Deus justifica (declara justo) apesar dos seus pecados, sem as obras da Lei.

Uma Aparente Contradição

No seu comentário à Epístola aos Romanos, C. R. Stam faz um parêntesis quando chega a estes versículos 3 a 6 do capítulo 4. Nomeadamente, ele aborda uma (aparente) contradição entre estes versículos e Tiago 2:24. Em Romanos 4:5, lemos que Deus justifica o homem pela fé, sem as obras. Mas em Tiago 2:24 lemos: “Vede então que o homem é justificado pelas obras, e não somente pela fé”.

Cremos que a resposta a esta aparente contradição é uma resposta dispensacional, e com isto em vista tomemos em atenção as seguintes comparações.

O escritor da primeira passagem é Paulo; o escritor da segunda passagem é Tiago. Paulo escreve dirigindo-se a Gentios (Romanos 11:13), enquanto que Tiago escreve “às doze tribos (de Israel) que andam dispersas” (Tiago 1:1). Paulo refere-se a Abraão antes da sua circuncisão; Tiago refere-se a Abraão depois da sua circuncisão (enquanto pai da raça Hebraica). Paulo cita Génesis 15:6 para defender o seu argumento; Tiago cita Génesis 22:1-18. Paulo menciona apenas a aceitação de Abraão das boas novas em relação à sua semente (Génesis 15:4-6); Tiago refere-se à sua fé demonstrada sob uma prova severa (Génesis 22:16-18). Estas são as diferenças significativas. Tomando em atenção tais diferenças, consideremos os parágrafos seguintes.

A fé irá certamente chegar-se a Deus segundo o caminho que Ele estabeleceu em qualquer época; procurar ganhar aceitação por parte de Deus de outra fora seria, certamente, incredulidade e obstinação. Assim sendo, apesar de as obras em si nunca terem salvo ninguém na prática, e nunca mesmo poderem salvar ninguém, elas antes salvaram como expressões de fé.

Quando Deus diz “Oferece um animal em sacrifício e Eu te aceitarei”, o que faz a fé? A fé irá certamente oferecer o animal em sacrifício. Abel fez tal e foi aceite, não porque o sangue de animais pode tirar os pecados, mas porque ele se chegou a Deus da forma que Deus tinha estipulado. Isto é “a obediência da fé”.

No caso de Caim, temos uma indicação clara de que Deus não fica satisfeito com meras obras em si, pois Caim ofereceu um sacrifício muito mais atractivo do que o de Abel, mas foi rejeitado, porque ele não trouxe o sacrifício que Deus requeria (Génesis 4:5).

Quando Deus diz “Contrói uma arca e Eu te salvarei a ti e aos teus do dilúvio”, o que faz a fé? A fé irá certamente construir uma arca. E quando Noé fez isso, ele revelou a sua fé em Deus e “foi feito herdeiro da justiça, que é segundo a fé” (Hebreus 11:7).

Quando Deus diz “Obedece à minha voz completamente e serás Meu”, o que faz a fé? A fé tentará certamente obedecer. Mas alguns de nós podem dizer: Mas eles não podiam obedecer perfeitamente, e portanto seriam rejeitados por Deus. Mas recordemos que já provámos que as obras em si não podem salvar. Somente quando os Israelitas reconheciam a Lei como a Palavra de Deus para eles e portanto buscavam obedecer-lhe, é que eram salvos. O seu esforço em guardar a Lei representava a “obediência da fé”.

Quando Deus diz “Arrepende-te e sê baptizado para remissão de pecados”, o que faz a fé? Somente uma coisa: arrepender e ser baptizado. Nós compreendemos que rios de água não podem lavar um pecado que seja, mas quando João Baptista e Pedro pregavam arrependimento e baptismo para remissão, nem um sequer dos seus ouvintes poderia ter interpretado as suas palavras em que queriam dizer “Confia na morte de Cristo para salvação”. Certamente que quando Deus requeria o baptismo na água para salvação, o único meio de revelar fé era sendo baptizado, e aqueles que o recusassem ser, eram condenados pela sua incredulidade:

“Mas os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido baptizados por ele.” (Lucas 7:30)

Mas quando presentemente Deus diz “Mas agora se manifestou, sem a lei, a justiça de Deus” (Romanos 3:21) e “àquele que não pratica, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é imputada como justiça” (Romanos 4:5)… o que faz a fé? A fé dirá certamente, “Esta é a dádiva mais maravilhosa que alguma vez Deus ofereceu ao homem. Eu não a posso recusar. Eu confiarei em Cristo como meu Salvador, e aceitarei a salvação como dádiva gratuita da Graça de Deus”.

A circuncisão e a justificação

De seguida Paulo explica (nos versículos 9 a 12) como a circuncisão (da qual Abraão é pai) e a Lei (nos versículos 13 a 25) estão relacionadas com a justificação pela fé.

No versículo 9 Paulo explica como a justificação é imputada ao homem sem a circuncisão. Assim, neste versículo, Paulo pergunta aos seus leitores (mais especificamente os Judeus) se a Justificação vem apenas sobre os que são circuncidados, ou também sobre os que nunca tomaram a marca da circuncisão sobre si.

Tomando o exemplo de Abraão, e de Deus o ter declarado justo, tal como lemos em Génesis 15:6, Paulo responde à sua questão com outra pergunta: Quando é que Abraão foi declarado justo? Terá sido enquanto estava na incircuncisão, quando não tinha recebido a marca do concerto de Deus, ou terá sido após ter sido circuncidado?

Voltemos a Génesis. No capítulo 15, versículo 6, lemos que Deus declarou Abraão justo, e só no capítulo 17, versículo 24, lemos que Abraão foi circuncidado. Pelo menos 13 anos terão passado entre os dois momentos. Se atentarmos para Génesis 16:16 e Génesis 17:24, vemos que Abraão tinha 86 anos quando Ismael nasceu e 99 quando foi circuncidado. Provavelmente ele tinha menos de 86 anos quando creu nas promessas de Deus e Ele o declarou justo devido à fé que revelou.

Assim sendo, o concerto da circuncisão que Deus celebrou com Abraão e a sua descendência, tal como lemos em Génesis 17:9-14, nada tem que ver com a Justificação, pois Abraão já tinha sido declarado justo muito tempo antes. Abraão foi justificado pela fé, a qual revelou ao crer nas palavras (i.e., nas promessas) de Deus.

A circuncisão era apenas um sinal, uma marca, “selo da justiça da fé, quando estava na incircuncisão” (Romanos 4:11), e assim Abraão tornou-se “pai de todos os que creêm, estando eles também na incircuncisão” (v. 11).
Abraão tornou-se pai de todos os que crêem mas que nunca se circuncidaram e também “pai da circuncisão” (v.12), daqueles que não só foram circuncidados, mas também revelaram a mesma fé que Abraão revelou (ao crer nas promessas de Deus) estando ainda na incircuncisão (v.12).

A Justificação do homem não depende de nenhum ritual (nem mesmo da Circuncisão) nem de nenhuma obra (mesmo os sacrifícios requeridos pela Lei de Moisés). A Justificação depende unicamente da fé que o homem revela ao crer nas palavras de Deus. Neste presente tempo, a fé em Deus baseia-se em crer naquilo que Ele disse sobre a Justificação através da obra da Redenção, efectuada por Cristo na cruz (Romanos 3:25).

A Lei e a Justificação

Depois de abordar a questão de a circuncisão contribuir ou não para a justificação do homem, Paulo demonstra que esta (a justificação) também não é alcançada pela Lei, usando Abraão mais uma vez como exemplo.
Assim, no versículo 13, Paulo refere que Deus fez uma promessa a Abraão e à sua descendência, a de ser herdeiro do mundo. Isto refere-se à promessa que lemos mais à frente no versículo 17, que também podemos ler em Génesis 12:2-3 (promessa a Abraão) e em Isaías 60:1-3 (promessa à nação de Israel). Esta promessa, de que através de Abraão todas as famílias da terra seriam abençoadas, não foi feita pela Lei, assim como a promessa feita mais tarde à nação de Israel de que todas as nações “caminhariam à sua luz”. De facto, ao pensarmos em Abraão, esta promessa não foi alcançada pelas obras de Lei, pois a Lei só foi dada a Israel muitos séculos mais tarde. Tal promessa simplesmente foi dada a Abraão, e ele confiou na palavra daquele que a prometeu (Deus), colocando a sua fé nEle.

No versículo 14, Paulo explica que se a nação de Israel é herdeira do mundo com base na Lei, passa a ser um contrato e não mais uma promessa, tomada como certa pela fé. Se fosse pela Lei, a nação de Israel esperaria ser “herdeira do mundo” com base num contrato entre Deus e a nação de Israel. Não havia lugar para a Fé para crer na promessa feita por Deus, pois estaria assente num contrato. Israel faria a sua parte e Deus faria a sua.

Podemos ler sobre este princípio mais claramente em Gálatas 3:18: “Porque, se a herança provém da Lei, já não provém da promessa; mas Deus, pela promessa, a deu gratuitamente a Abraão.”

Como já estudámos nos primeiros 3 capítulos de Romanos, a Lei não traz salvação ao homem, pois o homem não é capaz de a cumprir na perfeição, e assim, como Paulo refere no versículo 15, “a Lei opera a Ira”, isto é, a Lei produziu (trouxe) antes a Ira de Deus sobre o Homem. Se não houvesse Lei, o homem não teria uma “condenação legal” sobre si, pois só existindo Lei é que podia existir transgressão à mesma.

Podemos ler também em Colossenses 2:14 acerca da Lei que “nas suas ordenanças, a qual de alguma maneira nos era contrária”, isto é, estava contra nós.

Abraão como pai de todos nós

No versículo 16, Paulo explica que a Justificação só podia ser pela fé, segundo a graça de Deus, para que a promessa seja certa (segura) para toda a “posteridade” de Abraão. Isto é, se dependesse do desempenho do homem, da sua perseverança ou de qualquer obra que o homem pudesse “esquecer-se” de fazer, ninguém teria a certeza da promessa de Justificação. Ninguém possuía segurança eterna. Mas se a Justificação é pela graça, a nossa segurança está em Deus, e Ele não pode faltar à Sua palavra. Ele declara-nos justos, pela fé, e podemos ter a certeza da Justificação.

Como a justificação é pela fé, Abraão é o pai da fé de todos nós, quer para os que estiveram sob a Lei, quer para aqueles que viveram antes da Lei, ou mesmo para nós agora que vivemos debaixo da Graça, desde que revelemos a mesma fé que existiu em Abraão, de tomar as palavras e promessas de Deus como dignas de confiança.

Mas que fé foi esta que Abraão revelou? Consideremos os próximos versículos.

No versículo 17 lemos acerca dAquele em quem Abraão creu e que compreensão ele tinha acerca dEle. Abraão creu em Deus, “o qual vivifica os mortos, e chama as coisas que não são como se já fossem”. Abraão creu que Deus era capaz de ressuscitar pessoas (Hebreus 11:18), como o provou quando esteve pronto a sacrificar Isaac a Deus.

Abraão creu contra a própria esperança natural em que Deus lhe concederia um filho. Se um casal, ambos nos seus 30 ou 40 anos, tenham sido estéreis, ainda podem guardar alguma esperança de a sua limitação física ser ultrapassada, por exemplo através de um novo desenvolvimento na ciência médica. Mas se tal casal tiver a idade que Abraão e Sara tinham nessa altura, não só não há esperança como se torna fisicamente impossível conceber e gerar um filho.

Mas Abraão estava convencido que a sua idade e a idade de Sara, “o seu próprio corpo, já amortecido”, e “o amortecimento do ventre de Sara”, não seriam impedimentos para Deus conceder um filho a Abraão e Sara.
Abraão não duvidou da promessa de Deus (v. 20), questionando se Deus era capaz de cumprir a sua promessa perante impedimentos físicos naturais. Ao revelar tal fé, tal conhecimento de Deus e confiança, Abraão deu glória a Deus. É interessante que Abraão não trouxe glória sobre si, pois nenhuma obra ele fez. Ele somente creu que Deus era poderoso para fazer acontecer aquilo que Ele tinha prometido (v. 21).

Podemos pensar que a nossa justificação depende da “força” ou grau da nossa fé. Mas a nossa justificação não está assente na nossa fé. A nossa fé é meramente a condição. A nossa justificação está assente (firme) na Palavra de Deus, de que Cristo pagou o preço da nossa redenção na Cruz, para nossa Justificação. Consideremos o seguinte exemplo que C. S. Stam usa no seu comentário a Romanos.

Imaginemos dois homem de peso igual, sentados em cadeiras idênticas. Um deles parece nervoso e com medo de que a cadeira possa partir-se, enquanto o outro senta-se confortavelmente. Mas ambos, em fé, colocaram o seu peso sobre a cadeira, e isso é o que importa. Não é a força da nossa fé, mas antes o objecto da nossa fé que é o factor decisivo. Se a cadeira é forte suficiente, irá suster-te, não importando o quão fraca a tua fé possa ser.

Muitas vezes ouvimos no meio evangélico que para alcançarmos a Salvação precisamos de tomar um compromisso com Cristo, de que O vamos seguir. Mas isto é Salvação pelas obras. Atenção! Isto é doutrina errada! Nós precisamos de reconhecer a nossa condição de que somos pecadores e nada podemos fazer para nossa Justificação, e colocarmos a nossa confiança na obra completa da redenção que Cristo fez por nós na Cruz.

Chegado ao fim deste capítulo, no versículo 23, Paulo refere que na Palavra de Deus está escrito que a fé de Abraão lhe foi tomada para Justificação não só para benefício de Abraão, mas também para nosso benefício. Nós (v. 24), que colocamos a nossa fé em Deus, revelamos o mesmo tipo de fé de Abraão.

Mas porque Paulo refere que nós devemos crer “naquele que dos mortos ressuscitou a Jesus” e não naquele que deu Seu Filho a morrer por nós? Porque temos que crer na ressurreição de Jesus Cristo para nossa Justificação, e não somente na Sua morte? Paulo explica este princípio no versículo 25.

Para sermos justificados, precisamos de crer que a morte de Cristo foi pelos nossos pecados. Mas, temos de crer que a sua morte é suficiente, completa e é uma obra terminada. Não há necessidade de sacrifícios ou de quaisquer outras obras. A morte de Cristo trouxe-nos Justificação completa, mas somente a ressurreição de Cristo prova que tal obra foi completada. Se Cristo não tivesse ressuscitado, Ele simplesmente tinha morrido a Sua morte como qualquer outro homem.

Tal como James McKendrick disse uma vez: “A Sua morte foi o pagamento pelos nossos pecados. A Sua ressurreição é o recibo.”

Por este capítulo da Epístola aos Romanos compreendemos que a Justificação do homem diante de Deus não é obtida por cumprir qualquer ritual religioso (como era a circuncisão) ou por observar a Lei, mas unicamente pela fé naquele que morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para nossa Justificação, Jesus Cristo.

(por David Costa)

Epístola aos Romanos – Capítulo 3 Agosto 27, 2010

Posted by David Costa in Epístola aos Romanos.
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A vantagem do Judeu

No capítulo anterior Paulo demonstrou que sem Cristo tanto o Judeu como o Gentio se encontram culpados diante de Deus, e assim dignos de condenação. Assim sendo, Paulo levanta uma questão natural no começo do capítulo 3 da sua Epístola aos Romanos: 

“Qual é, logo, a vantagem do Judeu? Ou qual a utilidade da circuncisão?” (Romanos 3:1).

E Paulo responde à sua própria questão: “Muita, em toda a maneira…” (v.2).

O Judeu orgulhava-se de pertencer ao Povo escolhido de Deus. Mas Paulo explica no versículo 2 que a vantagem do Judeu era antes “primeiramente, porque as palavras de Deus lhe foram confiadas”. É verdade que Paulo se refere à Palavra de Deus, mas só em parte. Na tradução inglesa “King James”, em vez de “palavras” é usado o termo “oráculos”, que se encontra mais perto do significado original do termo grego “logion“.

Ora “oráculos” não se refere somente à Palavra de Deus mas também ao Culto a Deus. Podemos encontrar tal princípio de que o que foi confiado ao Judeu não foram somente as “Palavras de Deus”, um pouco mais à frente nesta epístola:

“Que são israelitas, dos quais é a adopção de filhos, e a glória, e os concertos, e a lei, e o culto, e as promessas” (Romanos 9:4).

No Novo Testamento, o termo “logion”, apesar de ser o diminutivo de “logos” (palavra), difere do termo “logos”, já que denota uma resposta, enquanto “logo” refere-se somente à “palavra”.

Quando Deus entregou a Lei a Moisés (a Sua Palavra), também lhe entregou os planos para o tabernáculo: “um santuário, e habitarei no meio deles” (Êxodo 25:3). Este santuário era o lugar designado por Deus onde o Seu povo se podia chegar a Ele e cultuá-lo, por intermédio dos sacerdotes. 

Sendo assim, cremos que a vantagem que o Judeu possuía não se reduz às “Palavras”, já em si muito importantes, mas também em que lhes tinha sido confiado por Deus o verdadeiro Culto a Deus, estabelecido e designado por Ele, de acordo com a Sua vontade. Qualquer outro culto a Deus nunca era o verdadeiro Culto, aceite por Deus, pois não era feito segundo o Seu plano.

Presentemente as Palavras de Deus e o Culto a Deus não pertence mais a Israel, ao povo Judeu, mas como lemos no capítulo 11 desta epístola: “… que o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que a plenitude dos gentios haja entrado” (Romanos 11:25). Enquanto Israel está sendo posto de parte, nesta dispensação da Graça de Deus, as Palavras de Deus e o Culto a Deus são agora posse da Igreja, Corpo de Cristo.

Agora, os membros da Igreja chegam-se a Deus para O cultuar de uma forma completamente diferente; não num tabernáculo ou num templo, não diante de um “propiciatório” (Êxodo 25:21-22), mas antes diante do trono da Graça de Deus:
“Cheguemo-nos, pois, com confiança, ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia, e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno” (Hebreus 4:16).

Não só o culto a Deus é agora novo, mas também a Palavra de Deus foi alargada (comparando com o que o Judeu possuía antes) com a revelação “do mistério”, a mensagem para esta dispensação da Graça de Deus, revelada nas epístolas do apóstolo Paulo.

Chegado ao versículo 3, vemos que a vantagem que o Judeu possuía, nomeadamente pela Lei e pelo Culto a Deus, rapidamente se tornou em desvantagem, pela incredulidade e pelo pecado. A Lei que era uma vantagem para o Judeu, em relação ao Gentio, agora condenava-o. Mas independente de o homem (neste caso o Judeu) crer e cumprir a Lei, ou pelo contrário se chegar-se a Deus em mera religiosidade, Deus não deixa de ser fiel e cumpridor das Suas palavras e promessas.

Deus revela ser justo em que condena o gentio que vive longe de Deus, o gentio que procura viver uma vida moral, e também a Sua nação escolhida, Israel. Aqueles que confiavam na lei, quebraram-na e, pecando, trouxeram a justiça de Deus sobre si. E assim todo o homem, Judeu ou Gentio, moralista ou ímpio, está debaixo da Ira de Deus.

Nos versículos 7 e 8, Paulo refuta uma corrente e uma acusação que faziam sobre ele e sobre os crentes que proclamavam o Evangelho da Graça. A corrente era que Deus era o criador do pecado. Deus tinha criado o pecado para trazer glória para si, pelo facto de que Ele vence o pecado com a Sua Graça, trazendo glória para Si. E sendo assim, não pode haver qualquer condenação para o homem, pois foi pelo pecado do homem que Deus tomou glória para Si e trouxe graça para o homem.

Paulo nem sequer se preocupa em dar resposta a tal ideia absurda. Eles simplesmente afirma que aqueles que dizem que o homem deve continuar a pecar, para que o bem daí advenha (a graça de Deus), serão justamente condenados.

Paulo refere no versículo 9 que o Judeu, mesmo com a vantagem que possui, não é melhor que qualquer outro homem, pois a natureza de todo o homem é a mesma. 

A condição de todo o homem diante de Deus

Nos versículos 10 a 12, Paulo cita uma passagem de Salmos 14. Este Salmo fala de como o homem não dá lugar a Deus na Sua vida, nem quer saber de Deus, mesmo que reconheça que Ele existe. Deus procura neste mundo por homens que O busquem, que sejam justos, e a sua conclusão é que não há ninguém que O busque. Todos se corromperam, não seguindo o bem e a justiça.

Seguidamente Paulo descreve como o homem se corrompeu em todo o seu ser, por viver uma vida longe de Deus. É interessante reparar na progressão do mal revelado pelo homem ímpio. O versículo 13 fala da garganta, da língua, dos lábios estarem contaminados (sepulcro, engano, peçonha de áspides), mas ao chegar ao versículo 14, fala de toda a boca estar cheia de maldade e amargura. E nos restantes versículos 15 a 18 vemos como o mundo dos homens se tornou num lugar de assassínio, destruição, miséria, guerra e falta de temor de Deus.

Após ter abordado a depravação geral do homem e de que todo o homem está debaixo de pecado, Paulo demonstra a impossibilidade de o homem se justificar diante de Deus pelas obras da Lei.

Como vemos no princípio do versículo 19, Paulo não se refere aos Gentios, pois não se encontravam debaixo da Lei, mas antes aos Judeus. O Judeu orgulhava-se na Lei que possuía e cria que a Lei o podia justificar, e assim pensava encontrar-se justo diante de Deus. Mas como Paulo refere na segunda parte do versículo, era necessário provar que a Lei não pode justificar nenhum homem, “para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo condenável diante de Deus”.

Como é que a condenação de Israel pela Lei traz todo o mundo condenável diante de Deus?

  1. Como vimos atrás no capítulo 1 desta epístola, todo o homem se encontra inescusável nas sua culpa diante de Deus (Romanos 1:20). A condenação de Israel pela Lei demonstra que todo o homem se encontra culpado diante de Deus.
  2. O Concerto de Deus com Israel também afectava os gentios. A única forma de um não-judeu, um gentio, se poder chegar a Deus era através de Israel. Ele deveria tornar-se prosélito, passando a estar debaixo do Concerto de Deus com Israel. Mas este concerto só o podia justificar se ele fosse capaz de obedecer e guardar a Lei na perfeição. Se tanto o Judeu como o Gentio não conseguia guardar a Lei na perfeição, qualquer gentio que se tornava prosélito continuava culpado diante de Deus, e a Lei que ele tomava sobre si, agora o condenava.

O reconhecimento do pecado que cada um de nós carrega sobre si é o primeiro passo, e deveras importante, para a salvação. Enquanto o homem acreditar que os seus esforços e “boas obras” o podem salvar, que não é assim tão mau, ou que seguir a Lei o justifica, ele nunca reconhecerá a verdadeira situação em que se encontra. Enquanto o homem continuar a arranjar argumentos para ignorar ou negar a sua verdadeira condição, nunca poderá receber a provisão que Deus fez na Cruz por intermédio de Jesus Cristo.

Ao chegarmos ao versículo 20, encontramos o segundo passo na mensagem do Evangelho da Graça, que Paulo apresenta nesta epístola. Podemos reconhecer os diferentes passos se atentarmos para os termos “portanto”, “pois” e “por isso”, que são usados no princípio de um versículo. Consideremos então os diferentes passos:

  1. “Portanto ficas sem desculpa…” (2:1)
  2. “Por isso, nenhuma carne será justificada diante dEle pelas obras da Lei” (3:20)
  3. “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, sem as obras da lei” (3:28)
  4. “Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (5:1)
  5. “Portanto, agora, nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus” (8:1)
  6. “Rogo-vos, pois, irmãos, pela compaixão de Deus, que apresenteis os vossos corpos em sacrifício vivo, santo e agradável a Deus, que é o vosso culto racional” (12:1)

Voltando ao nosso versículo 20 do capítulo 3, encontramos Paulo a demonstrar, em especial ao Judeu debaixo da Lei, a sua necessidade de Cristo. A palavra traduzida por “conhecimento” neste versículo não é, no original, a palavra grega “gnosis”, normalmente traduzida por “conhecimento”, mas antes o termo “epignosis”, que refere-se a um conhecimento conclusivo ou provado. O homem não necessita da Lei para conhecer que é um pecador, pois a sua consciência o acusa dos seus pecados, como vimos anteriormente no versículo 2:15. Mas o Judeu e todo aquele debaixo da Lei, possuía a lei que confirmava tal facto. A consciência do homem o acusa de pecado, enquanto a Lei o confirma por escrito, pronunciando a sentença do homem.

Como exemplo, para mais facilmente compreendermos este princípio, consideremos o caso de um homem que conduz o seu automóvel por uma cidade, a uma velocidade superior a 90km/h. Ele sabe que o limite de velocidade dentro das localidades é de 50km/h, e a sua consciência o acusa da infracção que ele está a cometer. Mas este conhecimento não lhe traz penalização alguma. Mas agora imaginemos que ele é apanhado pela polícia a cometer tal infracção, e é confrontado por uma patrulha mais à frente no seu percurso. Neste momento não é só a sua consciência que o acusa, mas a Lei (o Código da Estrada) e a Polícia (que fiscaliza o seu cumprimento) que o condenam a uma pena (uma multa) devido à sua conduta.

A Lei de Deus actua da mesma forma. Pela consciência o homem vem ao mero conhecimento do pecado, mas pela Lei da Deus vem a confirmação e a condenação.

É de referir a distinção entre “conhecimento de pecado” e “convicção de pecado”. Todos os homens têm conhecimento dos seus pecados, mas nem todos estão debaixo de convicção de pecado. Se todos estivessem convictos do seu pecado, todo o homem se apressaria a ouvir o Evangelho da Graça de Deus. A Lei acrescenta o seu testemunho ao da consciência do homem, para que ele possa ficar convicto do seu pecado, enquanto o Espírito Santo usa a Palavra de Deus para trazer o homem a tal convicção.

Muitas pessoas religiosas, mesmo muitos chamados cristãos, pensam que a Lei foi dada por Deus para mostrar ao homem como “fazer o bem” e como “ser justo”. Mas na verdade a Lei não mostra ao homem como é que ele pode fazer o bem, mas antes o condena. A Lei foi dada antes para nos mostrar que todo o homem é ímpio e precisa de um salvador.

“E, de tudo que, pela Lei de Moisés, não pudestes ser justificados, por Ele é justificado todo aquele que crê.” (Actos 13:39).

A Justiça de Deus sem a Lei

“Mas agora se manifestou…” (v.21).

Neste versículo encontramos uma mudança dispensacional, denotada pela expressão “mas agora”. “Agora” refere-se ao tempo presente, a esta época, a esta dispensação. Durante 1500 anos, Deus manteve Israel debaixo da Lei, de forma a demonstrar historicamente que “nenhuma carne será justificada diante dEle pelas obras da Lei” (v.20). 

“Mas agora a Justiça de Deus, sem a Lei, se manifestou.”

Tomemos atenção à expressão “se manifestou”. O princípio da Justiça sem a Lei esteve sempre operante, mas ainda não tinha sido anunciado, revelado ou manifestado. Quando terá sido manifestado pela primeira vez este princípio? Terá sido por João Baptista, por Cristo durante o seu ministério terreno, pelos 12 apóstolos, ou durante o Pentecostes?

Cristo ensinou os seus discípulos a sujeitarem-se à Lei (Mateus 23:1-3). Antes da sua ascensão, Cristo comissionou os 11 a guardar a Lei (Mateus 28:20). Mesmo no Pentecostes, os 12 viviam sob a lei e “viviam” quase literalmente no templo judaico.
Só por meio de Paulo é que ouvimos pela primeira vez que a Justiça de Deus se manifestou sem a Lei. Ninguém antes de Paulo proclamou tal mensagem. Daí Paulo insistir em expressões como “mas agora” (v.21) e “neste tempo presente” (v.26). Encontramos tal princípio também noutras epístolas de Paulo (Gálatas 3:23; I Timóteo 2:6-7; II Timóteo 1:10-11; Tito 1:2-3).

Na segunda parte do versículo 21, Paulo afirma que a Justiça de Deus sem a Lei tem o “testemunho” da Lei e dos Profetas. Isto não quer dizer que o princípio da justiça de Deus sem a Lei tenha sido anunciado pela Lei e pelos Profetas (a Palavra de Deus que o Judeu possuía, muitas vezes referida como “a Lei e os Profetas”). Pelo contrário, pois só “agora” se manifestou. O que esta expressão quer dizer é que não há nada na Escritura (chamado agora por “Velho Testamento”), tanto na Lei como nos Profetas, que anule o princípio da Justiça de Deus sem a Lei. Neste plano de justificação do homem, há justiça completa e perfeita, pois o castigo pelos pecados do homem foi pago, completamente, por Cristo. Daí Paulo no primeiro capítulo afirmar que se orgulhava deste evangelho, pois a Justiça de Deus se revela nele, neste plano (Romanos 1:16-17).

A Fé de Jesus Cristo

Na nossa tradução de João Ferreira de Almeida, edição revista e corrigida, encontramos no versículo 22 a expressão “fé em Jesus Cristo”, mas na verdade a expressão que estaria mais perto da ideia original seria “fé de Jesus Cristo”. Esta expressão, “fé de Jesus Cristo”, é usada sete vezes nas epístolas de Paulo, e podemos encontrar as duas expressões num só versículo, “fé em Cristo” e “fé de Cristo” em Gálatas 2:16.

A expressão “fé de Jesus Cristo” neste versículo 22 refere-se à natureza, ao que Cristo é, em vez do que Ele fez. Não tem que ver com a “fé em Cristo”, mas sim com Jesus Cristo ser digno de confiança, isto é, tanto pela sua fidelidade, como pela sua capacidade em cumprir as Suas promessas, nomeadamente de salvação, a todos os que confiarem nEle para remissão de pecados. Aquele em quem foram imputados os nossos pecados possui toda a Justiça de Deus, e quando confiamos nele para salvação, estamos certos que a Sua Justiça é verdadeiramente imputada em nós. Sendo assim a nossa fé em Cristo está assente e encontra-se segura na fé de Cristo.

Para todos e sobre todos os que crêem

Na segunda parte do versículo 22 encontramos outro princípio muito importante: “a Justiça de Deus… para todos e sobre todos os que crêem”. 

O artigo traduzido por “para”, nesta expressão, é o artigo “eis” no grego, que refere-se à “direcção”, enquanto o artigo traduzido por “sobre” é o artigo “epi” no grego, que se refere ao “objecto”. Por outras palavras, encontramos dois grupos distintos de pessoas nesta expressão: “todos” referindo-se a todo o homem, e “todos os que crêem” referindo-se àqueles homens e mulheres que confiam em Jesus Cristo para salvação dos seus pecados, com base na expiação feita na cruz, por Jesus Cristo. A Justiça de Deus é “para” o primeiro grupo (“todos”) e é “sobre” o segundo (“os que crêem”). A Justiça de Deus é oferecida a todos os homens e mulheres, mas ela só é imputada (colocada sobre) àqueles que crêem.

Esta expressão é muito importante, pois claramente mostra que a Salvação não será universal. Apesar da provisão que Deus estabeleceu ser passível de salvar todo o homem, só aqueles que crêem na Salvação oferecida é que serão verdadeiramente salvos.

A última parte do versículo deve ser tomada em conjunto com o versículo 22, pois “não há diferença” não se refere aos dois grupos de pessoas mencionados. A expressão “não há diferença” refere-se a que todo o homem pecou, seja judeu ou gentio, moralista ou ímpio. É verdade que existem diferenças na natureza e gravidade dos pecados cometidos pelos homens neste mundo. Mas o facto simples de que “todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” não é posto em causa por essas diferenças. Na prática, um só pecado faz do homem pecador, assim como um só assassínio faz de um homem um assassino, ou um só roubo faz de um homem um ladrão.

No versículo 24, Paulo torna ao argumento deixado a meio no versículo 22: “a justiça de Deus… para todos e sobre todos os que crêem… sendo justificados gratuitamente, pela Sua graça, pela redenção que há em Cristo Jesus”.

Somos justificados gratuitamente pela Sua graça, não porque o merecêssemos, mas somente pelo Seu favor. No grego o termo “charis” (graça), neste contexto traz consigo a ideia de “deleite”, de prazer, como um avô que se deleita no seu neto e busca oportunidades de lhe trazer alegria. Assim é a Graça de Deus, em que Deus se deleita em salvar pecadores e em encher as suas vidas de bênçãos (Efésios 2:1-7). Deus fez completa provisão para salvar o pecador, e agora convida cada um a reconciliar-se com Ele, sendo justificado “pela redenção que há em Cristo Jesus”.

A palavra “gratuitamente” no versículo 22 dá ênfase em que a Justificação é unicamente pela Graça.

Cristo proposto para propiciação

Ao chegarmos ao versículo 25, encontramos a expressão “ao qual (Cristo) Deus propôs para propiciação”, onde o verbo “propor” também podia ter sido traduzido por “apresentar”. Agora a questão que define o destino eterno do homem já não é mais “o pecado” (pois todo o homem encontra-se debaixo da mesma condição) mas sim a sua decisão pessoal por Cristo. Deus fez completa provisão para o pecado do homem, e agora convida o homem a receber o “dom da justiça” (Romanos 5:17), pela fé em Cristo, que morreu pelos nossos pecados.

Paulo explica que Deus propôs Cristo para propiciação dos pecados que foram “dantes cometidos”. Em relação aos pecados que foram dantes cometidos, não no passado dos leitores desta epístola, mas nos tempos passados, na história passada, a paciência de Deus suspendeu julgamento nesses dias, pois Ele tinha proposto Cristo para propiciação desses mesmos pecados. As pessoas desses dias não eram justificadas na realidade pelos sacrifícios ordenados por Deus e estabelecidos na Lei de Moisés, mas sim pela propiciação realizada por Cristo no futuro. Apesar da Justiça de Deus lhes ser imputada então, só agora, na dispensação da Graça de Deus, pelo evangelho de Paulo, é que tal foi manifestado.

É importante relembrar que a justificação não significa que o pecador é declarado inocente de pecado. Deus condena justamente o pecador, mas Ele justifica o crente pecador, declarando-o justo em Cristo. Como podemos ver nos capítulos 3 e 4 desta epístola, o processo é:

  1. O pecador é declarado culpado (Romanos 3:19)
  2. Os pecados do pecador são imputados a Cristo (Romanos 3:24)
  3. A Justiça de Cristo é imputada ao pecador (Romanos 4:5)

Na segunda parte do versículo 26 lemos que Deus propôs Cristo para propiciação, demonstrando “a sua Justiça, para que Ele seja Justo”. A justificação do crente pecador foi obtida de uma forma perfeitamente justa. Deus no Seu amor não deixou de ser justo, pois nenhum princípio da justiça de Deus foi posto de parte, para que aqueles “que tem fé em Jesus” pudessem ser justificados.

A expressão “justificador daquele que tem fé em Jesus” mostra claramente que agora, na dispensação da Graça de Deus, o crente é salvo unicamente pela fé, sem qualquer obra requerida. No evangelho do Reino, o qual Cristo comissionou os seus discípulos para proclamar, o princípio era: “Quem crer e for baptizado será salvo” (Marcos 16:16). Neste versículo em Romanos e em todas as epístolas de Paulo está propositadamente ausente o baptismo como requisito para salvação. Agora Deus justifica aqueles que simplesmente, mas sinceramente, “tem fé em Jesus”.

O orgulho humano no Plano de Salvação

“Onde está, logo, a jactância?”. De que se pode o homem gloriar ou orgulhar em todo este plano de Salvação estabelecido por Deus? Paulo responde à sua própria pergunta, afirmando que a jactância é excluída, isto é, não há lugar nenhum para o homem se gloriar ou orgulhar em algo que ele possa ter feito no plano de Salvação. Deus conhece o coração do homem, e conhece o mal que resulta do orgulho humano, e assim sendo, Deus não o tolera no Seu plano de Redenção. O homem não toma parte alguma na sua salvação, por pequena e insignificante que possa ser, a não ser receber a Salvação gratuitamente, de graça: “para que nenhum homem ser glorie” (Efésios 2:8-9).

A alegria da Salvação não resulta do orgulho humano sobre algo que o homem alcançou, mas sim resulta de verdadeira gratidão pelo que ele gratuitamente recebe de Deus.

E porque “lei”, isto é, porque princípio, é que a glória humana (a jactância) é excluída? Paulo explica que não é pela lei das obras, mas antes pela lei da fé.

Encontramos aqui duas leis (dois princípios) mutuamente exclusivos (isto é, não podem ocorrer em simultâneo) em relação à salvação do homem. Isto é, ou o homem é salvo pela lei das obras ou pela lei da fé; não há outra lei ou princípio intermédio. Como lemos mais à frente, em Romanos 11:6, se o homem é salvo pela graça, pela lei da fé, não o pode ser pelas obras, pois no momento em que se acrescentam obras, a graça já não é graça e já não é a “lei da fé”.

Sendo assim, ao homem são apresentadas duas alternativas. Se ele busca salvação pelas obras (a lei das obras), então não é um dom da graça de Deus que deve ser recebido somente pela fé. Se ele busca salvação pelo dom da graça de Deus (a lei da fé), então esta não pode ser alcançada por meio das obras, pois a graça de Deus deixaria de ser “graça”. A “graça” e as “obras” para Salvação são mutuamente exclusivas.

Tal como referido por James McKendrik, “Se eu tivesse de dobrar, nem que fosse um pouquinho, o meu dedo indicador para ser salvo, a salvação não seria pela graça, por meio da fé, mas também pelas obras. E eu nunca poderia ter a certeza da salvação, porque não tinha a certeza de que o tinha feito correctamente.”

Mas como já podemos ver que todo o homem pecou, mesmo que ele tentasse cumprir a “lei das obras”, nunca o conseguiria fazer na perfeição. Daí Paulo concluir no versículo 28 que “o homem é (unicamente) justificado pela fé, sem as obras da lei”.

A Justificação pela Fé estabelece a Lei

Para o Judeu era difícil aceitar que agora Deus também era o Deus dos Gentios. O rito da circuncisão era extremamente significativo para o Judeu, pois simbolizava o concerto que Deus tinha feito com Abraão, separando-o a ele e à sua semente dos restantes homens, os gentios. Mais tarde, a circuncisão foi incorporada na Lei da Moisés. A circuncisão era tão importante que qualquer homem entre os Judeus que não fosse circuncidado, seria “extirpado dos seus povos, quebrantou o meu concerto” (Génesis 17:14).

Mas Paulo prova nestes primeiros três capítulos de Romanos que tanto judeus como gregos, todos estão debaixo do pecado (3:19), e sendo assim encontram-se “extirpados”, longe de Deus, quer sejam circuncidados ou incircuncidados. Paulo também demonstra que somente “pela redenção que há em Cristo Jesus” pode aquele que crê ser “justificado gratuitamente pela Sua (Deus) graça” (3:22-24). O Deus, que é um só, justifica tanto o Judeu como o Gentio através da obra da redenção efectuada por Cristo.

Pela fé e por meio da fé

Ao chegarmos ao versículo 30 é fácil passar despercebida uma “pequena” diferença entre a justificação da circuncisão (Judeu) e incircuncisão (Gentio). Paulo afirma que Deus justifica o Judeu “pela fé” e o Gentio “por meio da fé”. 

A proposição traduzida do grego por “pela” (fé) denota a origem ou casa de onde uma ideia, acção ou movimento procedem. A proposição traduzida do grego “por meio da” (fé) denota o canal ou meio pelo qual uma acção é efectuada.

Os Judeus que estavam sobre a lei de Moisés (nos tempos passados) eram justificados:

  • pela fé (a origem),
  • por meio das obras (sacrifícios) da lei (o meio).

Isto é, o Judeu pela fé que Ele colocava nas Palavras de Deus, na lei dada por Moisés, executava os sacrifícios para perdão de pecados que Deus tinha estabelecido. Na verdade como Paulo explica no capítulo 4, o Judeu não era salvo pelas obras, mas pela fé que o levava a fazer as obras que Deus tinha estabelecido. Dando ouvidos à Palavra de Deus, confiando nas promessas de perdão que Deus tinha feito, o Judeu cumpria o que Deus tinha definido. Fazia-o colocando a sua fé em Deus, em que Ele era fiel cumpridor das suas promessas.

O Gentio é salvo “por meio da fé”, o mesmo acontecendo agora com todo o Judeu. Na dispensação da Graça, o Judeu não se encontra mais debaixo da Lei, não havendo distinção entre Judeu e Gentio, em particular no tocante à Salvação.

Agora todo o homem (Gentio ou Judeu) é justificado:

  • pela fé (a origem),
  • por meio da fé (o meio).

Agora o homem é salvo exclusivamente pela fé e por meio da fé!

Mais uma vez, Paulo, no versículo 31, refere que a Lei não é anulada por tal plano de salvação, pela fé, mas antes todos os requisitos de perfeita justiça da lei são alcançados por este plano, com base na redenção alcançada por Cristo na Cruz.

(por David Costa)

Epístola aos Romanos – Capítulo 2 Março 21, 2010

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Continuando a análise iniciada no capítulo 1 acerca da condição do homem perante Deus, o apóstolo Paulo dirige-se agora àqueles que procuram viver vidas moralmente correctas.

O homem moral

O segundo capítulo começa com uma expressão digna de nota. O apóstolo Paulo não diz que a condição em que o homem vive é de pobreza, de doença, de dificuldades ou de infelicidade, ansiando por uma vida melhor. Não! É verdade que muitas vezes é isto que ouvimos em algumas mensagens de evangelização. Tais coisas são anunciadas como as maiores necessidades que o homem tem na sua condição natural, e que por tais razões precisam de Cristo. Não! Completamente errado! Paulo afirma claramente que o maior problema que o homem enfrenta, na sua condição natural é estar “sem desculpa” perante Deus.

Ao contrário do grupo de pessoas referidas no fim do capítulo 1, que viviam e consentiam vidas de pecado, este grupo de pessoas, referidas no inicio do capítulo 2, julgam antes os que tais vidas viviam (do capítulo 1), e se consideram superiores, na sua moral, pela vida “refinada” que vivem. Estas pessoas são aquelas que dizem: “Ah, eu não sou tão mau assim. Eu vivo uma vida correcta! Não mato, não roubo, não faço mal nenhum a ninguém.”

Sobre tal grupo de pessoas, Paulo afirma que eles estão prontos a julgar os outros, que vivem vidas abertamente de pecado, mas esquecem-se que Deus conhece o coração e as intenções de tudo o que o homem faz em segredo. Daí Paulo dizer que estes se condenam a si próprios nas mesmas coisas em que julgam os outros.

Tomemos em atenção o fim do versículo 1. Paulo não diz “tu fazes coisas que são tão más e graves como as coisas que esses fazem”. Ele antes diz: “tu, que julgas, fazes o mesmo”. Na verdade o homem possui uma forte tendência para condenar nos outros exactamente as mesmas coisas que ele próprio faz. E agindo assim, como lemos nos versículos 2 e 3, o homem condena-se a si próprio, ao condenar nos outros as mesmas coisas que ele faz.

Nos versículos 4 e 5 vemos que tais pessoas deviam antes reconhecer a bênção que possuem de nunca terem cometido pecados “horríveis”, pecados “a céu aberto”, mas preferem antes ignorar os pecados que enchem o seu coração, e encobrir a sua culpa e condição, criticando e julgando os outros.

Assim, Paulo diz a essas pessoas que deviam antes agradecer a Deus pela Sua misericórdia e arrepender-se dos seus pecados. Mas na verdade tais pessoas endurecem o seu coração, continuando a achar-se justas diante de Deus. Na prática o que acontece é que “entesouram ira” sobre si mesmas, que virá sobre elas no dia em que Deus julgar o homem.

Princípios Básicos da Justiça Divina

Nos versículos seguintes, encontramos uma descrição dos princípios básicos da justiça divina. Nesta descrição não encontramos a Graça de Deus, mas sim a perfeita justiça de Deus. O princípio básico da justiça divina é que Deus irá recompensar aquele que fizer o bem com a vida eterna, e aquele que obra o mal com tribulação e angústia. Não está aqui em questão se o homem é verdadeiramente bom e se é capaz de perseverar em fazer o bem. Paulo explica passo a passo a necessidade de salvação e o plano de salvação estabelecido por Deus, de uma forma progressiva. A intenção de Paulo nestes versículos é somente de explicar que Deus recompensa o bem e castiga o mal. Mais à frente ele demonstrará que ninguém consegue verdadeiramente fazer o bem continuamente, e que é por isso que precisamos de um Salvador.

É verdade que isto parece ser algo básico, mas não estaremos a esquecer a sua devida importância? Quando evangelizamos não evitamos dizer abertamente que o descrente é pecador, que será condenado, e por isso precisa de um Salvador? Não se ouve dizer muitas vezes no meio das nossas igrejas que o descrente precisa de um Salvador para “consertar” a sua vida que se encontra num caos, para trazer paz aos seus relacionamentos pessoas e familiares, ou para trazer benção e prosperidade? Mas tal é completamente errado! Não é essa a necessidade principal do homem!

Paulo ocupa os primeiro três capítulos desta Epístola aos Romanos a demonstrar a condição do homem, e que todos estão inescusáveis e são culpados, independentemente da sua condição social, sabedoria, moralidade ou religiosidade. Decerto é algo de extrema importância.

Paulo só pode explicar a obra de Cristo na Cruz, a Salvação que agora nos é oferecida, após demonstrar, sem quaisquer dúvidas, qual a verdadeira condição de todo o homem perante Deus: a sua incapacidade de perseverar em fazer o bem e a sua necessidade de Salvação.

No fim dos versículos 9 e 10 encontramos uma expressão que já tínhamos encontrado atrás, no capítulo 1, “primeiramente do judeu e também do grego”. Porque, tanto na condenação como na recompensa, lemos “primeiramente do judeu e também do grego”? Simplesmente porque o judeu, possuindo uma maior vantagem espiritual sobre os gentios, por ser o povo escolhido de Deus e por ter a lei de Deus, é certamente mais responsável pelos seus actos.

No versículo 11 encontramos um versículo muito conhecido: “Porque, para com Deus, não há distinção de pessoas”. No original grego a palavra traduzida por “distinção” pode também ser traduzida por “parcialidade”. A definição de “parcialidade” nos dará uma melhor compreensão desta passagem.

Parcialidade: 
    -> É o erro daquele que sendo chamado a julgar, dá maior valor às circunstâncias exteriores do homem que está a julgar, e não aos seus méritos intrínsecos. Assim sendo, ele dá preferência, no seu julgamento, àquele que é mais digno, mais rico, de mais elevada filiação, ou mais poderoso, do que outro que não possua tais qualidades.

Deus não dá preferência a ninguém por aquilo que ele é ou pelo que possui. Deus julga o homem unicamente com base nos seus actos. A sua justiça é absolutamente perfeita e imparcial.

O Judeu e o Gentio sob o Julgamento de Deus

Ao chegarmos ao versículo 12, se tomarmos em atenção as expressões usadas, surge de seguida uma questão importante. Porque é que Paulo diz que os “sem lei”, isto é os gentios, “perecerão”, mas os “sob a lei”, os judeus, serão “julgados”?

É importante recordarmos que mesmo sem lei, isto é, para aqueles que nunca conheceram ou estiveram sobre a lei dada por Deus, através de Moisés, o pecado mata. É o princípio divino que lemos nos primeiros capítulos de Génesis: “No dia em que pecares, morrerás” (Génesis 2:17). A inveja, o ódio, o vício e a vida desgarrada destroem a vida do homem e acabam por matá-lo. Não somente o pecado destrói o corpo e vida física, mas também destrói a alma do homem.

Isto não quer dizer que Deus não vai julgar todos os homens, pois vemos claramente mais à frente, no versículo 16, que Ele o fará. A questão aqui é o homem estar debaixo da lei de Moisés ou não. O que Paulo quer explicar aqui é que aqueles que pecaram e não estavam sobre a lei (os gentios) perecerão nos seus pecados naturalmente, não porque rejeitaram ou desprezaram a lei, já que a lei nunca lhes foi dada. Mas os outros que pecaram estando debaixo da lei (os judeus) serão julgados pela mesma lei que transgrediram.

Nos versículos 13 a 15 temos um parêntesis, pois o versículo 16 é a conclusão da ideia apresentada no versículo 12.

A lei em si mesma nunca trouxe vantagem alguma àqueles que estavam sujeitos a ela, caso não lhe obedecessem. Encontramos um exemplo disso no caso da mulher adúltera que é trazida perante Jesus, em João 8. Ela era judia, possuía e conhecia a lei, mas isso não a ajudou. Em vez disso, os escribas e fariseus estavam prestes a apedrejá-la, de acordo com a mesma lei. Sendo assim, a vantagem que ela possuía sobre os gentios, a de possuir a divina revelação da lei de Deus, tornou-se numa clara desvantagem. A lei condenava-a e exigia a sua morte como castigo.

É certamente esta a ideia que Paulo exprime nestes versículos. A lei só justifica aqueles que a praticam, não aqueles que a possuem. Nestes versículos não está em questão se o homem é capaz de perseverar em praticar a lei. Aqui só é explicada a lógica presente na lei.

Quanto aos gentios que nunca conheceram ou ouviram falar da lei, muitos compreendiam que era errado mentir, roubar, matar ou cometer adultério. Como pode tal ser? Depois da queda do homem (de Adão e Eva terem pecado), a consciência do homem passou a transmitir um sentimento de culpa ao homem quando ele pecava. Daí lermos no versículo 15 que os gentios “mostram a obra da lei escrita em seus corações”. É importante atentarmos que não diz que os gentios tinham a lei “escrita” em seus corações, mas antes “a obra da lei”. E qual é a obra de lei? Leiamos Romanos 3:20, “Porque pela lei vem o conhecimento do pecado”, e em II Coríntios 3:9, “o ministério da condenação”. Então compreendemos que a obra da lei é o (re)conhecimento do pecado, pelo testemunho da consciência do homem, que leva o homem a sentir-se acusado e culpado, ou a arranjar desculpas sobre os pecados que comete (“defendendo-os”).

O Julgamento do Pecador

Voltemos ao versículo 12 e ligando-o ao versículo 16, lemos:
“Porque, todos os que sem lei pecaram, sem lei, também, perecerão; e todos os que sob a lei pecaram, pela lei serão julgados; (…) No dia em em que Deus há-de julgar os segredos dos homens, por Jesus Cristo, segundo o meu evangelho.”

Encontramos então no versículo 16 três factos importantes:

  1. Deus julgará os segredos dos homens.
  2. Ele o fará por Jesus Cristo, que será o Juiz.
  3. Ele o fará de acordo com o evangelho confiado a Paulo.

1.
O homem, quando peca, tem a tendência natural de esconder esse pecado das pessoas à sua volta e de Deus, em vez de o confessar, buscar o perdão, e corrigir o mal que fez, se tal for o caso. Mas Deus vê o coração do homem e nada está escondido aos seus olhos, tal como podemos encontrar em:
“E não há criatura alguma encoberta diante dele; antes, todas as coisas estão nuas e patentes, aos olhos daquele com quem temos que tratar.” (Hebreus 4:13) e “Porque Deus há-de trazer a juízo toda a obra, e até tudo o que está encoberto, quer seja bom, quer seja mau.” (Eclesiastes 12:14).

2.
Jesus Cristo será o Juiz, neste julgamento dos perdidos. Já encontramos tal facto nas palavras de Jesus Cristo, enquanto habitou entre o Seus aqui na terra, durante o seu ministério terreno:
“E também o Pai a ninguém julga, mas deu ao Filho todo o juízo; (…) E deu-lhe o poder de exercer o juízo, porque é o Filho do homem.” (João 5:22,27).

3.
A última parte do versículo decerto traz às nossas mentes a questão: “Como pode Deus julgar os homens de todas as épocas com base numa mensagem que esteve guardada em segredo até ser revelada ao Apóstolo Paulo? A resposta é que é pela revelação do mistério que Deus entregou a Paulo que podemos compreender as “boas novas” que Deus confiou aos homens nos tempos passados.

Tomemos por exemplo Hebreus 10:4, “É impossível que o sangue dos toiros e dos bodes tire os pecados”. Sendo assim, porque requereu Deus sacrifícios de sangue a Caim e Abel, de forma a serem aceites por Ele? Se o sangue de animais não podia tirar os pecados, como é que então Abel foi salvo? Pelo evangelho de Paulo agora compreendemos que Abel foi justificado, pois tomou a palavra de Deus como verdadeira, e se aproximou dele segundo a forma que Deus tinha prescrito. Isto é a “obediência da fé”, tal como lemos em Hebreus 11:4,  “Pela fé, Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim, pelo qual alcançou testemunho de que era justo, dando Deus testemunho dos seus dons, e por ela, depois de morto, ainda fala.”

Mas se os sacrifícios em si não tinham valor, como podia Deus aceitar os homens que os ofereciam? Somente porque Cristo iria morrer pelos pecados deles, e que nessa base Deus, podia aceitar justamente aqueles que se chegavam a Ele na forma que Ele prescrevia.

Mas agora que compreendemos o mistério do evangelho de Deus, as obras não fazem mais sentido e não são requeridas para salvação. Daí podermos ler mais à frente, no capítulo 3 desta Epístola, “Ao qual Deus propôs para propiciação, pela fé no seu sangue, para demonstrar a sua justiça pela remissão dos pecados dantes cometidos, sob a paciência de Deus”, e na Epístola aos Hebreus, “E, por isso, é Mediador de um novo testamento, para que, intervindo a morte, para remissão das transgressões que havia debaixo do primeiro testamento, os chamados recebam a promessa da herança eterna.” (Hebreus 9:15).

Assim, creio que o homem não será condenado somente porque é pecador, mas sim porque em qualquer que seja a altura em que ele viveu, não se chegou a Deus segundo o que Deus prescreveu para tal época. Isto é, se o homem se chegou a Deus pela fé na Sua palavra e prescrição (por exemplo, os sacrifícios animais), ou pelo contrário, se chegou a Deus segundo a sua justiça e ideias humanas, ou mesmo se nunca se quis chegar a Deus, rebelando-se contra Ele.

Para compreendermos tal ideia basta pensarmos no caso de David, o segundo Rei de Israel.  Se aquele que pecasse sob a lei estivesse irremediavelmente condenado, então David, após ter adulterado com Batseba e assassinado Urias, estaria irremediavelmente perdido. Não! David chegou-se a Deus, após ter pecado, segundo o que Deus prescreveu na lei, em relação ao arrependimento e aos sacrifícios, evidenciando a fé que tinha na Palavra de Deus.

Assim, os perdidos serão julgados no Grande Trono Branco, por Jesus Cristo, aquele que morreu pelos pecados do homem, tendo por base os princípios que encontramos no evangelho proclamado por Paulo, isto é, que em qualquer época a Salvação foi sempre pela Graça, através da Fé. Nunca a Salvação foi ou será negada àqueles que colocam a sua fé e confiança nas Palavras de Deus, e se chegaram a Ele (em fé) pela forma que Ele prescreveu.

O Judeu

Na segunda parte do capítulo 2, Paulo fala especificamente para o homem Judeu, aquele que recebeu a Lei. Paulo não descansa enquanto não demonstrar que todo o homem é pecador e perdido, incluindo os Judeus.

“Judeu” refere-se a todos os filhos de Israel; o povo de Deus era chamado de “Hebreus” segundo a sua raça, “Israelitas” segundo a sua nacionalidade, e “Judeus” segundo a sua religião.

Vemos nos evangelhos que os Judeus, em particular na figura dos fariseus e escribas, se orgulhavam de serem Judeus, de serem descendência de Abraão, de serem o povo escolhido de Deus e por possuírem a lei de Moisés.

O objectivo de Paulo não é demonstrar que o Judeu é pior que o outros, mas, como qualquer homem, ele é pecador e precisa de um Salvador. De facto, o Judeu é a representação viva de que todos somos pecadores e que não podemos ser salvos pelas nossas obras ou méritos. Ora se até o povo escolhido de Deus, que recebeu a santa Lei e todas as bençãos materiais de Deus ao longo dos tempos, está em falta e precisa de salvação, muito mais todos os outros homens de todos os tempos. Não há outra solução!

Assim Paulo enumera as virtudes e bençãos que ser “povo escolhido” trouxe sobre eles, nos versículos 18 a 20. Mas a seguir Paulo questiona-os:
“ensinas outros, mas não te ensinas a ti mesmo?”
“pregas que não de deve furtar, e furtas?”
“dizes que não se deve adulterar, e adulteras?”
“abominas os ídolos, e cometes sacrilégio?”

Tomemos em atenção os verbos e expressões que Paulo usa:
Ensinar, Pregar, Dizer e Abominar (nos versículos 18 a 20)
Saber, Aprovar, Instruir, Guiar, Luz, Mestre (nos versículos 21 a 22).

Todos estes verbos e expressões são “passivos”, não revelam nenhuma acção. Nunca Paulo diz “fazes isto” segundo a lei. Afinal de que lhes servia a Lei a não ser para eles se gloriarem nela, aprovarem-na, ensinarem-na, pregarem-na, mas não lhe obedeciam? A gravidade é que Deus era desonrado diante dos outros povos, os gentios, ao verem como os Judeus se comportavam em relação a Deus e à Sua Lei (versículos 23 e 24).

Circuncisão

Para além da lei, havia algo mais em que o Judeu se orgulhava e confiava que lhe trazia segurança: a circuncisão.

A circuncisão era um sinal do concerto que Deus fez com Abraão, o rito que separava Israel de todas as outras nações gentias. Falava da separação para Deus e morte para a carne e suas paixões. Com Moisés, a circuncisão tornou-se parte da Lei. Daí as duas estarem tão intimamente ligadas.

O que Paulo explica nos versículos 25 a 29 é que a mera possessão da Lei ou a submissão à Circuncisão não traria nenhum favor especial de Deus no tocante ao julgamento das obras do homem.

Assim, ao quebrar a Lei, um Judeu reputava por perdido o sinal da circuncisão. Mas quando um Gentio, incircuncidado, guardava os preceitos da lei, o que a circuncisão significava podia ver-se na sua vida, isto é, que queria viver separado para Deus, morrendo para as paixões da carne. Isto não o salvava, é verdade, pois como veremos no capítulo 3 desta Epístola aos Romanos, nenhum homem cumpriu a Lei completamente. Mas um gentio ao viver assim, Deus certamente se revelava a ele, tal como temos o exemplo de Cornélio em Actos 10:35, “Mas que lhe é agradável aquele que, em qualquer nação, o teme e obra o que é justo”.

Paulo demonstra que o Judeu ao confiar somente no seu “pedigree” espiritual, por ser povo escolhido de Deus, por lhe ter sido confiada a Lei, e por ser circuncidado, não podia ser salvo com base na sua religião. Não é por o homem seguir uma religião que pode ser salvo, nem mesmo a judaica, como os judeus, pois engaram-se a si próprios, pensando que os sinais externos eram suficientes, isto é, a Lei e a Circuncisão (versículo 28). Mas o que Deus busca é antes a “obra interior”, operada no espírito do homem, o qual só Deus pode ver, reconhecer e louvar (versículo 29).

(por David Costa)

Epístola aos Romanos – Capítulo 1 Dezembro 30, 2009

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A Epístola aos Romanos começa com uma apresentação de seu autor e qual a sua mensagem. Paulo apresenta-se como um servo, ou escravo, de Jesus Cristo, tendo sido chamado para apóstolo, para comunicar as boas novas, o evangelho de Deus.

Ao lermos a palavra “apóstolo”, podemos pensar que Paulo tinha sido chamado para ser um dos 12 apóstolos. Mas lembremo-nos que Matias tinha sido divinamente escolhido para substituir Judas, para fazer parte do grupo dos 12 apóstolos. Na verdade Paulo não preenchia os requisitos para ser um dos 12 apóstolos, pois lemos em Actos 1:21-22, quando os 11 apóstolos procuravam um substituto para Judas os requisitos eram:

“É necessário pois, que, dos varões que conviveram connosco, todo o tempo em que o Senhor Jesus entrou e saiu entre nós, começando desde o baptismo de João, até ao dia em que de entre nós foi recebido em cima, um deles se faça connosco testemunha da sua ressurreição.”

Paulo claramente não seguiu Cristo, durante o seu ministério terreno. Pelo contrário! Após o Pentecostes, Paulo era o maior inimigo de Cristo na terra.

Sendo assim, Paulo foi chamado para ser outro tipo de apóstolo, isto é, um apóstolo com uma mensagem nova de Deus, um evangelho diferente do evangelho que os 12 apóstolos anunciavam.

E que evangelho é este, que mensagem é esta? Lemos a partir do versículo 3:

“Acerca de Seu Filho, que nasceu da descendência de David, segundo a carne, declarado Filho de Deus, em poder, segundo o Espírito de santificação, pela ressurreição dos mortos – Jesus Cristo, nosso Senhor. Pelo qual (Cristo) recebemos a graça e o apostolado, para obediência de fé, entre todas as gentes pelo Seu nome. Entre as quais sois, também, vós chamados, para serdes de Jesus Cristo.” (Romanos 1:3-6)

Paulo foi chamado a proclamar “acerca do Filho de Deus, Jesus Cristo, nosso Senhor”. Em todas as suas epístolas, o tema principal é “Cristo”, e várias vezes Paulo claramente afirma que prega Cristo. Paulo não foi chamado por Deus para anunciar um novo conjunto de leis, um novo conjunto de princípios morais de como devemos viver, ou um conjunto de promessas de prosperidade material. Paulo foi chamado a anunciar Cristo.

Voltando um pouco atrás, no versículo 2, temos uma frase que pode gerar alguma controvérsia relativamente à singularidade do apostolado de Paulo e a “novidade” do seu evangelho:

“O qual antes havia prometido pelos Seus profetas, nas santas escrituras…”.

Em relação ao princípio do versículo 2, no tocante à expressão “o qual”, há duas vertentes em relação ao que se refere “o qual”. Uma delas é a de que “o qual” se refere a Deus, tomando assim o versículo o sentido que de Deus “havia prometido… acerca de seu Filho”. A segunda vertente é de que “o qual” se refere ao evangelho de Deus, que Paulo refere no versículo 1.

A expressão “o qual” na versão original em Grego é o artigo “hos”, que pode referir-se a “quem”, “o que”, “o qual”, “de quem”. Daí encontrarmos as duas vertentes mencionadas no parágrafo anterior.

Poderemos pensar, ao ler este versículo, que o evangelho que Paulo anunciava, afinal tinha sido profetizado no passado. Mas esta ideia entra em contradição com o que Paulo claramente afirma na conclusão desta Epístola aos Romanos:

“Ora, àquele que é poderoso para vos confirmar, segundo o meu evangelho e a pregação de Jesus Cristo, conforme revelação do mistério que desde tempos eternos esteve oculto, mas que se manifestou agora.” (Romanos 16:25).

Sendo assim, a vertente que parece estar mais perto da ideia original das palavras de Paulo é que Deus havia revelado pelas palavras dos profetas do Velho Testamento acerca do Messias. De facto nos versículos 3 e 4, o que lemos é um resumo do que estes profetas haviam escrito sobre o Cristo. Neste resumo não há nenhuma informação nova, pelo que não parece fazer sentido associá-lo ao (novo) evangelho de Paulo. Paulo aqui associa o Cristo da Profecia ao Cristo do Mistério, à semelhança do que ele fazia quando pregava Cristo nas sinagogas. Esta interpretação que fazemos não é para encaixar no que cremos, mas é a única que é coerente.

Existem algumas traduções da Bíblia (em outras línguas ou mesmo em Português) que transmitem a ideia de que “o qual” se refere ao evangelho. Isso acontece porque as pessoas que trabalharam nessas traduções seguiam a ideia dominante de que a mensagem de Paulo já vinha sendo profetizada desde Génesis 3:15. Tais traduções induzem as pessoas em erro.

A nossa versão em Português, de João Ferreira de Almeida (Revista e Corrigida), é feliz neste versículo em particular, não induzindo em erro, visto que não força uma interpretação, como acontece em outras.

A quem se destina esta Epístola e qual a sua mensagem?

O versículo 7 é muito importante! Paulo escreve a todos os crentes que estão em Roma, que são amados de Deus, chamados santos. Todo o crente, todo o amado de Deus, salvo por Jesus Cristo, é chamado “santo”, não por causa das suas boas obras, mas porque Deus o chama, o declara “santo”, com base na obra da Cruz, efectuada por Cristo.

Na segunda parte do versículo encontramos não uma saudação “espiritual” de Paulo para os crentes de Roma, mas sim o âmago da mensagem que Deus tem para eles, e para todos nós hoje:

“Graça e Paz, de Deus, nosso Pai, e do nosso Senhor Jesus Cristo.”

Paulo proclama que Deus oferece agora Graça e Paz a todo o homem. Deus oferece a Sua Graça, oferecendo ao homem salvação, pelo Senhor Jesus Cristo. E oferece Paz ao homem, não derramando a Sua ira sobre o mundo e todo o homem, que estava profetizado para acontecer após o Pentecostes, tal como lemos em Actos 2:16-20. Deus adia a sua “declaração de guerra” para com o homem, para proclamar Paz.

A fé dos crentes em Roma e o desejo de Paulo os visitar

É de notar como os crentes em Roma eram fiéis e a sua fé em Cristo já era reconhecida pelo mundo fora, apesar de Paulo não ter visitado estes crentes até então. Daí Paulo ter um desejo muito forte de os visitar, e continuamente orar por eles e por uma oportunidade de os visitar.

Com que objectivo pretendia Paulo os visitar? Seria para “ter comunhão com eles”, como costumamos dizer no nosso meio? Seria para “adorar e louvar a Deus” junto com eles? Não! Paulo queria lhes “comunicar algum dom espiritual, a fim de que sejais confortados” (v. 11).

Mas afinal o que são estes “dons espirituais”? Será algum “dom espiritual” de profecia, de cura, de línguas, ou de algo desse género, como era comum no Evangelho do Reino, anunciado pelos 12 apóstolos? Consideremos mais abaixo o versículo 15:
“E assim, quanto está em mim, estou pronto para também vos anunciar, o evangelho, a vós que estais em Roma.”

O que Paulo queria comunicar era o Evangelho, nada mais que o Evangelho. É esse o dom espiritual que Paulo queria comunicar aos crentes em Roma. A motivação de Paulo era Poder anunciar e explicar o Evangelho que Deus tinha entregue ao apóstolo Paulo, para assim estes crentes poderem ser confortados. E assim Paulo ser consolado também, ao ver que estes crentes compreendiam e criam no mesmo evangelho.

E Paulo não se envergonha deste evangelho, não se envergonha de Cristo. Isto em claro contraste com a nação de Israel, que rejeitou Cristo enquanto nação, tendo Cristo lhe sido oferecido como Messias, como seu Rei. Mas agora, Paulo anuncia Cristo, “poder de Deus para salvação de todo aquele que crê”. Não só para o Judeu, como primeiramente Cristo foi anunciado, “oferecido” à nação de Israel, mas também para o grego, para o gentio. Isto é, Cristo para Salvação de todo o homem.

Umas das razões pelas quais Paulo não se envergonhava do evangelho de Cristo era porque nele se vê a Justiça de Deus, não só a sua Graça e Misericórdia, mas a sua Justiça perfeita (v. 17). Deus não baixou os seus padrões de Justiça com o evangelho da graça, ao oferecer Salvação pela Fé a todo o homem. Paulo claramente afirma mais à frente neste epístola:

“Anulamos, pois, a lei pela fé? De maneira nenhuma, antes estabelecemos a lei.” (Romanos 3:31)

A queda do homem

Na segunda parte do capítulo 1, o Apóstolo Paulo apresenta uma análise da condição do homem perante Deus, e é surpreendente seguir a progressão, a queda do homem passo a passo.

O versículo 18 começa com uma introdução aos versículos que se seguem:

“Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça.”

É de notar que este versículo não avisa acerca da ira que está para vir, mas sim acerca da ira que agora está a ser manifestada do céu. Mediante os versículos que vamos considerar de seguida, estou convicto que esta ira que se manifesta no presente, é a ira que Deus revela cada dia pelos frutos que a conduta do homem traz sobre si próprio. Consideremos os passos da degradação espiritual do homem, e compreenderemos melhor esta ideia.

Lemos no versículo 19 que “o que de Deus se pode conhecer, neles”, nos homens, “se manifesta, porque Deus lho manifestou”. Isto claramente não se refere a tudo o que se pode conhecer acerca de Deus, porque até lemos em I aos Coríntios 2:10-11:

“Mas Deus no-las revelou pelo Seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas, ainda as profundezas de Deus. Porque qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim, também, ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus.” 

O versículo 19 refere-se ao conhecimento que o homem naturalmente pode ter de Deus. Gravado na natureza humana, está o conhecimento, como por instinto, que Deus existe. E as “coisas invisíveis” de Deus, o Seu eterno poder e a sua divindade podem claramente ser compreendidos pelo homem, ao considerar o mundo e a natureza, isto é, as coisas que foram criadas por Deus. Tudo possui a marca de Deus.

Daí Paulo afirmar, no fim do versículo 20, que nenhum homem tem desculpa, é inescusável, pois a compreensão que Deus existe e acerca da sua divindade e poder, podem ser reconhecidos, ao alcance de qualquer homem, pela Criação.

Seguidamente encontramos no versículo 21 o primeiro passo histórico da descida à depravação do homem. Apesar de o homem conhecer Deus no passado, compreender que Deus existe, que é o criador e o todo-poderoso Deus, o homem escolheu não dar glória a Deus, não reconhecer a sua glória e poder, não reconhecer as suas obras e dádivas como sendo dignas de acções de graças. E na verdade o homem se corrompeu nos seus pensamentos (“em seus discursos”), e o seu coração insensato, por não reconhecer Deus, ainda mais se obscureceu.

Achando-se sábios, segundo o conhecimento, capacidade e sabedoria humanos, na verdade aos olhos de Deus, não passam de loucos, ignorantes, estúpidos e néscios.
Chegamos ao segundo passo histórico da queda do homem, que na verdade traduz-se numa série de quatro passos.

Na sua tentativa de adorar a Deus, segundo a sabedoria e ideias humanas, o homem mudou, corrompeu a glória de Deus, ser incorruptível, fazendo representações em ouro e prata de seres e coisas corruptíveis, que considerava serem Deus. Assim começou por imagens de homens, depois de aves, seguidamente de quadrúpedes até criar imagens de répteis, uma clara diminuta aberração do que Deus é no seu Ser.
Até Israel, o povo escolhido de Deus, que conhecia a Deus e tinha recebido a Sua lei, muitas vezes adorou outros deuses e imagens de deuses, sob a forma de homem e animais (como lemos em Êxodo 32).

Sendo assim, chegado o homem a este ponto, lemos no versículo 24 que Deus o “entregou”, no versículo 26 que Deus o “abandonou”, e mais uma vez no versículo 28, Deus o “entregou”.

Perante a corrupção espiritual do homem, Deus deixa, abandona, entrega o homem aos desejos do seu coração e aos seus pensamentos corruptos. Assim como o homem corrompeu a glória de Deus, corrompeu assim também a sua própria “glória”, as suas próprias funções naturais (“mudaram o uso natural”), “contrário à sua própria natureza” (v.26). Na verdade o homem trouxe sobre si próprio toda a perversão sexual, apesar de na aparência humana, parecer um ser intelectual, sábio e poderoso. Basta lembrarmo-nos dos impérios Babilónio, Grego e Romano, cheios de poder, glória, arte, ciência, filosofia e conhecimento, e quão corruptos se tornaram na área sexual.

Tal como lemos no versículo 28, isto é consequência de o homem não querer nada com Deus. Mas não pensemos que a corrupção do homem é culpa de Deus, pois Deus o “entregou” e o “abandonou”. Não é esse o sentido de tais expressões!

O homem longe de Deus só lhe espera a corrupção, ir de mal a pior moralmente falando, até ao ponto de desonrar tudo o que tem de precioso naturalmente. Deus concede ao homem o que o homem quer. Deus não força ninguém a adorá-lo, a reconhece-lo como Deus. Deus na verdade é longânimo, e espera que o homem venha a “despertar”, mas ele concede ao homem a sua vontade própria, mesmo que isso seja não querer nada com Deus. Mas as consequências são visíveis – a corrupção e degradação moral do homem.

E sem intervenção divina, em que se converte o homem? Que frutos traz ele sobre si próprio? De que forma se manifesta então a ira de Deus diariamente? Temos uma longa lista nos versículos 29 a 31:

“Estando cheios de toda a iniquidade, prostituição, malícia, avareza, maldade; cheios de inveja, homicídio, contenda, engano, malignidade; Sendo murmuradores, detractores, aborrecedores de Deus, injuriadores, soberbos, presunçosos, inventores de males, desobedientes aos pais e às mães; Néscios, infiéis nos contratos, sem afeição natural, irreconciliáveis, sem misericórdia.”

E apos lermos esta lista, vemos no versículo seguinte que o homem conhecendo em seu coração a justiça de Deus, que um dia o castigo cairá sobre si por cometer tais coisas, não só continua a praticá-las, como louva e incentiva (consente) os outros que as fazem também. Na verdade vemos isso claramente na nossa sociedade, quando muitas vezes o corrupto é adorado e louvado, o criminoso chamado de herói, o enganador é imitado e respeitado… e por aí adiante. Na verdade o homem no seu coração e alma encontra-se completamente corrompido.

(por David Costa e Daniel Ferreira)