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A Pregação da Cruz Dezembro 12, 2013

Posted by David Costa in Estudos, Salvação.
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O artigo “O ensino da Cruz” teve o seu início no mar, servindo-nos da embarcação do apóstolo Pedro; mas agora é de extrema importância abandonar este barco. Enquanto caminhamos pelo livro de Actos, o nosso guia será o apóstolo Paulo. Ele irá guiar-nos através da obra consumada de Cristo na Cruz, um território desconhecido antes da revelação do apóstolo Paulo. À medida que caminhamos, vamos conhecer que o apóstolo Paulo foi o primeiro a revelar-nos a importância e o significado da morte de Cristo. Ele proclamou a Cruz de Cristo como boas novas! Perante esta mensagem só existem duas possíveis reacções; ser recebida com louvor e de bom grado, ou rejeitada como um mero disparate!

A pregação da Cruz

“Porque a palavra da Cruz é loucura para os que perecem; mas, para nós, que somos salvos, é o poder de Deus” (I Cor. 1:18).

Algumas versões traduzem “pregação” em lugar de “palavra”. O termo “pregação” não é uma expressão típica usada pelo apóstolo Paulo quando se refere à proclamação da Cruz de Cristo. Por exemplo, em II Timóteo 4:2, Paulo instrui-nos a que cada um de nós “Pregue a Palavra”. Neste versículo Paulo utiliza a palavra grega kerusso, que significa “arauto”. Refere-se ao que anuncia claramente e de voz alta a entrada do Rei. Da mesma forma, é nosso dever apresentar o evangelho da salvação de uma forma clara. É interessante que em I Coríntios 1:18, Paulo emprega o termo Logos – a Palavra. Então, a Palavra da Cruz, é o poder de Deus para salvação. O objectivo do apóstolo Paulo é fazer o contraste entre a Palavra da Cruz e a palavra do homem.

Para o homem natural, a Cruz é uma mera loucura. Claro, é absurdo pensar que Deus tomaria a forma humana, seria crucificado e ressurgiria para redimir a humanidade! Para o homem natural isto está para além do que é racional. Perante isto, Paulo desafia o mundo tentar igualar a sua sabedoria e o seu conhecimento com a sabedoria e o conhecimento de Deus.

“Onde está o sábio [inteligente]? Onde está o escriba [doutor da lei]? Onde está o inquiridor [orador] deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo?” (I Coríntios 1:20).

O apóstolo Paulo convoca o mundo para responder às velhas questões, como: De onde veio o homem? Como pode o homem tornar-se justo perante Deus? Qual é o propósito desta vida? Qual é o fim do homem e o que vem depois da morte? O homem natural que tenta responder a todas estas questões excluindo Deus é semelhante a um homem cego, procurando num quarto escuro um gato preto que não existe. A filosofia do mundo pode ser apresentada da seguinte forma:

  1. Origem: Num passado imemorial, do nada surgiu algo, do qual acabou por surgir vida. Durante cerca de 5 milhões de anos, este algo, chamado ameba, evolui até chegar a uma forma complexa de milhões de células que veio a tornar-se no homem moderno.
  2. Justificação: Se as minhas boas acções igualarem ou superarem as minhas más acções, Deus vai aceitar-me no Céu quando eu morrer.
  3. Propósito: De um lado da moeda, a filosofia epicurista é: “Come, bebe, e sê feliz, porque amanhã morrerás.” No fim de contas, devemos experimentar tudo o que o mundo tem para dar. Mas do outro lado da moeda, o estóico diz que nos devemos privar dos prazeres mundanos para encontrar satisfação completa nesta vida.
  4. Destino Eterno: A maioria dos descrentes negam que haja vida para além da morte. Nas palavras de Carl Sagan, um famoso astrónomo, “A morte é o fim!”

De acordo com a Palavra de Deus, no princípio Deus criou o homem à Sua imagem (Génesis 1:26; 2:7). John Milton um dia disse: “A grandeza e o carácter sagrado da alma do homem é certificada por dois factos: primeiro, a criação da sua alma à imagem do eterno Deus; e segundo, o preço necessário que teve de ser pago para a redimir.” Nos dias de hoje, o homem é justificado pela graça por meio da fé na obra redentora de Cristo, e nunca pelas obras que o homem possa fazer (Romanos 3:24; I Coríntios 15:1-4). Após a conversão, o fim principal do homem é glorificar a Deus, com quem vai passar a eternidade nos céus (Apocalipse 4:11; Colossenses 1:5).

Através do conhecimento humano, o homem nunca poderá conhecer a Deus! Assim, “aprouve a Deus salvar os crentes, pela loucura da pregação” (I Coríntios 1:21). A expressão “loucura da pregação” é a lógica do céptico: para eles, nada mais do que loucura. Mas a pregação da Cruz é, para aqueles que estão salvos, uma demonstração do poder de Deus. Convence-nos dos nossos pecados e traz-nos a salvação. O poder de Deus transformou as nossas vidas!

Redenção sem limites

“Porque isto é bom e agradável diante de Deus, nosso Salvador. Que quer que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade: Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem. O qual se deu a si mesmo em preço de redenção por todos, para servir de testemunho a seu tempo” (I Timóteo 2:3-6).

A pregação da Cruz ensina-nos claramente que Cristo morreu por cada um de nós. A expressão “que quer que todos” na passagem anterior tem o sentido de que Deus “deseja” que todo o homem seja salvo. Nestes versículos podemos constatar a interligação entra a soberania de Deus e a responsabilidade do homem. Deus, na Sua soberania, declara o homem culpado do seu pecado através da Sua Palavra, mas é importante notar que Deus nunca vai infringir a vontade do homem. O homem é responsável por crer nas boas novas de que Cristo Jesus morreu pelos seus pecados.

Paulo acrescenta “Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo, homem.” Um mediador é alguém que serve de intermediário, que promove o acordo entre partes em conflito e que tecnicamente representa os dois lados. Que melhor representante pode haver entre a divindade e o homem do que a pessoa de Jesus Cristo? Ele é perfeitamente adequado para a obra da redenção, pelo simples facto de ser Deus manifestado em carne. Cristo é o único e perfeito Redentor!

Quando Cristo veio a este mundo, Ele deu-Se a Si mesmo em resgate de muitos. Nos tempos bíblicos, “resgate” era o preço a pagar pela libertação de um escravo. Da mesma forma, Cristo compareceu no mercado dos escravos do pecado para nos redimir e resgatar de volta para Deus. Esta salvação é de graça, mas teve um custo muito elevado. O resgate requerido por Deus era sangue, o precioso sangue de Seu amado e unigénito Filho, Jesus Cristo. Segundo o evangelho da graça, revelado pelo apóstolo Paulo, o alcance desta redenção é ilimitada. Cristo deu-se a Si mesmo “para” (do grego huper, que significa “em lugar de” resgate por todo o homem. A provisão foi realizada para cada um de nós, o qual é nos confirmado em II Coríntios 5:14: “que, se um morreu por todos, logo todos morreram.”

Certamente que o nosso leitor acreditará que todo o homem está morto em ofensas e pecados quando nasce neste mundo (Efésios 2:1-3). Se concorda com isto, da mesma forma estará de acordo que Cristo morreu por muitos porque este é o raciocínio da passagem.

De acordo com I Timóteo 2:6-7 todas estas coisas servem “de testemunho a seu tempo” através do apostolado de Paulo. Tal como ele diz, “fui constituído pregador, e apóstolo, e doutor dos gentios.” Podemos ver nestes versículos que foi dado a Paulo tornar claro o significado do Calvário. Ele foi o primeiro a revelar que Cristo era o único mediador entre Deus e os homens, o primeiro a ensinar de que Deus estava em Cristo reconciliando consigo o mundo, o primeiro a dar a conhecer que Cristo morreu por todos, o primeiro a revelar que Cristo é a propiciação para a remissão dos pecados passados (santos do Velho Testamento), através da paciência de Deus. Não reconhecer esta verdade é assumir como revelado algo que ainda não o tinha sido, o que é uma grande injustiça para com a Palavra de Deus.

A importância do sangue de Cristo

“O qual nos tirou da potestade das trevas, e nos transportou para o reino do Filho do Seu amor; em quem temos a redenção pelo Seu sangue, a saber, a remissão dos nossos pecados” (Colossenses 1:13-14).

À medida que o apóstolo Paulo nos apresenta a glória dos Céus, compreendemos que a nossa passagem para o reino celestial foi adquirida e paga com o sangue precioso de Cristo. A Palavra de Deus deixa bastante claro que “sem derramamento de sangue não há remissão” (Hebreus 9:22). Queridos leitores, nunca devemos menosprezar o valor do sangue de Cristo derramado para a nossa redenção. Há aqueles gostariam de roubar-nos esta maravilhosa verdade. Os liberais negam-na, os novos evangelistas tentam evitá-la, mas nós que procuramos defender a fé agradecemos a Deus pelo precioso sangue de Cristo. Declaramo-nos culpados de pregar um evangelho de sangue! A Bíblia é um livro de sangue; isso é claro ao longo das páginas do registo sagrado.

No dia 6 de Junho de 1944, vulgarmente conhecido como o Dia D, a maré da Segunda Guerra Mundial virou em favor dos aliados. O general Eisenhower montou uma das mais grandes invasões da história. Enquanto políticos e estrategas militares desempenhavam um papel na vitória na praia da Normândia, os jovens militares que lutavam corajosamente e morriam pela causa foram essencialmente aqueles que derrotaram o inimigo. Temos uma grande dívida de gratidão pelo seu acto de heroísmo. A Segunda Guerra Mundial foi ganha porque muitos daqueles homens pagaram um preço elevado.

Da mesma forma, na guerra de Deus contra o pecado, Ele conquistou o inimigo pelo precioso sangue de Cristo vertido na Cruz. Quando consideramos a vinda de Cristo a este mundo para redimir a humanidade, imediatamente somos confrontados com um problema que aparenta ser insuperável. Como pode o unigénito Filho de Deus ter vindo a este mundo em forma humana mas sem pecado? Sabemos que pais pecadores só podem gerar descendência pecaminosa. A resposta a esta pergunta pode ser encontrada em Hebreus 2:14: “E, visto como os filhos participam da carne e do sangue, também ele participou das mesmas coisas, para que, pela morte, aniquilasse o que tinha o império da morte, isto é, o diabo.”

Aqui está um exemplo clássico da importância de consultar as versões originais, para conseguirmos compreender o sentido original que o Espírito Santo pretendia. Felizmente não precisamos de ser eruditos em hebraico ou grego, porque todo esse trabalho já foi feito para nós por pessoas dotadas nessas línguas. Deus nunca nos abandona sem auxílio!

Quando a Palavra de Deus afirma que “os filhos participam da carne e do sangue,” o termo “participam” é a tradução da palavra grega koinoneo, que significa “partilhar em comum ou partilhar na totalidade.” Assim, a raça humana partilha algo (carne e sangue) através do qual passou de homem para homem a natureza pecaminosa. Mas o Espírito Santo de Deus é cuidadoso em estabelecer a distinção entre a raça humana e a identificação humana de Jesus Cristo.

“Ele participou das mesmas coisas”

Notemos que é dito que Cristo participou “das mesmas coisas”. A palavra grega aqui é metecho, que significa que Cristo “participou das mesmas coisas, mas não na sua totalidade.” Ao ser gerado miraculosamente e nascendo de uma virgem, Cristo tomou a carne humana mas não herdou a natureza pecaminosa do homem. Uma vez que “a vida da carne está no sangue,” podemos supor com segurança que o sangue de Cristo não estava manchado com o pecado. O mesmo não pode ser dito de nós mesmos. A vida da carne está no nosso sangue, apenas no sentido em que o sangue que corre nas nossas veias mantém-nos vivos para o pecado dia após dia. Não é de admirar que o apóstolo Pedro refere-se ao “precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado” (I Pedro 1:19). O sangue de Cristo é o antídoto para a doença dos nossos pecados.

Embora negado por alguns, nós cremos que Cristo derramou literalmente o Seu sangue na Cruz. Quando o sacerdote em Israel derramava o sangue na base do altar, simbolizava os pés da Cruz de Cristo, onde o sangue do Cordeiro seria derramado (Levítico 4:32-34). O sangue tem um interessante paradoxo: os criminosos tentam livrar-se dele, mas Deus limpa os nossos pecados através dele. A teia carmesim é tecida através das epístolas de Paulo, deixando uma tapeçaria de redenção.

“Mas, Deus prova o seu amor para connosco, em que Cristo morreu por nós, sendo nós ainda pecadores. Logo, muito mais agora, sendo justificados pelo seu sangue, seremos por ele salvos da ira.” (Romanos 5:8-9)

No presente tempo Deus justifica os pecadores unicamente pelo sangue derramado de Cristo. Neste contexto, a justificação significa ser declarado por Deus justo por toda a eternidade. Justificação é um termo jurídico. Por exemplo, se um prisioneiro for levado perante o tribunal, há uma e uma só forma de ser justificado. Ele tem ser considerado como não culpado do crime. Se for provado que não é culpado, então é um homem justo aos olhos das leis humanas.
Consideremos outro caso. Um homem comete um determinado crime, considerado culpado e condenado à morte. O presidente pode perdoar este homem, mas nunca o pode justificar. Apesar de este homem ser perdoado, continua a ser um criminoso culpado do seu crime. Não há forma humana possível de o justificar e remover a culpa do seu crime.

Mas maravilha das maravilhas, embora achados culpados diante do tribunal da justiça de Deus, somos justificados pela graça de Deus. A Lei aponta o seu dedo na nossa direcção e diz: tu és pecador, culpado de todas as acusações, e portanto condenado a morrer. “Ora, nós sabemos que tudo o que a lei diz, aos que estão debaixo da lei o diz, para que toda a boca esteja fechada e todo o mundo seja condenável diante de Deus. Por isso, nenhuma carde será justificada diante dele pelas obras da lei, porque pela lei vem o conhecimento do pecado” (Romanos 3:19-20). Quando a sentença dos nossos pecados está prestes a ser lida, Jesus Cristo diz ao Pai: “Eu vou pagar a sua culpa e sua punição.” Cristo deu-Se a Si mesmo em resgate por cada um de nós. Ele tomou o nosso lugar!

Deus não ignorou o castigo dos nossos pecados: a morte de Cristo na Cruz pagou-o na sua totalidade. Os nossos pecados e a nossa culpa foram colocados sobre Si e a Sua justiça foi imputada sobre nós. Em Cristo, somos totalmente inocentes diante de Deus, aceites no Amado e livres da ira futura. Esta é a ira de Deus que iríamos experimentar no grande trono branco do julgamento e consequentemente a sentença do lago de fogo. Pelo graça de Deus, estamos agora longe do alcance do justo juízo de Deus. Tal como o apóstolo Paulo declara em Romanos 8:1: “Portanto, agora nenhuma condenação há para os que estão em Cristo Jesus, que não andam segundo a carne, mas segundo o espírito.”

Que haja em vós o mesmo sentimento

“De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus” (Filipenses 2:5). À medida que o apóstolo Paulo examinava cuidadosamente o carácter de Cristo do ponto de vista do sacrifício “de uma vez por todas, ele ele escreveu “que haja em vós o mesmo sentimento”. Por outras palavras, o apóstolo exorta-nos para que sejamos compassivos, humildes, generosos, perdoadores, etc. Cristo amou os que não eram amados. Vejamos uma ilustração:

George Whitefield, numa das suas viagens, encontrava-se uma noite numa pousada. Para sua surpresa, no quarto ao lado havia um grupo de homens a jogar. A sua linguagem era terrível. Whitefield e o seu amigo passaram um pouco de tempo em oração e a ler a Palavra de Deus e então ele disse: “Antes de me deitar, eu devo ir à sala ao lado para testemunhar àqueles homens,” e fê-lo. Ele entrou naquele quarto e falou-lhes falou acerca de Deus. Eles ouviram-no, mas pouco tempo depois de ter voltado para o seu quarto, eles voltaram a comportar-se como dantes. O seu amigo perguntou-lhe: “Irmão Whitefield, o que ganhou com isto?” Whitefield respondeu: “Eu ganhei um travesseiro macio. Agora posso dormir descansado.”

George Whitefield tinha um fardo pelas almas perdidas. Ele amava os que não eram amados. Apesar de as suas palavras parecerem ter caído em saco roto, ele podia estar tranquilo naquela noite pois tinha partilhado o evangelho e advertido aqueles homens acerca do julgamento vindouro. Temo que enquanto os crentes estão ocupados em mostrar que têm razão num determinado assunto, deixem as almas perdidas escapar em direcção a uma eternidade sem Deus.

Que possamos aprender isto no Calvário: um coração humilde é aquele que pode ser usado grandemente por Deus. Tal como tem sido dito, “A pessoa humilde não é aquela que não pensa muito de si mesma; ela simplesmente não pensa em si! Humildade é aquele característica que, quando pensas que a tens, perdeste-a!”

(por Paul M. Sadler)

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Epístola aos Romanos – Capítulo 5 Dezembro 10, 2013

Posted by David Costa in Epístola aos Romanos, Estudos.
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Chegando ao capítulo 5 da epístola aos Romanos, o Apóstolo Paulo continua com a exposição sobre a justificação pela fé. Como vimos nos estudos dos capítulos anteriores, Paulo demonstra que a justificação do homem só pode ser alcançada pela fé, e não depende da moralidade ou posição, da lei dada por Moisés ou do cumprimento de rituais religiosos como a circuncisão. Agora, no início deste capítulo, Paulo enumera uma série de bênçãos que aquele que é justificado tem ao seu alcance.

Paz com Deus

No versículo 1 lemos que, quando somos justificados pela fé, alcançamos (temos) paz com Deus. Antes de sermos justificados, pairava sobre nós o juízo de Deus, por causa dos nossos pecados.
Agora, tal barreira entre nós e Deus foi removida, com base no sacrifício de Jesus Cristo na cruz, tal como lemos em Colossenses 1:20: “havendo por ele (Cristo) feito a paz, pelo sangue da sua cruz”.

Agora não mais tememos o juízo de Deus sobre nós, os justificados pelo sangue de Cristo, pois somos declarados justos diante de Deus, não porque o somos pelas nossas obras ou carácter, mas unicamente com base no sacrifício de Cristo na cruz.

Esta é uma paz que está ao nosso alcance dia após dia na nossa vida. É possível deixarmos de gozar tal paz, quando deixamos a culpa, a dúvida, ou ensinos errados que negam a certeza da salvação entrar nas nossas mentes. Mas tal não anula a paz que Deus nos concede. Está sempre ao nosso alcance, concedida livremente e abundantemente por Deus.

Acesso (“entrada”) a Deus

No versículo 2, Paulo explica que para além da paz que agora temos com Deus, também temos “entrada, pela fé, a esta graça, na qual estamos firmes”. Por outras palavras, temos acesso directo a Deus, sem nenhuma barreira ou véu entre nós e Deus. Temos acesso pleno à graça de Deus que nos salvou, em cada dia das nossas vidas.

No tempo em que vivemos, tomamos por garantido este acesso a Deus, mas se olharmos para os tempos passados, de Moisés e dos profetas, certamente iremos dar muito mais valor a esta bênção que agora temos em Cristo.

Quando a Lei foi dada ao povo de Israel através de Moisés, Deus avisou várias vezes Moisés para impedir o povo de aproximar-se do monte Sinai, para que não morressem (Êxodo 19:12-13, 21, 24). Quando Deus ordenou que construíssem o tabernáculo, um véu deveria ser colocado a separar o povo, inclusive os sacerdotes, da presença de Deus. O próprio sumo sacerdote só podia entrar no santuário (separado pelo véu) uma vez por ano, seguindo uma série muito específica de passos preparatórios (Levítico 16).

Quando o templo foi construído, também existia um véu separando o lugar “santo dos santos”, podendo aceder a esse lugar apenas o sumo sacerdote uma vez por ano.

Lemos que quando Cristo expirou na Cruz, o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo (Mateus 27:51). Isto simbolizava que com a morte de Cristo o homem podia agora ter acesso livre e directo à presença de Deus, apesar de tal só ser mais tarde revelado e explicado por Paulo.

Agora, neste tempo da dispensação da graça, o crente salvo por Cristo tem livre acesso à presença de Deus, algo que antes era completamente impossível. Agora até somos encorajados a chegarmo-nos “com confiança ao trono da graça” (Hebreus 4:16).

Convém atentarmos também para a diferença entre “propiciatório” e “trono da graça”.

No tabernáculo e no templo, o sumo sacerdote só tinha acesso ao lugar santo dos santos uma vez por ano, onde Deus se apresentava sobre o propiciatório. O propiciatório era uma placa de ouro sólida que cobria a arca onde estavam as tábuas da lei. “Propiciatório” significa “o lugar onde a propiciação é efectuada”. E propiciação significa apaziguar ou aplacar a ira de alguém irado. Por vezes o termo original no grego é frequentemente traduzido por misericórdia.

Assim no passado, o homem (na figura do sumo sacerdote) e Deus encontravam-se uma vez por ano, estando Deus sobre uma “tábua de misericórdia”. Mas agora, nesta dispensação, o crente salvo é convidado e encorajado a chegar-se em qualquer momento ao trono da graça de Deus. Que diferença abismal!

Gloriar-se na esperança da glória de Deus

Tal como lemos em Romanos 3:23, após a queda de Adão todo o homem se encontra “destituído” da glória de Deus. Quando Deus criou o homem, vestiu-o de dignidade e glória, sem mancha ou pecado, ou algo de que se pudesse envergonhar. Mas por causa do pecado, todo o homem caiu desta posição, para uma de humilhação. O homem não consegue se libertar do ciclo infindável de pecados na sua vida, trazendo-lhe muitas vezes consequências verdadeiramente humilhantes.

Mas o crente pode regozijar-se triunfantemente na antecipação da glória de Deus, uma das consequências da justificação pela fé. Mais à frente nesta epístola lemos: “e aos que justificou, a estes também glorificou” (Romanos 8:30), e em Colossenses 1:27 lemos que “aos quais [santos] Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória”.

Ao homem perdido, espera-lhe após a morte o julgamento, a vergonha e o remorso, mas o homem justificado possui a esperança da glória de Deus.

Gloriar-se nas tribulações

Pode parecer-nos no mínimo estranho que, ao chegarmos ao versículo 3, Paulo afirme que assim como nos regozijamos na esperança da glória de Deus, também nos podemos (e devemos) regozijar nas tribulações, como uma das bênçãos que possui aquele que é justificado por Deus segundo a fé.

O descrente não compreende a razão de a vida ter naturalmente tribulações e dificuldades, variando de frequência e intensidade por pessoa. O crente justificado sofre ainda outro tipo de tribulações, nomeadamente pela sua fidelidade ao evangelho, sejam perseguições, abandono de família e amigos, incompreensão, discriminação, etc.. Mas agora o crente pode regozijar-se nas tribulações, por causa das coisas que resultam de ele passar por elas: “a tribulação produz a paciência, e a paciência a experiência, e a experiência a esperança” (Romanos 5:3-4).

O amor de Deus em nossos corações

A esperança (a antecipação de coisas melhores no porvir) que resulta da experiência (esta gerada pela paciência obtida ao suportar as tribulações) não é algo vão ou ilusório. Isto porque no meio das tribulações o amor de Deus é derramado continuamente nos nossos corações, pelo Espírito Santo que nos foi dado no momento da nossa justificação.

Esta “esperança não nos traz confusão”, isto é, não nos vai enganar, envergonhar ou deixar frustrado, como muitas “esperanças” que podemos encontrar nesta vida. E esta é a esperança de que as tribulações não são um sofrimento em vão, pela dificuldade natural da vida ou por injustiças, mas na verdade operam transformação em nós, tendo sempre o amor de Deus nos nossos corações durante todo o processo.

Uma perspectiva pessoal (fraqueza, pecado, inimizade do homem)

Nos versículos 6 a 11, o apóstolo Paulo apresenta uma progressão digna de atenção. Ele aborda a solução que Deus preparou como resposta à fraqueza, ao pecado e à inimizade do homem para com Deus. Comecemos então por considerar o primeiro passo.

1) – “Estando nós ainda fracos” (v.6)

Paulo apresentou-nos nos capítulos anteriores a verdadeira condição do homem, que não consegue sair do estado decaído em que se encontra, que não consegue resistir às suas paixões malignas e que não consegue evitar as consequências do seu pecado. Na verdade, o homem encontra-se num estado de “fraqueza”, no seu estado natural, longe de Deus.

Não é apenas espiritualmente que o homem se encontra num estado de fraqueza, mas também fisicamente. Basta recordarmo-nos de quão fracos se revelam os nossos corpos, como nos afectam o cansaço diário, a doença, e em último lugar, a morte.

Encontrando-se o homem em tal situação de desespero, Cristo morreu na cruz pelos “ímpios”, pela graça de Deus. A palavra “ímpios” não se encontra por acaso neste versículo (v. 6). Cristo morreu por aqueles homens que reconhecem o verdadeiro estado de impiedade em que vivem. Normalmente o homem gosta de sentir-se bem consigo mesmo, de se ter em alta estima, mas a provisão que Cristo fez, morrendo na cruz, só lhe aproveita quando reconhece que não passa de “ímpio” e de que na sua fraqueza humana, nada pode fazer para sair da sua condição, a não ser confiar e aceitar a provisão feita por Cristo.

No versículo 7, vemos como a graça de Deus é completamente diferente da graça humana. Durante a história da humanidade, e mesmo actualmente, há pessoas que sacrificam as suas vidas para salvar a vida de alguém que eles tem em alta estima, alguém “bom”, justo e digno de tal sacrifício. Mas na verdade, Cristo sacrificou a sua vida quando nós éramos “ímpios”, quando mesmo a olhos humanos tal não merecíamos, quando éramos indignos de tal sacrifício.

2) – “Sendo nós ainda pecadores” (v.8)

No primeiro passo encontrámos o homem na sua fraqueza, nada podendo fazer para sair da sua condição, mas agora no versículo 8, no segundo passo, encontramos o homem no seu pecado.

Como vimos nos capítulos anteriores, a justa retribuição do pecado do homem é a condenação por Deus. “Mas”, Deus preparou a redenção para o homem, por Cristo, que morreu na cruz, revelando o amor que Deus tem por nós, e isto quando nós éramos pecadores. Cristo não morreu por nós por ter visto uma réstia de bondade, piedade ou esperança em nós. Não! Foi quando nós éramos pecadores. Assim sendo, a redenção que Deus preparou só alcança aqueles que reconhecem a sua verdadeira condição de pecadores. Aqueles que tal não reconhecem e se acham pessoas bondosas, piedosas ou justas (pois acham que nunca fizeram grandes males), rejeitam o precioso dom de Deus, Cristo, e insultam o amor que Deus revelou por nós.

Como lemos no versículos 9, aqueles que foram justificados pelo sangue de Cristo, quando ainda eram pecadores, encontram-se livres da ira que Deus um dia trará sobre todos os homens: a justa condenação pelos seus pecados.

3) – “Sendo inimigos” (v.10)

Chegamos agora ao terceiro passo, o de maior gravidade, a inimizade do homem para com Deus. Não somente nos encontramos fracos, em pecado diante de Deus, mas também revelamos ser seus inimigos.

Mas podemos argumentar que mesmo presentemente o homem religioso busca agradar a Deus, que nunca se rebelou contra Ele, nunca imaginando sequer que revela inimizade contra Deus. Mas ao desprezar Cristo, e buscando agradar a Deus à sua maneira, o homem revela desprezo pelo sacrifício de Cristo, e rebela-se contra Deus, tentando comprar o Seu favor com os seus próprios esforços.

Mas ainda assim neste estado de inimizade por parte do homem, Deus buscou a reconciliação com o homem, pela morte de Cristo na cruz. E agora que estamos reconciliados com Deus, seremos salvos da condenação do pecado, pela vida que Cristo derramou na Cruz. E mais, como vemos no versículo 11, não somente temos a salvação de pecados, mas temos a reconciliação com Deus, que derrama o seu amor em nossos corações, pelo Espírito Santo, tal como vimos no versículo 5.

Uma perspectiva histórica

Depois de o apóstolo Paulo se ter referido por três vezes ao homem como raça humana (“nós”, nos versículos 6, 8 e 10, ele considera agora uma perspectiva histórica, referindo três personagens: Adão, Moisés e Cristo. É extraordinária a harmonia que existe entre estes versículos e os anteriores (6-11). Ora observemos:

  • De Adão a Moisés, temos o reino da morte (“a morte reinou”, v. 14) por Adão, em contraste com “estando nós ainda fracos” (v. 6);
  • De Moisés a Cristo, temos o reino do pecado pela lei (v. 20), em contraste com “sendo nós ainda pecadores” (v. 8);
  • De Cristo ao presente temos o reino da graça por Cristo (v. 21), em contraste com “nós, sendo inimigos” (v. 10).

É importante dizer que nas menções a estas três personagens, Paulo refere-se

  • a Adão, não na sua criação, mas após a queda;
  • a Moisés, não no seu nascimento, mas quando ele recebeu a Lei no Monte Sinai;
  • a Cristo, não no seu nascimento ou ministério terreno, mas sim na sua exaltação no Céu, tal como Ele é apresentado em Hebreus 2:9.

Consideremos então em detalhe estes três reinos: da morte, do pecado e da graça.

1) O reino da morte por Adão

No período de Adão a Moisés (até à Lei) não existia a Lei ainda; esta ainda não tinha sido dada por Deus (v. 13). Mas durante este período, “a morte passou a todos os homens” (v. 12), não porque a Lei os condenasse à morte, mas simplesmente por serem da descendência de Adão (decaído) e de a sua natureza, herança de Adão, ser depravada.

O pecado entrou no mundo por um único homem, Adão, e assim a morte (consequência do pecado), “passou a todos os homens, por que todos pecaram” (v. 12). Toda a descendência de Adão, todo o homem, esteve em Adão quando ele pecou. Não nos conseguimos dissociar de Adão, pois todo o homem vem de Adão. Assim a morte caiu sobre todos os homens, pela natureza que herdaram de Adão, mesmo sobre aqueles que não pecaram da mesma forma que Adão (v. 14). Na verdade, “todos pecaram” (Romanos 3:23).

Daí a comparação deste período com a expressão do versículo 6, “estando nós ainda fracos”. Durante todo este período, não existia a Lei para condenar os pecadores à morte. Mas mesmo sem a Lei, os homens morriam, pois o pecado na sua natureza corrompe o homem, e finalmente o destrói, com a morte. Basta considerarmos a primeira genealogia apresentada na Bíblia (Génesis 11). Mesmo aqueles que viveram muitas centenas de anos acabaram por sucumbir à morte. Na verdade, a morte passou a todo o homem.

Apesar desta realidade, durante este período houve alguns que foram salvos e aceites por Deus. Lembramo-nos de Abel, Enoque, Noé e Abraão. Como podem ter sido salvos? Porque colocaram a sua fé naquilo que Deus lhes disse. É claro que foi com base na obra da redenção de Cristo feita na cruz, realizada mais tarde (“estando nós ainda fracos, morreu a seu tempo pelos ímpios” (v. 6)), tal como já tínhamos visto no capítulo 3, “para demonstrar a Sua justiça, pela remissão dos pecados dantes cometidos sob a paciência de Deus”.

Vemos no fim do versículo 14 que Adão é “figura daquele que havia de vir”, Cristo, no tocante a que Abraão como progenitor da raça humana, passou a sua natureza decaída a todo o homem. Cristo, ao morrer na cruz, é agora progenitor de todos aqueles que redimiu pela sua morte, passando agora uma nova natureza a todos eles.

Mas a comparação fica por aqui, tal como vemos nos versículos 15 e 16. A graça de Deus é muito mais do que o restaurar da condição do homem antes do pecado ter dado entrada, mais do que trazer o homem de volta à posição que Adão se encontrava antes de pecar.

Por Adão, pelo seu pecado, a morte passou a todos os homens (“a morte reinou por esse”, v. 17), mas por Cristo a vida abunda naqueles que receberam o dom que Ele preparou na cruz. E como vemos no versículo 18, por um único pecado de Adão (“por uma só ofensa” – desobediência, v. 19), o juízo caiu sobre todos os homens: a morte. Mas pela morte de Cristo na cruz, apresentando propiciação pelo nosso pecado, fazendo justiça por nós (“por um só acto de justiça” – obediência), a graça de Deus e a justificação cairam sobre todos os que recebem tal propiciação como tendo sido por si.

2) O reino do pecado pela Lei

“Veio porém a Lei para que a ofensa abundasse…”

Com Moisés, pela Lei que Deus lhe confiou, durante todo esse período (dispensação da Lei), a Lei revelava o pecado no homem e trazia condenação sobre ele.

Como que num aparte, é importante referir que este período começou com a Lei a ser dada por Deus, por intermédio de Moisés (“revelada por Moisés”), até a graça de Deus ser revelada pelo Senhor Jesus Cristo glorificado na glória (e não durante o seu ministério terreno), por intermédio de Paulo. É verdade que a Lei foi abolida na cruz, mas só mais tarde isso revelado por Paulo, pois vemos os crentes de Pentecostes em Actos ainda a seguir a Lei. Durante a dispensação da Lei, o pecado reinou (v. 21), trazendo (a Lei) a condenação sobre o homem.

Como terão sido salvos homens como Moisés, Aarão, David e Daniel, entre outros crentes do “Velho Testamento”? “Sendo nós ainda pecadores… Cristo morreu por nós” (v. 8). Eles não sabiam nem podiam compreender tal, pois ainda não tinha sido revelado. Mas como vimos anteriormente, eles encontravam a paz de Deus quando confiavam no que Deus dizia nesse tempo, o que Deus requeria na dispensação da Lei (Gálatas 3:23).

3) O reino da graça por Cristo

“Superabundou a graça… a graça reinou pela justiça, para a vida eterna por Jesus Cristo, nosso Senhor” (v. 20-21).

Consideremos o que C. R. Stam escreve acerca destes dois versículos, no seu comentário à epístola a Romanos.

O pecado tinha certamente chegado ao seu auge durante os primeiros anos de Paulo. Cristo tinha sido crucificado e mesmo depois da Sua ressurreição os Seus inimigos continuam vivos após tal obra terrível. Israel juntou-se aos Gentios declarando guerra a Deus e ao Seu Filho ungido (Salmos 2:1-3) e Saulo de Tarso era o líder de tal revolta. Não era mais apenas uma questão de pecado; agora era rebelião.

O ódio de Saulo para com Cristo não tinha limites. Lucas escreve: “E Saulo assolava a Igreja, entrando pelas casas; e, arrastando homens e mulheres, os cerrava na prisão” (Actos 8:3). Os santos em Damasco disseram: “Não é este o que, em Jerusalém, perseguia os que invocavam este nome, e para isso veio aqui, para os levar presos aos principais dos sacerdotes?” (Actos 9:21). Aos crentes da Galácia, o apóstolo escreveu ele próprio: “… como sobremaneira perseguia a Igreja de Deus e a assolava” (Gálatas 1:13).

“Mas, onde o pecado abundou, superabundou a graça…” (v. 20)

Encontrando-se Saulo “enfurecido demasiadamente contra” os discípulos, “até nas cidades estranhas os” perseguindo (Actos 26:11), Deus entrou em cena para intervir. A caminho de Damasco, “respirando ainda ameaças e mortes contra os discípulos do Senhor” (Actos 9:1), ele foi impedido no seu caminho e salvo por aquele que ele tão ferozmente perseguia.

Certamente Deus respondeu ao abundante pecado do homem com a Sua superabundante graça! Não surpreende que o apóstolo Paulo tenha escrito: “E a graça de nosso Senhor superabundou com a fé e amor que há em Jesus Cristo. Esta é uma palavra fiel, e digna de toda a aceitação, que Cristo Jesus veio ao mundo, para salvar os pecadores, dos quais eu sou o principal” (I Timóteo 1:14-15).

Ainda mais significativo é o que o apóstolo escreve a seguir: “Mas, por isso, alcancei misericórdia, para que em mim, que sou o principal, Jesus Cristo mostrasse toda a sua longanimidade, para exemplo dos que haviam de crer nele para a vida eterna” (I Timóteo 1:16).

Assim Paulo que até antes tinha sido o líder da perseguição contra Cristo, a personificação da inimizade que existia entre Deus e o homem, não só se tornou agora arauto, mas o exemplo vivo da superabundante graça de Deus, gastando a sua vida para proclamar aos outros “o evangelho da graça de Deus” (Actos 20:24).

Assim também podemos ligar este período com a expressão “nós, sendo inimigos, fomos reconciliados” (v. 10). Aqui também surge a questão de como é que alguém como Paulo pode ser salvo neste período, alguém que perseguia implacavelmente os discípulos e a igreja? Somente com base na morte de Cristo por nós (“pela morte do Seu Filho” – v. 10). Aplicando a cada um de nós, podemos ler em Colossenses 1:21-22:

“A vós, também, que noutro tempo éreis estranhos e inimigos no entendimento, pelas vossas obras más, agora contudo, vos reconciliou no corpo da sua carne, pela morte, para perante Ele vos apresentar santos, e irrepreensíveis, e inculpáveis.”

(por David Costa)

A parábola tripla de Lucas 15 Fevereiro 23, 2011

Posted by David Costa in Estudos.
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“Interpreta primeiro; depois aplica.” Esta é uma regra básica do estudo da Bíblia. A falha no cumprimento desta regra conduzirá inevitavelmente à confusão e ao erro.

Esta parábola tripla[1] de Lucas 15 é um bom exemplo disso mesmo. Estas palavras, tal como todas as Escrituras, foram escritas “para nosso ensino” (Romanos 15:14) e “para aviso nosso” (I Coríntios 10:11), mas elas não foram originalmente dirigidas a nós. Elas foram dirigidas a uma audiência de judeus numa altura em que Israel ainda era a nação favorecida por Deus. Assim, se pretendemos ser “ensinados” e “avisados” por estas palavras, devemo-nos primeiramente colocar no lugar do destinatário original e determinar o que o nosso Senhor pretendia que eles entendessem das Suas palavras. Só depois poderemos ver de que forma essas lições se aplicam a nós.

Esta é a única forma para verdadeiramente compreender e tirar proveito de passagens não dirigidas a nós. Se em vez disso começarmos a aplicar estas parábolas directamente a nós, como se tivessem sido dirigidas a nós e se referissem a nós, certamente falharemos na sua compreensão, interpretação e aplicação.

Quantas vezes a história da ovelha perdida tem sido usada em mensagens evangelísticas como uma ilustração da salvação nos dias de hoje! Supostamente as noventa e nove ovelhas representam os salvos, “seguros no curral”, e a ovelha perdida os perdidos. Mas o que dizer sobre as palavras do Senhor, sobre o serem muitos os que entram pela “porta larga” e poucos os que entram pela “porta estreita” (Mateus 7:13-14)? E porque deixa o pastor as noventa e nove? E porque o Senhor compara estas ovelhas a “justos que não necessitam de arrependimento”?

O mesmo se passa com a história do filho pródigo. Supostamente esta parábola é uma ilustração da necessidade e do caminho da salvação nesta presente dispensação da Graça de Deus. Sendo assim, porque são ambos os homens referidos como sendo filhos e ambos feitos participantes das riquezas do pai ainda antes de um deles ser salvo? E porque diz o pai ao filho que se considerava justo: “Todas as minhas coisas são tuas”? Tudo isto é deixado por explicar.

E todas estas questões ficarão sem resposta se não nos ocuparmos primeiramente com a verdadeira interpretação das palavras do nosso Senhor, e só depois da aplicação, ou se não tivermos em conta que os destinatários destas palavras eram judeus, sob a Lei, que eles não tinham as epístolas Romanos, Gálatas ou Efésios, que Cristo ainda não tinha morrido e que muitos deles nem o reconheciam como Messias.

Quando o fizermos ficará claro, em primeiro lugar, que esta é uma parábola gradual relativa a Israel. Quase conseguimos imaginar vozes de protesto: “Será que nos vão tirar também esta passagem?!”, ao que respondemos “Não!” Esta passagem, tal como o resto das Escrituras, é para nós, mas tiraremos mais dela se reconhecermos primeiramente a quem estas palavras foram originalmente dirigidas. Fazendo isto, cremos que o leitor verá por si mesmo que não perdeu nada e ganhou muitíssimo.

A ocasião da parábola

“E chegavam-se a Ele todos os publicanos e pecadores para O ouvir. E os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: ‘Este recebe pecadores e come com eles’.” (Lucas 15:1-2)

Foi a ideia de justiça própria dos fariseus e escribas que provocou esta parábola tripla. João Baptista tinha exortado estes líderes a produzir frutos dignos de arrependimento (Mateus 3:8), mas eles não viram necessidade de mudar os seus caminhos. Sobre eles lemos: “Mas os fariseus e os doutores da lei rejeitaram o conselho de Deus contra si mesmos, não tendo sido baptizados por ele (João Baptista)” (Lucas 7:30).

A sua presunção era quase inacreditável. Numa ocasião, o homem a quem o Senhor tinha curado da sua cegueira de nascença ousou dizer-lhes: “Se Este não fosse de Deus, nada poderia fazer”, ao que eles responderam muito irritados: “Tu és nascido todo em pecados e nos ensinas a nós?” (João 9:33-34). Como se eles não tivessem nascido em pecados!

E agora eles murmuram contra o Senhor por receber pecadores e comer com eles. Claro que eles não eram pecadores! E eles tinham um surpreendente número de seguidores em Israel: justos aos seus próprios olhos, satisfeitos consigo mesmos, não sentindo necessidade de arrependimento.

Foi esta a situação que originou a parábola tripla da ovelha perdida, da dracma perdida e do filho pródigo.

A ovelha perdida

O Senhor começa por responder aos seus críticos perguntando-lhes: “Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e não vai após a perdida até que venha a achá-la?” (Lucas 15.4).

Ele afirma que mesmo eles não seriam capazes de ignorar o balido de uma ovelha perdida. Eles não seriam capazes de deixar passar despercebida aquele apelo ou deixar a criatura indefesa a morrer sozinha.

E então ele continua a descrever a satisfação quando a ovelha perdida é encontrada. Colocando a criatura nos seus ombros, o pastor trá-la para casa e chama os seus amigos e vizinhos para se alegrarem com ele.

Quem é o pastor?

Na interpretação da parábola da ovelha perdida, devemos primeiro perguntar o que representa o pastor. Só pode haver uma resposta a esta questão. Representa o Próprio Senhor. Os Salmos e os profetas retratavam há muito o Messias vindouro como um Pastor, e mesmo na Terra Ele mesmo disse: “Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas” (João 10.11).

Quem são as ovelhas?

Devemos dizer que elas representam a humanidade? Certamente que não, porque em lado nenhum nas Escrituras vemos Cristo como Pastor da humanidade. Nem foram alguma vez os gentios classificados como ovelhas. Eles eram chamados cães e estranhos, mas nunca ovelhas.[2] É verdade que os membros do Corpo de Cristo são vistos como ovelhas por ilação[3], mas isso não se pode aplicar aqui, porque não há ovelhas perdidas entre os membros do Corpo de Cristo. Além disso, o que poderiam os Seus ouvintes saber sobre o Corpo de Cristo? Nesse tempo a formação deste conjunto de crentes ainda era um mistério “oculto em Deus” (Efésios 3:9).

As ovelhas nesta parábola representam o povo de Israel. Qualquer judeu instruído teria reconhecido isto imediatamente. Muitos dos Salmos apresentavam Israel como ovelhas do pasto de Deus (Salmos 78:52, 79:13, 95:7 e 100:3, entre outros) e os profetas há muito descreviam o Messias como o futuro Pastor de Israel (Isaías 40:11 e Jeremias 31:10, entre outras).
Isto explica a razão pela qual todas as cem ovelhas na parábola, independentemente do seu estado, são vistas como Suas ovelhas. Hoje, os perdidos não são de maneira alguma Suas ovelhas, mas o povo de Israel, quer salvos quer perdidos, tinham uma relação de concerto com Deus.

O facto de que as ovelhas perdidas são ovelhas perdidas de Israel, e não gentias, é provado pelas palavras do próprio Senhor. Quando Lhe foi pedido auxílio pela mulher siro-fenícia, Ele disse: “Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel… Não é bom pegar o pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos” (Mateus 15:24,26).

O nosso Senhor ordenou de forma clara aos seus discípulos: “Não ireis pelo caminho das gentes, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas ide, antes, às ovelhas perdidas da casa de Israel” (Mateus 10:5-6)

Quantas ovelhas perdidas?

É um facto interessante que todo o povo de Israel era visto pelos profetas como ovelhas perdidas que precisavam de ser encontradas e resgatadas. Falando do povo de Israel, Isaías disse: “Todos nós andamos desgarrados como ovelhas; cada um se desvia pelo seu caminho…” (Isaías 53:6). E Jeremias: “Ovelhas perdidas foram o meu povo” (Jeremias 50:6).

Mas o problema era que muito poucos em Israel reconheceram a sua condição de perdidos. Havia apenas um em cem; os restantes sentiam-se bastante bem com eles mesmos.

Muita atenção! As noventa e nove ovelhas da parábola não estavam “seguras no curral”, como alguns dos nossos hinos poderão indicar. Elas estavam no deserto, se bem que todas juntas. Mas o Senhor diz que o pastor “deixa no deserto as noventa e nove, e vai após a perdida ate que venha a achá-la. A ideia aqui é a de que o Senhor veio não para “chamar os (que pensam ser) justos, mas sim os pecadores” (Marcos 2:17). Ele veio para “buscar e salvar o que se havia perdido” (Lucas 19:10; comparar com Lucas 15:7).

Contexto histórico

Antes de começar com a segunda fase da parábola tripla, devemos saber onde se encaixa cronologicamente a história da ovelha perdida. O nosso Senhor referia-se ao passado, presente ou futuro de Israel? Não é difícil determinar, pois houve um único período na História durante o qual o Próprio Pastor veio buscar os perdidos em Israel, o que aconteceu durante o Seu ministério terreno. Isto concorda com as Suas próprias afirmações de que Ele foi “enviado… às ovelhas perdidas da casa de Israel” e que “veio buscar e salvar o que se havia perdido” (Mateus 15:24; Lucas 19:10).

A dracma perdida
Quem é a mulher?

Comecemos a interpretação da parábola da dracma perdida por perguntar primeiro quem é a mulher. Será que ela representa a Igreja de hoje, como tem sido dado a entender tantas vezes? Dificilmente, pois a Igreja de hoje era nesse tempo ainda um mistério escondido em Deus, pelo que o nosso Senhor não se poderia ter referido a ela, nem poderiam os Seus seguidores mais espirituais perceber qualquer alusão àquilo que nunca havia sequer sido mencionado.

Deve ser notado que, qualquer que seja a dispensação, o povo de Deus é sempre visto como a mulher, o vaso mais fraco, amado e cuidado por Ele e chamada para ser sujeita a Ele.

É o que acontece com a Igreja de hoje: “Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da Igreja, sendo Ele próprio o Salvador do Corpo… vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a Igreja e a Si mesmo se entregou por ela” (Efésios 5:23, 25).
Mas também acontece com Israel, porque Deus disse, sob a Lei: “… eles invalidaram o meu concerto, apesar de eu os haver desposado” (Jeremias 31:32).

A Israel foi dado um “libelo (carta) de divórcio” (Isaías 50:1), mas um dia ela será restaurada a Jeová, como está escrito: “… como o noivo se alegra com a noiva, assim se alegrará contigo o teu Deus” (Isaías 62:5) e “… ó filha da Sião… o Senhor, o Rei de Israel, está no meio de ti… poderoso para te salvar; Ele se deleitará em ti com alegria; calar-se-à por seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sofonias 3:14-17).

Em João 3:29, Cristo é apresentado como “Aquele que tem a esposa”, enquanto que em Apocalipse 21:2 vemos a Nova Jerusalém, de Deus descendo do Céu, “como uma esposa ataviada para o seu marido”.

Assim, o povo de Deus é visto de forma consistente como a mulher na sua relação com Ele. Então, a quem se refere a mulher na parábola do Senhor? Aos remidos em Israel, visto que os seus ouvintes eram israelitas. Dizemos aos remidos em Israel e não a todo o Israel, visto que aqui a mulher é apresentada a procurar o que se havia perdido.

A dracma

A dracma perdida, tal como a ovelha perdida, representa os perdidos em Israel, ou aqueles que se sentem perdidos, mas qual a razão da mudança no simbolismo? O dinheiro é, claro está, um meio de troca. Representa valor. Assim, as dez dracmas representam o valor de Israel para as nações.

Na parábola anterior foi a compaixão por uma ovelha perdida que impeliu o pastor a ir e encontrá-la. O seu primeiro pensamento não foi o de que ele havia investido dinheiro nela, mas que a criatura indefesa precisava de ser resgatada do perigo e da morte. Mas nesta parábola a motivação é apenas a preocupação pelo valor perdido.

Quando a mulher descobre que perdeu uma moeda, ela “acende uma candeia, e varre a casa, e busca diligentemente até a achar”. Então ela chama as suas amigas e vizinhas para se alegrarem com ela por ter encontrado o seu dinheiro. Isto leva-nos ao valor de Israel para as nações, visto que a benção das nações aguarda pela salvação de Israel.

Deus havia prometido a Abraão, em relação à sua semente multiplicada: “E em tua semente serão benditas todas as nações da terra…” (Génesis 22:18)
Mas Israel no seu estado não regenerado não poderia ser uma benção para o mundo. Por isso o profeta Zacarias disse: “E há de acontecer, ó casa de Judá e ó casa de Israel, que, assim como fostes uma maldição entre as nações, assim vos salvarei, e sereis uma benção…” (Zacarias 8:13).

Portanto, o povo de Israel era de grande valor potencial para o mundo. Notemos, no entanto, que toda a atenção é focada na dracma perdida e todo o regozijo acontece quando é encontrada. As outras nove dracmas, tal como na parábola anterior, representam aqueles que não se consideravam perdidos e não sentiam qualquer necessidade de arrependimento.

Contexto histórico

Mas também aqui devemos perguntar onde se encaixa cronologicamente a história. Alguns detalhes na parábola ajudarão a responder a esta questão.
Em primeiro lugar, o facto de que a mulher, e não o Próprio Senhor, é enviada a procurar a dracma, indica que esta parábola fala de um tempo em que o Seu povo, e não Ele, procurava os perdidos em Israel. Isto aconteceu em Pentecostes e depois, quando os doze apóstolos e o “pequeno rebanho” dos seguidores de Cristo chamaram o povo de Israel a arrepender-se e salvar-se daquela “geração perversa” (Actos 2:40).

É de notar que nesse tempo o valor de Israel para o resto do mundo era fortemente enfatizado como, por exemplo, no apelo de Pedro no alpendre de Salomão: “Vós sois os filhos dos profetas e do concerto que Deus fez com nossos pais, dizendo a Abraão: na tua descendência serão benditas todas as famílias da terra. Ressuscitando Deus a Seu Filho Jesus, primeiro o enviou a vós, para que nisso vos abençoasse, e vos desviasse, a cada um, das vossas maldades” (Actos 3:25-26).

Esta visão do contexto histórico da parábola da dracma perdida é ainda mais confirmada pela sua posição entre a parábola da ovelha perdida e a do filho pródigo, que inquestionavelmente aponta para o futuro.

O filho pródigo
Israel, filho de Deus

Certamente ninguém duvidará que o pai nesta Terceira parábola representa Deus, mas quem são os filhos? Novamente eles representam dois tipos de pessoas em Israel: os que se consideram a si mesmos justos e aqueles que reconhecem a sua condição de perdidos.

Claro que nem os pecadores que se consideram justos, nem os pecadores pródigos são chamados filhos de Deus, mas é aqui que entra novamente a relação de concerto com Deus. Aquilo que um pai é para um filho, Deus era para a Israel por causa dos concertos que Ele tinha feito com eles. Com o assunto da salvação completamente à parte, as pessoas do povo de Israel eram os Seus filhos do concerto[4] (Ver Mateus 15:26 e Actos 3:25). Assim, Moisés foi instruído para dizer a Faraó: “Assim diz o Senhor: ‘Israel é meu filho, meu primogénito’ “ (Êxodo 4:22).

Assim nesta parábola o simbolismo mostra-se superior ao da ovelha e da dracma. É mais do que compaixão por uma criatura perdida ou preocupação por causa do valor perdido que é contemplado aqui. É a filiação de Israel que está em consideração, bem como toda a comunhão, privilégio e glória que acompanham essa posição.

O filho mais novo

Nesta parábola é o filho mais novo que é “perdido” e depois “achado”. É para ele que o banquete é feito, o banquete no qual o irmão mais velho recusa participar. E isto é importante. Foi principalmente a geração mais nova que seguiu o nosso Senhor. Em geral, a geração mais velha não sentiu necessidade de arrependimento. Os fariseus e os saduceus, os escribas e os doutores da Lei, os principais dos sacerdotes e os principais do povo, todos eles se sentiam “suficientemente bons”. Numa ocasião eles exclamaram a alguns que ficaram impressionados com as palavras de Cristo: “Creu nEle porventura algum dos principais ou dos fariseus?” (João 7:48). E quando alguns dos líderes “cria” nEle, era apenas com o intelecto, e não com o coração, pelo que Jesus não confiava neles (João 2:23-3:3, 12:42-48).

Contexto histórico

É significativo que nesta última parte da parábola tripla não temos nada sobre procurar o perdido. Em vez disso temos o pai esperando em casa até que o filho errante torna em si e volta para casa. Assim, esta parábola olha para o futuro, quando Jeová dará as boas vindas a casa ao Seu filho Israel.
Claro que a presente dispensação da graça não é contemplada nesta parábola. Vemos o filho mais novo, quando torna em si, no mesmo ponto onde uma futura geração de Israel se encontrará nos últimos dias: numa “terra longínqua”, “padecendo necessidades” e chegando-se a “um dos cidadãos daquela terra”.

O regresso do filho pródigo

Finalmente o filho pródigo torna em si. Reflectindo no facto de que os servos do seu pai têm abundância de pão, enquanto ele, o filho, perece de fome, ele diz:

“Levantar-me-ei, e irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: ‘Pai, pequei contra o céu e perante ti. Já não sou digno de ser chamado teu filho; faze-me como um dos teus jornaleiros” (Lucas 15:18-19).

Que mudança foi operada neste jovem! Antes ele dizia “dá-me” (Lucas 15:12); agora pede “faze-me” (Lucas 15:19). Antes ele exigia tudo a que tinha direito; agora reconhece que não merece nada. Esta é uma notável figura do arrependimento de Israel quando tornar em si, como é referido por Jeremias: “Naqueles dias e naquele tempo, diz o Senhor, os Filhos de Israel virão, eles e os Filhos de Judá juntamente; andando e chorando, virão e buscarão ao Senhor, seu Deus.” (Jeremias 50:4).

O resto da história é uma comovente descrição do amor do Pai pelo seu filho renegado.

O que o filho esperava, na melhor das hipóteses, era que o pai lhe abrisse a porta.

“… E, quando ainda estava longe, viu-o seu pai, e se moveu de íntima compaixão, e correndo, lançou-se-lhe ao pescoço, e o beijou” (Lucas 15:20).

Ah, o pai estava todo este tempo ansiosamente à espera que ele voltasse! E agora o errante, humildemente reconhecendo a sua indignidade de ser chamado filho do seu pai, estava prestes a pedir um lugar de servo.

“Mas o pai disse aos seus servos: trazei depressa a melhor roupa, e vesti-lho, e ponde-lhe um anel na mão e sandálias nos pés, e trazei o bezerro cevado, e matai-o; e comamos e alegremo-nos, porque este meu filho estava morto e reviveu; tinha-se perdido e foi achado…” (Lucas 15:22-24).

Da mesma forma Deus receberá um dia Israel com alegria e banquete, como está escrito:

“Consolai, consolai o meu povo, diz o vosso Deus. Falai benignamente a Jerusalém e bradai-lhe que já a sua servidão é acabada, que a sua iniquidade está expiada e que já recebeu em dobro da mão do Senhor, por todos os seus pecados” (Isaías 40:1-2).

“O Senhor, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para te salvar; Ele se deleitará em ti com alegria; calar-se-á por seu amor, regozijar-se-á em ti com júbilo” (Sofonias 3:17).

“E folgarei em Jerusalém e exultarei no meu povo; e nunca mais se ouvirá nela voz de choro nem voz de clamor.” (Isaías 65:19).

“E alegrar-me-ei por causa deles, fazendo-lhes bem; e os plantarei nesta terra certamente, com todo o meu coração e com toda a minha alma” (Jeremias 32:41).

Mas a geração mais velha, que “não necessita de arrependimento” ficará, tal como o filho mais velho, de fora do banquete por sua própria escolha.

A parábola tripla e nós

Agora que procurámos interpretar correctamente as palavras do nosso Senhor, que lições podemos nós tirar delas e como pode esta parábola tripla aplicar-se a nós? A resposta é: deixando as coisas no lugar a que elas pertencem.

As parábolas do nosso Senhor descrevem as suas relações com Israel. As epístolas de Paulo descrevem o propósito de Deus relativamente ao Corpo de Cristo. Comparemos as duas e vejamos se perdemos ou ganhamos quando fazemos a distinção.

Tal como observámos, Deus nunca olhou para os gentios como ovelhas, nem está de forma alguma obrigado a vigiá-los como Pastor, porque “como eles se não importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso…” (Romanos 1:28). Os gentios são antes vistos como cachorrinhos (Mateus 15:26) e estranhos (Efésios 2:12). Na verdade, também o judeu está agora de parte (Romanos 11:15; Efésios 2:16-17).

Agora Deus tomou-nos, crentes judeus e gentios desta dispensação, e deu-nos um lugar muito mais elevado do que aquele que será ocupado por Israel no futuro. Israel é, afinal, o povo terreno de Deus. A sua vocação e a sua expectativa são terrenas. Quando convertidos eles habitarão na sua terra com Cristo como Rei em Jerusalém. Mas nós que temos confiado em Cristo nesta era da Sua rejeição somos feitos um com Ele através de um baptismo sobrenatural e é-nos dado um lugar à mão direita de Deus, abençoados com todas as bênçãos nos lugares celestiais em Cristo (Gálatas 3:26-27; Efésios 1:3). Que graça!

E de que valor eram os gentios no plano profético de Deus? Nenhum![5] Deus não traria bênção a este mundo através de qualquer gentio. A adopção, a glória, os concertos, a lei, a adoração no templo, as promessas, todas pertenciam a Israel (Romanos 9:4). Nós gentios estávamos “sem Cristo, separados da comunidade de Israel, e estranhos aos concertos da promessa, não tendo esperança, e sem Deus no mundo” (Efésios 2:12). Mas mesmo Israel, na sua presente condição, não tem valor para o mundo. Ainda assim Deus tomou-nos, judeus e gentios, e fez-nos um com o Seu Filho, do qual depende a esperança deste mundo. Ele fez de nós as obras-primas da sua graça:

“Para mostrar nos séculos vindouros as abundantes riquezas da Sua graça, pela Sua benignidade para connosco em Cristo Jesus” (Efésios 2:7).

Novamente, os gentios não são chamados filhos de Deus nas Escrituras. Somos antes vistos como estranhos e inimigos (Colossenses 1:21). Na verdade, Israel é agora Lo-ami: “Não sois Meu povo” (Oséias 1:9). No entanto Deus deu aos crentes judeus e gentios o lugar de filhos muito mais elevado do que o da nação de Israel. Israel era filho de Deus por uma relação de concerto. Nós somos filhos de Deus em Cristo, o Seu Filho unigénito.

“E, porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de Seu Filho, que clama: Aba, Pai. Assim que já não és mais servo, mas filho; E se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo” (Gálatas 4:6-7).
E uma vez mais dizemos: que graça infinita, maravilhosa e sem par!
Que seja o leitor a decidir: Temos a perder no reconhecimento de que nesta parábola o nosso Senhor não se referia aos gentios ou à salvação nesta presente dispensação? Não temos a ganhar incomensuravelmente com a compreensão e satisfação da Palavra quando deixamos a parábola no sítio à qual ela pertence e depois a examinamos à luz da revelação dada a Paulo?

Cristo é a chave

Cristo é a chave desta parábola tripla, tal como é de todas as Escrituras. É Ele que cumpriu a redenção daqueles que confiaram nEle durante o Seu ministério terreno bem como dos que confiam nEle agora. Como ovelhas, o povo de Israel falhou e dispersou-se. Para salvar as “ovelhas perdidas da casa de Israel”, o próprio Cristo teve de tomar o seu lugar com eles e tornar-se uma ovelha (ou cordeiro).

“… Como um cordeiro, foi levado ao matadouro e, como a ovelha muda perante os seus tosquiadores, Ele não abriu a boca” (Isaías 53:7).

E o Seu sacrifício também tira o nosso pecado.

“Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29)

É interessante que foi uma dracma de prata que a mulher perdeu. Isto era o preço de redenção em Israel e lembra-nos da lei do parente redentor (Levítico 25:47-49). Israel era o parente rico dos gentios através do qual os gentios deveriam ser redimidos. Mas Israel, longe de redimir os gentios, estava falido e precisava ele mesmo de redenção. Assim Cristo nasceu, a semente de Abraão, para que Ele pudesse tornar-se no parente redentor de Israel (e nosso).

“Porque assim diz o Senhor: Por nada fostes vendidos; também sem dinheiro sereis resgatados” (Isaías 52:3).

“… Eu sou o Senhor, o teu Salvador, e o teu Redentor, e o possante de Jacó” (Isaías 60:16).

“Sabendo que não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro… mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado, o qual, na verdade, em outro tempo, foi conhecido, ainda antes da fundação do mundo, mas manifestado, nestes últimos tempos, por amor de vós” (I Pedro 1:18-20).

“Em quem temos a redenção pelo Seu sangue, a remissão das ofensas, segundo as riquezas da Sua graça.” (Efésios 1:7)

Outra vez, Israel era o filho de Deus (Êxodo 4:22), mas nunca alcançou o lugar de adopção, ou de filiação (de filhos adultos). Era necessário mantê-lo, tal como a uma criança, sob a Lei. Então Cristo, o filho perfeito de Deus, veio e tomou o lugar de servo, sob a Lei, por amor deles (e nosso). Por duas vezes o Pai rompeu os céus para exclamar: “Este é o Meu Filho amado, em Quem Me comprazo”, mas ainda assim morreu como um transgressor, por Israel (e por nós). Mas Ele ressuscitou dos mortos no terceiro dia e “declarado Filho [adulto] de Deus em poder… pela ressurreição dos mortos” (Romanos 1:4) Agora todos os crentes são aceites como filhos adultos de Deus no Amado (Efésios 1:5-6). Assim sendo, “vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou Seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a Lei, para remir os que estavam debaixo da Lei, a fim de recebermos (nós, quer judeus, quer gentios) a adopção de filhos [6]. Assim que já não és mais servo, mas filho; e se és filho, és também herdeiro de Deus por Cristo (Gálatas 4:4-5, 7).

(por Cornelius R. Stam) 

Notas:
[1] Na verdade, as três parábolas de Lucas 15 formam um todo gradual. O Senhor contou “esta parábola” (versículo 3); as três parábolas referem-se a coisas perdidas; nos versículos 8 e 11, em vez de começar com outra parábola, continua com a sua ilustração.
[2] No julgamento das nações o Senhor “apartará uns dos outros, como o pastor aparta dos bodes as ovelhas” (Mateus 25:32), mas isto será no futuro. Mesmo que nesta passagem alguns gentios sejam vistos como ovelhas, os gentios não eram vistos como ovelhas no tempos do Velho Testamento ou do nosso Senhor.
[3] Actos 20:28: “rebanho”; Efésios 4:11: “pastores”.
[4] Embora houvesse o facto de que os crentes podem desfrutar desta relação.
[5] Se bem que cada indivíduo é de grande valor para Deus.
[6] No grego, huiothesia, que significa ser colocado como filho adulto.

O Ensino da Cruz Fevereiro 23, 2011

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No artigo do boletim anterior (”Cristo e Este Crucificado”) iniciámos uma viagem tendo como primeira paragem a predição da Cruz. O rei David proporcionou-nos uma descrição clara acerca da crucificação de Cristo mil anos antes da sua ocorrência. O livro Salmo 22 é um testemunho notável da presciência de Deus.

Retomando esta nossa viagem, vamos passar agora a considerar o ensino da Cruz. À medida que a nossa viagem prossegue, e esta nos leva a ter uma visão da crucificação, queremos agora estudar os eventos que precederam e se seguiram a este grandioso acontecimento histórico. Agora o apóstolo Pedro é o nosso guia, enquanto o drama da redenção se desenrola. À medida que o nosso conhecimento da Palavra de Deus aumenta, podemos colocar a seguinte questão: Exactamente o quê Pedro e os outros apóstolos do reino compreendiam e ensinavam acerca Cruz?

Palavras mal acolhidas

“Desde então, começou Jesus a mostrar aos Seus discípulos que convinha ir a Jerusalém, e padecer muito dos anciãos, e dos principais dos sacerdotes, e dos escribas, e ser morto, e ressuscitar ao terceiro dia” (Mateus 16:21).

Aproximadamente um ano antes do ministério do nosso Senhor ter terminado, Ele começou a ensinar aos seus discípulos acerca da Sua morte iminente. Esta é mais uma notável referência sobre a divindade de Cristo. Nenhum de nós pode prever o lugar, tempo ou forma de como irá morrer, mas Cristo fê-lo! Mais uma vez, o Espírito de Deus demonstra-nos que tanto a soberania de Deus como a responsabilidade de homem são os principais elementos da crucificação. O termo “convinha” indica claramente que a morte de Cristo em Jerusalém estava de acordo com os planos e propósitos de Deus, os quais não podiam de forma alguma ser alterados. Isto está de acordo com a presciência de Deus, a qual permitiu que os líderes de Israel levassem a cabo o seu plano diabólico para executar o nosso Senhor.

Após o Senhor prever a Sua morte, as Suas palavras desagradaram profundamente a Pedro, o qual chamou o nosso Senhor à parte e começou a repreendê-lO: “Senhor, tem compaixão de Ti; de modo nenhum Te acontecerá isso” (Mateus 16:22). Se Pedro estivesse ainda entre nós, de certeza iria ser o último a ser escolhido para dirigir um elevado ministério a nível nacional. Aos olhos de muitos, ele era impetuoso, ignorante e inculto: um simples e pobre pescador. Mas o Senhor viu algo em Pedro e continua a agir da mesma forma para com todos os crêem. No caso do apóstolo Pedro, a sua maior qualidade era um coração disposto. O “barro” era bastante maleável! Assim o Oleiro pôde moldá-lo até se tornar um vaso de honra, apto para ser usado pelo Mestre. À medida que Pedro amadureceu na fé, em mais do que em uma ocasião deitou por terra os seus críticos deixando-os sem palavras (Actos 4:13).

À medida que voltamos aos anos iniciais da sua “formação”, Pedro não podia acreditar no que estava ouvindo a respeito do que iria em breve suceder em Jerusalém, o que originou esta resposta: “Senhor, tem compaixão de Ti; de modo nenhum Te acontecerá isso”.  No fundo, ele queria dizer: “Senhor, Tu és o Filho de Deus, o Messias de Israel. Nós iremos defender-Te até ao nosso último fôlego, se isso for necessário.” As acções de Pedro provaram a sinceridade do seu amor quando ele tirou a sua espada, na noite em que o Senhor foi traído, e tentou separar a cabeça do servo do Sumo Sacerdote dos seus ombros. Aparentemente, Malco utilizou aqui uma acção evasiva, ou então uma mão invisível o protegeu, pois apenas resultou numa orelha cortada. Não há registo de alguém morrer na presença do nosso Senhor (João 18:10-11).

Por alguma razão Pedro não compreendeu na totalidade que, de acordo com a profecia, os sofrimentos de Cristo deviam anteceder a glória do reino. Esta primeira parte foi parcialmente oculta, portanto ele apenas podia ver por enquanto o brilho da coroa à sua frente. De alguma forma podemos afirmar que o apóstolo Pedro possuía ainda uma visão em túnel! Ele estava ansioso pela vinda dos tempos dourados, de paz e justiça, quando os inimigos de Israel serão derrubados, e os fiéis reinarão com o Messias na terra.

“Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: Para trás de Mim, Satanás, que Me serves de escândalo; porque não compreendes as coisas que são de Deus, mas só as que são dos homens” (Mateus 16:23).

Momentos antes, Pedro tinha sido o porta-voz do Pai, quando anunciou que o Mestre era o Messias, o Filho de Deus. Mas rapidamente as coisas se alteraram, porque agora ele tornou-se o porta-voz de Satanás ao declarar: “De modo nenhum Te acontecerá isso” o que demonstra o seu desconhecimento da vontade de Deus. Pelo simples facto de sermos crentes, não estamos livres de podermos ser instrumentos nas mãos de Satanás. Não existe coisa mais triste do que um filho de Deus preso nos laços do diabo. Infelizmente, aqueles que se deixam enredar na sua teia de mentiras são geralmente os últimos a ter consciência disso.

Pedro caiu na armadilha de Satanás tendo sido impedido de desfrutar das coisas de Deus. Neste contexto, as “coisas de Deus” falam da rejeição e dos sofrimentos do Seu amado Filho para efectuar o plano da redenção, apesar de nesta altura ainda não ser compreendido na sua totalidade. Em vez de aceitar a palavra de Deus pela fé, Pedro preferiu seguir os passos de Satanás, sentindo prazer nas “coisas do homem”, isto é, glória, honra e reconhecimento. O reino estava agora tão perto que não havia tempo para ter em mente o pensamento de que alguma coisa acontecesse ao Mestre. Seguindo esta linha de pensamento, podemos compreender melhor a próxima frase proferida pelo Senhor Jesus.

“Então, disse Jesus aos Seus discípulos: Se alguém quiser vir após Mim, renuncie-se a si mesmo, tome sobre si a sua cruz, e siga-Me” (Mateus 16:24).

Esta passagem bíblica tem sofrido bastante nas mãos daqueles que tentam aplicar a sua mensagem aos crentes dos nossos dias. Por exemplo, alguns dizem que “a sua cruz”  pode tomar a forma de problemas financeiros, doenças físicas, ou outros fardos que tenhamos de carregar. Mas, dispensacionalmente, o Senhor está a dizer que os santos do reino podem ser chamados a suportar determinadas aflições pela causa de Cristo. Aqueles que se negarem a si mesmos e seguirem a Jesus serão rejeitados pelo mundo e provavelmente pagarão o derradeiro sacrifício pela sua fé. De acordo com a história da Igreja, todos os apóstolos do reino padeceram ou morreram como mártires. No caso do apóstolo Pedro, a tradição conta que ele requereu que fosse crucificado de cabeça para baixo por respeito ao sacrifício que o Seu Mestre padeceu por amor de cada um de nós.

Um pedido ambicioso

“E, subindo Jesus a Jerusalém, chamou de parte os Seus doze discípulos, e no caminho disse-lhes: Eis que vamos para Jerusalém, e o Filho do homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes, e aos escribas, e condená-lO-ão à morte. E O entregarão aos gentios para que dEle escarneçam, e O açoitem e crucifiquem, e ao terceiro dia ressuscitará” (Mateus 20:17-19).

Agora, na sombra da Cruz, o Senhor dirige-Se juntamente com os Seus discípulos para um lugar à parte, para lhes contar com maior detalhe os eventos que iriam de seguida acontecer em Jerusalém. Ele confirma as palavras do profeta, segundo as quais Ele iria ser traído e entregue nas mãos dos homens ímpios, os quais O condenariam à morte. Notemos também que os Gentios iriam sofrer a responsabilidade de colocar em prática a vontade dos líderes de Israel, crucificando Cristo. Esta é a primeira vez que o Senhor afirma especificamente a forma da Sua morte. Ele iria sofrer morte por crucificação, tal como profetizado no Salmo 22!

Naquele tempo, exactamente o que é que os discípulos e os santos do reino compreendiam acerca da morte, sepultura e ressurreição de Cristo? Nada! Claramente os discípulos não compreendiam o significado destes acontecimentos, nem tão pouco colocaram a sua fé na vinda de Cristo para morrer no Calvário como forma de serem salvos, apesar de ser esse o meio pelo qual eles iriam ser redimidos. De acordo com relatos bíblicos, estas coisas lhes eram encobertas (Ver Lucas 18:31-34).

Ao lermos estes versículos, percebemos melhor a razão pela qual os discípulos pareciam tão alheios às palavras do nosso Senhor. Eles estavam mais interessados nas glórias do reino e as posições que eles teriam quando reinassem com Ele. Este pensamento pode ser comprovado nos versículos que se seguem: 

“Então se aproximou dEle a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, adorando-O, e fazendo-Lhe um pedido. E Ele diz-lhe: Que queres? Ela respondeu: Dize que estes meus dois filhos se assentem, um à Tua direita e outro à Tua esquerda, no Teu reino” (Mateus 20:20-21).

Certamente todas a mães desejam o melhor para seus filhos, mas por vezes a sua ambição pode ser um produto da carne. Concluindo de que o reino seria brevemente estabelecido, a mãe de Tiago e João queriam que seus filhos tivessem honra distinta de todos os outros, sentados à mão direita e à mão esquerda do Mestre. Claro que Tiago e João pensavam ter legitimidade para fazer este pedido. Afinal, eles estavam entre os primeiros que tinham deixado as suas redes de pesca para trás e seguiam agora o Senhor Jesus. A verdadeira intenção deste seu pedido era apenas garantir posições de autoridade para poderem governar sobre outros, tal como desejam os gentios. Mas o desejo dos gentios por tal poder é apenas por mero egoísmo.

Infelizmente eles não compreenderam que o reino nunca poderia ser estabelecido antes que o Mestre sofresse e morresse pelos pecados da nação. O Senhor também revela nesta porção bíblica que eles, da mesma forma, iriam beber deste mesmo cálix. Ele então acrescenta: “Mas o assentar-se à Minha direita ou à Minha esquerda não Me pertence dá-lo, mas é para aqueles para quem Meu Pai o tem preparado.” Muito provavelmente esta honra será dada a Moisés e Elias, os quais representam a lei e os profetas (Mateus 16:28; 17:1-3).

Podemos constatar que a chave para a glória no reino não estava baseada em posição ou poder, coisas que os gentios cobiçam, mas sim no carácter. Ele deveriam seguir o espírito de nosso Senhor, que não veio a este mundo para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos. Cristo é o Criador de todas as coisas, mas mesmo assim Ele humilhou-Se a Si mesmo e tomou a forma de um humilde servo. Assim, o Mestre admoesta os Seus discípulos: “Bem sabeis que pelos príncipes dos gentios são estes dominados, e que os grandes exercem autoridade sobre eles. Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal” (Mateus 20:23-28). Acreditamos que este mesmo princípio pode ser aplicado ao Corpo de Cristo, quando nos lugares celestiais reinarmos com Cristo.

A remoção do véu

“E disse-lhes: São estas as palavras que vos disse estando ainda convosco: Que convinha que se cumprisse tudo o que de Mim estava escrito na lei de Moisés, e nos profetas e nos Salmos. Então abriu-lhes o entendimento para compreenderem as Escrituras. E disse-lhes: Assim está escrito, e assim convinha que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse dentre os mortos” (Lucas 24:44-46).

Após a morte, sepultamento e a ressurreição de Jesus Cristo, os olhos dos discípulos foram como que abertos, pois o Senhor permitiu que eles compreendessem que era acerca dEle que a lei de Moisés (Deuteronómio 18), os profetas (Isaías 53) e os Salmos (Salmo 22) falavam. O véu que outrora envolvia os seus olhos sobre este assunto foi removido. Agora pela primeira vez ficou claro para eles que Cristo era o Redentor Prometido que as Escrituras tinham profetizado. Mas, atenção! Não devemos partir do princípio de que os discípulos entenderam este facto na totalidade. Eles apenas compreenderam o facto da morte, sepultamento e ressurreição de Cristo. Nada mais do que isso!

Agora, fortalecidos com esta nova luz, os discípulos continuaram a proclamar Cristo de acordo com as profecias, que O retratavam como uma vítima. Isto é-nos confirmado pelo discurso de Pedro aos seus compatriotas no dia de Pentecostes:

“E, cumprindo-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar” (Actos 2:1).

No início do Livro de Actos, ainda estamos a navegar em águas proféticas. Pedro guia-nos cuidadosamente através das perigosas tradições e mandamentos criados pelos homens. É importante relembrar que os primeiros capítulos de Actos são um simples registo da continuação do ministério terreno de Cristo.

Lucas deixa isto muito claro quando escreve: “Fiz o primeiro tratado, ó Teófilo, acerca de tudo que Jesus começou, não só a fazer, mas a ensinar, até ao dia em que foi recebido em cima, depois de ter dado mandamentos, pelo Espírito Santo, aos apóstolos que escolhera.” O “primeiro tratado” a que Lucas aqui refere-se é o evangelho segundo Lucas onde ele dá a conhecer ao seu amigo Teófilo “tudo o que Jesus começou, não só a fazer mas a ensinar.” Mas agora prossegue com a história: “Aos quais também, depois de ter padecido, Se apresentou vivo, com muitas e infalíveis provas, sendo visto por eles por espaço de quarenta dias, e falando do que respeita ao reino de Deus. (Actos 1:1-3).

No dia de Pentecostes, quando Pedro se dirigiu aos seus compatriotas de Israel, pregou-lhes a mesma mensagem que Cristo tinha pregado no seu ministério terreno. Mas agora com um “aditamento”: ele acusa o povo de Israel de ter assassinado o seu Messias!

“Varões israelitas, escutai estas palavras: A Jesus Nazareno, varão aprovado por Deus entre vós com maravilhas, prodígios e sinais, que Deus por Ele fez no meio de vós, como vós mesmos bem sabeis; a Este que vos foi entregue pelo determinado conselho e presciência de Deus, tomando-O vós, O crucificastes e matastes pelas mãos de injustos” (Actos 2:22-23).

Tal como vimos, a morte de Cristo estava em total acordo com o plano soberano de Deus, sendo aqui referida como “determinado conselho”. Pedro afirma sem qualquer tipo de dúvida que Cristo não foi entregue nas mãos dos homens maus devido à Sua “fraqueza” ou que Ele não tinha controlo das circunstâncias que O rodeavam. As Escrituras são claras e inequívocas de que Cristo deu a Sua vida voluntariamente (João 10:17-18). 

Curiosamente, Pedro acrescenta: “e presciência de Deus.” Deus escolheu o momento mais adequado, lugar e forma da Sua vontade ser realizada. O simples facto de Deus ter previsto as acções daqueles que iriam rejeitar e condenar o Seu Filho não diminui de nenhuma forma a culpa deles. Alguns que estavam naquele momento perante Pedro no Pentecostes eram conspiradores que ajudaram a criar falsas testemunhas contra o Senhor Jesus. Estavam presentes certamente também alguns que tinham afirmado: “Fora daqui com este, e solta-nos Barrabás” e “Tira, tira, crucifica-o”.
Pedro não era de “falinhas mansas”. Na verdade, Ele expôs a culpa dos responsáveis pela morte de Cristo, quando afirmou: “Tomando-O vós, O crucificastes e matastes pelas mãos dos injustos”. Era como se as suas mãos ainda estivessem manchadas com o sangue de Cristo. Já agora, leste algumas boas novas até agora? À falta de melhor termo, Pedro estava a pregar as “más novas” da Cruz. Como se isto não bastasse, Pedro fez-lhes saber que a situação era ainda mais grave: Vós O crucificastes, mas Deus O ressuscitou dos mortos e colocou-O à Sua mão direita até que os seus inimigos sejam postos por escabelo dos Seus pés. E saiba todo o Israel que quem cometeu este crime é inimigo de Deus (Actos 2:24-36). 

Suponhamos que com um amigo levamos a cabo um perfeito assassínio. Inesperadamente, uns meses depois o nosso amigo encontra-nos e diz: “Olha, ainda te recordas do homem que assassinámos? Ele voltou dos mortos e anda à nossa procura.” Com toda a certeza teria toda a nossa atenção! Da mesma forma, Pedro teve a atenção dos seus ouvintes quando os declarou culpados da morte de Cristo. “E, ouvindo eles isto, compungiram-se em seu coração, e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, varões irmãos?”.  Ou seja, o que devemos nós agora fazer para sermos salvos do terrível pecado que cometemos?

“E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos.” Finalmente, aqui estão as boas noticias: “Arrependei-vos”. Mas, arrependei-vos de quê? Arrependei-vos de terdes crucificado o Vosso Messias. Isto iria incluir que tinham de crer no Seu nome e em tudo o que tinha proclamado ser, o verdadeiro Filho de Deus, o Messias (João 20:31). “E disse-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja baptizado (na água) em nome de Jesus Cristo, para perdão (ao expressarem a sua fé através deste acto, eles seriam salvos, segundo Marcos 16:16) dos pecados; e recebereis o dom do Espírito Santo” (Actos 2:38).

No evangelho do reino estes eram os termos de salvação “revistos” após o dia de Pentecostes. Estamos muito gratos a Pedro, que nos trouxe ao destino desta viagem em segurança, onde agora vai apresentar a primeira oferta legítima do reino a Israel (Actos 3:17-21). No entanto, a rejeição de Israel à oferta graciosa de Deus marcará um grande ponto de viragem no relacionamento de Deus para com o homens.

Uma das coisas de que nos devemos recordar desta mensagem de Pedro é que somos sempre responsáveis pelos nosso actos. Quanto maior for a nossa posição, maior será a nossa responsabilidade. No próximo boletim vamos velejar com o apóstolo Paulo!

(por Paul M. Sadler) 

Cristo e Este Crucificado Agosto 29, 2010

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O nosso Senhor Jesus Cristo é o nosso Redentor que foi “obediente até à morte, e morte de Cruz.” Ele não morreu uma morte qualquer; Ele morreu a morte de Cruz. Morte por crucificação nos tempos da Bíblia era uma das mais cruéis e vergonhosas formas de tortura possíveis. O historiador judeu Flávio Josefo, presenciou durante a sua vida incontáveis crucificações, pelo que as chamou das mais miseráveis mortes possíveis de se padecer. Cícero, referindo-se à morte por crucificação, afirmou que esta era uma morte “cruel e uma tortura horrorosamente feia”. Will Durant escreveu que “até os Romanos tinham alguma pena das vítimas.”

Ao começarmos um estudo sobre a Cruz de Cristo, estamos prestes a embarcar numa extraordinária e maravilhosa viagem pelo “mar” das Escrituras. A nossa jornada começa em águas proféticas com a “A Profecia da Cruz”. David será o nosso capitão, o qual nos guiará através dos sofrimentos que Cristo padeceu na Cruz do Calvário.

Um Salmo de David

“Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste? por que Te alongas das palavras do meu bramido, e não me auxilias? Deus meu, eu clamo de dia, e Tu não me ouves; de noite, e não tenho sossego.” (Salmos 22:1-2)

Quando meditamos neste Salmo 22, encontramos o que será talvez o relato mais pormenorizado acerca dos sofrimentos de Cristo em toda a Palavra de Deus. Nas Escrituras Hebraicas, o cabeçalho “Aijeleth-hash-Shaar” surge no topo deste Salmo, que é traduzido por: “O Messias sofre, mas triunfa”.

Os Salmos 22, 23, e 24 formam uma trilogia. Sobre o Senhor Jesus Cristo, no evangelho de João, é dito que Ele é o Bom Pastor que dá a Sua Vida pelas Suas ovelhas, tal como descrito no Salmo 22. De acordo com Hebreus 13, Cristo é chamado de Supremo Pastor, que foi trazido de novo dos mortos para guiar o Seu povo através do vale do pecado e morte. Este é o tema central do livro de Salmo 23. Finalmente, o Sumo Pastor de I Pedro 5 encontramos as suas raízes no Salmo 24 onde Cristo retorna com poder e grande glória para estabelecer o Seu Reino aqui na terra.

Umas das coisas mais marcantes acerca do capítulo 22 do livro de Salmos é que David descreve com vivacidade a crucificação de Cristo, aproximadamente 1000 anos antes de esta suceder. Outro facto extraordinário é o facto da morte por crucificação não tinha sido ainda introduzida na humanidade no tempo em que David escreveu este salmo. Crê-se que os Assírios foram os primeiros homens a usar esta forma de execução, pois eles eram bem conhecidos pelas suas torturas desumanas. Mas o que os Assírios criaram, podemos ter a certeza que os Romanos aperfeiçoaram. No tempo do Senhor Jesus Cristo, a morte por crucificação era a forma principal que era usada para executar criminosos contra o Império Romano.

O Salmo 22 é dividido em duas partes: os sofrimentos espirituais de Cristo e os Seus sofrimentos físicos. O Salmo começa com a expressão “Meu Deus, meu Deus, porque me desamparaste?” e termina com “Porquanto Ele o fez” (versículo 31), ou em Hebraico, “Está terminado!” A frase “Meu Deus, meu Deus, porque me desamparaste?” foi uma das últimas proferidas por Cristo enquanto pregado na Cruz. A palavra “desamparado” é uma das palavras na linguagem humana que mais fortemente transmite um sentido de abandono e tragédia. É difícil para nós compreender como, por exemplo, uma mãe pode abandonar o seu recém-nascido, mas infelizmente tal acto é comum nos nossos dias. Ficamos estupefactos quando ouvimos acerca de um homem que abandona a sua mulher depois de tantos anos juntos. Perguntamos “Porquê?”. Nós temos dificuldade em acreditar, mas muito menos conseguimos aceitá-las.

Mas quando o Filho de Deus afirmou na Cruz que tinha sido desamparado pelo Pai, de certeza isso nos deixa admirados. Uma das coisas que caracterizava sem qualquer dúvida a vida de Cristo aqui na terra era a inquebrável comunhão que Cristo gozava com o Pai. O silêncio do Céu foi quebrado mais do que uma vez, quando por exemplo o Pai disse: “Este é o Meu amado Filho, em quem Me comprazo; escutai-O.” (Mateus 17:5). Mas agora, no momento e na hora mais negra pela qual o Senhor Jesus Cristo passou, o Pai desamparou o seu Filho. Porquê? Esta, com certeza, foi uma das perguntas que pesava no coração do Senhor Jesus Cristo, enquanto procurava entender o porquê de ter sido humanamente falando, abandonado.

Enquanto descia a escuridão desde a hora sexta até à hora nona no dia em que Cristo morreu, Ele afirmou, ” Deus meu, eu clamo de dia, e Tu não me ouves; de noite, e não tenho sossego… Em Ti confiaram nossos pais; confiaram, e Tu os livraste.” (Salmos. 22:2,4). Aqui temos os pensamentos íntimos de Cristo, enquanto estava pregado naquela Cruz.

Este é o único lugar na Palavra de Deus onde nos é dito o que o nosso Salvador estava realmente pensando enquanto as trevas caíam sobre a Palestina. Apenas o Espírito de Deus podia dar-nos esta preciosa revelação por intermédio do profeta. O Senhor Jesus Cristo argumentou com o Pai, “Em Ti confiaram nossos pais; confiaram, e Tu os livraste.” Enquanto o Filho considerava a história de Seu povo, Ele recordou de como Sansão os libertou das mãos dos Filisteus; Daniel da boca de leões famintos; e Sadrach, Mesach, and Abed-nego do fogo da fornalha ardente. Mas para o Filho de Deus não haveria qualquer tipo de libertação, que foi predestinado a sofrer pelos pecados do Seu Povo; na realidade, pelos pecados do mundo!

O Filho respondeu à Sua própria questão do porquê do abandono por parte do Pai no versículo 3: “Porém Tu és Santo, o que habitas entre os louvores de Israel.” O Pai é Santo, o que nos indica a sua perfeita moral. O pecado, sem qualquer tipo de excepção, é uma violação à Sua santidade. Os nossos pensamentos finitos nunca poderão alcançar a majestade e a perfeição da santidade de Deus. Ele é infinitamente puro. Isto ajuda-nos a compreender o propósito do véu no tabernáculo: separava um Deus Santo de Seu povo pecador. Isaías e o Rei Uzias ambos tiveram um encontro com a santidade de Deus, mas como vamos ver com resultados totalmente opostos.

“No ano em que morreu o rei Uzias, eu vi ao Senhor, assentado sobre um alto e sublime trono; e o seu séquito enchia o templo. Os serafins estavam acima dele, cada um tinha seis asas: com duas cobriam os seus rostos, e com duas cobriam os seus pés, e com duas voavam. E clamavam uns para os outros, dizendo: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos: toda a terra está cheia de sua glória. E os umbrais das portas se moveram com a voz do que clamava, e casa se encheu de fumo” (Isaías 6:1-4).

Durante os anos em que Uzias reinou, ele conduziu Judá num programa de paz e prosperidade. Mas enquanto a nação prosperava materialmente, estava totalmente corrompida espiritualmente. Notemos que no ano em que Uzias morreu, Isaías viu o Senhor sentado no seu trono. Uzias também esteve exposto à santidade de Deus, mas com consequências catastróficas. Apesar de este rei ter feito o que era correcto aos olhos do Senhor, transgrediu contra o Senhor, seu Deus, porque entrou no templo do Senhor para queimar incenso no altar do incenso. Uzias naquele preciso instante foi atingido com lepra e morreu seguidamente, devido à sua intrusão nas santas coisas de Deus (II Crónicas 26:16-23).

Um único pecado originou morte e baniu tanto Adão como Eva do jardim do Éden. Apenas um pecado impediu a entrada de Moisés na Terra Prometida. Um pecado terminou com as vidas de Ananias e Safira. Notemos que uma correcta compreensão da santidade de Deus conduz a um entendimento correcto do pecado. Quando Isaías estava na presença de Deus e ouviu os serafins clamando uns para os outros: Santo, Santo, Santo é o Senhor dos Exércitos: toda a terra está cheia da Sua glória. E os umbrais das portas se moveram com a voz do que clamava, e casa se encheu de fumo. A reacção de Isaías foi: “Ai de mim, que vou perecendo! porque eu sou um homem de lábios impuros, e habito no meio de um povo de impuros lábios.” Porque Isaías tinha a correcta compreensão da Santidade de Deus, ele viveu, e as suas iniquidades foram retiradas, e o seu pecado perdoado (no Hebreu kaòphar ou expiado—Isa. 6:5-7). 

Pelo facto de o pecado ser uma transgressão à santidade de Deus, o Pai não podia olhar para o Seu Filho pois estava a ser feito pecado por nós, e por esse acto singular somos justificados perante Deus. Absolutamente só, Jesus Cristo carregou o fardo dos nossos pecados. À medida que o desespero crescia, o Salvador afirmava: ” Mas eu sou verme, e não homem, opróbrio dos homens e desprezado do povo”. Normalmente no Hebraico o termo “verme” refere-se no grego à palavra tola. A tola (coccus ilicis) é uma pequena larva, que pode ser encontrada em várias espécies de carvalhos perto do Mediterrâneo. Nos tempos antigos estas larvas eram esmagadas de forma a produzirem uma tinta escarlate. Tal como sabemos, Salomão vestiu a filhas de Israel em escarlate. O que estamos a tentar sugerir com esta analogia às tolas é que o peso dos nossos pecados (igualmente os de Israel) quebrantaram a vida do nosso Senhor Jesus Cristo, o qual derramou o Seu precioso sangue para que agora possamos vestir as vestes da salvação.

O Sofrimento Físico de Cristo

“Muitos touros me cercaram; fortes touros de Bazan me rodearam. Abriram contra mim suas bocas, como um leão que despedaça e que ruge. Como água me derramei, e todos os meus ossos se desconjuntaram; o meu coração é como cera, derreteu-se no meio das minhas entranhas. A minha força se secou como um caco, e a língua se me pega ao paladar; e me puseste no pó da morte. Pois me rodearam cães; o ajuntamento de malfeitores me cercou, traspassaram-me as mãos e os pés. Poderia contar todos os meus ossos; eles vêem e me contemplam.” (Salmos 22:12-17).

É interessante contar o número de referências a animais encontrado no Salmo 22: o touro, leão, cão, unicórnio, etc. Aqueles que foram os responsáveis pela crucificação eram como as bestas dos campos. Eles eram astutos, perversos, e intimidavam as suas presas. Os fortes touros de Bazan, sem qualquer tipo de dúvida referem-se aos lideres de Israel, os quais buscavam ferir o Senhor Jesus com os cornos do ódio (Lucas 23:8-21). Tal como as bestas do campo que perseguem as suas presas antes de as matar, estes lideres ímpios zombaram: “Salvou os outros, e a si mesmo não pode salvar-se. Se é o Rei de Israel, desça agora da cruz, e creremos nele; confiou em Deus; livre-o agora, se o ama; porque disse: Sou Filho de Deus.” (Mateus 27:42-43). Bem aventurados somos, pois o nosso Salvador permaneceu naquela Cruz, pois se tivesse descido de forma a satisfazer a santidade e a justiça de Deus, o mundo iria ser “varrido” para dentro do lago de fogo por toda a eternidade. A determinação de Cristo para completar a obra da nossa redenção nunca vacilou. O que foi dito anteriormente prova que os lideres religiosos eram ignorantes não apenas na predição da Cruz, mas igualmente desconhecedores do verdadeiro significado do Calvário.

A morte por crucificação era a morte das mortes. Os braços das vítimas eram estendidos e os pregos eram pregados nas palmas das mãos. De seguida, prendiam os pulsos de forma a que os pregos não rompessem as mãos da vítima. Depois disto, um pé era colocado sobre o outro em cima de uma cunha de madeira. Daí, “trespassaram-me as mãos e os pés.” Este foi apenas o começo das dores, porque a morte numa Cruz era lenta, dolorosa, que poderia durar dois a três dias. Três pregos enferrujados garantiram a nossa redenção: um pregou a lei à Cruz, outro os pecados do mundo e o terceiro pregou Jesus Cristo à Cruz. (Colossenses. 2:14; II Coríntios 5:14-19; Gálatas 2:20). 

Apesar de nenhum dos ossos do corpo de nosso Senhor ter sido quebrado, cremos que quando a Cruz foi colocada em terra os braços do Senhor Jesus Cristo foram deslocados dos seus ombros, baseados na frase “todos os meus ossos se desconjuntaram”. Estar suspenso pelos braços gerava uma tremenda pressão sobre os pulmões e gradualmente tornava-se mais complicado poder respirar. Para o poder fazer, a vítima era obrigada a impulsionar-se com ajuda dos seus pés para facilitar a inspiração. À medida que os níveis de dióxido de carbono aumentavam no interior do corpo, a vítima começava a padecer de edema pulmonar, e acabaria por morrer de paragem cardíaca ou de asfixia.

É interessante o facto de o nosso Senhor Jesus morrer passadas poucas horas de ter sido pregado na Cruz. Nas Suas próprias palavras: “o meu coração é como cera, derreteu-se no meio das minhas entranhas” (vs. 14). Poderá ser que o nosso Salvador morreu de coração partido devido aos pecados do mundo? À medida que o momento da Sua morte se aproximava, o Filho orava da seguinte forma ao Pai:
“Mas tu, Senhor, não te alongues de mim. Força minha, apressa-Te em socorrer-me.  Livra a minha alma da espada, e a minha predilecta da força do cão (gentios). (Salmos 22:19-20).

O Senhor Jesus Cristo desejou voluntariamente dar a Sua vida pelo pecados do mundo e esta não ser terminada pelos Gentios ao fio da espada. O Pai garantiu graciosamente o pedido de Seu Filho, pois lemos no evangelho de João que o Salvador já tinha rendido o Seu Espirito ao Pai antes de ter sido trespassado pela lança:

“Foram, pois, os soldados, e, na verdade, quebraram as pernas ao primeiro, e ao outro que como ele fora crucificado; Mas, vindo a Jesus, e vendo-o já morto, não lhe quebraram as pernas. Contudo um dos soldados lhe furou o lado com uma lança, e logo saiu sangue e água.” (S. João 19:32-34) 

Lições práticas para cada um de nós

Enquanto a palavra do homem é instável como a água, a Palavra de Deus é sempre precisa e verdadeira, tal como vimos na predição da Cruz aproximadamente 1000 anos antes e no total cumprimento dos acontecimentos. A palavra de Deus é verdadeira. Então quando estamos a ler um passagem semelhante a esta: “Não vos enganeis: as más conversações corrompem os bons costumes. Vigiai justamente e não pequeis; porque alguns ainda não têm o conhecimento de Deus; digo-o para vergonha vossa.” (I Cor. 15:33,34), podemos ter a certeza que é totalmente verdadeira.

O contexto desta passagem é um aviso para não adoptarmos as formas de vida deste mundo. Devido a o mundo ter rejeitado a ressurreição, a sua filosofia de vida é comer, beber, e ser feliz, pois amanhã morrerás. Aqueles que pertencem à família da fé ficam pasmados e horrorizados com este tipo de raciocínio. Mas Deus diz: “não vos enganeis, as más associações neste mundo destroem gradualmente a boa moral”. Por outras palavras, se pouco a pouco nos deixamos associar com este mundo, podemos ter a certeza de que em pouco tempo a sua influência irá criar em nós dúvidas, e começaremos a negar a Palavra de Deus. O pecado e consentimento de comportamentos pecaminosos são ambos desagradáveis a Deus. Os Coríntios são um dos principais exemplos de falha em ter atenção a este tipo de aviso; não sejamos nós também culpados do mesmo acto. (I Coríntios 5:1-13; 6:1-8,13-18; 11:20-22).

O Salmo 22 ensina-nos que há no mundo um conflito entre o bem e o mal existente no mundo. Cristo é a personificação de tudo o que é bom e justo. Os Seus inimigos, por outro lado, estavam cheio de mentira e hipocrisia. Eles O odiavam sem causa. Portanto, não devemos ficar surpreendidos quando o mundo nos odeia sem nenhum motivo, devido a sermos fiéis à verdade do evangelho.

(por Paul M. Sadler)